Declaração Cafeana

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Se há uma coisa que me orgulha no meu percurso enquanto criador em Cabo Verde é poder considerar-me amigo de muitos outros artistas cabo-verdianos, sejam eles pintores, músicos, escritores, poetas, coreógrafos, bailarinos ou actores e actrizes. Acho que uma das razões de ser dessa proximidade emotiva e pessoal tem a ver com o enorme respeito que tenho pelo trabalho de toda essa gente. O Café Margoso, que é o local onde por mais vezes exponho publicamente posturas pessoais sobre vários assuntos, tem procurado ser também o local de celebração da arte e dos artistas e como celebração é encarado. Para homenagear, divulgar, reflectir, mas nunca para maldizer. 

Já fui por vezes mal interpretado, nomeadamente com a utilização do termo herói para falar de toda essa boa gente, que utilizei como reflexo de um profundo respeito e reconhecimento dos artistas de Cabo Verde. Se querem que vos confesse, a má-língua que possa haver entre uns e outros, entre colegas de profissão, que é sempre lamentável, interessa-me muito pouco. Ou há debate a sério ou tudo isso não passam de bocas que reflectem apenas algumas frustrações mal resolvidas. Estou à-vontade, também já tive as minhas, faz parte da natureza humana. O que se constrói, apesar disso, é incomensuravelmente maior e mais importante do que essas questiúnculas domésticas e marginais.

Por isso também me orgulho de ter artistas plásticos que me abrem as portas dos seus ateliers para me deixar invadir as entranhas das suas próprias criações. Para uma visita destas temos que estar prontos para oferecer algo em troca e o que nos é pedido, apesar de ser considerado um dos bens mais essenciais da era global, é algo que qualquer ser humano pode dar, se estiver disposto a isso: tempo e disponibilidade. Não se fazem visitas destas com pressa. É preciso estar-se pronto para ouvir, porque quando um artista partilha connosco aspectos tão profundos e essenciais da sua vida, o mínimo que podemos fazer é estar atentos e interessados. Agradecer a dádiva e sobretudo, aprender.

A última destas visitas que fiz foi ao atelier do artista plástico Mito Elias, em pleno Bairro Alto, na cidade de Lisboa, a quem agradeço a forma simpática, generosa e aberta como me recebeu. Tem um trabalho desenvolvido com uma identidade clara, conseguiu impor a sua marca e essa marca combina com qualidade. Trabalha com a emoção e os sentidos e isso vê-se na obra e no discurso. Comeu o pão que o Diabo amassou para estar onde está neste momento e defende o seu próprio trabalho com uma quase ferocidade. É um artista cabo-verdiano que conquistou o seu espaço e tem muito ainda para nos dar. O universo imagético e visual que Mito Elias oferece ao imaginário cabo-verdiano é a nossa maior herança. Para conservá-la são necessárias duas coisas fundamentais: respeito e conhecimento pela/da obra. E pelo autor, já agora.   




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1 comentário:

Ricardo Riso disse...

Fantástica a generosidade do amigo artista. Algo raro não só no meio artístico, mas entre os homens.
Parabéns pela bela entrevista, João!