Crónica Desaforada

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Ensaio sobre a Má Língua

1. Eduardo Prado Coelho, eminente pensador português, escreveu um dia: “A má-língua, o escárnio e mal-dizer sobrepõem-se sempre à euforia da descoberta. Coleccionam com mais facilidade as reservas do que são capazes de apreciar os méritos. É aquele tipo de lucidez que não consegue ver em relação a si que o excesso de lucidez é um excesso de estupidez. Alguns cronistas e comentadores fazem disso alimento." Infelizmente, este é um mal de todos os lugares e nenhum país se pode gabar de ter a patente desta característica social. O que acontece em Cabo Verde, e que coloca uma espécie de lente de aumento na arte de falar mal da vida alheia de forma hipócrita e irresponsável, é a nossa pequenez. Existem bairros de S. Paulo, metrópole brasileira, que tem mais população que o arquipélago inteiro e esta matemática faz com que vejamos como autóctone um problema que, no final das contas, é universal. 

2. Mas que custa, custa. Mais a uns do que a outros, naturalmente. Se há um defeito que admito me tem trazido imensos dissabores ao longo da vida é esta permeabilidade absurda que carrego nos ombros relativamente ao que é dito e falado sobre a minha actividade profissional ou vida pessoal. Continuo sem conseguir entender o que motiva essa gente que faz do seu desporto diário favorito carregar as suas energias negativas sobre as costas do vizinho sem que este nenhum mal lhe tenha feito, directa ou indirectamente. Continuo a procurar reflectir e entender sobre esta temática mas é um facto que continua a ser-me difícil conviver com esta realidade. E, como é óbvio também, este é um infortúnio que não sendo intrínseco muito menos é apenas de hoje. Sempre houve, sempre haverá. O que nos faz chegar à conclusão que esta tendência sádica de lançar veneno ao próximo por vias travessas é algo inerente à própria natureza humana. 

3. Chegamos, pois, a este ponto. A má-língua, cuja melhor tradução crioula está resumida no termo riola, é como vimos, humana e universal. Está em todo o lado e sempre existiu. Imperadores e escravos, homens e mulheres, políticos e varredores do lixo, ricos e pobres, afortunados e azarados, competentes e incapazes, altos e baixos, bonitos e feios, professores e alunos, novos e velhos, predestinados e vencidos, pretos e brancos, nobres e plebeus, todos estão sujeitos a ela. Como instrumento ou enquanto vítimas. Daí a terceira característica da má-língua que não podemos negar: ela é completamente transversal na sociedade de cada tempo e de cada cultura, por mais que estas ou aquelas cultivem a harmonia, a paz e o amor entre os homens. Escusado será lembrar, mais ainda neste período de Páscoa, que a mais famosa vítima da má-língua foi o próprio Jesus Cristo que segundo reza a história acabou crucificado porque um dos seus discípulos falou para além da conta. Mas como muito bem sabemos, nem todos terminam com um peso na consciência tal que justifique uma corda no pescoço sendo que, antes pelo contrário, muitos parecem se alimentar de cada patada que dão naqueles que os rodeiam. 

4. Escrevi uma vez, a propósito da montagem da peça “Sapateira Prodigiosa” de Garcia Lorca, que a riola crioula provoca mais danos sociais em Cabo Verde do que o consumo da droga ou do álcool, do que a violência doméstica ou a corrupção administrativa. Muitos destes problemas evocados acabam por estar a jusante da riola e são dela consequência directa ou indirecta. Parece-me fundamental que tenhamos consciência disso. Um dos maiores problemas é a má-lingua chegar de onde menos se espera. De anónimos, estranhos ou pessoas desconhecidas acaba por ser inevitável que mais dia menos dia sejamos vítimas dessa maledicência. O pior é quando vem de conhecidos a quem demos a mão, de educandos a quem transmitimos os nossos conhecimentos da melhor forma que sabemos e podemos, de companheiros de luta com quem partilhamos estrada, de amigos de quem esperamos um ombro em vez de uma garra, ou até de familiares próximos. 

5. Sendo certo que a má língua está em toda a parte, em todo o lado, que pode vir ou atingir qualquer um e que é algo que sempre existiu, também não é menos certo que a crueldade e intensidade com que ela se manifesta em determinados caldos sociais varia substancialmente. No nosso Cabo Verde temos que estar prontos para este embate porque o rácio não é favorável para quem gosta de viver na paz. É um peso que carregamos. Um peso demasiado grande para a nossa dimensão. Há quem diga que a indiferença é a melhor arma para neutralizar os males que a má língua possa causar mas eu não concordo com esta perspectiva. A melhor arma está na educação cívica, na consciencialização colectiva, na criação de um ambiente favorável para que todos possam crescer e evoluir sem favorecimentos escusos ou pouco claros. O que melhor dá luta à má língua é, precisamente, a boa língua. Sim, é de amor que falo. 

Crónica publicada no jornal A Nação

Foto de Dariusz Klimczak




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4 comentários:

zito azevedo disse...

Tenho para mim que a má lingua é a profissão dos imprestáveis e desocupados profissionais...

Kuskas disse...

Joao, tinha saudades desta tua pena afinada. Nao sou de me elogiar, mas sou do tipo de pessoa que nao é capaz de chamar alguem de feio por exemplo, pois a beleza é tao subjectiva que o mais proximo da realidade é eu ser chamada de feia por 90% dos caboverdianos ahahha
De uns tempos para cá é que tenho sentido na pele o poder da má lingua. POr natureza acredito no melhor das pessoas e dou sempre o beneficio da duvida. Por conta disso só agora aos 36 anos de vida vejo quem realmente é meu amigo.

Acho que mais do que nunca deve-se lançar a campanha pela vida aqui em CV. "campanha pela vida: cada um cuida da sua", assim quem sabe estariamos mais evoluidos.

JB disse...

Zito, infelizmente, pode ser a profissão de alguns mas há muitos por aí que são amadores... riolentos nos tempos livres!

Kuskas, é sempre bom ter-te por cá a comentar! Abraço!

Anónimo disse...

O nosso mal, é nos ter convencido que o desenvolvimento dum pais faz-se com infraestruturas físicas, e ponto final.
Mentira.
Descuidamos de tal forma, na ansiedade de mostrar a tal estrada, a tal ponte, o tal polivalente, que esquecemos de preparar, construir e mostrar a mais importante no ser humano, que os últimos tempos demandam : a infraestrutura mental e cívica, ou seja, a preparação das pessoas para, pelo menos saberem como lidar e manter uma estrada ou um polivalente.
Se a culpa é de quem governa ??? Já começo a pensar que sim !!!!