Um Café com o GAC

26 Comments




Vou vos confessar uma coisa que porventura já sabeis: sempre fui um puto atrevido. Agora sou menos puto, mas igualmente atrevido. Eu diria, em minha defesa, «atrevido no bom sentido do termo», se é que isso se aplica ao caso, mas não me querendo desviar muito do assunto que me trás a este texto, venho aqui falar-vos de um período glorioso do meu passado revolucionário.

Em Portugal, existiu um grupo musical de grande fulgor e impacto popular chamado GAC - Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta, no tempo em que a cantiga era realmente uma arma e atrás desse pessoal havia um autêntico exército popular. Um grupo que existiu entre 1974 e 1979 e segundo a reportagem do jornal I, o primeiro disco, gravado em 48 horas vendeu as suas cinco mil unidades em apenas um dia. O título? A Cantiga é uma arma, pois claro. E nessa época era mesmo.

Bem no ambiente da época, este foi um movimento cultural composto por anti-fascistas, pessoas que lutaram contra o colonialismo lusitano e algumas foram presas e torturadas por tê-lo feito. Entre eles estava José Mário Branco, meu pai, um dos integrantes do novo grupo musical. Para um puto como eu, aquilo era um mundo fenomenal. Adorava os comícios, as palavras de ordem, os congressos partidários, as reuniões intermináveis e, com certeza, os concertos e as digressões. Eu ia para o palco e cantava. «A cantiga é uma arma! Contra quem camaradas? Contra a burguesia! Tudo depende da bala e da pontaria!» Bons tempos. Andava ali feliz da vida.

Na foto, pode-se ver isso mesmo. O GAC passeando pelas ruas de Madrid. E eu lá estava, um puto completamente fashion, digam lá. A camisa aberta, o olhar directo para a objectiva, o colar que se adivinha no peito, um ciganito cujo futuro se poderia adivinhar, pelo menos, agitado. Infelizmente perdi um bom bocado do estilo e do sentido estético que me caracterizava nesses tempos idos da revolução dos cravos. O atrevimento, esse, foi ficando e ainda perdura.

Recordar é viver, dizem. Então vamos lá cantar. Em uníssono...





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26 comentários:

Anónimo disse...

Delicioso texto. Somos mais ontológicos que antológicos, João. Eu também nessa tenra idade era vocalista de um conjunto infantil "Estrela Negra" e cantava "Labanta brasu, bu gritâ bo liberdadi" e declamava "Mãe, eu tenho uma espingarda de ferro". Belíssimos tempos antifascistas e anticolonialistas. Era antes do outro pesadelo, João...
Filinto Elísio

Anónimo disse...

Uma correcção: Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta.

A mim também me ficou o atrevimento. E a utopia!

a) RB

p.s. Nos idos de 1976 fiz parte de uma Comissão que organizou, em Vale de Cambra, uma sessão do que então se chamava "Canto Livre". Fomos a Carregosa falar com o José Mário Branco. Eras um daqueles "putos"?

JB disse...

Sim, RB, é isso mesmo. E sim também, muito provavelmente eu era um dos putos que por lá andava...

Sarabudja disse...

João,
ficaram pelo caminho alguns atributos que a vida generosamente compensou com outros.

JB disse...

Sara, nunca me chamaram feio com tanta elegância. Obrigado! :)

Adriano Reis disse...

Este puto é mesmo bué de giro!
O Puto na altura até podia cantar e tocava algum instrumento musical?
pelo que eu sei é um grande apreciador da boa música...

Pedro Branco disse...

Linda foto, mano!

kénia disse...

Cada um com os seus atributos, os teus meu caro não se perderam, estão mais aguçados! Felicito o atrevimento de recordar tão nobres tempos!

Anónimo disse...

k fofoo!! caba d'oia kel foto oia log k'era bo joao...tua ex-aluna paty preferida ahahhaaahaha..bjosss sodad dbo

Sarabudja disse...

ahahahahaah
Tonto.

Lily disse...

Bom seria que o atrevimento dos jovens de outros tempos perdurasse nos jovens de hoje...
Sim, recordar é viver...e acredito que se sentiu mais vivo com essa foto!

Álvaro Ludgero Andrade disse...

Prezado João, um blog é para isso mesmo: conhecermos as pessoas assim como elas são. Obrigado por este retrato. Onde ficou a utopia? Agora concentrou-se no teatro? Ganhámos nós, mas, por favor, continua atrevido.

Mantenhas

PortoMaravilha disse...

Para informação : O compendêndio do Centre de Recherches Pédagogiques d'Alsace , publicado em 1996 , "Le Portugais par la chanson : Viajar , cantar , Falar ", ( public : Collège / Lycée ) , no capítulo Opressão Liberdade , apresenta na p.101 , a letra e a música de "No Tarrafal era a morte " do grupo GAC e do álbum " E vira bom " .

Segue-se em seguida "Samba em Paz " de Caetano Veloso ( p.107 ).

O que me parece mostrar que o GAC teve um papel mais que importante.

Nuno

PortoMaravilha disse...

Não sei se o meu último comentário passou ou não porque tive um bug .

Escrevia eu o seguinte : O compendio "Le portugais par la chanson " editado pelo Centre de Recherche Pedagogique d'Alsace ( 1996 ) , foca o Grupo de Acção Cultural no capítulo Opressão-Liberdade ( p.101 ) com a canção e letra no " Terrafal era a Morte " . Segue-se em seguida "Samba em Paz " de Caetano Veloso.

O GAC teve pois um papel muito importante. E é posto em relevo por pedagogos Franceses para ilustrar esse momento da história de Portugal.

Nuno

stamina disse...

humm.... tenho q fazer um protesto.. como "jovem de hoje", tenho q afirmar que a musica continua a ser interventiva, contestatária, mto mais q atrevida... ou ninguém conhece os rage against the machine?

mta coisa pode ter "aparentemente" mudado.. mas no aqui e agora, vivemos numa outra espécie de ditadura.. a liberdade é uma ilusão..


não sou porta-voz de ninguém.. mas sei que não estou sozinha nesse sentimento.. e é a música que me faz ter essa certeza.

De qq modo, acrescento, que para mim, a musica e as bandas não têm idade.. lamento que não se dê a devida atenção às letras de certas bandas, pq são rotuladas como coisas de miudos, ou agitadores.

bom dia

Anónimo disse...

Na verdade a música é a única forma de luta que não fere e nem mata. No entanto, é tão eficiente que os visados preferem denegrir a imagem daqueles que passam a mensagem, como sendo, drogados, anarquistas, da oposição, etc e tal.

Abaixo ficam exemplos de algumas destas mensagens incomodatórias:

“…brainwash education to make us the full… “ Bob Marley

“… and babylon will never live to stop the rising oh jah son…” Gentleman

“…so why should we vote in politicians, and why should we vote in their elections, if there is no place for we… “ Morgan Heritage

“…when the cats away, the mice will play, political violence fill ya city…” Bob Marley

“…sr director, trá pé d’solerador, kmê bô txam kmê tb, pa nos tud pode vive…”…Tchey

“…they made their world so hard, so every day the people are dying…” Bob Marley

“…give us the teachings of His Majesty, for we no want no devil philosophy…” Bob Marley

100% Soncente - CV

vasconcelos disse...

Olha o puto João!!! Eras fresco, eras... Grande beijo, Toinas

Catarina disse...

Espectáculo!!!!!!!

Catarina disse...

Espectáculo!!!!!!!

Ricardo Riso disse...

Belíssimo e emocionante texto, João! Obrigado por compartilhar suas memórias. E graças que o atrevimento ainda perdura e perdurará sempre em você.
Bom passar por aqui!
Grande abraço!!!

JonDays disse...

Isto tudo fez-me lembrar a nossa escola primária, e as canções que por lá se cantavam!! Uma gaivota voava, voava!! Como ela, somos livres, somos livres de voar!!!!

abraço

JB disse...

Olha, Jon, e a nossa professora primária que era do MDP-CDE, lembro-me muito bem.

Anónimo disse...

Caramba, há sempre um madeirense pelo meio, lembras-te dele?

João

Anónimo disse...

COMO GOSTARIA QUE POR ALTURA DA COMEMORAÇÃO DOS XXXV ANIVERSÁRIO DA INDEPENDÊNCA DE CABO VERDE HOUVESSE CÁ UM SARAU CULTURAL COM OS CANTORES ANTI-FASCISTAS E ANTI-COLONIALISTAS! SERIA UMA FORMA DE LHES AGRADECER PELO CONTRIBUTO QUE DERAM NA MOBILIZAÇÃO E CONSCIENTIZAÇAO DO POVO DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS QUE VIVIAM EM PORTUGAL NOS IDOS DE 1974/1975.

MUITO GOSTAVA DAS CANÇOES DE JOSÉ MÁRIO BRANCO!

basf disse...

Caros, como vocês cresci a ouvir os discos do GAC, do Zé Mario, Zeca, Sérgio, Vitorino, Brigada Victor Jara, e afins, LPs que conservo até hoje. Presenciei reuniões no teatro A Comuna, actividades na Cooperativa Era Nova, etc. etc. Hoje, aos 39 anos, faço por reviver sempre que possível esses anos, em que se respiravam ares de mudança. Corrijam-me se estiver errado, mas é uma tremenda injustiça que ainda hoje não seja possível adquirir os discos do GAC em formato digital, com o tratamento merecido (tal é a qualidade das músicas, letras e arranjos)! A última vez em que ouvi falar na edição em CD da discografia completa, foi nas comemorações dos 25 anos do 25 de Abril, e nada vi. Alguém sabe o que se passa? Contento-me entretanto em revisitar os LPs... Abraços, Bernardo Faria

JB disse...

Prezado bernardo: que eu tenha tido notícia, os discos do GAC foram recentemente editados em formato digital. Acredito que os possas encontrar numa qualquer FNAC.

Abraço