Crónica Desaforada

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Ministério da Dor

1. O ensaísta português João Barrento escreveu no seu livro A Espiral Vertiginosa: «Não conhecemos a dor. Não queremos conhecê-la, nas sociedades anestesiadas em que vivemos, no mundo ocidental ou ocidentalizado. Perguntar-se-á: e todas as dores deste século? E África, e a Palestina, e o Kosovo, agora mesmo? Direi ainda que não as conhecemos: não fizemos o trabalho de luto sobre elas, podemos reconhecer a dor de cada vítima da barbárie, mas a dessolidarização constitutiva da sociedade de massas, mediatizada e globalizada, impede-nos de chegar a uma catarse colectiva, de ir além de um simulacro, de viver mais o espectáculo da dor.»

2. Estou cada vez mais convencido que é isso mesmo que nos falta. E nos vai faltando de forma mais grave e urgente à medida que o tempo passa e continuamos com as nossas cabeças enfiadas num monte de areia constituída por certos conceitos que nos embriagam ou, pior ainda, nos anestesiam, como sejam os de desenvolvimento sustentado, entretenimento, indústrias culturais, investimento externo, crescimento económico. Sim, todas estas pílulas que nos são fornecidas tão generosamente pela sociedade capitalista nos fazem olvidar que um lugar que não chora as suas dores perde a sua identidade.

3. Quem conhece minimamente a História está consciente que isto não é nenhuma novidade. Na verdade, desde os Gregos que não se choram as dores com olhos de ver e o coração em sangue. No mundo de paixões que era o da tragédia clássica grega, a dor – e também a alegria, o canto e o êxtase – eram matéria-prima da vida ritualizada. Escreve João Barrento, «a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais confortável, mais baça… e mais longa. Ficamos mais sós. Sós, não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós.»

4. Ao contrário, em vez de identificar, isolar e ritualizar as dores das nossas vidas, sejam elas individuais ou colectivas, acumulamos coisas. Objectos, muitos. E sentimentos transformados em coisas. Acumulamos panfletos, convicções sem significado, namoradas e amantes, amigos no Facebook, downloads de músicas em formato mp3, experiências pouco ou nada vivenciadas, canais de televisão. Acumulamos telemóveis e computadores portáteis. E a acumulação converte-se em lixo. As nossas dores estão resumidas ao conteúdo do saco do lixo que vomitamos todos os dias para os contentores (quando os há).

5. Já fomos um povo que chorou e viveu as suas dores. O acto de abrir a porta para oferecer um prato de comida, de contar histórias ao final da tarde, do sair pela noite cantando serenatas não programadas previamente, são resquícios e sinais de uma certa sociologia do estar com o outro que eram o resultado de uma forma peculiar de viver a dor, fosse ela a miséria, a fome, as dificuldades, a seca, a morte de um ente querido. Ainda no mundo rural das ilhas esses sinais estão presentes, mas diluem-se nessa tal perspectiva global de desenvolvimento que quer fazer de Cabo Verde uma plataforma de uma série de parâmetros económicos ou de negócio. Onde antes se acumulavam simpatias, hoje acumulam-se projectos de plataformas globais.

6. O que vou dizer agora não é nenhuma novidade. É pela arte e pela criação artística que melhor se pode exorcizar as dores de um lugar, de uma sociedade, de um país, de uma cidade, de uma cultura particular. Não há outra forma. E ao olvidar e deixar para trás tudo o que diz respeito a esta componente fundamental da existência humana corremos o risco, melhor, já estamos a viver essa realidade concreta, de viver em permanente anestesia, confundindo o espectáculo da dor com a dor propriamente dita. Parece que nunca vimos (ouvimos? sentimos?) Paulino Vieira a tocar com a sua harmónica a introdução à morna M´cria ser poeta, transportando para aquelas notas musicais e para o seu jeito de tocar todas as suas dores de forma concentrada, única, reveladora.

7. Porque nos emocionamos perante uma obra de Manuel Figueira? Porque nos vêm lágrimas ao olhos quando vemos os bailarinos do Raiz di Polon em êxtase corporal? Porque paramos perante um poema de Arménio Vieira? Porque nos parece que Sara Tavares, essa alma pura, nunca jorrou as suas dores de forma tão intensa como quando canta, em crioulo, a música Guisa, como se quisesse partilhar connosco todas as dores do mundo? Nós, que choramos os mortos de forma tão intensa e ritualista, porque nos esquecemos cada vez mais de chorar a dor dos que ainda cá estão?

8. Estamos cada vez mais sós e por paradoxal que possa parecer, o acto da criação artística é a nossa salvação. Paradoxal porque esse acto de criação é um acto isolado, incomensuravelmente dorido e não partilhado, tantas vezes resultado de urgentes, interiores e intransmissíveis reflexões pessoais. No entanto, o resultado, esse sim, pode ser um reflexo que nos desperta, nos obriga a olhar para o outro e para nós, de fora para dentro, que nos questiona. Nós não fazemos a mínima ideia, mas é assim mesmo: o acto criativo, quando levado a sério, implica um enorme sacrifício, isolamento e uma capacidade de sofrimento que, por ser partilhada à posteriori, faz do artista-criador o mais generoso dos seres.

9. Ah! Se soubessem como dói! Uma história verídica que me contaram: uma pintora famosa – muito famosa, mas cujo nome omito aqui por ser pessoa viva – quando se fechava no seu atelier pintando, proibia a entrada de qualquer outra pessoa no seu espaço de criação, incluindo os próprios filhos. Se estes quisessem comunicar com a mãe teriam que faze-lo colocando folhas de papel por debaixo da porta. Querem maior acto de sacrifício do que este? Podemos nos chocar e bradar aos céus que tudo isto não faz muito sentido, mas depois vemos as obras e ilumina-se-nos o espírito. Faz sentido, sim. Todo o sentido. Há maior dor que a dor do parto? E o resultado não faz todo o sentido? Faz sentido, sim.

10. Quando falamos com uma verdadeira criadora como é, por exemplo, Luísa Queirós, entendemos a sua pintura porque é o reflexo claro e imperturbável de muitas dores acumuladas. Quando vemos Vasco Martins ao piano olhando para o céu antes de tocar o primeiro acorde de mais um tema exaltante, entendemos porque um homem daqueles se isola num vale como um eremita para ficar mais perto dos Deuses… e das suas dores, certamente. Um verdadeiro criador está sempre a um pequeno passo de um abismo qualquer. E muitas vezes salta para o vazio. Por isso quando é bom, quando se revela, falamos em soco no estômago. Andamos a precisar de levar porrada. Mas porrada a sério.

11. Um país que não entende isto, que não se identifica com as suas próprias dores, exteriorizadas pelos seus criadores e artistas, nunca poderá ser um país cultural. Um país que não respeita as dores de parto de cada obra de arte que é capaz de gerar será também incapaz de se olhar interiormente. Acabará invadido e assimilado por este tsunami global. É urgente pararmos com este fingimento de que temos muitos museus, génios espalhados pelos quatro cantos do arquipélago e uma política para a cultura neste país. É urgente transformar o Ministério da Cultura num verdadeiro Ministério da Dor. E acabar com a anestesia. Desligar a televisão e voltar às montanhas. 





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9 comentários:

Tiago disse...

Não sei bem em que Cabo Verde vives, João, mas naquele que diazá me é dado a conhecer estas tuas palavras mais me parecem pérolas a porcos… Excelente texto!

Paulino Dias disse...

Caro JB,

Um dos textos de maior impacto que de ti já tive o prazer de ler. Um sôco no estômago que me deixou meio atordoado depois do almoço (li-o no "A Nação") - quase que ia à vida o repasto...

Porra, man!, é como se uma carrada de (pre)conceitos meus se esvaísse assim ante o sopro... E agora, estou assim numa espécie de catarse ou limbo, sei lá!, a rever todo o (pouco) que sei sobre manifestações culturais. A minha esperança é vir a não concordar contigo de todo eh eh eh. Havemos de conversar mais sobre isso um dia, meu caro.

Um abraço,
Paulino

zito azevedo disse...

Eu desejo, secretament, que você não tenha razão e que esse país de que fala, ou qualquer outro, consiga encontar rotas - isso mesmo, no plural - e não um caminho que, na sua unicidade, pode ser redutor...Mas, se não houver outros, que um qualquer baste, o seu ou o de qualquer outro sonhador...

Grace disse...

Há coisas que são tão naturais que nem paramos para pensar em como elas surgiram.

O meu respeito a todos os nossos artistas e que um dia lhes dêem o devido valor porque eles sim, são os unicos capazes de salvar a alma do nosso povo...

Kuskas disse...

Ola João
Desde que li esse teu texto no jornal a Nação, tenho reflectido na forma como tenho lidado com a dor de ter perdido meu pai há 3 semanas e de estar a lutar para não deixar minha mãe desistir da vida, vida essa que ela dividiu durante 51 anos com meu pai.

Essa perda me fez voltar a fazer duas coisas que há muito não fazia: dançar e inventar pratos de culinária.
Tem sido a unica forma que encontrei para exorcizar a dor imensa que me corrói o peito.

Tens razão: talvez seja a arte a salvação deste nosso pais que esta a perder a capacidade de sentir dor e de chorar pelas suas dores.

Um abraço

Kuskas

Neu Lopes disse...

Seguir os nossos sonhos é permitido e obrigatório, mesmo que para isso tenhamos que enfrentar os nossos piores pesadelos

JB disse...

Kuskas, só para te dizer que lamento muito a tua perda e que espero que tudo corra pelo melhor com a tua mãe. Força aí.

Obrigado pelos restantes comentários.

neulopes disse...

Muito Forte, João.
Só pensa nisso quem realmente sofre na pele.
Força!

Anónimo disse...

É como a beleza haverá de salvar o mundo, a criação artística haverá de o fazer.=) Se a valorizassemos mais...
Gostei muito do texto.

Abraço,
Natasha.