Declaração Cafeana

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Vivemos numa época triste. Não há ideais a não ser aqueles que possam engordar a nossa conta bancária. Hoje não há coragem, há desvios conforme as conveniências. Hoje não há luta, há defesa de grupos de interesses políticos, partidários ou económicos. Como escreveu a actriz Milanka: "esta nossa geração desgraçada tem a responsabilidade de despoletar a nossa revolução, aquela que merecemos, pois já não nos resta muita coisa. Temos que reinventar os nossos próprios modelos, nunca esquecendo aqueles que antes de nós acreditaram na igualdade do povo!"

Antes a cantiga era uma arma, hoje é entretenimento. Antes a cultura era alma do povo, hoje é factor primordial de crescimento económico. Antes a criação artística era alavanca para mudança de mentalidades, hoje é o caminho mais directo para a massagem dos nossos egos. Dizem-se, sabem-se, ouvem-se as maiores barbaridades de altos signatários do poder, da oposição, dos candidatos a poleiros e cadeirões almofadados e nós, que nos dizemos artistas, continuamos a assobiar para o lado, muito ocupados com os nosso estimados, geniais e insubstituíveis projectos. 

Onde estão os nossos hinos, manifestos, gritos? Não deixa de ser irónico, tristemente irónico, que o único sector artístico que coloca o dedo na ferida, seja conotado com a marginalidade urbana. Refiro-me aos grupos de rappers e hip-hop, claro. Desdenhamos os loucos das nossas cidades mas são eles que estão à frente do nosso tempo. Nós estamos parados. Neste dia em que se comemora mais um aniversário de uma revolução que foi abafada pelas mentiras mediáticas e pela passagem do tempo, devíamos reflectir sobre o que raio andamos aqui a fazer. 

Eu faço o mea culpa que me é devido. Com a minha arte tenho lutado para sobrepor o colectivo ao individual, a imaginação à banalidade, a exigência ao facilitismo, a humildade à arrogância, a entrega à paralisia cerebral. Mas podia fazer mais, devo fazer mais, tenho que fazer mais. Tenho que ser digno dos genes que herdei. Se não o conseguir, serei apenas mais um bluff e imerecedor da arte secular que abracei. 

Fotografia de Fredrik Ödman





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2 comentários:

Bitim disse...

Chama-se "Crise de Valores". Nós vivemos num mundo atribulado por uma forte crise de valores e identidade, que vai penetrando no cerebro e nas veias das pessoas de forma dissimulada. Até os mais intelectuais, mais honestos, mais amáveis e solidários do mundo, não escapam à crise.

O mais curioso e mais triste, é que nós constatamos essa mudança, notámos que o processo prosegue, mas nada podemos fazer. Pessoas intelectuais, críticos manifestam, escrevam, divulgam de todas as formas e forças que disponhem, mas o comboio continua em alta velocidade. Isto é - o Sistema já está accionado, é como a "teoria da mão invisível" de Adam Smith.

Eu acho que esta crise pode ter origem/raízes a longo tempo atrás, mas o Sec.XX foi determinante na mudança dos padrões de vida da humanidade. Foi o Século do incremento do Capitalismo selvagem e da liberalização económica, foi o século das grandes guerras mundiais e do aparecimento das TIC, das doenças crónicas, da pornografia, do terrorismo, etc., etc.

E a pergunta que fica é: ONDE, QUANDO e COMO vai para "este comboio"??? Resposta só o Divino sabe... Quanto a nós, é manter a fé e esperança de que um dia o mundo será melhor.

zito azevedo disse...

Em análise ultima, amigo Bitim, a culpa é do homem e, por isso, podemos recuar no tempo até ao Eden...A primeira grande guerra onde, segundo alguns humoristas, morreu 1/4 da população da Terra, foi quando Caín matou Abel...Foi a primeira das grandes disputas: aínda não havia moeda mas já havia ganância e esta é que é a gangrena da nossa espécie...
E, até a fé que o amigo invoca como refúgio está em declínio empurrada pelo mesmo tsunami que reduz z escombros os alicerces das sociedades que levaram séculos a consolidar-se e nios empura, inexoravelmente, para a selva do "sauve qui peut"...
Ao menos que a História se repita do geito ciclico que se lhe conhece e, sem perder o futuro possamos recolher alguns salvados dos naufrágios do passado...
Um abraço!