Rifa-se um coração (quase) novo

10 Comments


Clarice Lispector é das escritoras mais fascinantes que conheço. Possuidora de uma densa personalidade, Clarice reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, e continuará a ser, certamente, também um mistério e um deleite para os seus muitos admiradores, entre os quais me incluo. Ela deixou textos, crónicas e muita poesia.

Este é um dos seus textos mais conhecidos e citados. Para quem já conhece, nunca fica mal reler, para quem não conhece, sempre se pode deliciar.

Então é assim:

"Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões. Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.

Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista... Um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional Que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.

Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente E contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: " O Senhor pode conferir", eu fiz tudo certo,

só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer.

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.

Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta."


Clarice Lispector





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10 comentários:

Anónimo disse...

Continuo a pensar que o verdadeiro problema não está no coração (ainda que o rifemos), mas na distância que o separa da cabeça.

Como lapidarmente exemplificou António Aleixo:

"Talvez paz no mundo houvesse
Embora tal não pareça
Se o coração não estivesse
tão distante da cabeça"

Razão versus emoção. Quem resolve o dilema?

Em qualquer caso, na nossa mão cabe sempre um perfeito coração:

"Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

(Alexandre O´Neill)

a) RB

Manu Moreno disse...

SUBLIME Djonsa!!!

Kel abxom di kuraxom!!
ManuMoreno

Sara disse...

Belissimo !

Obrigado pela partilha.

Tina disse...

O texto é bem conhecido mas vale sempre a pena reler. Adoro a poesia da Clarice Lispector, que nos sensibiliza a cada verso.

Subscrevo, como muitos outros certamente, tudo o que ela diz neste texto. Ah, coração, que não me obedeces!

Borrega disse...

Não conhecia...
Adorei!!!!!
E o meu coração pediu para o roubar!!!!
Estará em: http://zooloogico.blogspot.com, onde será retrato do meu coração, do da Pulga e do nosso Zoo...

Muito obrigada plo momento delicioso
BeijO*
Borrega

MM disse...

Bolas! Posso saber quem autorizou que rifassem o meu coração?
Ainda me faz falta.

Catarina Cardoso disse...

Este eterno retorno ao amor e à paixão é tão sabinho.

obrigada

Catarina Cardoso disse...

Este eterno retorno ao amor e à paixão é tão sabinho.

obrigada

zito azevedo disse...

Não, decididamente eu não rifaría o meu coração e aconselharia a Clarice a retirar o seu do leilão!
Zito

Felina disse...

Tudo o que esta mulher escreve me toca...