A Morte do Cinema

17 Comments




Recebi esta carta que, naturalmente, merece ser publicada e comentada.

"Caro João Branco:

Durante o Congresso dos Quadros Caboverdianos que teve lugar em São Vicente em 1998 no Éden-Park, fiz uma pequena intervenção sobre a importância do Éden-Park na formação e na consciencialização do homem caboverdiano. Depois tive um encontro com o Professor Francisco Lopes da Silva e a Dona Maria Luiza Marques da Silva em que se fez um inventario sobre o cinema e a sua gestão em Cabo Verde. Ela lutava sozinha, apoiada por antigos empregados e amigos, para a sobrevivência daquilo que foi a obra cultural e social mais importante da família Marques da Silva em São Vicente. Queixava-se da falta de apoios, tanto do Municipio como do Ministério da Cultura. Convidou-me a assistir a um grande filme, mas a sala estava meia vazia e sem o ambiente de outrora. Logo à entrada faltava aquele ambiente festivo, a distribuição do programa dos filmes seguintes, a simpatia do Lulu, do Djosa e do Tony Marques, com sorrisos e abraços, as discussões sobre os filmes anunciados entre amigos, as criticas , etc. Nunca esquecerei o filme Cochise onde pela primeira vez o indio tinha razão no cinema americano.

Nos anos cinquenta/sessenta, o cinema fazia parte da vida quotidiana do Mindelo: discutia-se na rua de Lisboa e na Praça Estrela como na Praça Nova (onde se punham os cartazes) quem era o maior actor, o melhor filme, a actriz mais bela, qual era o melhor cinema, o do Tuta (Park Mira-Mar) ou o Éden-Park. Havia boa publicidade (distribuição de folhetos), tanto o Rádio Club como a Rádio Barlavento fazia anúncios e programas de cinema, etc. Era através do cinema que se furava a censura colonial e se aprendia a dignidade e a sonhar com as liberdades.

Com a Independência esperava-se uma política cultural do cinema: quando muito ter-se-ia realizado ao menos dois filmes sobre a luta de libertaçao na Guiné-Bissau. Tivemos, ao contrario que afirmava Amilcar Cabral de que “a luta de libertação é um acto cultural”, ministros políticos a dirigir a cultura, nomeados por filiação política e não por provas dadas na vida cultural de Cabo Verde. E as consequências foram graves tanto em Cabo Verde como na emigração que bem merece também uma política cultural. Creio que o Arménio Vieira, conhecido cinéfilo na sua juventude, chegou a ter uma página de cinema no Vozdipovo, que infelizmente não durou muito tempo. Foi a única iniciativa de criar escola e fazer pensar o cinema na nossa sociedade do pós-independência.

A responsabilidade do encerramento do cinema não se situa ao nível da nossa população. Foram os politicos que mataram o cinema em Cabo Verde. A ausência duma verdadeira politica cultural teve na péssima e horrível televisão que possuímos o encargo de executar com folhetins brasileiros o cinema em Cabo Verde. Nem a crise económica afastaria o caboverdiano do seu cinema. Como pode uma televisão do Estado, paga pelos contribuintes, passar o tempo a transmitir folhetins brasileiros e portugueses e todos os jogos de futebol, embrutecendo as pessoas e em especial as crianças, que não conhecem o próprio país e a sua história?

Um país de desenvolvimento médio deve ter também uma política cultural que corresponda à sua economia. Perdemos cinco anos a bater na tecla do crioulo que, aliás, mais nos dividiu quando precisamos de unidade. Para se manter os cinemas Éden-Park e Park Miramar seria necessário uma política cultural de cinema, integrando-a no currículo escolar, dos liceus às universidades e transformando as rádios e a televisão num utensílio cultural de formação do homem e da mulher caboverdianos.

A crise do cinema esconde a verdadeira crise cultural que Cabo Verde atravessa. No dia em que tivermos um projecto cultural coerente para Cabo Verde e sua diáspora, estamos convencidos de que haverá muitas salas de cinema em Cabo Verde. O exemplo não vem da Europa, mas sim de um pequeno país chamado Burkina Faso, economicamente sub-desenvolvido mas muito mais desenvolvido do que Cabo Verde no plano cultural, que hoje possui uma boa equipa de cineastas e um festival de cinema muito concorrido. Este pais seria o modelo para o nosso país e os nossos municipios em matéria de cinema.

O povo mindelense está de luto do seu cinema morto pela falta de cuidados de quem devia ter-lhe dado o tratamento devido: o Ministério da Cultura.

Luiz Silva - Paris 2/2/2010"



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17 comentários:

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=t8tXzXnumKc&feature=related

Gostaria muito de ouvir (ou ler) um comentário seu à respeito...

ESL

Pss disse...

Va lá, vá lá. Que usaste uma carta de terceiros para vir dizer que afinal os Mindelenses não são culpados !

JB disse...

Estás a ver? nem tudo está perdido.

ManuMoreno disse...

...duradouro[APLAUSO] ao Sr. Luiz Silva.

ManuMoreno
Kel Abxom Di Kuraxom!!!

Adriano disse...

Sim, Luiz, tenho-te apoiado sempre que vens a terreiro e abordas e opinas sobre este tema. Mais uma vez o faço, no pleno da minha convicção e da minha solidariedade . Convenço-me de que tanto bradamos que alguém há-de ouvir um dia. Diz-se que voz de burro não chega ao céu, mas suponho que não somos burros nem quem nos possa ouvir tem as virtudes celestes. Mas acredito que a sensatez mora ainda na nossa terra.
O cinema ficou-nos na massa do sangue. Tudo o que aqui evocas está carregado de verdade. Estava eu na admissão ao liceu, recebendo aulas particulares ministradas pelo nosso saudoso Alfredo Brito no rés-de-chão do Sindicato dos Marítimos, sempre que chegava o intervalo íamos logo contemplar os cartazes de cinema que estavam expostos frente à Praça Estrela. Ficávamos inebriados e a conversa ganhava empolgamento perante as fotografias das cenas dos filmes de western e de capa espada, que era o que mais preenchia o nosso imaginário de menino. Depois, pela vida fora o cinema tornou-se quase um culto, com outras exigências de opção, e com todas as virtudes que tu aqui enumeras.
A nossa terra é pobre, mas citas o exemplo de Burkina-Faso para encorajar os responsáveis a maiores cometimentos em prol da cultura. Sim, a nossa terra é, incontornavelmente, escassa de recursos e o Orçamento do Estado tem certamente prioridades gritantes, em que as necessidades do estômago são contempladas primeiro que as do espírito. E mesmo assim muitas carências básicas ficam ou vão ficando irremediavelmente descobertas. Mas a verdade é que uma adequada política cultural em Cabo Verde pode ser, e certamente é, o impulsionador de tudo o resto. Neste campo, se o Estado não pode acudir a tudo, tem de se chamar a sociedade civil à colaboração, criando-se parcerias em determinadas áreas fulcrais.
Privilegiar a cultura num país pobre como o nosso é uma bandeira heráldica que não deixará de atrair a atenção do exterior, de onde poderão chegar apoios. Se Cabo Verde é já um exemplo africano constantemente citado nos areópagos internacionais, mais proeminência ganhará a imagem do nosso país se o mundo perceber que a cultura é um substrato importante do nosso ideário de povo independente. Por que raio haveremos de ficar atrás de Burkina-Faso?

Adriano disse...

Este é só para, em aditamento ao comentário enviado por "Adriano", dizer que se trata de Adriano Miranda Lima. Isto porque Adrianos há muito.

valdemar disse...

Todo o artigo ou qualquer comentàrio relativo a este assunto serà sempre acolhido com carinho pelos deuma forma ou de outra conhecem o quanto fez essa empreza.
Portanto subscrevo, nomeadamente, o que diz o Luiz e o comentàrio do Adriano Miranda Lima.

José Lopes disse...

Caro Luís, concordo contigo que a preservação do património do Mindelo é um problema de vontade política e algo que vem arrastando desde a independência. O Éden-Park é mesmo um património material e imaterial. O papel cultural e educativo que teve até aos anos 70 ficou mais do que evidente pelas pessoas assinantes da petição, e suas reacções, mas que infelizmente poderá morrer para sempre se não houver as vontades faltarem. Terá que haver uma política cultural global e moderna para S. Vicente, fortemente financiada pelo estado, privados e cooperação internacional, que inclua as diferentes manifestações culturais ocorrendo nesta cidade e outras novas que poderão incrementar as actividades culturais nesta ilha. Não se pode deixar morrer o nosso património e substituí-lo por modernices duvidosas. Ideias novas precisam-se para Mindelo. Infelizmente para o Estado o que conta agora culturalmente é a Cidade Velha

Ariane Morais-Abreu disse...

O sr Luiz Silva nao deve esquecer quando faz referência ao Burkina Faso que o Festival de cinema de Ouagadougou foi criaçao da cooperaçao francesa e que o financicamento é sustentado pelas ajudas da cooperaçao (francesa em grande parte), à proprement parler des Fonds Sud, que permitem tanto a eclosao de um cinema local como a formataçao (e natural classificaçao) deste. Nao é assim tao schematico e tentar qualquer comparaçao seria condenar Cabo Verde a mais um falso modelo que esta demostrando ha muitos anos os seus limites em termo de projecçao internacional para os realizadores africanos, porque cinema é também e sobretudo mercado, nao somente uma necessidade cultural. Os modelos importados nao valem, so vale a ousadia (individual ou colectiva, privada ou publica)de uma criaçao propria e exigente perante si mesma... evidência que vale tanto quanto para CV como Portugal ou França e mesmo Merka!! Pensar cinema em Cabo Verde, nao se restringe a luta pela sobrevivência das salas, começa talvez na transformaçao das (télé) ficçoes especulativas de hoje em realidades futuras visiveis. Que fez um Pedro Costa a nao ser ousar com quase nada mas com vulcao na cabeça!!

Anónimo disse...

Enquento há milhares de pessoas sem casa, muitos doentes que não são evacuados para a Praia ou para o exterior, muitos alunos que se alimentam mal, muitos desempregados, o Estado nâo pode dar atenção devida à cultura.~

O dr Luís Silva tem a«berta em Cabo Verde conta de emigrante? Já investiu alguma cois em Cabo Verde para minorar o desemprego.

Os grandes homens da cultura de Cabo Verde sentindo-se doente vão imediatamente a Portugal,já que muitos têm, e bem, dupla nacionalidade. E o Zé do povo?

Ariane Morais-Abreu disse...

Sim, anonimo, je suis entièrement d'accord avec toi... a cultura de nenhuma forma pode ser prioritaria sobre as barrigas!! Cabo Verde ainda esta longe de poder autosustentar o justo desabrochamento desta. Pois, nao impede esta crua contastaçao aos individuos de agir, nem ao governo de pensar as possiveis alternativas e se nao pensa ele que pensa a SOCA como por exemplo recuperar os direitos de autor que andam em desperdiço e que acumulados, representariam fundos e recursos para nao negligenciar...

Adriano Lima disse...

O comentário de Ariane Morais-Abreu configura uma crítica positiva ao artigo de opinião do Luiz Silva, na medida em que no geral entronca com a ideia propugnada pelo autor sem se dispensar, no entanto, de clarificar alguns aspectos que entende de maior susceptibilidade.
Falar de política cultural obriga a entrar sempre na polemização. Uma política cultural implica um acervo de problemas tão amplo como complexo e diversificado que cada país tem de situar e enquadrar na sua própria realidade, seja conjuntural ou estrutural. Não se pode definir objectivos de política cultural sem antes analisar as questões de ordem prática e metodológica que os mesmos suscitem, e isso independentemente da cobertura orçamental possível, que no nosso caso já sabemos ser escassa. Isto quer dizer que não se pode encher um caderno de retórica de boas intenções para depois se assistir ao seu flop ou total inviabilidade, por excesso de idealização, já que tudo tem de identificar-se naturalmente com o tecido social do país em causa, procurando-se pegar em vocações e potencialidades exploráveis e fazer fermentar tudo o que for compatível com a história e as tradições. E o cinema creio que está na massa do nosso sangue, principalmente em S. Vicente. Por isso é que eu diria que a sétima arte, e necessariamente o teatro, são duas vertentes que têm de ter lugar na política cultural de Cabo Verde, quer pelo incentivo à sua fruição quer pelo estímulo à sua criação. Burkina-Faso, citado pelo Luiz, não será obviamente um modelo a importar, e nisto concordo com a Ariane, mas parece-me claro que a sugestão do Luiz não é outra senão chamar à atenção para o exemplo oferecido por esse país e para outros que não deixam os seus créditos por mãos alheias.

Adriano Miranda Lima

José Lopes disse...

Em nenhuma parte do mundo, mas sobretudo em C. Verde, se pode contrapôr a cultura à barriga, pois pode-se chegar ao extremo de matar aquela com um pretexto humanitário, e a história abunda de exemplos desta natureza. O homem não só vive de pão mas também de espírito. É preciso colocar as coisas nos seus devidos lugares e não dar argumentos aos bandalhos.

Ariane Morais-Abreu disse...

Sim José, nao se deve argumentar com pretextos porque os maiores criadores nao sao os mais fartos!! O espirito é claro essencial porque supera a fome... No fundo sofre Cabo Verde da "mediocritizaçao" da cultura no global mundial, e o cinema, um objecto de luxo popular, paga o dividendo de mais de 30 anos de telenovelas prontas a consumir e emburrecer... A facilidade do consumo televisivo também mata o cinema em CV. A exploraçao de uma sala custa muito e quem vai apostar no enchimento as 20h quando todos estao petrificados frente ao ecran para nao perder um segundo da preciosa dose quotidiana de ilusao e evasao. Ha que mover muitos habitos!!

Anónimo disse...

A questão da subalternalização da cultura em C. Verde foi uma questão planificada politicamente e que hoje se paga caro, com a derradeira tentativa de liquidação do património cultural material do Mindelo. Preferiu-se a subcultura do homem novo, investir na cultura de 4ª/5ª espécie, com a importação massiva de telenovela brasileiras para 'emburrar' uma população inteira, em vez do investimento no desenvolvimento do potencial já existente.
Neste momento tem que se recuperar o tempo perdido, efectuar um investimento massivo na cultura e no património, em paralelo com o investimento turístico de qualidade. Pode-se obter retornos interessantes, não somente do ponto de vista económico. O exmplo está em França. É só estudar e aplicar.
José Lopes

Ariane Morais-Abreu disse...

Talvez merecem os Cv os politicos que têm?!
Diria eu: estudar o que se faz de melhor algures, inventar/criar a opçao cv e aplicar com medida e pragmatismo. Os varios exemplos franceses podem de facto servir para a reflexao de base mas nunca como modelos, ja foram cometidos demasiados erros de reproduçao e duplicaçao. Sera a furia dos investimentos exteriores no turismo um successo a gavar?!! Redondamente, NAO!

Adriano Lima disse...

Ainda há poucos dias, recebi, por mail, um texto, a citar o exemplo da progressiva sociedade suíça, que dizia que a qualidade dos políticos não é mais que consequência da natureza da sociedade de onde provêm. Nada mais acertado. Não poucas vezes, tenho opinado em torno desta tese, defendendo-a e contrariando a maré da vox publica portuguesa (e cabo-verdiana, por mimetismo cultural) que procura na crucifixão dos seus políticos o lenitivo para as dores nacionais.
Nesse contexto, pergunta a Ariane-Abreu Morais se Cabo Verde merece os políticos que tem, e mais uma vez salta à evidência a confusão conceptual em que se incorre por culpa de não se querer analisar a realidade com a devida lucidez e profundidade. Como poderia Cabo Verde desejar uma plêiade de políticos sacrossantos se os que tem são filhos do seu próprio ventre, nados e criados na terra, sob a inevitável influência genética e do meio em que vivem? Esta mesma pergunta se aplica aos portugueses, com a mesma pertinência.
No caso de Cabo Verde, eu até diria, conhecendo o povo a que pertenço, que tem obviamente qualidades mas também inúmeros defeitos, que os nossos políticos se regem por uma bitola que não envergonham de forma alguma o seu povo e o seu país.
Se toda esta questão deriva das interrogações aqui levantadas acerca da política cultural, é bom que se não esqueça que o sucesso nessa área não pode depender em exclusivo do vector político, pois que deve envolver a sociedade como um todo nas mais variadas iniciativas e comparticipações.
Quanto ao investimento no turismo, é certo que ele não poderá ser a panaceia para todos os problemas do país, tão só um sector estratégico que tem de ser pensado e levado à prática com cautela e sentido de realismo, para evitar os logros e os enganos em que incorreram alguns países que nele apostaram de forma desmedida e incontrolada, em muitos casos mais sob a pressão de interesses particulares oportunistas do que pela visão esclarecida do interesse nacional.
É acertada a observação de José Lopes, no sentido em que a urgência dos problemas sociais não pode relegar a cultura para o olvido ou para um gueto. A política cultural pode catalisar impulsos para a economia, se for bem pensada e enquadrada.

Adriano Miranda Lima