Declaração Cafeana

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Hoje, dia 21 de Fevereiro, como habitualmente tem acontecido no Café Margoso, assinala-se o Dia Internacional da Língua Materna, aproveitando a data para lançar mais algumas achas para esta fogueira, onde qualquer opinião se transforma facilmente em gasolina, tal é a forma apaixonada - e tantas vezes inconsequente - com que se debatem as questões relacionadas com o crioulo.

Aqui, hoje e mais uma vez, declaro o meu reiterado amor pela língua cabo-verdiana, impregnada no mais íntimo do meu ser, quase 18 passados da minha vivência diária e quotidiana com um país que adoptei e escolhi para viver e trabalhar e que no futuro, certamente será o chão e mar por onde as minhas cinzas serão espalhadas. Dizer que as experiências teatrais que mais me marcaram estão indubitavelmente ligadas ao conceito de crioulização - relacionado com a arte cénica - e que considero as adaptações teatrais que fizemos na língua cabo-verdiana de peças como Casa de Bernarda Alba ou Sapateira Prodigiosa, de Garcia Lorca; de Romeu e Julieta ou Rei Lear, de Shakespeare; Médico à Força, de Molière; e À Espera de Godot, de Beckett, dos momentos mais felizes e inspiradores do meu percurso enquanto homem do teatro.

A minha língua materna é o português, como é natural. Mas foi em crioulo de Soncent que chorei a morte de quem me transmitiu as primeiras palavras, no funeral da minha mãe. É em crioulo de Soncent que comunico e me relaciono diariamente com as minhas duas filhas, é em crioulo de Soncent que sonho, que discuto, que lamento, que amo. A aprendizagem, primeiro, a imersão, depois e a impregnação que se seguiu da língua cabo-verdiana na minha vida transformou-me num homem mais rico, mais musical e mais feliz. Sou, também por isso - mas não só - um defensor incondicional da oficialização da língua cabo-verdiana, embora continue a dizer que a forma como o processo foi conduzido transformou o debate num ruído de fundo, onde todos gritam e ninguém se escuta.

Resta dizer que, não sendo linguista, não quero entrar no rol do acho isto ou acho aquilo sobre como se deve fazer para se dar maior dignidade institucional à língua materna do povo das ilhas. E sublinho o institucional, porque não há cabo-verdiano nenhum que não ame incondicionalmente a sua língua, seja qual for a sua posição relativamente a esta matéria. Não há heróis nem vilões nesta história. E penso que a dignidade passa sobretudo pela questão do ensino e de se criar as condições para que as crianças possam aprender a ler e a escrever na mesma língua primeira com que aprenderam a falar.

Dito isto, quero aqui reiterar que se tivesse que levar para um local deserto um, e apenas um, poema no bolso, escolheria, sem pestanejar este poema de Eugénio Tavares, que diz assim: Amor é carga? É carga grande, má el câ pesado! É culpa fundo, má el câ pecado!... Deus que fazel, el câ condenal! É Deus, nós Pai, el é que tempral… É Deus, é Deus que fazê Amor, El ca fazel pa bota cachor… Amor é culpa? Má el ca pecado, el cã perdição, Pamode é escada de salbação… Ami, de meu, já erguem nha bida… Ami, de meu, já limpam nha Céu… Se el é nha culpa, el ca nha pecado, Se el dam cudado, el lumiam nha bida…





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6 comentários:

Et disse...

JB,
Bunitu testu!!!
Di akordu, "(...)Não há Povo-Nação nenhum que não ama incondicionalmente a sua Língua Materna (...)" Es ke nos Lingua di Silensiu.
Lindu Puema!!! Un Obrigadu...

Bernardino disse...

Caro JB
Visito muito regularmente o seu "espaço" embora não o comente na mesma proporção. Quis comentar este post porque traz duas atitudes que muito nos tem faltado como pessoas. A humildade e a sabedoria da escuta (saber escutar!).

Numa era em que o "achismo" quer imperar, a humildade é um hino á vida. Gostei particularmente do "Não há heróis nem vilões nesta história".

Isto do crioulo merece serenidade, que não abundam em anos pré - eleitorais, "mesmo em CV".

PS:
Não desisti!

ManuMoreno disse...

Aquele[APLAUSO] kontinuo Parceiro.

ManuMoreno
Kel Abxom Di Kuraxom!!!

Nox Lilin disse...

Ver uma criança a aprender a escrever a primeira língua que falou, a língua com que se comunica no dia-a-dia, seria algo encantador.
O problema é que o crioulo que se tornará oficial (no caso de se oficializar o crioulo) será o crioulo falado por metade da população de Cabo Verde, ou seja, o de Santiago.
Agora em vez de termos aulas só de português nas escolas, também teríamos aulas dum outro crioulo que não falamos (por mais parecido que seja) e ainda continuaríamos a comunicar entre nós em outro idioma.
A menos que se resolva oficializar 9 crioulos (ou pelo menos mais que um), não estou a ver a ver o crioulo oficializado.
E mesmo que se decide-se oficializar mais do que um crioulo, três ou mais línguas oficiais não são demais para um pais tão pequeno!

zito azevedo disse...

Este xadres tem sido discutido com mais paixão do que razão por um motivo que é mais do que óbvio: o de não existir um, mas sim vários crioulos e pouca gente estar disposta a deixar de falar o seu crioulo para passar a falar o do vizinho...Como é que tudo isto se articula até se coinseguir um crioulo "nacional"? A meu ver, só na escola e, essa, é uma tarefa ciclópica que se confronta com uma interrogação não menos atemorizante: quem vai formar os professores do "crioulo nacional"?
É claro que o povo é sábio e o país tem cabeças capazes de resolver este embróglio mas, que não vai ser fácil, isso qualquer um de nós é capaz de adivinhar...

Et disse...

Nox lilin i JB,

N furta Nhos es ideia-pensamentu. Es sta kumentadu na http://kauverdianu.blogspot.com/2010_02_01_archive.html

Divulgasãu di ideias sobri nos LKv!!! Et.