Blog Joint: Crónica Desaforada

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O estado da Nação

1. Foi ontem que devia ter publicado esta crónica, esqueci-me, mas cá vai, com um dia de atraso. Confesso que me foi particularmente difícil falar do estado da Nação, porque muito provavelmente vou repetir uma série de banalidades que toda a gente está já cansada de saber, até porque ninguém faz qualquer esforço por disfarçar uma realidade que é tão natural como a nossa sede em dias de Verão. Uma realidade Luso, embora muito crioula.

2. Todos sabemos que nem tudo é tão cor-de-rosa como a situação jura, nem tão negro como clama a oposição, assim como sabemos que essa análise automática de um e do outro lado mais não é de que o resultado directo e natural do ser-se da situação ou da oposição, um cor de rosa, o outro negro, isto é como uma realidade matemática, um teorema ao qual nada nem ninguém pode dar a volta. É assim e pronto. Mais um sinal da perfeita criação divina onde tudo está no seu devido lugar.

3. Dia houvesse em que alguém da oposição elogiasse o poder, uma medida ou um governante, ou que alguém confortavelmente sentado na cadeira do dito cujo poder saísse a terreiro para reconhecer que, certamente, puseram numa determinada situação a própria pata na poça - a chamada teoria dos três pês (própria/pata/poça) - e deixaríamos imediatamente de reconhecer o mundo que nos rodeia como todos o sabemos e aprendemos nos bancos da escola desde a mais tenra idade.

4. No fundo, todos temos plena consciência de que a natureza é perfeita e tem os seus pesos e contra-pesos e que tudo está calculado ao milímetro para que possa haver vida no planeta Terra, onde nada se cria e tudo se transforma, onde dois mais dois são sempre igual a quatro, onde o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos e onde tudo o que a situação vê rosa a oposição observa negro.

5. Para mim, que sou uma pequena e insignificante molécula entravada no sistema, o estado da Nação não é uma e só coisa. Momentos há em que é gasoso, outros líquido e outros sólido. Depende sempre da temperatura e do ambiente instalado. É a natureza no seu melhor, em transformação!

6. Por exemplo, há quem possa dizer que o estado da política energética ou até da política cultural seja o gasoso: sabemos que existe, mas não a vemos nem a sentimos em parte nenhuma, embora de quando em quando possamos sentir algo, um cheiro a língua cabo-verdiana aqui, um aroma a Cidade Velha, acolá.

7. Ou que o estado da própria economia é líquida, o que quer dizer que toma a forma que lhe quisermos dar, conforme o ponto de vista ou o recipiente onde a colocamos: uma forma agradável à vista, se virmos as coisas do lado das reservas cambiais, da inflação ou da estabilidade macro-financeira; uma forma menos interessante, se colocada na panela do desemprego ou do crise no mercado hoteleiro.

8. Há, finalmente, componentes do estado que poderemos considerar sólidos, como sejam a consolidação do sistema democrático, a liberdade de expressão, a revolução verde, a capacitação profissional, a aposta nas infra-estruturas - não fosse o betão o sólido da modernidade! - ou a implementação do ensino superior.

9. Há, pois, quem veja apenas o mundo no estado sólido, cor-de-rosa, como um urso de peluche que temos à beira da nossa cama, com um ar simpático e pachorrento e nos aumenta a estima e sossega o sono, não há como não encostarmos a cabeça no travesseiro e sorrir confiantes nos amanhãs que cantam e que farão desta uma Nação que a todos orgulha.

10. Outros há que tem inevitáveis monstros a dormir debaixo do leito, invadidos por uma nuvem negra, por definição algo que se encontra no estado gasoso, irremediavelmente condenados a adormecer aterrorizados com os casubodistas e os bandidos de colarinho branco que nos querem tomar o país de assalto sem que nada nem ninguém o possa evitar, um pesadelo do qual é difícil acordar, a não ser em tempos de eleições, se o povo resolver dar a volta à coisa.

11. Outros há, como aquele pessoal da UCID, que nunca se percebe muito bem em que estado estão, tão entretidos andam a fazer congressos e impugnações a Norte e a Sul, e portanto não devem ter muito tempo para pensar nestas coisas dos estados, daí que se lhes perdoem as banalidades que sempre dizem nestas ocasiões, que nunca são nem carne nem peixe, e que portanto soa a coisa mal cozinhada.

12. No fundo, esta crónica, de desaforada, tem muito pouco. Apenas mostra como a natureza funciona, e como tudo é relativo, e como dizendo muito se consegue dizer quase nada. Não é uma técnica muito complicada. Basta estar atento ao que nos rodeia, observar bem quem sabe realmente da poda e num instante estamos a distribuir uma mão cheia de nada.

Mindelo, 04 de Agosto de 2009








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3 comentários:

zito azevedo disse...

Já tive oportunidade de tecer algumas considerações sobre o tema em Teatrakacia...
Zito Azevedo

Odair José disse...

Por que é que quase nenhum blog falou da ida do Onésimo Silveira e do Carlos Viega lá ao tribunal defender aquele corrupto do Isaltino Morais? Este que disse que para quê que ele precisava de "um terreno da Treta no meio do deserto", aqui referia a centenas de metros quadrados de terreno no Calhau, em São Vicente. Enfim, a blogosfera berdiana, quando lhe apetece fala de umas coisas e deixa passar outras…
Odair José

JB disse...

Odair, por acaso esse caso foi comentado na altura em que o senhor Isaltino proferiu essas declarações. Aqui foi referido neste post:

http://cafemargoso.blogspot.com/2009/04/um-cafe-curto-com-o-camarada-isaltino.html

Hoje, o Bianda, do César Schofield refere-se ao resultado desse julgamento. Uma frase desse post, tem repercurssão no blogue Geração 20.j.73

Portanto, o amigo Odair anda distraído!

Aquele abraço