Crónica Desaforada

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Uma sentida declaração de amor


1. Esta é uma crónica mais intimista que o habitual e até um pouco lamechas, portanto ficam os leitores desde já avisados, não se dê o caso de alguém vir dizer que foi apanhado desprevenido. Não vou desta vez utilizar este espaço, geralmente crítico, irónico e até um pouco cáustico e amargo, para lançar polémicas, difundir reprimendas ou propor soluções com a dose de presunção que por vezes tanto me custa a disfarçar.

2. E não o faço, sublinhe-se, como corolário, causa ou consequência de mais um dia de S. Valentim, até porque nunca fui de comemorar uma data que foi inventada apenas para nos tornar ainda mais consumistas, como se o amor precisasse desses expedientes para se fazer sentir, antes pelo contrário, é claro como a água límpida das nascentes do vale do Paúl que quem precisa de comprar ursinhos com corações vermelhos ou cartões brilhantes com mensagens possidónias e juras de plástico, num dia específico marcado no calendário para o efeito, artificialmente concebido para nos meter a mão ao bolso, está em muitos maus lençóis e do amor entenderá muito pouco.

3. No entanto, e para voltar ao que aqui me traz hoje, devo confessar que há momentos na vida que nos marcam para sempre, para o bem ou para o mal, todos nós temos acontecimentos dos quais nem tempo nem vontades nos conseguem deles apartar, até aqui nada de novo.

4. Gostaria, pois, de partilhar convosco um desses episódios: foi quando regressei a Cabo Verde pela primeira vez depois de adquirida a nacionalidade cabo-verdiana e cheguei na fronteira da ilha do Sal com o meu documento azul na mão, ainda estávamos vivendo os últimos anos do século passado. Bem que o pessoal me avisava que eu estava na fila errada, mas eu não queria saber: obstinado, altivo e até um pouco de nariz empinado, ali estava eu na ala dos “nacionais”, mostrando aos mais insistentes que me encontrava naquele local de pleno direito e que não estava a tentar vender gato por lebre, que é como quem diz, crioulo por tuga, por muito que a minha pele e o meu apelido indiciassem o contrário.

5. Foi um momento pessoal glorioso e este facto apenas serve para enfatizar o meu profundo amor por este país que me deu quase tudo e me fez o homem que sou, com os seus defeitos e virtudes, mas que carrega a sua cabo-verdianidade no coração, não porque esta lhe tenha sido transmitida por raízes geracionais, mas antes por anos de uma vivência empenhada, com se de um prolongado e delicioso banho de emersão se tratasse.

6. Sou como uma planta transladada, que fincou pé neste chão e por isso me emociono até às lágrimas com os castanhos desta paisagem lunar, com a imponência do vulcão do Fogo, a imensidão das areias da Boavista, a energia contagiante da grande Santiago, as montanhas imponentes de Santo Antão, com a voz da Césaria interpretando uma composição de Manuel d’Novas ou B’Leza, com os acordes do Vasco Martins, com os poemas crioulos de Eugénio Tavares ou simplesmente ouvindo a minha filha Inês a dizer-me ao ouvido, nha pai, un ta gostá txeu de bo.

7. Talvez por isso considere a morna Doce Guerra, de Antero Simas, o maior hino deste meu país, acompanhado da interpretação de Ildo Lobo de Porton di nôs ilha, como cântico nuclear da nação crioula. Fiz questão ainda que as minhas duas filhas nascessem na cidade do Mindelo, urbe que tão generosamente me transformou num dos seus sem nada exigir em troca, e nunca tive qualquer dúvida sobre a sua, delas, identidade, sem desmerecer, como é lógico, o lado lusitano, manifestado de forma ruidosa quando cantamos lá em casa e em uníssono a música Filhos do Dragão, depois de mais uma vitória do FC Porto.

8. E mesmo tendo em conta este último aspecto, sinal óbvio de boa educação, são elas, antes de tudo, as minhas meninas crioulas, princesas do reino de Micadinaia, como diria o poeta João Vário se as pudesse ter conhecido, na sua infinita sabedoria.

9. Ao que parece, e do ponto de vista legal, é aos 18 anos que se adquire a chamada maioridade, e se assim é, a minha presença vivencial neste arquipélago único e mágico está em vias de se tornar maioral. Certo é que nesta vida de andarilho, já se pode dizer que foi em Cabo Verde que passei o maior período da minha existência e assim será, por muitos e bons anos, queiram os Deuses e as circunstâncias da vida.

10. O jornalista moçambicano Nelson Saúte chamou-me uma vez o “cabo-verdiano de sinal contrário”, porque era o que queria ficar, apesar de poder partir. Germano Almeida, por sua vez, indicava o meu caso como um feliz acontecimento de crioulização quase que forçada pelas circunstâncias, tendo em conta que foram estas as circunstâncias, que me fizeram aterrar na ilha do Porto Grande com uma velha mala de cartão que depois viria a ser utilizada como adereço em várias peças de teatro, e só com bilhete de vinda, para o caso de me acovardar e querer dar o feito pelo desfeito.

11. Não foi preciso: depois de ter aprendido a minha primeira palavra em crioulo, sampê, revelada por uma Marva Martins ainda menininha logo no primeiro dia do resto da minha vida, várias outras revelações se foram abrindo aos meus sentidos, como portas escancaradas para um futuro risonho: a aprendizagem da língua cabo-verdiana, o embalar da dança nas discotecas primeiras, de onde sobressaía a saudosa e inesquecível Je T’aime das febres de Sábado à noite e, claro, o choque térmico, emocional e arrebatador dos primeiros amores crioulos, numa cidade que tem mais mulheres bonitas por metro quadrado que as mundialmente famosas Florença, Paris ou Rio de Janeiro (e falo com conhecimento de causa).

12. Que querem que vos diga mais, agora que estou a não sei quantos mil metros de altitude, no Boeing B’Leza, a não ser que caminho a grande velocidade rumo a uma palavra também muito minha, que deu mote à música mais conhecida da nação crioula e que dá pelo nome de Sodade.

Crónica publicada no jornal A Nação de 25 de Fevereiro de 2010




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5 comentários:

JonDays disse...

Muito bonito esse pedaço de prosa. Acredita que chorei...
abraço
JT

marge disse...

Depois destes dias a espera de um post,acabo de ler isto, as 3 da manha em Lisboa ao som de musica crioula com os meus amigos bebendo um bom vinho Português.Maldade...Nem vou descrever o que sinto.Aqui também apesar de tudo sinto em casa apesar de tudo.

zito azevedo disse...

Se me é permitido condensar, não somos nós que escolhemos o nosso lugar: é o lugar que nos adopta!

Lily disse...

Tão bonito...

edmar disse...

Já li este post vezes sem conta.E há uma frase que não me sai da cabeça:"A minha terra é onde eu estou".Para uma pessoa que se sinta um cidadão do mundo,em qq parte do mundo estará sempre em casa.
Um abraço Kaboverdeanamente