Declaração Cafeana

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Se há algo que a fascinante disciplina de Antropologia das Religiões nos ensina é o facto de o que separa e une as diferentes religiões e credos em termos de doutrinas ou costumes é muito maior do que o que as separa efectivamente, e que as múltiplas guerras, chacinas, atentados e crimes cometidos contra a humanidade em nome desta ou daquela religião pouco tem a ver com os reais ensinamentos que estas possam proferir. Claro que tudo isto é muito relativo e não poucas vezes nos questionamos: se colocarmos os aspectos maus e bons das diversas formas que o homem encontrou para se relacionar com o desconhecido, para qual lado cairá o prato da balança?

Não sei responder a esta pergunta mas a propósito do Ramadão que hoje se inicia para o mundo muçulmano, lembrei-me das vezes que entrei numa grande mesquita, naquela que é uma das cidades mais espantosas do mundo, Istambul. Tirarmos os sapatos à entrada, lavar as mãos e os pés, sentir estes últimos nos confortáveis tapetes do interior, sentir a frescura provocada por um arranjo arquitectónico de rara beleza, ouvir as suaves ladainhas árabes nas colunas estrategicamente colocadas ou observar as magníficas pinturas que cobrem todas as paredes e cúpulas destes sublimes edifícios cheios de luz, fazem de uma visita a uma grande mesquita uma agradável experiência para os sentidos. Compreende-se que um local como aquele seja de facto propício à meditação ou ao contacto com o divino através da oração.

E embora esta percepção possa chocar almas mais sensíveis, esta é precisamente a sensação contrária que sinto ao entrar numa daquelas gigantescas catedrais católicas europeias, onde a ostentação do ouro e pedras preciosas - vindos sabe-se lá de onde - a violência imagética do Cristo crucificado, os olhares dos muitos Santos e Santas que nos vigiam, a escuridão dos seus corredores e, ultimamente, as lâmpadas que se acendem a imitar velas, se colocarmos a moedinha na respectiva caixa, fazem com que esses locais me provoquem mais angústia que paz, mais sufoco que libertação.

Certamente, cada religião tem os templos que a História e os homens foi construindo, mas estes diferentes edifícios, por dentro e por fora, também não deixam de ser uma poderosa metáfora sobre as diferentes formas como o homem se relaciona com Deus, que é sempre o mesmo, independentemente do nome ou do mensageiro que lhe quisermos dar.





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3 comentários:

Tina disse...

Entrei na Páscoa na Mesquita de Hassan II em Casablanca e fiquei admirada com a magnificiência do local. Mas fez-me impressão saber do sacrifício do povo, que achou perfeitamente normal dar a sua contribuição para a edificação do mesmo, fosse com o pouco dinheiro que tinham, fosse com o seu trabalho. O que vale é que são poucas as mesquitas com este luxo.
Em Casablanca não encontrei silêncio mas sim uma enorme máquina montada para ganhar dinheiro dos turistas e isso aborreceu-me. Ainda bem que há horas en que as visitas são proibidas...

Anónimo disse...

Interessante!

zito azevedo disse...

Nas religiões, como na política, é vulgar identificar mais semelhanças do que antagonismos insanáveis entre profissões de fés diversas e partidos de cores diferentes...Isto quando se lêem os Livros Sagrados e os Programas partidários...É tudo um mar de rosas até que os irredutíveis, os ortodoxos, os iluminados, os cultores das diferenças e das divisões, os antagonistas a todo o custo, os amantes do quanto pior, melhor, enfim, a escumalha do costume, tomem conta do discurso universal e descubram que, afinal, o que nos divide é que é bom!
Zito Azevedo