Declaração Cafeana

9 Comments


O pior da morte não é vivê-la, é cheirá-la. A morte fede. Por isso entendo - hoje mais - o poeta Conde quando pede, para o seu final, a emulação pelo fogo. Só o fogo vence e supera o fedor da morte. Esta tem um cheiro que mistura produtos artificiais para conservar o que não mais existe, para alimentar um desejo mórbido de olhar para carcaças que não signifcam rigorosamente nada; de flores enviadas por amigos, inimigos, hipócritas, familiares, colegas, conhecidos, instituições, ministros; o sal das lágrimas e dos gritos contidos - porque aqui não se grita, para mal dos meus pecados -; a madeira do invólucro final e o cheiro a roupa lavada dos funcionários da funerária, dignos representantes do negócio da morte.

A morte não é natural. A morte cheira mal. O que é natural é o fim da vida. Tudo o resto são formas inventadas pelos que ficam para prolongarem a presença física dos que já foram. Esses, felizmente, já cá não estão para assistir - ou sentir - e o melhor mesmo, assim exijo quando a morte me vier buscar, é a celebração com o fogo. Ah e que dancem, cantem e celebrem os poetas que sempre amei.


P.S. Custa-me, naturalmente. Mas escrever aqui faz-me sentir menos só. Os meus leitores, os que me visitam e escrevem, são como companheiros de café, com quem me encontro para conversar sobre tudo e sobre nada, no fundo, para celebrar a vida. Por isso, continuo por cá e agradeço os que se manifestaram.


Image: pintura “As três idades da mulher” de Gustav Klimt




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9 comentários:

malaguitinha disse...

A propósito disso, ouvi uma entrevista na nossa Cesária Évora no Festival da Baía das Gatas, em que ao responder à questão da Jornalista da TCv sobre o "que lhe falta realizar na vida", respondeu espontaneamente, como já nos habitou, que " mim faltam ê sô morrê". Aquilo deixou-me a pensar no seguinte: a morte deixa-nos falta? Uma pessoa que se sinta completamente realizada nesta vida, começa a ambicionar talvez a curiosidade de uma outra vida, a depois da morte, talvez? Isso pôs-me a reflectir sobre o verdadeiro e relativo sentido que a morte pode ter para uns e para outros. Por exemplo, em relação aos Nossos entes queridos, é sempre uma perda, um golpe, uma vazio que se instala, o silêncio ensurdecedor da perda. Mas a Cize, teve esse dom, ao falar da morte, de vê-la como algo quase sublime, o culminar de um ciclo de glórias. Dá que pensar...

Mas João para te dizer que a tua dor é um pouco Nossa, e que tenhas muita coragem e força para lidar com essa enorme perda.

Abraço amigo

M.J.Marmelo disse...

João: dificilmente poderia concordar mais contigo do que concordo no que diz respeito a este assunto. A morte é só um apagamento, um fim, e a dor é, ou deve ser, uma coisa individual, restrita.
Soube da morte da Isabel e, acredites ou não, fiquei gelado, embora o meu contacto com ela tenha sido pouco. Quinze dias antes, tínhamos estado a jantar no mesmo restaurante e custa imaginar que aqueles com quem nos cruzamos hoje podem já não existir amanhã. Não sei explicar melhor do que isto; fiquei gelado. Enviei-te uma sms, que não diz nada, é só um modo de te abraçar e dar força, espero que tenhas recebido.
Se ainda estiveres pelo Porto e te apetecer conversar sobre futebol, gajas, política ou outra coisa qualquer, estou por aqui, de férias e disponível.
Grande abraço
Jorge

JB disse...

Marmelo, recebi sim, a tua mensagem. Obrigado.

Ivan Santos disse...

mesmo não te conhecendo pessoalmente, frequentar este café fez crescer em mim uma certa afectividade...comentei com uma amiga ontem sobre o acontecido, ela vira-se pra mim e diz "mas estás com uma cara tão triste, até pareces que conhecias"...
a morte fede mesmo...e qdo nós perdemos pessoas queridas(perdi meu pai qdo tinha 15)...parece que aquele fedor volta de novo...!!!
força...!

-ha.z disse...

De todas as formalidades inventadas acredito ser a dos funerais a mais desconfortável de todas. Mexe-se com nosso âmago, com nossas feridas da forma mais fria para "não nos causar" mais dor e é aí que causam ainda mais.
Estou aqui de longe, João, com minhas crenças a vibrar para que sejas envolvido por emanações de paz que virão de todas as parte, pois sei que és muito querido.
um abraço fraterno

thaiz

zito azevedo disse...

Convém, no entanto, jámais perder de vista o caracter inevitavel da nossa partida para lá das trevas dos olhares que não dos pensamentos, para entendermos a maior ou menor grandeza da nossa, afinal, transitória existência.
O vazio da perda é, sempre, maior do que a própria perda, inevitável.
A dor, essa, não tem medida, como o Universo...
Zito Azevedo

SANDRA FONSECA disse...

sinto muito pelo acontecido. é bem complicado demostrar meus sentimentos por esta vía tao util para muitas coisas mas mediucre para esse tipo de acto sumamente humano. sao milhas de distancia, mas quero deixar aqui bem claro que estou por perto ainda que em pensamento.

as palavras sempre faltam nessas horas...

fique bem.

SANDRA FONSECA

Sofia Fonseca disse...

ola joao

pelos posts e comments deu p perceber q perdeste alguem muito especial.. Meus sentimentos
podes ter a certeza q estamos ca sempre p tomar um c@fe contigo..

abraco
sofia

Paulino Dias disse...

Alo, JB...

Por acaso ha dois dias nao entrava no cafe, por isso so agora leio os posts. Man, digo-te antes de tudo que detesto hipocrisias e frasesinhas de ocasiao tipo assim agua-com-açucar. Mas daqui deste lado, aceite um braça grotchode, e um silencio cumplice...

Sabes, nao sei se è um tique ou uma forma de refugio, sempre enfrentei a morte com poesia. Todas as vezes que parte alguem muito proximo, ha um verso que me vem inevitavelmente:

"(...) E a morte
chega sempre indesejavel.

Tambem indesejada foi a tua,
longe deste chao, meu Capitao.
Tambem esta tristeza
e esta renuncia cedida ao inimigo (...)"

in Capitao Ambrosio.


Porque todos nos acabamos por ter irremediavelmente os nossos capitaes...

Um abraço, man!

Paulino