Declaração Cafeana

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Hoje, Sábado, vou entregar os certificados aos alunos que conseguiram chegar ao final de mais um Curso de Iniciação Teatral. O décimo terceiro curso deste género promovido aqui no Mindelo, sob a tutela do Centro Cultural Português - Instituto Camões.

Não vale a pena estar sempre a bater na mesma tecla e referir, de novo, o quanto estes cursos, aparentemente informais, alteraram a face do teatro que se faz nesta ilha e, porque não dizê-lo, no país. Bem podem aqueles que não conhecem este árduo trabalho por dentro, minimizar ou assobiar para o lado, como se nada estivesse acontecendo; ou bem podem outros, apesar de terem vivenciado esta experiência, assobiar para um outro lado, como se não tivesse sido esta uma aventura teatral nuclear, básica porque foi a que substanciou o parto teatral. É certo, no entanto, que a grande maioria das centenas de pessoas que já passaram por estes cursos (e muitas continuam fazendo e/ou vendo teatro) não escondem o orgulho que foi, que é, participar neste movimento artístico, na consolidação desta escola de artes cénicas do Mindelo.

Todos os anos, por esta altura, me pergunto: o que vou dizer a estas pessoas? Como vai ser o nosso relacionamento no futuro? Ninguém saberá dizer, o futuro a Deus pertence, afirma a sabedoria popular. Costumo falar de improviso nestas ocasiões, mas esta é uma reflexão recorrente. O que dizer quando se vê cortado o cordão umbilical?

Fundamentalmente, vou dar dois conselhos: em primeiro lugar, que não tenham pressa. O teatro é a arte da tranquilidade, do tempo aproveitado e vivido, da valorização do instante. Que não tenham pressa na montagem das suas peças, que as preparem bem. Que trabalhem muito. Que não tenham pressa, porque esta é a maior inimiga do aperfeiçoamento individual e colectivo. Que não tenham pressa em querer ser melhores que os outros, nem pressa em criticar tudo o que não esteja ao seu gosto pessoal. Em segundo lugar, que sejam generosos. Com os outros e consigo mesmos. Não se faz teatro sem partilha, sem colectivo, sem paixão. Que entrem numa sala de ensaio prontos para dar e receber, assim como numa plateia, quando confrontados com o trabalho do outro, quem sabe algum colega de curso, agora numa outra companhia. Que sejam generosos na crítica e no elogio, no silêncio e no aplauso, na verdade e no crescimento. Finalmente, e juntando os dois conselhos, que sejam generosos com o tempo, o seu e o dos outros. Vivendo bem, trabalhando melhor e construindo, com todos, o edifício teatral que acabou de os receber.


Imagem: da companhia Antro Exposto, do meu amigo Ruy Filho, de S. Paulo




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4 comentários:

zito azevedo disse...

Nada sei sobre o Curso de Iniciação Teatral mas gosto - sempre gostei - de teatro e, por isso, só posso aplaudir o teor dos conselhos que serão dados aos formandos e aos quais eu me permitiría acrescentar o da honestidade intelectual. E que vivam o teatro como o ar que respiram!
Zito Azevedo

JB disse...

É também um bom conselho, meu caro Zito! Abraço e bom fim de semana.

Deina disse...

E para quando um cursos desses aqui na Praia? Faz muita falta.
Se calhar não era a ti que deveria dirigir esta pergunta mas deixo aqui o apelo.
Já se fez uma vez mas depois a iniciativa não teve continuidade e foi uma pena.
Todos os anos por esta altura fico um bocadinho "doente". É que saí de São Vicente na altura em que estava decidida em fazer o curso de iniciação teatral do CCM e desde essa altura que não consegui estar em São vicente por altura do Mindelact. Mas este ano vou lá estar...e vou aproveitar para matar um bocadinho de toda a saudade que tenho do teatro mindelense.
Quanto aos alunos deste curso que saibam aproveitar e fazer bom usos dos teus ensinamentos e conselhos. Às minhas amigas, Paty e Mara, e aos colegas delas, que este seja o 1º de passos muito frutíferos.

JB disse...

Obrigado pelas simpáticas palavras, Deina. Apenas uma rectificação, os cursos são da responsabilidade do CCP (centro cultural português) e não CCM (centro cultural do Mindelo). Este último foi parceiro nesta 13ª edição.