Declaração Cafeana

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A revista International Living coloca Cabo Verde na 142.ª posição na tabela anual de melhores países para se viver, que classifica 194 nações a partir de um conjunto de indicadores que vão do custo de vida até ao clima, passando pela cultura e entretenimento, economia, ambiente, liberdade, saúde, infra-estruturas e segurança. Quer dizer, se virmos as coisas de baixo para cima, estamos na posição 52 mas do ranking dos países onde se vive pior. Em 194 degraus, a situação não é nada famosa. Bem pelo contrário, é muito preocupante.

Mas mais preocupado fico sabendo que cada item é classificado de 0 a 100 e que Cabo Verde conseguiu 60 pontos em custo de vida, 29 em cultura e entretenimento, 44 em economia, 36 em ambiente, 100 em liberdade, 49 em saúde, 32 em infra-estruturas, 64 em segurança, 36 em clima, obtendo um resultado final de 50. Não sei se estão a ver bem estas pontuações. Qual foi o item em que Cabo Verde obteve uma pior classificação, qual foi? Em cultura e entretenimento! Com miseráveis 29 pontos em 100 possíveis. Num país que tem a cultura como seu diamante, factor primordial de identidade, paradigma do desenvolvimento. Não pode ser! E logo saber isto em plena época de Carnaval, até parece mal, nestes dias em que anda todo o mundo em festa e onde entretenimento é algo que abunda como petróleo na Arábia. Então porque será que não estou espantado com isto?

Agora, nada de confundir as coisas. É claro que o facto do artista plástico Domingos Luiza ter vencido o concurso público para a elaboração do Monumento à Liberdade não tem rigorosamente nada a ver com o lastimável estado de coisas a que chegou a aplicação de políticas culturais no arquipélago (ver notícia, aqui). As pessoas que conhecem o trabalho do artista em causa, e eu conheço muito mal, sabem perfeitamente que se há alguém em Cabo Verde capaz de fazer um monumento "de estrutura imponente, com uma dimensão e um porte de destaque, com blocos, colunas, baixos e alto relevos, escadarias, torres, esculturas e estátuas, em bases de dimensões que possam servir para cerimónias públicas" e que seja "de fácil descodificação e compreensão" (termos de referência que constam no regulamento do concurso) essa pessoa é o artista vencedor. Ganhou, pois, um concurso feito à medida do seu talento, com todo o mérito e vamos ter, certamente, o Monumento à Liberdade que este Ministério da Cultura tanto fez por merecer.

Ilustração: David LaChapelle




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13 comentários:

Mic Dax (francês) disse...

Preocupante paqué?

Ess ranking é feite pa irlandês bedje: es crê sabê ondé es ta tra reforma. Dzêm manê q'um irlandês podê sabê qualquer cosa da cultura caboverdiana?

França é primer naqel ranking, "França pais mais sabe no mund". Prova q'ess ranking é bom brincader'.

JB disse...

Oh! Felizmente ke tem sempre uns mente iluminod pa mostra nos ke tud koza ta um maravilha e ke irlandês é inkapacitod pa faze un estud dess tip (talvez só na sê país, kem sabe...)

Dzem: mod ke ke Irlandes KA PODE sabe algum koza da cultura caboverdiana? Bo totxa realmente ke situação ta sabe, sabe pa cagá?

Un ta pensa de forma (mut) diferente.

Anónimo disse...

Manera ess cosa Mic francês? Bô també bô ta lá sabe pa cagá néra! Fca cool...

Nha Plona

Nox Lilin disse...

36 na clima...Sol todo ano, as temperaturas não ultrapasam os 34 ºc, não há gente a morrer de frio como na França, não há furacões como nos EUA ou dias de chuvas seguidas como na Inglaterra... Onde é que foram desencantar os 64 pontos que nos tiraram. O clima é quase perfeito - tropical.
Entretenimento, já entendo, nesta matéria CV está mesmo mal.Mas, desde quando é que se classifica cultura? Daqui a nada voltamos ao passado e passamos a dar 100 pontos para os franceses e 0 para os nigerianos, por exemplo.
E em matéria de segurança - segundo esta revista estamos piores do que o Brasil. Sim, claro! nós temos uma média superior a 12 homícidios por segundo.
Mas este ranking foi feito por quem? Marcianos?

JB disse...

Nox, a classificação do clima deve ser, provavelmente, por causa da seca, não? Vai perguntar aos agricultores cabo-verdianos de Santo Antão, Santiago ou Fogo se eles gostam assim tanto deste clima de Sol todo o ano, porque assim sempre podem ir à praia em qualquer altura... Quanto ao crime, bem, se fizermos a estatística PER CAPITA, se calhar as coisas não serão como dizes. Questão de perspectiva.

Mas se quiseres saber como e quem fez é só ir, via google, ao site da organização e procurar entender.

Como se classifica cultura? Olha, clica na etiqueta "política cultural" e poderás ter uma ideia de como estamos em termos culturais (melhor, do respeito, ou falta dele, por quem ainda tenta fazer alguma coisa nesta área).

Mas é como dizia o outro, tudo é relativo, não é?

JB disse...

Cá está, via Amilcar Tavares, para quem estiver interessado em saber como estes "marcianos" fizeram estes cálculos:

Aqui

http://www.internationalliving.com/Internal-Components/Further-Resources/QofL-Calulations

Mic Dax (francês) disse...

("ironia ta mata arte", A A-M, 2009)

JB, né mextid d'ser mente mute iluminod pa tem duvd na capacitad d'alguns psoas :

- bô t'otcha q'ess irlandês ba fazê pesquisa *funde* naqês 194 pais?

- bô t'otcha q'es tem condiçons pa fazê traboi a serio? (é "Time Magazine", "Life", "Forbes" ou "International Living revistzinha d'nada ver"?)

- bô q'tem um papel bastante visivel na cultura d'Cabverde, bô oia irlandês investiga li sim (fora d'projet imobiliaria, m'crê dzê), es bêm incontra ma bô pa fazê entrevista, ma bô ou ma qualquer artista amig d'bossa?

Bô sima mi nô sabê q'es fazê qel evaluaçon a partir d'sês pesquisa na Internet, sê cu bem sentod na cadeira dublinese, pamod es ca ba gasta dnher pa viaja na 193 pais (194 menos Irlanda) so pa um revista d'reformod irlandês. No tem direite d'pensa q'sês métode é um czim leva, qualquer estudante d'sociologia ta confirma-l...

Es ba na Internet pa fazê pesquisa, es incontra Café Margoso q'ta assassina politica cultural, es usa ess bô opinião pa da qel nota final, e bô t'oia qel-la sima confirmaçon pa bô blog (e talves bô tem razon, m'ta fala so da forma, né do fundo), é storia d'conversa entre 2 espeios...

Entre iluminaçon e ingenuidade, fazê bô scolha, camarade, hin hin.

JB disse...

Ai, ai, ke comentário dess calibre un gaj ka tem nem necessidade de ser basofo! Un tem maltas ke tita ser basofo pa mim! Enton, es faze ess classificação a partir de nha análise na Café Margoso?!

Moss, un gaj ta prope famoze... Txam ba espiá ses ta dam algum job pra lá nas ses projectos de cu sentod!

Abrase

Nox Lilin disse...

Quase que me esquecia da seca! Devem ser os dia que fiquei sem sair na rua porque não havia estrada ou passeio para andar e as terras agrícultores que foram levadas pelas chuvas, que me fizeram esquecê-la. Atenção: isto não é culpa das chuvas, mas sim de más estruturas que não foram feitas para receber chuva.
E a cultura de um país não se resume ao cinema. Há também a música com o surgimento das nossas Mayras Andrades entre outros, a literatura caboverdiana, a arte (mais conhecida como artesanato por aqui), a nossa culinária única, etc. E nós podemos não ter o festival de cinama de Burkina-Faso, mas temos o Festival de Baía das Gatas e o Mindelact.
A nossa cultura é o maximo (é claro que pode ficar melhor). Aposto que nenhum dos criadores deste ranking alguma vez leu "Chiquinho" ou ouviu "Sodad". sendo assim, não podem classificar a cultura caboverdiana.

JB disse...

Nox, ironias à parte, esta é uma discussão interessante e que é importante fazer. Há sempre os dois lados da moeda. Eu penso, sempre o disse, que há muito, muito, muito por fazer. Que continuamos a viver de louros do passado e que em termos de políticas públicas para a cultura estamos no paleolítco. Se fizesse uma pequena investigação e soubesse que o Auditório Nacional, o mais importante do país, estava privatizado, ou que a única sala de espectáculos do Mindelo serve para cultos se seitas religiosas, também não dava grande classificação...

E repara que sou parte interessada e também responsável. Falaste do mindelact e agradeço a referência. Fazemos o que se pode. Gostariamos de fazer muito mais. Mas está muito dificil. Muito. Só quem tenta e luta, todos os dias, no terreno, para que as coisas aconteçam é que tem noção do que custa e do esforço que exige.

Mic Dax disse...

Adês.

(imagina: m'tita mêxé broce pa atrai atençon) Yoohoo JB yoohooooo, foi so um exemplo, bô tê?.. Ma OK, prosma vês m'ta avisa primer.

JB disse...

Mic, ess koza na bo já é más é efeit de carnaval...

zito azevedo disse...

Penso que a cultura, como bem de consumo, está sujeita às leis do mercado: só é possivel consumir o que se produz e é neste binómio que se funda a questão de "medir" o dsenvolvimento cultural: a qualidade e quantidade do que é produzido versus o volume de consumidores habituais...
Noutra perspectiva, comvém não esquecer que as grandes revistas costumam ter correspondentes no terreno.