Carta do pintor ao Ministro

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"Senhor Ministro,

(…) Tomei conhecimento da publicação, no Journal Officiel, de um decreto que me nomeia cavaleiro da Legião de Honra. Esse decreto, que as minhas opiniões bem conhecidas acerca de recompensas artísticas e de títulos nobiliárquicos me deveriam ter poupado, foi emitido sem o meu consentimento e foi o senhor ministro, que achou dever tomar essa iniciativa. Não receie que eu desconheça os sentimentos que o guiaram. Chegado ao Ministério das Belas-Artes após uma administração funesta que pareceu dedicada a matar a arte no nosso país, e que o teria conseguido através da corrupção ou da violência, se não tivesse havido aqui e ali alguns homens corajosos para o impedirem, o senhor fez questão de marcar a sua nomeação com uma medida que contrastasse com o estilo do seu antecessor.

Esses processos honram-no muito, senhor ministro, mas permita-me dizer-lhe que não são susceptíveis de mudarem nem a minha atitude nem as minhas determinações.

As minhas opiniões enquanto cidadão opõem-se a que eu aceite uma distinção que decorre essencialmente da ordem monárquica. Essa condecoração da Legião de Honra que me conferiu à minha revelia, os meus princípios recusam-na.

Em tempo algum, em caso algum, por razão alguma eu poderia aceitá-la. Menos ainda nestes dias, em que as traições se multiplicam por todo o lado e a consciência humana entristece com tantas palinódias [retratações] interesseiras. A honra não é um título nem uma faixa, está nos actos e naquilo que os move. O respeito por si mesmo e pelas ideias próprias é o essencial dela. Sinto-me honrado porque permaneço fiel aos princípios de toda a minha vida; se os abandonasse, abandonaria a honra pelo seu símbolo.

O meu sentimento de artista opõe-se, igualmente, a que eu aceite uma recompensa que me é concedida pela mão do Estado. O Estado é incompetente em matéria de arte. Quando se resolve a recompensar, está a usurpar o gosto público. A sua intervenção é em todo desmoralizante, funesta para o artista de cujo valor se serve, funesta para a arte que confina nas conveniências oficiais e que condena à mais estéril mediocridade. Seria mais sensato que o Estado se abstivesse. No dia em que nos deixar livres, terá cumprido o seu dever para connosco.

Saiba pois, senhor ministro, que declino a honra que julgou prestar-me. Tenho cinquenta anos e sempre vivi livre. Deixe-me terminar a minha existência sendo livre: quando eu morrer, deverão dizer de mim: esse nunca pertenceu a nenhuma escola, a nenhuma igreja, a nenhuma instituição, a nenhuma academia, sobretudo a nenhum regime que não seja o regime da liberdade.(…)"

Gustave Courbet, publicado no jornal Le Siècle em 23 de Junho de 1870, recusando desta forma a Legião de Honra com que Napoleão III o quis agraciar.

Imagem: Pintura de Coubert, "The Spleeprs"





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2 comentários:

Anónimo disse...

Hmmmm, um texto actual e se bo que tava cita fontes, um tava pensa que era um noticia sobre Cabo Verde. Veiga te fca te pensa 2 vez antes de atribui qualquer cosa pe quem for, depos quel da um check ness li.

- Makna de Kafe

K em homenagem ao dinossauro!

JB disse...

Um senhor, este Coubert.