Declaração Cafeana

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Eu sei, tenho quase essa obrigação de ser uma voz da sociedade civil, essa entidade que quer dizer tudo e na maior parte dos casos muito pouco significa na prática, tenho que questionar, debater, falar, ou seja, assumir minha natureza de blogueiro atrevido, um pseudo qualquer coisa não assumido, mesmo que sujeito a todos os impropérios de uma nação muito pouco habituada a olhar para si própria com uma visão crítica e desligada de questiúnculas partidárias. 

Eu entendo muito bem o desabafo do Paulino Dias, num desassombrado texto publicado no seu blogue, assim como entendo o que me diz Mário Lúcio Sousa quando afirmou ser incapaz de dizer mal do próprio país, pelo menos nas entrevistas, olhando para o que foi feito e construído, contra todas as adversidades. Entendo o César Schofield, citado hoje duplamente por razões de identificação e amizade, quando ele anuncia essa necessidade de ficar quieto a observar, não ser apenas o taliban que todos esperam dele. Acontece um derrame de óleo provocado pelos chineses na Lajinha? Vamos lá esperar pelo que dizem os blogueiros, se eles falam e esperneiam, nós não precisamos de mugir nem tugir. 

Entendo o Redy Wilson Lima, que com a sua escrita frontal, tem essa incómoda mania de mandar tudo e todos àquela parte, faz ele muito bem, porque quando o faz, está a fazer o que centenas, milhares de outras pessoas pensam mas são incapazes de dizer, por cobardia, inércia, comodismo ou sentido de oportunidade. Entendo o Tchalé, que se voltou para a escrita, por vezes deve-se sentir a pregar no deserto, e tem alturas em que a gente se cansa. Somos os loucos da aldeia. Aqueles tipos tolerados porque dão um colorido ao local, justificam a doce e inócua liberdade de expressão, contribuem para a subida do país nos rankings da liberdade de imprensa. Bestial.

Este olhar de fora para dentro tem muito que se lhe diga, acreditem. Mas também todas estas mudanças - de clima, de rotinas, de amores, de ódios, de escritores favoritos, de hábitos musicais, de métodos de estudo, de avaliação de perspectivas, de análises interiores,  de pele, de cuecas, de alimentos, de fusos horários, de mestres, de patrões, de temáticas, de palcos, de compromissos financeiros impossíveis de satisfazer, de prioridades - todas essas mudanças, dizia, abalam qualquer um. 

O Café Margoso sempre esteve mesmo não estando, como me costuma dizer uma pessoa que me é especial. E vai continuar. Uns dias mais voltado para a poesia, para as coisas da vida, num outro dia, com crítica, mais ou menos directa, até porque vem aí mais uma longuíssima campanha eleitoral e assuntos não vão, certamente, faltar. Por agora, deixem-me espreguiçar nesta nova casa, mais luminosa, mais atrevida, não sei se mais bonita que aquela que tinha antes, mas um espaço que não deixa de ser o vosso lugar, o nosso lugar de encontro. De encontros. Um espaço, sobretudo, de e com vida. 



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10 comentários:

zito azevedo disse...

Utilizo o espaço para, apenas, saudar a minha primeira visão de uma púbis cafeana...E eu a pensar que já tinha visto tudo...Razão tinha o outro que dizia que "ousado é o que ousa ousar"...Ousemos, portanto!
P.S. Gosto da nova luz!

Anónimo disse...

Drama Drama drama...mas está muito mais binitin este teu espaço! sim senhor! mas inauguraste com demasiado drama...és assim!?

MC

Anónimo disse...

O Zito tem absoluta razão com aquela da púbis.

Sai poema então:

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada a langorosa.

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...

Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...

(Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde).

a) RB

Deina disse...

No geral, gosto da nova imagem do blog. Mas tenho um reparo a fazer. Adoro a côr usada no fundo mas acho que dificulta a leitura.
Claro que esta é uma mera opinião.
De resto já estava com saudades...

JB disse...

Qual é o mal do drama? Sou um homem de teatro! Viva o drama, a poesia e as (outras) coisas boas da vida!

Felina disse...

Ficou gira a nova casa... e o cheirinho a café continua...

Amilcar Barbosa disse...

Ola João, tua "ausência presente" foi notada por todos. Gostei da nova disposição das mesas de café. Continua.

Anónimo disse...

Bela graxa! Os outros devem estar a esfregar as mãos eheheh. Contribui certamente para aumentar a coesão do grupo do auto-proclamados iluminados da praça. Salvo vezes que carregam equilibrio vos vejo a dar a máxima "se não apareça alguem que me (nos)gabe, gabo-me (gabemo-nos)"

Há inúmeras pessoas crioulas a bater de sol a sol sem se vangloriar, "for Your / our right" (emprestando Bob Marley)!!!
Narcisos de hoje!!!

Pedro Lima - R. Bote - Em R.Janeiro

JB disse...

Desculpa lá mas essa é tipica: dizer bem = graxa; dizer mal = inveja. Por essas e por outras é que o nosso espírito crítico está onde está. Ou seja, não existe.

Que pena que o iluminado Pedro Lima, do alto do Cristo Redentor, não abra um blogue para nos ensinar algumas coisas mais.

Entretanto, obrigado pela visita, e volta sempre.

Anónimo disse...

Li a entrevista que fizeste ao Mário Lúcio, e até que enfim alguém diz algo interessante no que toca a olhar as outras belezas que nós temos e não só os problemas, as dificuldades, a pobreza. Elas existem, estamos conscientes disso, e precisamos de outras mensagens mas não daquelas do Virgílio Brandão que diz que temos um "Estado falhado" etc. Aliás, tive a oportunidade de interrogar o V. Barros, perguntando-o há quanto tempo ele não põe os pés em Cabo Verde, e ele não quis responder. Portanto, cabo-verdianos que ficam lá fora (nada contra), mas que não vêm para cá ver a realidade e ficam na diáspora a dizer que temos um "Estado falhado", sinceramente. Isso tem um nome e já o disse ao VB: desonestidade intelectual!
Portanto, o Mário Lúcio tem razão no que disse em relação a Cabo Verde.
João Semana.