Declaração Cafeana

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Não li a entrevista e apenas agora vi a capa da revista Uhau!, do jornal A Semana, mas não pude deixar de sorrir ao ver o Primeiro-Ministro de Cabo Verde confessar desta maneira quase que desassombrada que "ainda não encontrou o amor da sua vida." Claro que podemos sempre falar da boa ou má governação, ou questionar, de uma forma até demagógica (já que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa), mas o que é que tem a mulher, mãe de cinco filhos, que não consegue ganhar o pão nosso de cada dia para alimentar os seus, o que é que tem esta e todas as outras mulheres a ver com os amores e desamores do Primeiro-Ministro? O que tem a ver o jovem que está na cidade grande, quem sabe se até já licenciado, mas sem perspectiva de emprego ou trabalhando nalguma área que odeia, fora do contexto de ensino que tanto lhe custou investir, e que caminha a passos largos para uma vida miserável, o que é que tem este e todos os outros jovens a ver com os suspiros públicos do Chefe do Governo?

Digam lá o que quiserem, mas eu acho óptimo que tenhamos um político com as responsabilidades de um José Maria Neves, que nos mostre que afinal também ele é humano, que sofre, por amor, por perdas, por desejos não concretizados. Gosto que exista um homem à frente do país que chore ao ver como sofrem os seus patrícios nas roças de S. Tomé, que escreva poemas de amor em homenagem às mulheres no seu Facebook ou declarações inflamadas no seu blogue pessoal. Gosto de pensar que mais do que políticos temos à frente dos destinos do país pessoas que também são homens e mulheres, com os seus defeitos e as suas virtudes, as suas alegrias e as suas dores. Até porque tantas vezes nos esquecemos que os políticos também tem vida própria e que dentro de quatro paredes de um lar há sempre histórias tremendas que podem abalar qualquer um. 

Claro que é bom saber que temos políticos competentes, honestos, impolutos, corajosos. Mas se  a juntar a todas estas características, fundamentais em quem escolheu por missão governar os seus, não houver réstias de humanidade confessada, algo começa a soar a estranho, a falso, a hipócrita, do tipo quando-a-esmola-é-muita-o-pobre-desconfia. Por isso não me incomoda que haja um Primeiro-Ministro que ainda suspire pela sua alma gémea, que se emocione, que goste de comunicar com os seus como se fosse uma «pessoa normal, como todas as outras». Porque às tantas é isso que faz falta aos políticos hoje em dia: serem um pouco mais pessoas "normais", como todos nós. Humanos, em suma.




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11 comentários:

Anónimo disse...

Concordo, em geral, com o texto.

Mas devo confessar-te, João, que não tenho qualquer paciência para as fofoquices da chamada imprensa "cor-de-rosa".

E tenho sérias dúvidas que a exposição mediática de sentimentos, aí, não passe de puro populismo (para lhe não chamar oportunismo).

a) RB

Sarabudja disse...

Faz muita falta às governações de todos os países Homens na sua plenitude: competentes, corajosos, impolutos mas capazes de se emocionarem, de amarem, de detestarem, de jamais esquecerem onde nasceram e cresceram, de serem capazes de sorrir quando sentem os cheiros e emoções da infância, de se entristecerem e mobilizarem com os problemas dos outros.
Não quero um burocrata da vida e das palavras (inspirei-me numa das tuas imagens) que me enrola as ideias com frases enormes, quero um Homem que sabe o que faz e não se esquece do bem comum.
Saber que o Primeiro Ministro ainda não encontrou o amor da vida dele não muda o destino da mãe de 5 filhos que vende "drops e mancarra" na porta do mercado, mas faz-me acreditar que o Primeiro Ministro nutre sentimentos nobres e que cabe nos pensamentos dele coisas tão mais reais e humanas do que aqueles estudos super científicos que pululam por aí, orientados por senhores que vivem com a cabeça num mundo que não é o meu.
Mas isto digo eu, que não percebo nada da coisa.

Cesar Schofield Cardoso disse...

Pois... humano somos todos e nem por isso andamos por aí a chorar em revistas sociais. O meu medo é que a fronteira entre a intimidade do homem e o marketing político não estejam bem definidas. Eu sigo o Dr.José Maria Neves desde que ele era líder da bancada do PAICV, na altura na Oposição. Nessa altura ele não tenha esse sorriso manhoso, aliás muito pelo contrário.

Portanto essa ondinha emocional não me comove. Principalmente quando desconfio que faz parte de um plano de charme. Mas que funciona, funciona. Funcionou para ti.

zito azevedo disse...

Esse é o cerne da questão: o de saber quando é que eles (os politicos) são e quando é que, simplesmente, parecem ou dizem se-lo...

JB disse...

Pois é, César, se pensas que o meu voto é definido por estas questões estás enganado e conheces-me mal. Não te ficava mal a ti também, de quando em quando, falares de males de amores lá no Bianda, quem sabe o ambiente ficará um pouco menos pesado... hehehe

Cesar Schofield Cardoso disse...

ambiente pesado no Bianda? Que ideia! Bianda quase flutua de tanta leveza

JB disse...

Isso mesmo, César, isso mesmo! Percebeste o espírito da coisa...

Anónimo disse...

Humano mas despropositado. O PM anda com guarda-costas porque não é um qualquer com. Tem merecidas regalias protocolares e da função e tem de fazer tb os sacrificios inerentes. um deles é o do recato. A demasiada exposição não é benefica. A nivel da imagem não acho que o o "Uhau" seja o tipo de imprensa para o homem que é PM. Eu o respeito e por isso espero que seja melhor aconselhado e que faltando o amor tenha os amigos para não desabafar na praça publica. ;) CésarC

Anónimo disse...

Gosto muito de o ler -;)
A sua escrita é leve e fluida.
Gosto mesmo!!!

Quanto ao vosso PM, acho um politico mais "normal". Homem frontal e determinado, parecido com o nosso Socrates -;)
IM

Anónimo disse...

É interessante a pouca memória dos crioulos. Cansaram-se de ler e conhecer os gostos de Obama, mas do PM das ilhas não. É triste, como cada vez mais, o povo crioulo está triste e macambuzio. Triste. O interessante é que isto acontece quando o país está melhor e oferece melhores condições aos seus habitantes que poderiam procurar novos patamares e não ficar pelas queixas. O que não significa que se faça o coro ao governo, muito pelo contrário. Será isso herança do triste e reclamador povo português??? É sina!

Carlos Silva

Anónimo disse...

Tenho a mesma opinião que o César, e mais acho que nem de AMOR o Homem entende, pois pelo que li(e, foi ele que disse, ele já teve sim "Um Grande Amor da Sua Vida", que é a mãe do primeiro filho, porque terminou não quer dizer que não foi ou teria que ir até a morte? E, Ainda deverá ter conforme for a sua vida/apetência até, outros "Amores da sua vida".Tenho pena é da actual namorada(que espero que não seja, ainda, a minha ex. professora Filó),pois soube por uma revista Cor de rosa, que serve sómente para...Hum! E tenho dito!