Declaração Cafeana

15 Comments


De quando em quando, até pela ligação forte que Cabo Verde tem em relação a Portugal somos sujeitos a espectáculos deprimentes via comunicação social. Quem não se lembra da tristemente célebre votação do português mais importante da história, ou lá o que era, que acabou por transformar Salazar, um ditador responsável por mais de 40 anos de paralisia social, perseguição, torturas e estagnação cultural, numa espécie de artista pop do século XXI, que até já teve direito a uma biografia em formato de série de televisão altamente produzida, onde se mostra o quem, o como, o quando e o de que forma (leia-se, em que posições) foram papadas as mulheres que passaram pela vida do homem mais popular da história lusa (pelo menos a julgar na votação, altamente participativa).

Agora é a vez das 7 Maravilhas Portuguesas no Mundo. Assim mesmo, portuguesas e no mundo. Em primeiro lugar revela laivos de provincianismo que os novos tempos nem justificam nem deviam tolerar e por isso quando recebi de amigos cabo-verdianos mensagens excitadas do tipo "vamos lá votar por Cabo Verde", fazendo referência ao facto da Cidade Velha fazer parte desta lista magnânima, não me entusiasmei nem um pouco. Em segundo lugar, é resultado também de abordagens, se não erradas do ponto de vista histórico, pelo menos pouco sensatas. Um assunto que já foi levantado na blogosfera cabo-verdiana pela Margarida e pelo Amílcar, onde se anuncia o aparecimento de uma petição contra este concurso, ainda com fraquíssima participação. 

A base de sustentação desta petição, multinacional está relacionada com a falta de informação relativa a cada local, onde a beleza arquitectónica é realçada em detrimento de outros aspectos históricos, alguns dos quais ligados a aspectos terríveis da história da Humanidade, principalmente o tráfico de escravos:  "Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses “monumentos” no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso actual." Podem assinar a petição aqui, como forma de protesto. Até porque seria muito mais interessante, por exemplo, esse pessoal que anda a perder tempo e a gastar dinheiro nesses "concursos" um bocado vazios e saudosistas, contribuir para que alguns desses locais se transformem em Património da Humanidade, promovendo estudos, campanhas, lobbies e ajudando dessa forma a uma maior consciência histórica. Seja como for, tal como o primeiro caso aqui referido, este concurso é ridículo e antes demais uma pura perda de tempo de quem parece querer continuar a viver a suspirar por tempos que já lá vão.
 
Imagem: fotografia de Mito




You may also like

15 comentários:

mito disse...

Esta é mais uma das fotos da minha autoria q muito circula na net, sem qualquer menção de autoria. Mea culpa de quem começou a usar a net, quando ainda estava no seu estado BB. 1 ab. Mito

Foi tirada em Julho de 97. Com uma canon AE 1 de 1978, uma lente de 35/50 mm da vivitar, filme diapositivo - kodad ektachrome 200 iso, revelado e inserido em cd kodak photo.

Tina disse...

Quem fala assim não é cego!
Quando se ouve falar constantemente nas glórias dos Descobrimentos (coitadinhos dos Africanos, dos "Americanos" e dos Asiáticos, que estariam perdidos se os europeus não os tivessem descoberto...), esses concursos até irritam. Não participo neles, com uma razão adicional: fazem bom negócio à custa dos incautos, que pagam pelas mensagens e pelos bilhetes para assistir à cerimónia. Azar deles, que se fossem uma pimbinha dita VIP, até a roupinha glamorosa lhes pagariam para ir assistir.
Principalmente no caso dos portugueses, que têm o desplante de nos dizer para irmos para a nossa terra dar o nosso contributo já que estamos a criticar, nemque seja positivamente, quando têm 4,5 milhões de emigrantes espalhados no mundo, para uma população residente que não chega a 11 milhões! Não conseguiram aprender a lição de Sócrates em Filosofia sobre o conceito de CIDADÃO DO MUNDO!

João Branco disse...

Mito obrigado pela informação. Já coloquei o devido crédito. Abraço.

Tina, bom comentário. Volta sempre.

Manu Moreno disse...

Parabens ao Mito pela foto!
Tudo Homi k akredita na sé trabadju...um dia é ta ser rekumpensadu...Força!!

Também já recebi mtas msg pra votar...acreditas que o meu pensar sempre esteve na proa do meu orgulho...nunca chequei a desvia a minha kanoa para encostar na ponte de votação e nem vou...k desculpem os meus colegas Portugueses!!!

Por isso dexam manda um palavriado:

Cidadi velha
odja nós cidadi bedja

Di magia singular
Di traçus partikular
Di kutelu dislumbrador
Di odju la diriba na splendor

Cidadi Histórika
Di paisagem Hurbana
Cheio di enkantos
Pá kén ki kré konxi n´kantos

Gradiozidadi di kultura
Na impunência di kazas bedju
Ki ta n´kanta ku sé májia
Di splenderoza sipultura

Kenha ki ka tem orgulho ki korri faxi bai panha la diriba na kutelu!!!

Manti kel abçom di kuraçom!!!
ManuMoreno

Tiago Leão disse...

Lembro-me perfeitamente de como esse concurso cretino me tirou do sério, me revolteou as entranhas, quer dizer, não foi propriamente o concurso, só por si bastante inócuo, foi mais a votação, foi mais ter de levar (é verdade que podia ter desligado a televisão...) com já não sei quem a defender António de Oliveira Salazar, foi mais aperceber-me de que um número razoável de pessoas se deu ao trabalho de telefonar e gastar tempo e dinheiro para gritarem ao país a sua admiração e saudade pela personagem mais desprezível da história portuguesa, mas enfim, tem de haver gente para tudo, e também, depois dei-me conta de que o tal número era afinal bastante ínfimo. Contudo, acho que me perturbou ainda mais a série que referes, João, porque aí já não foram aquelas pessoas desfasadas do tempo actual a insurgirem-se contra o mundo que não compreendem, doentiamente saudosas do Ditador, mas sim gente com uma clara vontade de branquear a pequenez do homem da dupla moral, oferecendo-nos a imagem de um homem de paixões humanas, o retrato humanizado do Déspota de Santa Comba Dão... por favor, haja vergonha!
Quanto às 7 Maravilhas Portuguesas no Mundo, não passa de mais um fait divers, e daí devíamos dar-lhe apenas a importância que tem, ou seja, quase nenhuma. E talvez por isso também, não percebo a petição contra este concurso. Entre a Cidade Velha fazer parte ou não destas 7 Maravilhas, mesmo sem a tal contextualização histórica, não será melhor que faça parte? Haverá com certeza mais pessoas a ouvirem falar da Cidade Velha e a poderem vir a interessar-se pela sua história, ou não? Pela mesma lógica não poderíamos aceitar nenhuma das 7 Maravilhas do Mundo: não me parece que as Pirâmides de Gizé ou os Jardins Suspensos da Babilónia não envolvam sangue e sofrimento humanos.
Não posso de todo olhar com benevolência para o tráfico de escravos ou outros horrores da história do mundo, não dos portugueses, mas parece-me que julgar a História segundo os olhos de hoje é um exercício um tanto ou quanto irreflectido. É a emoção a falar, e eu percebo, também em mim se manifesta do mesmo modo, mas então teríamos de reformular o panteão de todos os nossos heróis passados, que compactuavam de consciência tranquila com fenómenos aceitáveis nas épocas em que viveram – tráfico de escravos, racismo, subalternização das mulheres, pedofilia, trabalho infantil, etc. – e que hoje, para nós, são sem quaisquer dúvidas barbaridades colossais. Fazer uma petição contra esta iniciativa porque a Cidade Velha tem as suas raízes numa época de tráfico de escravos parece-me um bocado sem razão. Como dizes, que se faça uma petição contra o estado de abandono em que se encontram estes monumentos e lugares históricos. Para que não nos esqueçamos.

João Branco disse...

Bom comentário, Tiago. Resta saber a quem entregar a paternidade de tais maravilhas...

Tina disse...

Obrigada pelo simpático acolhimento, João Branco. É um incentivo para voltar, quando a nossa eterna desculpa é a falta de tempo.

Gostei do comentário do jovem Tiago, que salientou a inconcebível defesa do ditador por gente que não conseguiu libertar-se da lavagem ao cérebro feita durante a ditadura, cujos efeitos perversos se fazem sentir até aos nossos dias, começando pela iliteracia, uma das causas destas tomadas de posição. Concordo com ele que a petição é descabida, uma vez que vivemos em democracia e, mesmo que seja por razões comerciais, os organizadores têm o direito de realizar o concurso das 7 Maravilhas. Por isso mesmo não assinei... Só não concordo com o Tiago quando diz que "julgar a História segundo os olhos de hoje é um exercício um tanto ou quanto irreflectido", pois acho que temos o dever de analisar continuamente o que se passa no mundo, seja nos dias de hoje, seja no antanho, se quisermos contribuir para que os erros não se repitam, o que, infelizmente, acontece com os factos mais revoltantes da História. O branqueamento da personalidade desviante de Salazar é um exemplo mínimo, quando o do extermínio dos judeus é feito no seio da própria igreja católica. É nosso dever de cidadãos do mundo defender as nossas ideias com emoção, tal e qual como o Tiago fez em cima em relação à série sobre a vida de Salazar. Com paixão mesmo, para que a ênfase clame por melhor justiça. É apontando o dedo aos erros que procuramos evitar a sua repetição, criticando (positiva ou negativamente) gregos e troianos porque todo o ser humano é falível.
O sentimento imediato que nos assaltou quando começaram a divulgar o concurso é que é tendencioso, soando a um afagar do ego português. Mas concordo com o Tiago que é melhor falar do que ignorar, pois os interessados irão aprofundar o conhecimento sobre esses monumentos de grande importância histórica, e cá estaremos nós para apontar o dedo às falhas monumentais na sua concepção. Porque, como diz o "Café Solidário", nunca seremos "coniventes com o silêncio", seja por que causa for!

A paternidade das Maravilhas deste mundo? Como bem lembrou o Tiago acima, os escravos foram os desgraçados a satisfazer os desejos dos que estavam no poder, realizando as obras monumentais com o seu suor e sangue, mas são os que tiveram as ideias e o poder económico nas suas mãos a terem o seu nome escrito na História. É o que continua a acontecer nos nossos dias, não é? Basta ver a simples construção de uma casa ou de uma estrada ao nosso lado... O Homem sempre foi e sempre será o carrasco do seu semelhante. Mas há muita gente boa neste mundo, pelo que a esperança é a última a morrer!

Anónimo disse...

A petição é uma idiotice de supostos afroamericanos. Põe-te a pau ó João, dás crédito a estas tretas e ainda acabas como este moçambicano (http://abcnews.go.com/US/Story?id=7567291&page=1).

o mundo visto daqui disse...

A propósito da paternidade, recordei B. Brecht:

"...
Nos livros vem o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
(...)
Tantas histórias
quantas perguntas."

Anónimo disse...

Se queremos ser históricamente rigorosos sobre o comercio de escravos, também deveríamos ir às origens. Quem é que fornecia esses escravos que os portugueses compravam e levavam para o outro lado do Atlântico e para a Europa?

argumentonio disse...

só pela abordagem do post e comentários, o concurso já valeu a pena!

quando se aprecia e discute a valia arquitectónica e a persistência de vestígios da passagem de portugueses pelo mundo, abrem-se portas a reflexão e aos caminhos fascinantes de aprender e ensinar

;->>>

João Branco disse...

Tina, excelente comentário! Obrigado.

Anónimo, estou tranquilo... Afinal, sou um bolicau!

O Mundo... Brecht era grande e maior que o seu tempo.

Anónimo, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou não?

Argumentonio, gostei! :::)))

Anónimo disse...

argumentonio, excelente comentário, nem mais!

zito azevedo disse...

Piramides de Gizé-Muralhas da China
Machu-Picchu - Colosso de Rodes -
Petra - Piramides Aztecas - Farol de Alexandria - Taj Mahal - Jardins
Suspensos de Babilónia - Canal do
Panamá - Templo de Artémis e, por aí fora, para além do espaço e do
tempo...
Zito Azevedo

zito azevedo disse...

E, sùbitamente, caíu um silêncio
lúgrube sobre o assunto...
Zito Azevedo