Dôs com Alex Silva

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Conversa com o artista plástico Alex da Silva, que depois de uma carreira na Holanda, resolver investir numa galeria de arte, a Zero Point Art, que é um oásis da cidade do Mindelo. Curiosamente, ou talvez não, o seu trabalho é muito mais reconhecido fora do que dentro do seu próprio país.

Aqui há tempos, houve um colega teu que veio a terreiro afirmar que Cabo Verde não tinha um pensamento voltado para a Arte. Foi logo trucidado, mas ao que parece o tempo veio dar-lhe uma certa razão. Do tempo que passaste por cá depois de tantos anos fora, qual é a tua percepção? Há um pensamento artístico sedimentado, em Cabo Verde?

Alex da Silva: Concordo plenamente com quem falou isso e elogio-lhe a coragem. Realmente, Cabo Verde não tem um pensamento voltado para a arte. Por uma razão muito simples: ainda não há no país trabalho suficiente que possa comprovar a existência desse tal pensamento. Da minha experiência pude concluir que em Cabo Verde não se aposta na cultura, e quando aparece alguém com uma aposta mais séria, as pessoas não aderem. Por outro lado, as pessoas mais cultas não tem poder económico para adquirir obras de arte. É paradoxal. Até porque sem esse poder económico não se pode adquirir obras, e dessa forma também não se pode estimular os artistas a investir e a pensar mais sobre a sua própria arte.

Mas como é que se resolve isso? Nós ficamos aqui a pensar no que é que terá surgido primeiro, se a galinha se ovo e não saímos do lugar. Na tua percepção o que é preciso começar a fazer para conseguir ultrapassar esse problema, que me parece ser sobretudo um problema de mentalidade, que são os mais difíceis de alterar...

Penso que na nossa geração esse problema não vai ser resolvido, para ser sincero. E perante a comunidade criativa considero que o mais importante é continuar a ter um espírito critico e trabalhar sempre. A única resposta que podemos dar enquanto artistas é trabalhando. É fornecendo material para que as gerações futuras possam ter elas algumas referências.

E existe, esse espírito crítico, dentro da própria comunidade artística?

Não, porque não há espírito colectivo. Há um forte individualismo, que acaba por estragar qualquer movimento artístico que possa estar a começar.

Dentro da área das artes plásticas, como é que se explica que a cidade do Mindelo não tenha ainda apostado na produção de uma grande bienal de artes plásticas, por exemplo? Porque é que isso nunca foi feito?

Em primeiro lugar porque não há artistas cabo-verdianos que o justifique, com percurso e material suficiente para mostrar. Além de que são poucos aqueles que se assumem verdadeiramente como artistas. Geralmente, têm outro trabalho paralelo e o processo criativo é considerado um hobby. Não é assumido. E falo por experiência própria, como galerista, onde fiz um levantamento dos pintores existentes e realmente, aqueles que tem trabalho podem ser contados pelos dedos de uma mão. Porque ter dez quadros não faz de ti um pintor ou um artista. Agora, em termos de espaço penso que Mindelo reúne todas as condições para concretizar uma bienal de arte. Um outro problema latente é o facto de ainda não temos uma economia cultural em Cabo Verde. Deveria haver uma intenção real a nível privado, político e governamental de estabelecer uma relação mais próxima com a cultura. A cultura, a economia, o património etc. deveriam ter uma ligação muito mais estreita. A relação entre o mundo empresarial e a cultura é um sintoma de desenvolvimento de um país. Essa relação provoca também uma dinâmica urbana e vivencial, tornando as cidades mais atractivas a vários níveis. Uma Bienal de arte no Mindelo tornaria a cidade mais atractiva e iria estimular um maior turismo cultural.

Costuma-se dizer que Cabo Verde é um lugar onde os artistas nascem com demasiada facilidade por via da comunicação social...

A comunicação social tem uma grande responsabilidade no actual estado de coisas. Não sabem diferenciar, não há especialização, acabam por gerar mal-entendidos. Vê-se um miúdo a tocar e temos a comunicação social a dizer que é dos melhores guitarristas de Cabo Verde. Não há pessoas formadas nessa área cultural. Especializadas nessa área. Um jornalista que muitas vezes está a entrevistar um jogador de futebol é o mesmo jornalista que vai entrevistar um artista. Acaba por ser natural que ele tenha as suas limitações.

Isso passa pela falta de formação em jornalismo cultural...

Exactamente. Ou seja, existem uma série de elementos que são importantes e não são considerados hoje. Não basta haver produção artística. Não basta que esta tenha qualidade. Tem que existir todo um acompanhamento. Na comunicação social tem que haver gente especializada. Tem que haver ao mesmo tempo curadores, tem que haver críticos, quer dizer, faltam todos estes elementos que poderiam contribuir para que pudesse haver em Cabo Verde um pensamento voltado para a arte.

O facto é que vistas as coisas, não temos nada disso. Nada. Há uma educação artística que se está a tentar implementar agora. Os primeiros licenciados de Educação Artística formados em Cabo Verde vão aparecer daqui a dois anos. Está uma reforma curricular em curso que contempla a existência da educação artística mas ninguém sabe ainda quais serão os professores capacitados para dar essas aulas. Se falarmos então ao nível de curadores, de jornalistas especializados ou critica artística, ainda estamos muito mais longe das necessidades que estás a referir. Por onde devemos começar? O que pensa uma pessoa como tu, que fez toda a sua formação e percurso artístico num país muito mais avançado a esse nível? Voltas ao teu pais, cheio de sonhos e de projectos e o que se passa na tua cabeça quando chegas aqui e dás de caras com esta realidade?

É um sentimento ambíguo. Tem o aspecto positivo e um outro negativo. No sentido positivo, dá para sentir que existe alguma preocupação com estas questões. Há sempre pessoas a tentar fazer alguma coisa. A tentar, pelo menos, que se acorde a sociedade para estas preocupações. Fiquei muito contente quando verifiquei que no M-EIA estava o Irineu Rocha a dar aulas, uma pessoa preparada, conheço-o bem, estudamos na mesma faculdade, e é muito bom quando vemos que Cabo Verde consegue recrutar pessoas como ele. Isso já é um ponto de partida. Só que chegamos numa fase em que isso só não é suficiente. Já tem que ser algo mais pensado, mais sustentado. O problema que enfrentamos hoje tem que ser analisado como deve de ser. Temos que chamar pessoas capazes, vivemos num mundo global, há por aí muita gente que com a sua experiencia pode dar a sua contribuição nesta estruturação.

O que pode acontecer, dado o actual estado de coisas, é a desistência das pessoas que resolveram regressar...

Exactamente. O que é ainda mais doloroso. Mas eu cultivo um certo optimismo. Até porque me considero um exemplo desse optimismo ao abrir uma galeria de arte num país como Cabo Verde. Considero que com isso estou a dar o meu contributo. Mesmo que haja muita desilusão é sempre bom tentar. É um gesto de amor.

Foi essa amor pelo Mindelo e por Cabo Verde que motivou esse teu grande investimento pessoal no que é hoje a galeria Zero Point Art?

Para mim foi um pensamento muito simples: vou tentar dar aquilo que eu não tive a oportunidade de ter. E neste momento, vivo como pintor, exponho no mundo inteiro e, no entanto, no meu país, não tive qualquer tipo de apoio. É estranho. Não tive qualquer contacto mais directo com outros artistas. Tenho falado com o Manuel Figueira, um dos nossos pioneiros, mas não foram criadas oportunidades de partilha, algum workshop em conjunto, visitas aos ateliers dos colegas, nada disso acontece ou é motivado. É a falta do tal espírito colectivo.

Bem, se houve artistas que tiveram esse espírito colectivo bem enraizado foram precisamente esses artistas da geração do Manuel Figueira, que vieram para Cabo Verde no pós-independência e formaram a cooperativa Resistência, que depois havia de gerar o Centro Nacional de Artesanato. Mas depois o que aconteceu não ajudou a cultivar esse espírito colectivo, antes pelo contrário...

Pronto, olha uma justificação. Eles tinham esse espírito, e por causa disso foram praticamente ostracizados e muito maltratados. Quando o meu interesse pela pintura apareceu, ainda cheguei a fazer um curso de pintura no Centro Nacional de Artesanato, e nessa época já não se sentia essa vontade de trabalhar por objectivos comuns. Já estávamos numa fase de transição.

Qual é a tua percepção sobre a forma como a cidade recebeu a existência da galeria Zero Point, alguns meses depois da sua inauguração?

Em termos de cidade, as expressões vão desde o “muito fixe” ao “oh que bonito”, que podem ser simpáticas e bem intencionadas mas não te levam a nenhum lugar. O objectivo do espaço não foi entendido. Outro ponto é que mesmo quando contactas artistas para expor se nota alguma dificuldade em respeitar contratos com a galeria ou mesmo a necessidade de os fazer. Há pouco profissionalismo. É preciso as pessoas entenderem que um artista é um profissional tão responsável como qualquer outro.

Mas continuamos com essa mentalidade que nos diz serem os artistas uns tipos mais ou menos extravagantes, uns parasitas que tem como único objectivo viver à custa do Estado. Como é que podemos combater esse preconceito e essa necessidade de o Estado investir muito mais nessa área do que aquilo que investe actualmente?

Como é que o Estado vai investir nessa área? É preciso filtrar em Cabo Verde o que realmente existe de melhor, em termos conceptuais, e depois fazer as coisas com outro tipo de preparação. O mais básico é começar na educação, na escola, como é lógico.

Como lutar contra esse estado de coisas?

Tento fazer a minha parte. O que acho interessante é que eu, apesar de ser um artista convidado para expor em todo o mundo e para dar workshops, não sou convidado para fazer nada na minha própria cidade. Nem para dar aulas, nem para participar em encontros de educação artística, por exemplo. Tempo e vontade eu tenho, mas ao que parece essa contribuição não é bem vista.

Mas se estás disponível porque é que as pessoas do teu país não estão a aproveitar as tuas potencialidades?

É muito simples: santos da casa não fazem milagres.

É o chamado síndrome de Cesária Évora..

(Risos) É isso mesmo. O povo cabo-verdiano, em geral, e o Governo, em particular, não sabem acarinhar o que eles tem de melhor. Não sei se é algum complexo de colonizado, mas o certo é que para alguém ser reconhecido cá dentro tem que ser premiado lá fora primeiro. Podíamos evitar isso de uma forma simples, somos todos pessoas inteligentes para perceber as condições e as dificuldades que o país tem, não estamos a exigir além da medida nem a pedir a Lua, e nem esperamos muito. Mas pelo menos que facilitem o nosso trabalho. Que conheçam o teu processo de trabalho, que se informem sobre o que tens feito para depois irem ao teu encontro e te perguntarem: “o que é que precisas para continuar?” Já era um bom começo.

Publicado no jornal A Nação


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5 comentários:

Amílcar Tavares disse...

Um amigão e colega do liceu! Desejo-lhe a melhor sorte do mundo!

Paulino Dias disse...

Olá JB,

Gostei imenso da entrevista, desejo muitos sucessos ao Alex por cá também.

Outra coisa, depois da tua recomendação aqui no café, assim que passei em São Vicente fui logo conhecer o Zero Point Art. Man, estupendo! O contacto com a galeria e as obras de arte, a decoração & iluminação, o ambiente intimista que nos convida ora ao silêncio ora à fala sussurrada ao pé do ouvido, o vinho (excelente, a experiência com o vinho australiano - fiquei de ir lá numa próxima viagem provar um vinho chileno de que me falou a Sra. muito simpática, mãe do Alex, esqueci-me o nome dela, sorry...).

Dê os meus parabéns ao Alex. Quando abrirá um espaço similar aqui na Praia também, hein?

Um abraço,

JB disse...

Estamos à espera que abra um «Café Margoso» na Praia, oh Paulino!

Anónimo disse...

Concordo plenamente com o Xand quando ele fala sobra a massificação do termo artista. Em Cabo Verde, qualquer um é artista, muito por culpa dos média, e da fraca cultura artistica dos cabo-verdianos. Até onde eu sei, artista é aquele que produz arte. Mas o problema está exactamente no entender da dimensão da palavra ARTE. Ex: Féfa de Clarinda faz musica (ker dizer, barulho), mas para a maioria dos cabo-verdianos ele é um artista. Face a isso, o termo artista soa ridículo para caracterizar uma Cesária Évora, um Sting, um Michael Jackson, um Bob Marley, James Blunt, Ayo, Norah Jones, etc e malagueta... o termo artista está tão banalisado que muitas vezes também é utilizado para caracterizar alguns gestores e políticos corruptos.

Paulino Dias disse...

A ideia ainda está viva, JB, ainda está viva... Havemos de continuar a conversa num próximo encontro, assim que passar o Mindelact (do teu lado) e fechar alguns projectos em andamento (do meu lado)...

Um abraço, votos de muitos sucessos neste novo Setembro teatral!

Abr,
Paulino