Cafeína Comentada

3 Comments



Cruzei-me há pouco tempo com um estranho livro de António Pedro, essa importante figura, principalmente da primeira metade do século XX português, e em várias áreas (teatro, literatura, poesia, artes plásticas), nascido na cidade da Praia, em 1909. O livro chama-se Apenas uma narrativa e entra no domínio do surrealismo literário, e contém algumas  passagens absolutamente deslumbrantes. Publico aqui um excerto, que se revelou a meus olhos como uma das mais felizes definições do trabalho de um actor ou de uma actriz. 

É um pouco longo, mas vale bem a leitura.

«Fui acrobata de circo, pássaro de floresta, som de búzio, campainha de porta, ladrão de enterros, diplomata, banqueiro e cicerone.

Acomodei a minha pele à cor das pedras e fui camaleão. Habituei a minha boca ao sabor das injúrias e fui prostituta. Limei as unhas ao jeito dos espinhos e fiz-me santo. Abri chagas ao longo dos membros e fui mendigo de feirantes. Enchi-me de avidez e fui prestamista como todos os hipócritas. Lavei o coração em água salgada e fui pregador de moralidades. Afligi-me de medos irremediáveis e fui herói. Esperei sombras nas sombras, cheio de angústia, e fui assassino. Trafiquei lágrimas roubadas e fui comerciante. Nasci das árvores, rosado, e fui fruto apetecível. Acomodei-me, pelintra, nos arredores das cidades e fui subúrbio. Conduzi homens para que morressem longe e fui general. Levaram-me em triunfo, entre archotes e flâmulas, e fizeram-me rei.

Fui coveiro, serrador, águia, bússola, carneiro, violador de donzelas e menina desvirgada. Fui senhora séria, da sua casa, bicho-de-conta, camelo do deserto, satélite de estrelas, verme da terra, anjo da guarda, e apodreci, caranguejo, nos montinhos do patelo. Fui flor, rabeca, zunido do vento e água coalhada. Andei no fundo do mar e fui dos peixes sem olhos.

Espalharam-me. Loiro, pelas leiras, e fui milho de reserva, com pouca palha, depois do tempo.

Fiz cama de maravalhas, sob os cardos, fugi ao caçador, e fui coelho de monte. Piquei os dedos das costureiras e fui agulha de ganhar o pão. Fui pinheiro de pinhão e fui pinhão de pinho bravo, cai como uma estrela na areia à minha espera.

Fui rola, lagarto, cofre forte, asa de anjinho de procissão, pendão de irmandade, esfregão, corda de enforcado e fui enfeite de andor. Andei no maruho do mar, nos ruídos das oficinas de serração, nos caixotes da imundice, na mesa da anatomia, no tremor dos possessos, no choro das crianças, no rocio das manhãs, na doença das vacas, na música das romarias.

Fui mentira e andei de boca em boca, cantiga e esquecia-me nos lábios, blasfémia e enrosquei-me nos santos, prece e desfiz-me nos templos, ansiedade e enterraram-me na vala comum das cidades, alegria e desfiz-me em lágrimas, afronta de rico e envergonhei-me à noite, lástima de miserável e sonhei cadafalsos.

Fui verdugo e proxeneta, mártir e cantador. Fiz-me pedra na montanha e ardi em fogo nos brasidos. Trouxe-a comigo, sempre, em todas as metamorfoses.»

António Pedro in Apenas uma Narrativa






You may also like

3 comentários:

Anónimo disse...

sabias que AP é de origem Cabo Verdiana??

são branca disse...

Quero mais!

JB disse...

Anónimo, está aí mesmo escrito «nascido na cidade da Praia». Portanto, não só sabia, como está referenciado na introdução deste post, para que todos o saibam!

Abraço