Crónica Desaforada

9 Comments



Às mulheres de Cabo Verde 

1. Tenho, como é natural, muitos amigos homens em Cabo Verde e ao escrever este texto temo que algum se possa sentir ofendido na sua posição de macho crioulo, muito embora este texto não seja para eles. Acontece que depois de vinte anos de convivência nas ilhas e de um processo de crioulização humano de carácter irreversível penso que já terei alguma preparação para esta carta aberta que aqui dirijo às mulheres cabo-verdianas, que muito admiro pelo seu carácter lutador e persistente, por serem o motor da nossa sociedade e por pensar que ainda estamos muito atrasados no que diz respeito às problemáticas sociais ligadas ao género, ou não fosse a violência doméstica uma das nossas maiores mazelas e, diria, uma das vergonhas que carregamos nas costas enquanto País que, por ter as mulheres que tem, não pode compactuar com determinadas situações que alimentam uma sociedade já de si, histórica e socialmente, patriarcal. 

2. Quando durante a passada apresentação de “Bodas de Sangue”, aqui na cidade do Mindelo, a luz faltou a 13 minutos do final do espectáculo, em pleno cume emocional dramático, só havia mulheres no palco. Concebida em homenagem ao teatro grego clássico e procurando respeitar o espírito da obra original de Garcia Lorca, a cena final consistia num duelo verbal carregada de emoção entre as duas protagonistas, a Noiva e a mãe do Noivo, que havia morrido por força de um canivete empunhado pelo amante da primeira. Outras seis mulheres assistem e comentam em coro a cena, dispostas em circulo aumentando ainda mais o carácter cerimonial deste aceso diálogo. Uma oitava personagem, a Morte, assiste ao fundo ao desenrolar da tragédia. Nove mulheres, portanto. E quando se deu o fatal episódio do corte de luz, todas as actrizes continuaram a peça, até ao final. O público, deixou de ver a cena e passou, como nos tempos de Shakespeare, a ouvir o texto, tentando adivinhar na penumbra os movimentos do palco. Chegamos ao fim e o sangue frio destas mulheres salvou o espectáculo. E deu-me mais uma grande lição sobre o papel e a importância das mulheres no nosso país. 

3. E agora que passou o mês de Março, é para vocês, mulheres cabo-verdianas, que escrevo. Já comentei várias vezes, com ou sem razão, que muitos dos males de que vocês padecem no ambiente social e familiar no arquipélago são alimentados pela vossa própria postura, demasiada permissiva, suave, por vezes alimentada por um preconceito ou por um medo que as vossas histórias de vida pessoais poderão justificar. Mas se queremos combater o actual estado de coisas tem que ser vocês, mulheres, as primeiras a não aceitar que vos vejam apenas como um objecto sexual, uma máquina de afazeres domésticos ou um bom pedaço de polpa que abana freneticamente ao ritmo de um funk ou funaná. Tem que ser vocês, mulheres, as primeiras a contestar o tácito argumento masculino de que a infidelidade pode ser traduzida por uma poligamia sustentada numa herança cultural que chega a ser a mãe de todas as justificações esfarrapadas dos comportamentos masculinos que só vos denigre e diminui, enquanto pessoas e seres humanos que sois. 

4. Quem educa os filhos são vocês, mulheres, mães, irmãs, tias, madrinhas ou avós. Pensem nisso. Pensem no poder que tem em mãos. E utilizem-no melhor. Os homens que hoje temos e que são, em parte, o produto dessa educação, foram moldados por vocês, nas vossas casas. Portanto, não fiquem passivas quando um filho vosso, ainda criança ou adolescente, chega em casa dizendo fanfarrão que tem muitas namoradas, como se isso fosse uma enorme qualidade ou motivo de orgulho. Não aceitem que os pais, possivelmente alimentados por essa mentalidade machista vigente, dêem os parabéns aos seus filhos machos se essa manifestação de agrado tiver alguma coisa a ver com uma matemática insana de quantas meninas ele beijou na escola. Se vocês tiverem um casal de crianças em casa, não deitem sobre os ombros da menina as tarefas de casa, deixando o rapaz tranquilamente a ver televisão ou a jogar playstation. Porque ao fazer isso, vocês, mulheres, mães ou educadoras estão a alimentar um parasitismo doméstico que, infelizmente, continua a ser mais a regra do que a excepção. Dividam as tarefas entre os dois, coloquem o rapaz a lavar a loiça de vez em quando. Acreditem, só lhe vai fazer bem. 

5. Quando forem assediadas na rua ou no trabalho, queixem-se. Na policia, se preciso for. A impunidade de determinadas posturas não pode continuar a ser alimentada por uma passividade silenciosa da vossa parte. Porque para se chegar à violência física há todo um percurso, uma matriz que sustenta determinados comportamentos que não podem nem devem ser tolerados. Alguma de vocês já ouviu um piropo na rua elogiando a vossa inteligência ou capacidade de luta? Pensem nisso. Se um homem, numa discoteca, vos tirar para dançar pegando na mão como se vocês fossem propriedade dele, não aceitem. Se na dança forem demasiado apertadas, larguem-no sozinho na pista. Não há nenhuma lei que diga que as mulheres tem que ficar ali, sofrendo como um animal no matadouro antes de lhe cortarem a cabeça para posterior degustação. Exijam respeito. Tenham noção do peso e da importância que vocês tem na vida dos homens. Eles, mesmo que digam o contrário, não dão um passo sem a vossa ajuda e colaboração. São mais dependentes de vocês do que vocês deles. Pensem nisso, hajam e quem sabe possamos contribuir para que nas próximas gerações não haja mulheres a queixarem-se dos mesmos males de sempre.

Crónica publicada no jornal A Nação




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9 comentários:

Deina disse...

Esta é sem dúvida a melhor crónica desaforada que já li aqui no teu café margoso. Eu sempre pensei assim, que somos nós mulheres que moldamos os homens (enquanto filhos, sobrinhos, netes, e por aí for), portanto está nas nossa mãos mudarmos o rumo das coisas. Mas reconhecido por um Homen, tem outro valor. Bem haja!

Ivan Santos disse...

...só acrescentaria (sem presunção nenhuma), que @s filh@s também devem ser educados por pais (homens)responsáveis...para que esse "fardo" não fique somente sobre as costas da mulher, mãe, irmã, tia, avó...
acredito que para termos o tal equilíbrio emocional...tanto a figura materna como paterna é crucial.

abraço,
Ivan Santos

JB disse...

Obrigado pelas palavras, Deina.

Naturalmente, Ivan. Mas o texto foi escrito tendo em conta a realidade actual e não, necessariamente, a desejável.

De resto, completamente de acordo, desde que a figura paterna também não sirva para alimentar os preconceitos habituais do tipo "quantas namoradas tens" ou "deixa que a tua irmã lava a loiça"

Abraço

Ivan Santos disse...

...claro que não JB! se for para reforçar os tais estereótipos que fique "calado" hehehehehe...

precisamos é de um pai "exemplo", que não seja só aquele pai "di fim di mês"...mas tbm um pai q saiba cuidar.

Abraço,

deep disse...

Parabéns pelo texto.
Eu, mulher, canso-me de dizer algumas coisas idênticas a muitas mulheres que perpetuam estas diferenças, permitindo que os maridos ou os filhos se sentem, enquanto elas se assumem escravas da casa e de todos os que a habitam.

Ocorrem-me as palavras de Mário de Sá-Carneiro (em O Incesto):"E os homens clamam no seu orgulho revoltante de machos:
- A mulher é um ser inferior... em geral de pouca inteligência; fútil, má e falsa.
Mas decerto. É isso. É isso porque a fizeram assim. Fizeram-na assim os homens, e ela mesma colaborou na sua destruição. As mães são as piores inimigas do seu sexo."

Anónimo disse...

acrescentaria no final do seu texto o seguinte : " sejam mais amigas umas das outras e considerem todas as mulheres vossas irmás."


Kurt

Maria disse...

Excelente post!
Um dia as mulheres hão-de tomar consciência do poder que têm. Em igualdade total com os homens.
Obrigada, João.

Michell Niero disse...

Olá João, como vai?

Belíssima crônica. Sensível, com alma de gente, tratando a mulher com o devido respeito, sem vitimizá-la, pura e simplesmente.

Infelizmente, creio tratar-se de um problema maior, talvez esteja cada vez mais descolado do gênero do indivíduo. Ser submisso, deixar-se submeter, não resistir, ir com a boiada parece ser mais cômodo. A mulher precisa voltar a se reconhecer com a esperança de uma humanidade menos embrutecida e mais sensata.

Posso republicá-la no O Patifúndio, dando-lhe, claro, os devidos créditos?

Um grande abraço.

JB disse...

Obrigado a todos pelas palavras.

Michell, claro que podes publicar, sem problemas! E já agora, coloca este link http://cvblogs.blogspot.com/2012/04/cafe-margoso.html

para os teus leitores votarem no Margoso num concurso de blogues cabo-verdianos!

Abraço