«Os cabo-verdianos serão convocados a sufragar eleitoralmente a mesmíssima elite dirigente e uma geração de políticos onde coabitam, em surdina e coniventemente, bons governantes, verdadeiros estadistas, líderes politicamente hábeis e proficientes, mas também corruptos, caciques, chupeteros, mamadores à sombra da bananeira, bajuladores e oportunistas de ocasião, pseudo intelectuais promíscuos e prostitutos, pessoal ávido de prestar frete e vassalagem política aos suspeitos do costume, e outras tantas crioulas sedentas pela ascensão horizontal. Sim, a política da cintura para baixo. Trazer a poesia e o afecto para a política, por vezes, dá nisso...acaba tudo nos lençóis ou em cima da mesa de um gabinete perto de si.»

Suzano Costa - Politólogo (artigo completo, aqui)



Imagem: "Toxic" de Jean Michel Basquiat





As pessoas acreditam realmente em tudo o que dizem (ou escrevem) durante as campanhas eleitorais?

À melhor resposta, ofereço um café





Parabéns Poeta 
Arménio Vieira, faz hoje 70 anos. Longa vida ao Conde.





«Um aeroporto é um local de muitos abraços porque é também um local de reencontros. Acho que é por isso que gosto de aeroportos. Mas as estações de comboio e os terminais de autocarros também o são. Hoje fiz uma viagem de comboio em frente a uma mulher que se abraçava a si mesma. Quando o comboio chegou à estação de destino percebi que esse autoabraço não era mais do que a ânsia de um outro abraço: o do namorado dela para quem correu mal as portas abriram. Ficaram ali abraçados como dois náufragos à deriva num mar de gente só. Alguns olhavam-nos de soslaio, outros talvez com a nostalgia de abraços que nunca mais voltaram a sê-lo, mas eles não ligavam. É que um abraço também tem esse poder: o de isolar duas pessoas do resto mundo.»

Bagaço Amarelo (aqui)





Hoje, se me permitem, quero entregar o meu dia à poesia. Sim à poesia. Essa mesma poesia que tanto nos falta nestes dias de ódio, intolerância, ruído, golpes baixos e histerismos colectivos. Claro que as campanhas são importantes e a democracia precisa e vive também destes períodos eleitorais. Mas considero que estamos longe de ter a maturidade democrática que tanto por aí se apregoa. Basta ir aos sítios dos nossos jornais na internet, às redes sociais e a alguns blogues crioulos para verificar como a raiva cega destila muito mais que o debate de ideias, que o insulto vence sobre o bom senso, que a polémica sobre um passado, ou sobre vários passados, vence por KO, a discussão sobre o futuro próximo e o de longo prazo. 

Por isso, quero entregar o meu dia à poesia, se me permitem, quero entregar o meu dia à poesia. E estrear uma peça de teatro, o que, vendo bem as coisas, vai dar no mesmo.


Não faltem, se estiverem em Lisboa. 70 anos com o poeta Arménio «Conde» Vieira serão comemorados com Arte, Poesia, Música e Amizade.



«Que nome dar a este espaço de exaltação estética, em que somos convocados para a celebração da palavra, numa ritualização mágica e interactiva, que nos franqueia os domínios do sagrado pela porta profana do fascínio, do prazer e da fruição plásticas? Domina nestas performances o aparato da sua encenação, e não estamos distantes dos rituais da sagração. Mas sem obediência a um qualquer cânone, que não seja o do improviso, da experimentação, da irrupção do novo. Não faltam também, como nos domínios do sagrado, as técnicas, os instrumentos, os objectos, e até a figura do celebrante, embora aqui estejam estiolados, implodidos na sua missão de ordenamento, regulação e controlo, que dão lugar a uma prática da desobediência, da iconoclastia, de inesperado e até de insólito. É uma atmosfera mais mágica que mística, um território mais estético que religioso mas onde não estão totalmente ausentes o espiritual e o sagrado. Os caminhos é que são outros, diversos, inusuais. Enquanto espaço de ritualização ele obedece a um processo de constante reinvenção, recriação. É a isto que chamamos PERFORMANCE POÉTICA, ou POÉTICA PERFORMATIVA, ou ainda ORAL ACTION (à maneira da Action Painting), território complexo e pluridisciplinar de hibridização pós-moderno, onde as linguagens se fundem num processo fecundo de crioulização e mestiçagem.»

Mito Elias



«Fotografia é verdade. 
Cinema é verdade vinte quatro vezes por segundo.»

Jean-Luc Godard - Cineasta francês [na foto, frame de "O Desprezo", de 1963]





«As campanhas eleitorais não servem para nada a não ser para animar os fundamentalistas partidários, contribuir para o aumento da poluição sonora, esbanjar dinheiro e mostrar o lado mais irracional do homem.»

Redy Wilson Lima (aqui)

«Eu fico realmente parvo com a capacidade dos partidos de captação de dinheiros, mas o que mais me espanta é, sobre esse dinheirão todo não recai uma única investigação.»

César Schofield Cardoso (aqui)


Pois é, não diria melhor. Mas o que mais me apetece dizer nesta altura do campeonato é isto: por enquanto que as campanhas eleitorais forem dominadas pelo ódio e pela irracionalidade, não me venham falar de maturidade democrática. Cada um vê o que quer e como quer. Para este peditório, mal por mal, prefiro continuar a fazer teatro, que é como quem diz, olhar para o meu umbigo e por intermédio da minha arte, para o umbigo da humanidade (se me permitem a imodéstia).






Fotografias de ensaio da peça "Closer", encenação minha no âmbito do mestrado, da autoria de Jorge Jo Martins, fotógrafo cabo-verdiano de enorme talento. Dá água na boca, não dá?




Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade in A Rosa do Povo


[Que poema justo para os tempos que correm! Que palavras certeiras!]





Amor à terra (PAICV)
Nós ou o caos (MPD)
Venham a nós os pobrezinhos (UCID)
S. Vicente ultrajado (PTS)
Amém (PSD)


Um grande e sonoro deja-vu. Um prolongado e silencioso bocejo. Seja como for, em tempo de campanha tudo vale. Vale tudo. O circo está nas ruas, divirtam-se. 





«A invés de se preocupar com questões absolutamente menores (como se as pessoas têm bandeiras dos partidos em casa), a CNE-CV deveria prestar atenção à poluição sonora a que somos sujeitos durante a campanha, com carros de som a debitarem ruído horas seguidas. A campanha não se pode sobrepor ao meu direito a, na privacdade da minha casa, não ser incomodado.»

Nuno Andrade Ferreira - jornalista


Comentário Cafeano: se em dias normais a passagem de carros anunciantes é o pão nosso de cada dia, em tempo de campanha vai ser com certeza o pão que o Diabo amassou. Ninguém merece. Seria a primeira coisa a proibir em tempo de campanha: carros sonoros nem pensar. Só ouve quem quer e pronto, assunto resolvido. Heróis são todos que aguentam esse inferno. Hoje é o dia deles. 



O cartaz da peça final de mestrado. Está quase...








A Pina Baush conseguiu em vida algo que muitos poucos artistas almejaram: foi uma criadora de ícones. As muitas imagens - espantosas metáforas corporais e imagéticas - que ela criou em cada um dos seus espectáculos são, e serão, potentes sinais do que foi, e é, a dança (e o mundo) contemporânea do século XX e XXI.

Daqui um mês estreia um filme sobre a vida dela, realizado pelo não menos conceituado Win Wenders, e já está marcada uma ida ao cinema na minha agenda. Vejam o trailler, aqui, e digam lá se isto não nos deixa água na boca.

Cada vez que sou confrontado com um movimento criado por Pina Baush mais certo fico de que é mesmo a arte e a criação artística que dá beleza e poesia ao mundo. Hoje em dia, cada vez mais fundamental. Vital. Sem isto, somos meros animais em precoces e vazias lutas por diferentes poderes.






A Universidade de Santiago (Cabo Verde) organiza a 18 e 19 de Janeiro a II Conferência Anual Amílcar Cabral / Paulo Freire, dedicada ao tema "Repensar o Teatro Popular / Comunitário". Para além das comunicações de vários especialistas, o programa inclui espectáculos de teatro e dança, exibição de filmes e workshops de teatro.

Entre os oradores convidados estão Francisco Fragoso (Cabo Verde / Portugal), Reinaldo Santana (Brasil), Pedro Martins (Cabo Verde), Vieira Lopes (Cabo Verde) e Narciso Freire (Cabo Verde). Actuarão ao longo dos dois dias o Coral e a Banda da Universidade de Santiago, o grupo Raiz di Polon (dança) e o Grupo OTACA, da cidade de Assomada, ilha de Santiago.

Os workshops de teatro decorrem nas instalações da Universidade, em várias escolas secundárias da ilha e ainda no Centro Cultural Brasileiro, assumindo como objectivo criar "seis grupos de teatro que vão poder desenvolver o teatro nas escolas e comunidades e participar num Festival Internacional de Teatro Popular nas Cidades de Tarrafal e Assomada em finais de Agosto de 2011".

Grande iniciativa que esperemos dê os frutos que o teatro na ilha de Santiago há tanto anseia. Só lamento não poder participar de alguma forma e rever grandes amigos que tenho por lá. Parabéns ao grupos envolvidos e à Universidade de Santiago.





Um debate histórico entre os líderes dos 4 partidos políticos cabo-verdianos. Temas: economia, emprego, energia, educação, saúde, regionalização, segurança, competitividade. Sobre Cultura? Zero!

Quem decide os temas? Os jornalistas? As redacções? As administrações? Os jornalistas em acordo prévio com os partidos? Quem? Seja quem for, não venham dizer que a Cultura é alma do povo, que a identidade do cabo-verdiano é moldada pela sua Cultura, que é com a Cultura que Cabo Verde chega ao mundo, e mais isto e mais aquilo.

Pelo que se viu, a importância que se dá à Cultura é um redondo e desolador espaço vazio.





Ouvindo o primeiro debate entre os líderes partidários na RCV, dei com esta citação, escrita, imagine-se, no século XIX:

«Ser governado significa ser observado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, cercado, doutrinado, admoestado, controlado, avaliado, censurado, comandado; e por criaturas que para isso não tem o direito, nem a sabedoria, nem a virtude... 

Ser governado significa que todo movimento, operação ou transação que realizamos é anotada, registrada, catalogado em censos, taxada, selada, avaliada monetariamente, patenteada, licenciada, autorizada, recomendada ou desaconselhada, frustrada, reformada, endireitada, corrigida. 

Submeter-se ao governo significa consentir em ser tributado, treinado, redimido, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; tudo isso em nome da utilidade pública e do bem comum. 

Então, ao primeiro sinal de resistência, à primeira palavra de protesto, somos reprimidos, multados, desprezados, humilhados, perseguidos, empurrados, espancados, garroteados, aprisionados, fuzilados, metralhados, julgados, sentenciados, deportados, sacrificados, vendidos, traídos e, para completar, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados e desonrados. Isso é o governo, essa é a sua justiça e sua moralidade!

Oh personalidade humana! Como pudeste te curvar à tamanha sujeição durante sessenta séculos?»

Joseph Proudhon - filósofo e economista francês





Perseguição & Liberdade

1. De repente, somos todos vítimas de cabalas, perseguições, censuras. Anda a ser espalhado pelas redes sociais que até os blogues portugueses "denunciam" a "pouca-vergonha" e a "perseguição do regime" à imprensa livre, por causa das multas ao semanário Já e ao Liberal. Nunca li o tal semanário, mas quanto ao Liberal, é assumidamente um espaço que toma opção política-partidária, com o seu já tradicional "faltam não sei quantos dias para a mudança." Acho bem que tomem posição. Acho mal que os multem se o posicionamento é assumido. 

2. Nos EUA a imprensa toma partido directamente por candidatos sem pestanejar. Há jornais de direita e de esquerda (enquadrados estes direita e esquerda na realidade norte-americana). Há canais de televisão a tomar posição e a fazer campanha. É a coisa mais normal do mundo. Aqui algo está mal, porque há lobos disfarçados de cordeiros e lobos que querem ser cordeiros mas nem sequer lhes vestem a pele. E há uma lei absurda que diz que todos os lobos, mesmo não o sendo, tem que ser cordeiros senão pimba! são multados. 

3. Essa obrigação de "isenção" só deveria ser obrigatória para os órgãos de informação públicos. Aqui sim, a isenção, o profissionalismo, o tratamento igualitário de candidaturas, de tempos de antena, de destaque nos noticiários deveria ser a pedra de toque porque, mal ou bem, aquelas estruturas são pagas e existem graças ao dinheiro dos contribuintes. Aqui sim, deveria quem de direito estar atento e punir lá onde se desse o caso de haver punição.

4. Mas esta vitimização dos ditos órgãos de comunicação social "perseguidos" é igualmente ridícula. Primeiro, porque não são isentos nem nunca o quiserem ser, por opção própria e direito que lhes assiste (ou devia assistir) de assumir posições políticas. Depois, porque segundo li e é público, os jornais A Nação e A Semana, foram igualmente multados pela CNE. Mais casos de perseguição política? Acham mesmo que sim?

5. Este tipo de filtros, onde se deixa propositadamente de fora a informação que convém deixar e se tenta, deliberadamente, enganar quem lê, é que me irrita um bocado. Somos todos tratados como atrasados mentais sem qualquer hesitação. Coloca-se a discussão política ao nível da mais rasteira discussão futebolística, onde o defesa esquerdo da minha equipa pode ser perneta, não dar um pontapé na bola de jeito, um tipo que devia ter escolhido outra profissão, mas que será sempre melhor do que o defesa esquerdo dessa tua outra equipa. Porquê? Porque uma é minha e outra é tua. E não se discute mais nada!

6. O que está mal não são as multas, é a Lei Eleitoral. Mas essa, se bem me lembro, foi votada por maioria de dois terços na Assembleia Nacional. E este caso só vem mostrar mais uma vez que toda - repito - toda a informação e contra-informação que nos chega a casa pelos diferentes meios de comunicação social, blogues e redes sociais, principalmente neste período eleitoral, deve passar por um outro filtro, esse pessoal e intransmissível, chamado análise crítica e atenta. A esta possibilidade chama-se, isso sim, liberdade. 

E agora, venham daí esses debates!






«Podeis reconhecer um mau crítico porque ele começa por falar do poeta e não do poema.»

Ezra Pound - Poeta norte-americano







«É isto que tem caracterizado a vida política em CV: ódio! Muito mais do que a salutar competição política. Aliás, falar em competição política em CV é ser politicamente correcto. As ideias e os projectos para o país de cada um dos dois principais partidos pouco ou nada interessam. O que interessa é que José Maria Neves, Carlos Veiga, Filú, Jorge Santos, este e aquele, fizeram isto ou aquilo, são assim ou assado e têm muito ou pouco. Até a nomeação do presidente do país para o 2º melhor dirigente político em África serve para destilar ódios. Poderíamos dizer que é também a inveja, sentimento normal num meio tão pequeno como o nosso, mas ela, a inveja,  já vem incutida no ódio. Parece que a ideia geral é de que quem tem maior legitimidade para estar no poder, quem merece governar, é quem for mais honrado. Não se trata da competição política mas sim de uma competição pelo reconhecimento da honradez individual. E ao mesmo tempo que se auto-promove as virtudes vai-se proclamando os defeitos de carácter do adversário político. E o pior de tudo é que os jovens, que supostamente deveriam trazer maior combatividade ideológica à luta política, não estão a conseguir mudar o rumo deste jogo.»

Edy Sanches (aqui)


Comentário Margoso: vem em boa hora este texto do Edy Sanches, numa semana em que este estabelecimento recebeu um sem número de comentários insultuosos de todo o tipo, contra mim e outros aqui referenciados, de todas as cores, sempre sob a capa cobarde do anonimato. 

Tem razão também o citado quando faz referência à menos valia de jovens que se limitam a ser uma espécie de cassete formatada à partida pelas máquinas de propaganda que já estão no terreno numa guerra onde parece valer tudo, até arrancar olhos. Porque é disso mesmo que se trata, propaganda. Onde está o debate de ideias, onde estão as ideologias, a esquerda e a direita, a discussão de valores, as propostas, os projectos? Onde estão as diferentes visões para o Cabo Verde de amanhã?

Até de onde menos se espera. Não deixa de me fazer alguma impressão que gente tão inteligente e certamente bem intencionada se deixe dominar por um discurso sem ideias novas, apenas acusações, que em vez de trazer uma esperada lufada de ar fresco, parece apenas ser capaz de olhar para o lado que lhe interessa (e ao líder que, legitimamente, defende). Nunca é demais lembrar que este espaço plural que é a blogosfera é de todos. Parece que agora, para serem válidos, os blogues têm que ser verdes ou amarelos. Têm que estar em campanha eleitoral. Mais do que tomar partido, tem que ser partido. Tem que se curvar perante um ou outro, os tais animais políticos do arquipélago.

Sem desprimor para os muitos amigos que tenho a defender os seus ideais nesta campanha eleitoral, o que sobressai quase sempre nestes dias é um destilar de um ódio, um radicalismo, uma linguagem vazia e panfletária. Mais do que gritos histéricos e irracionais, precisam-se debates abertos, mais do que acusações de compras de votos e fraudes pré.anunciadas, exige-se maturidade democrática. O país agradece. 





Sem rodeios, este período pré-eleitoral trouxe-nos duas boas notícias, entre um tsunami de lamaçal, frases feitas, promessas, caras de pau, velhos do Restelo, pára-quedistas, mundos cor-de-rosa, paraísos e infernos (e preparem-se porque a procissão apenas vai no adro):

1. A entrada de pessoas ligadas à cultura para as listas de deputados é uma boa notícia. Assim por alto, estou a lembrar-me de Mário Lúcio Sousa (PAICV), Abraão Vicente e Leão Lopes (MpD). Sinceramente, considero que, seja qual for o resultado destas eleições, pessoas como estas podem trazer mais valias substanciais a um Parlamento marcado pelos pseudo-debates medíocres e tantas vezes pouco dignos do povo que é suposto representar. Resta saber se, uma vez terminadas as eleições, estas pessoas irão mesmo assumir funções de deputados da Nação, enriquecendo propostas e futuras discussões numa próxima legislatura ou se, como tantas vezes acontece, apenas estão nas listas para "dar a cara" e uma vez terminado o pleito eleitoral, solicitam a suspensão do mandato e vão à sua vida porque tem coisas mais interessantes em que gastar o seu tempo. 

2. O debate entre José Maria Neves e Carlos Veiga, a ser transmitido no próximo dia 18 de Janeiro, em simultâneo pela televisão e rádio públicas (e esperemos que pela Internet), é uma outra excelente notícia e uma notória prova de maturidade democrática. Estarão frente-a-frente as duas figuras políticas mais marcantes e influentes da política cabo-verdiana dos últimos 20 anos, com duas visões substancialmente diferentes do país que temos hoje e do país que queremos ter amanhã. Só espero que este debate não se transforme num desenrolar dos lugares comuns a que já estamos habituados e que haja inteligência para entender que as pessoas quem assistirão ao debate não são nem atrasadas mentais nem obtusas ao ponto de ver o mundo apenas a duas cores.

Este post é ilustrado com uma das montagens do Jornal do Hiena, que tanta falta faz à blogosfera cabo-verdiana neste período de agitação eleitoral!




Malangatana
(1936 - 2011)


[Notícia completa, aqui]






A Lição, de Ionesco
Direcção de Sara Estrela

Cidade da Praia: dia 6 e 7 na biblioteca nacional
Cidade do Mindelo: dia 8 e 9 na M_EIA
Sempre às 21h

A não perder!





Um ciclo de debates prepara-se na cidade do Mindelo. Pertinente. Muito pertinente. Organizados pela investigadora Rita Lobo, este ciclo de encontros sobre o panorama cultural do Mindelo, intitulado genericamente «MINDELO - temos cultura?» terá o seu começo já no início de Janeiro.

«A cidade de Mindelo está em constante transformação. Nos últimos anos têm surgido novos espaços e agentes culturais e o desenvolvimento do ensino superior povoou a cidade com estudantes universitários. Para uns, a identidade cultural da cidade tem-se reforçado enquanto que, para outros, a cidade está a definhar tanto do ponto de vista económico como cultural. Mindelo ainda é capital da cultura ou a cidade perdeu o seu mais importante capital?»

Por aqui vamos dando conta do seguimento dos debates e contribuir para a sua divulgação, numa temática que pensamos ser crucial para o futuro da cidade do Mindelo. Porque também podemos dizer que já chega desta história de chorar sobre o leite derramado. O tempo é de agir. 2011 é o ano de acção. 

Parabéns à iniciativa.





Se já estou morto e não sei, 
a quem devo perguntar as horas?*

À melhor resposta, ofereço um café




*[pergunta retirada do Livro das Perguntas, de Pablo Neruda, depois de rever o filme Sexto Sentido]





No passado dia 27 de Dezembro o Café Margoso comemorou o seu terceiro aniversário. Com a visita das minhas duas filhas, devo confessar que essa foi uma efeméride que me passou completamente ao lado. E a não comemoração de mais um aniversário do blogue talvez seja também corolário de um ano menos intenso neste estabelecimento.

Ainda assim, quinhentos e vinte e nove post's depois, eis mais um novo ano para o Margoso, com visual renovado e o espírito de sempre. Este continuará a ser um espaço plural, aberto, defensor da liberdade, da cultura, de opinião e das mais diversas formas de criação artística. As principais rubricas serão mantidas - declarações, perguntas cafeanas, cafeína, crónicas desaforadas - e outras novas serão criadas. A propósito, aceitam-se sugestões da clientela.

Depois de três anos de vida, 2863 artigos, 18.397 comentários e quase 250.000 mil visitas é hora de dizer a todos os clientes, muito obrigado!

A gerência

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