Declaração Cafeana

11 Comments




Este foi um caso estranho, mas grave. Estranho também que tenha sido tão pouco comentado na blogosfera, geralmente alerta para estes desmandos. Ao que parece, dez senegaleses e um aventureiro cineasta britânico, que quer dar a volta ao mundo da forma menos ortodoxa possível, foram caçados pelas autoridades a entrar ilegalmente em Cabo Verde, enfiados de imediato na esquadra de Eugénio Lima sem mais explicações, durante seis longos dias. Assim, sem piar. Aqui não se brinca. Afinal de contas queremos ou não queremos uma aproximação estratégica com a Europa? Agora que a guinada política à direita do rico continente comprovada nas eleições europeias do passado fim-de-semana é tão inquestionável quanto arrasadora, nada como ir experimentando algumas das metodologias anti-osmose tão ao gosto de certas ideologias defendidas por tipos como o senhor Berlusconi ou o senhor Sarkozi. 

Sinceramente não dá para entender que um país de emigrantes trate assim quem cá chega, mesmo (ou principalmente) quando se trata de pessoas sem os papeis em ordem. Além de que estamos a falar de senegaleses, cidadãos de um país vizinho, membro da CEDEAO e com quem, ao que parece, Cabo Verde tem um acordo de livre circulação. Claro que também ficou claro que se o destrambelhado do britânico que chegou com os restantes dez africanos não tivesse esperneado tanto, o caso seria mais ou menos abafado e poucos dariam pela situação, o que também é um péssimo sinal. 

Mas este é um caso para reflectir. E reflectir a sério. Cabo Verde não pode, por todas as razões e mais alguma (históricas, sociais, legais, geográficas, económicas e, claro, culturais) tratar a imigração ilegal desta forma absurda, além de que neste caso parece que foram violados os mais elementares direitos humanos e a própria Convenção de Genebra, quando se isolam indivíduos que não cometeram nenhum crime em território nacional, não mataram, não roubaram, não violaram e ficaram retidos durante vários dias sem sequer poder telefonar para nenhum familiar que nem sabiam se os seus estariam vivos ou mortos.  

Num momento em que o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros se congratula com a decisão do Conselho Europeu de iniciar negociações para facilitar vistos aos cabo-verdianos (ler aqui), é chegado o momento de pensar se vamos agir para ser um exemplo no diálogo Norte - Sul ou se simplesmente vamos contribuir para a construção do muro que se quer construir para proteger a Europa dos "indigentes" africanos, voltando definitivamente as costas a uma das maiores heranças culturais e históricas do arquipélago. 




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11 comentários:

Djom disse...

Agora és especialista em relações internacionais...sinceramente,pensa com mais vagar e com menos tendência!Assim verás que por essa Europa fora,esse tipo de procedimento é normalíssimo (vide o que a Espanha faz com os marroquinos);o que querias que se fizesse: que se instalasse essas pessoas no Hotel Praia-Mar?ou que as deixasse a circular livremente pela Praia sem condições para se sustentarem até se averiguar a sua situação?Sinceramente,o acordo de livre circulação que se tem com,por ex.,o Senegal não dá direito a entrar no país ilegalmente:esse acordo apenas dá direito a entrar no país sem um visto mas a entrada tem de ser pelas vias legais.

Redy Wilson Lima disse...

E porque não um exemplo no diálogo Sul/Norte e já agora Sul/Sul também... que o mundo é redondo.

Sofia Fonseca disse...

joao,

achei certissimo este teu post
temos que pensar/re-pensar os nossos acordos actuais e futuros
com o acordo de facilitacao dos vistos p a uniao europeia ai eh q vamos ter chuva de imigrantes de africa p cabo verde e estamos preparados p isto?
qto aos 11 individuos q aqui chegaram, n sei bem como eh q as coisas funcionam mas pelos vistos entraram ilegalmente, simplesmente deram a praia e isso parece q eh ilegal!

abraco,
sofia

João Branco disse...

Djon, não sou especialista, tenho é olhos de ver, ao contrário do que parece acontecer contigo. Que esse procedimento é "normalissimo" por essa Europa fora já se sabe, mas o que mais há são organizações de defesas dos direitos humanos, precisamente a denunciar esses tipos de abusos e situações. Tu achas normal que fiquem enclausurados durante 6 dias sem direito a um telefonema, a uma defesa oficiosa, a nenhum tipo de contacto com nada nem com ninguém? É assim que queres que passem a tratar os milhares de concidadão teus, que estão ilegais noutros países?

Atenção, e isto também vai para a Sofia, eu não disse que eles entraram legalmente no país. Entraram ilegalmente, isso é um facto. Mas isso não dá o direito às autoridades para este tipo de tratamento.

Redy, que isso seja a única coisa que consigas ou queiras dizer sobre este assunto, não deixa de ser sintomático... :)

Amílcar Tavares disse...

JB há um pormenor que te escapou neste post. Naquelas "instalações" onde estavam presas, também são "acolhidos" cabo-verdianos. Isto é, temos umas coisas a que se chama de prisões onde são despejadas pessoas.

É todo o judiciário cabo-verdiano que esta enfermo: um Supremo preguiçoso, Tribunais lentos, agentes da policia rudes e Carandirus espalhados por todo o lado.

zizi noro disse...

Tudo isso porque havia um branquinho à bordo!!! Se não eram considerados cladestinos como os que têm entrado no país e ninguem ligava! É TRISTE essa nossa mentalidade!! Justiça é justiça doa a quem doer!!


parabés pelos cafés
zizi noro

adelinavvicente disse...

Oi João,

Por um lado julgo que todo o ser humano tem direito a um tratamento digno e justo sobretudo se está numa situação de desespero e desvantagem, por outro lado creio que o país deve tomar medidas para conter e desencorajar a emigração ilegal, até por uma questão prática, não temos nem espaço nem trabalho e nem condições para receber todos os que querem sair do continente. Apoio a actuação da policia quando prendem pessoas que chegam nessas condições às nossas águas, contudo em vez de prender em celas de prisões, deve-se pensar em construir um centro de acolhimento para essas pessoas até completar o processo de extradição. Tambem sempre que acontece um caso desses as únicas autoridades a serem criticadas e responsabilizadas são as autoridades cabo verdianas. Ainda não vi nenhum artigo que condenasse os politicos e as politicas dos países de origem desses cidadãos, que são afinal as causas subjacentes que os levam a tudo arriscar para tentar a sorte noutras paragens. Veja-se o caso dos 10 senegaleses que acompanharam o britânico, a Embaixada do Senegal recusou providenciar alojamento para eles e teve de ser a Policia Nacional a aloja-los num hotel.A Embaixada não quer nem tomar conhecimento dessa situação.
Quanto ao cidadão britânico vai ao site dele www.grahamdavidhughes.com e vê as barbaridades que ele fala da Africa e como ele se vangloria de ter passado nas fronteiras de Gambia e Senegal comprando os guardas com 20 e 60 dollars. Repara como ele chama a Mauritânia de Mauri-fucking-tânia e trata os senegaleses que encontra por suínos. Ainda bem que a nossa policia fez o que devia, prendendo- o. Pena que o juiz não o tenha deixado lá ficar por pelo menos 1 mês para ele aprender a respeitar os outros.

João Branco disse...

Zizi, no que a mim próprio diz respeito, isto não tem nada a ver com o facto dele ser branco, amarelo ou azul. É uma questão de direitos humanos, ponto final parágrafo.

Aliás, o relato da Adelina, que agradeço, é ilucidativo. A Embaixada do Senegal "cagou" nos seus próprios cidadãos e esfregou as mãos como Pilatos, o inglês é uma besta quadrada, mas isso via-se logo pelo teor das entrevistas.

Mas não percamos o foco no que é mais importante. Cabo Verde tem que humanizar a forma como dá o tratamento a estes casos. E o facto de ser um país de emigrantes aumenta a sua responsabilidade nesta matéria sim senhor!

Abraço

Anónimo disse...

Pois, Direitos Humanos é quando você quer. Para os outros - em relação aos quais só falta pedir a pena de morte e confisco de bens - que denomina de traficantes, comerciantes de cocaína, advogados e o resto (políticos?) não Direitos Humanos. É prender e PJ. Tenha senso ...

João Branco disse...

Que confusão que vai nessa cabecinha! Estás pior do que eu, a sério! Se são traficantes, não tem que ser investigados, julgados e no caso de condenados pelo juiz, presos? O que é que o c... tem a ver com as calças? Haja senso...

Ariane Morais-Abreu disse...

Ola JB, uma problematica que muito me arrepia e escandaliza: nao lembrar quem somos e para onde vamos!! De qual legalidade estamos falando? Qual é a logica sem logica dos governos europeus no que diz respeito a imigraçao? Que brincadeira de mau gosto é esta "parceria especial" para os povos? Sera que a credulidade e a maldade dos Cv nao têm limite? A contagem dos "ilegais" em cada familia cv deveria ponderar as criticas feitas aos outros que procuram o que cada ser vivo procura neste planeta, sejam eles aves, peixes, homens (e mesmo virus). O que decidem os politcos raramente beneficia nesta conjontura turva as populaçoes do norte, menos ainda as do sul!! Pois os Sarkozy e a mafia comitiva sao merdas empacotadas que pensam fazer da UE um imperio de fantasia, exploraçao, injustiça e discriminaçao. Sendo eu cabo-verdiana, francesa e europeia nao deixarei de denunciar esta mafia e o malvindo tratado de Lisboa.

Boas ferias