Declaração Cafeana

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Dois dias antes do tempo, eis o Café Margoso em toda a sua pujança. Como adoro as segundas-feiras, nada como o início de uma semana para marcar o regresso ao convívio com a clientela, que espero não tenha sido espantada com este período sabático, que me fez muitíssimo bem, diga-se de passagem. Com uma decoração mais leve e mais cafeana, acredito que a sua apreciação pelos clientes será apenas uma questão de hábito, como muitas outras coisas da vida.

De resto, estes dias serviram para constatar a quantidade incrível de factos e acontecimentos que podem acontecer em menos de um mês. De pequenos episódios locais sem importância a terramotos mediáticos provocados por ocorrências extraordinárias, houve de tudo um pouco, e se é verdade que tudo ficou aparentemente na mesma, fiquei muito mais consciente de que o mundo avança à velocidade da luz e que este universo que me rodeia já não é o mesmo que existia um mês atrás. O hábito de escrever sobre o que nos rodeia, uma vez interrompido, acaba por nos mostrar como tudo é tão intenso e, ao mesmo tempo, efémero e relativo.

Não me posso lembrar de tudo, mas o mundo mudou nestes 25 dias. Michael Jackson morreu de forma inesperada; um terrível acidente aéreo em pleno Atlântico aumentou ainda mais a fobia de parte considerável da população mundial em andar de avião, como se não nos bastasse uma estranha pandemia mundial ligada primeiro aos porcos e depois a um nome parecido com um vírus informático, que veio para ficar e alterar hábitos à escala planetária; a Cidade Velha foi proclamada Património da Humanidade, dando uma retumbante e tardia vitória  à equipa do Ministério da Cultura; a dança mundial fica mais pobre com o desaparecimento físico da maior coreógrafa do século XX, Pina Baush; o Bianda entretém-se a cozinhar-me em lume brando e a peça de teatro No Inferno é apresentada com muitos aplausos, elogios e grande surpresa na cidade do Rio de Janeiro; a Revisão Constitucional parece ter caído em saco roto porque os deputados da Nação não se entendem o que faz da oficialização do crioulo a primeira vítima desta incapacidade irresponsável; anunciam-se mortes de poetas vivos e fundem-se clubes de poetas mortos; a selecção de futebol de Cabo Verde brilha nos jogos da Lusofonia, na mesma altura em que um Ronaldo, o gordo, farta-se de marcar golos no Brasil e um outro Ronaldo, o narcísico, é apresentado perante 80 mil pessoas.

De tudo isto, o mais importante mesmo, do ponto de vista estritamente pessoal, foi ter descoberto a poesia de Manoel de Barros, um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos e me terem oferecido o maravilhoso e inesquecível CD de Marisa Monte que, coincidência!, se intitula "Universo ao meu redor". É bom estar de volta.



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9 comentários:

zito azevedo disse...

Seja bem-vindo nesta sua nova roupagem sobre a qual aproveito o ensejo para expressar o meu agrado muito embora tenha ficado alguma saudade do Salvador, que emprestava ao blog o seu quê de irreverência que desejamos não se perca.
Já agora e como o meu bloguezinho
"arrozcatum" também mudou, gostaria de ter algumas opiniões de colegas mais experientes. Agradeço umas visitinhas.
Zito Azevedo

MRVADAZ disse...

Caro João Branco,

Estou parcialmente de acordo contigo ao declarar que: "Cidade Velha foi proclamada Património da Humanidade, dando uma retumbante e tardia vitória à equipa do Ministério da Cultura". Este retumbante vitória não é à equipa do MC mas sim aos caboverdeanos pelo que todos podemos destacar o merecido mérito e os esforços deles. Dizer também que "a Revisão Constitucional parece ter caído em saco roto porque os deputados da Nação não se entendem o que faz da oficialização do crioulo a primeira vítima desta incapacidade irresponsável" eu diria que o CRIOULO não é o principal causa desta capacidade irresponsável. Se fosse, seria uma justa causa porque ninguém está preocupado com o actual sistema do ensino em CV e faz questão de introduzir irresponsavelmente as suas teorias para os nossos filhos servirem de cobaias deles. Os caboverdeanos não votaram para os deputados servirem de anti-corpos aos seus progressos.

JB disse...

Zito, o Salvador foi bom para o primeiro ano, mas depois taparam-lhe os olhos e o Café Margoso adquiriu personalidade própria... hehehe Aliás, o Salvador Dali era irreverente mas muito do que defendeu ao longo da sua vida, não se coaduna com a maioria das posições assumidas pelo autor deste blogue pelo que não fazia sentido continuar com a figura dominando o cabeçalho do estabelecimento.

Quando ao arrozcatum, vou certamente dar várias espreitadelas, dar a minha opinião e colocar um link ali ao lado. Abraço

Mrvadaz, certamente tem razão em muito que escreve. Mas repare, o que quis dizer com este texto foi precisamente dar exemplos de temas que poderiam ser DESENVOLVIDOS em post ou declarações próprias e aí sim explanar ideias e defender posições próprias sobre cada um dos assuntos, o que não era o objectivo do post, nem haveria espaço para tal.

Portanto, é certo que sobre a Cidade Velha, méritos e deméritos (e condecorações!) ou sobre o crioulo e o adiamento da sua oficialização por arrasto, muito mais haverá por dizer, em futuras ocasiões.

Abraço

zito azevedo disse...

Meu caro JB...Creio que não é imprescindivel concordar; por vezes
basta compreender ou, simplesmente,
consentir que a loucura possa ser
uma expressão de sensibilidade, no
caso, artística...
Zito Azevedo

Carla disse...

Oi João!

Que bom que estás de volta! Pois é! Eu também pensei várias vezes sobre isso durante as tuas férias. Quando acontecia uma coisa importante lá vinha o pensamento incomodo "que pena que o café está fechado, isso daria um bom debate".
Digo isso não só pelos teus post, que eu gosto muito (as vezes concordando outras não) mas também pelos comentários, porque esse blog conseguiu, ao longo da vida, reunir um time "da pesada".
por isso, a sugestão é: vamos debater noticias antigas? cidade velha património merecia, merece mais e a revisão constitucional (meio morta, já agora) também.

P.S. via peça na Praia: Amei!!! deveriam vir mais vezes a capital. em termos de teatro a capital anda meio esquecida

JB disse...

Sim, Zito, sem dúvida. Mas o Dali já estava um pouco fora do que considero ser a personalidade do Café Margoso. Sem desprimor para o valor dele como artista, porque nem é isso que está em causa. Seja como for, faz sempre bem mudar a decoração da nossa casa, de vez em quando!

Carla, vai haver oportunidade para voltarmos a falar de todos esses assuntos. E para voltar a fazer teatro na capital, também!

Elsie disse...

É porque o mundo não pára, que cá está o Margoso de volta em grande e com muita ousadia.
É bom ter-te de volta!!

Sisi

JB disse...

Obrigado, Sisi. Também estava com saudades vossas!

mdsol disse...

Muito bom regresso!

:)))