Um crime exemplar num café ordinário


Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:

– O açúcar ainda não está derretido. 

Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.


Max Aub in "Crimes Exemplares"






Que legenda, para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café






Num canto discreto da última edição do Jornal A Semana, vem um relato arrepiante que é demonstrativo do estado actual da justiça cabo-verdiana e me fez pensar se o que eu defendi de forma radical aqui e aqui, não terá mais razão de ser do que poderia parecer à primeira vista.

Uma menina de 12 anos foi violentamente agredida e quase violada dentro de sua própria casa, por um tipo, servente de obra, que estudou prévia e minuciosamente todos os seus passos e hábitos antes de praticar o acto hediondo. Segundo o relato do semanário, o indivíduo "foi à casa da menina pedir um balde que tinha esquecido para a obra. Aproveitou a ocasião e forçou a porta, ameaçou a menina com uma faca, obrigou-a a despir-se, atirou-a para cima da cama e desferiu-lhe um golpe profundo na traqueia, enquanto a tentava violar." O acto, violação e assassinato só não foi consumado porque alguém bateu à porta, acudindo aos gritos da menina, que se consegue soltar e fechar na casa de banho, a esvair-se em sangue.

Passados alguns meses, esta criança e este agressor pode cruzar-se um com o outro na rua, ou quem sabe de novo na casa da primeira, porque este último foi solto pela justiça cabo-verdiana. Não é espantoso? Não é horrendo? A polícia fez o seu trabalho, prendeu o indivíduo. O Ministério Público fez o seu trabalho, acusou-o de tentativa de assassinato e de agressão sexual agravada. O senhor doutor juiz Antero Varela conseguiu sacar uma fantástica pena suspensa de 4 anos, por o considerar culpado de "tentativa de agressão"! Tentativa, reparem. O facto de ter premeditado e preparado a agressão, o facto de o crime ter tido um cunho sexual, o facto de uma criança só não ter morrido por acaso, não serviu para nada.

O facto de este homem e esta criança se poderem cruzar na rua a qualquer momento graças ao doutor Varela é um sintoma grave do estado da nossa justiça. E finalmente, o facto de eu ter em casa uma filha praticamente da mesma idade, fez-me sentir asco de toda esta situação. Depois disto, não será de admirar se algum pai que tenha lido e sabido desta história macabra, no dia que uma filha sua tiver o azar de ser agredida ou violentada, resolver fazer justiça com as suas próprias mãos.





Morreu Augusto Boal
(1931 - 2009)


"O fundador do Teatro do Oprimido, foi tão importante quanto Bertold Brecth."
(The Guardian)


Ler notícia completa, aqui









«Mudança do paradigma»: nada de especial tenho para dizer, mas apeteceu-me muito escrever o que pus no título. Usa-se imenso e parece-me que só eu ainda não tinha dito essa frase, que deve ser a senha para passar à modernidade...

João Carvalho in Delito de Opinião





No tempo em que não existiam tantos canais de televisão, havia só duas formas de ver bons filmes: indo ao cinema ou alugando um filme num clube de vídeo. Como no meu tempo de estudante não tinha dinheiro nem para uma coisa nem para outra, optava por uma terceira alternativa: no percurso da escola para casa havia um pequeno centro comercial. Dentro do centro comercial estava um clube de video. Esse clube de video tinha uma pequena televisão, voltada para a montra e o funcionário do mesmo, que era um gajo com um bom gosto cinematográfico acima da média, nunca deixava a televisão parada. Resultado: cheguei a ver filmes inteiros assim, com o nariz colado numa montra de um clube de vídeo.

A experiência mais extraordinária foi o visionamento, com a tenra idade de 15 anos, do filme "O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes", com um competente Jack Nicholson e uma tórrida Jessica Lange. O filme conta uma história passada nos 30, num posto de gasolina à beira da estrada, Nick Papadakis (John Colicos), um grego que é o dono do estabelecimento, emprega Frank Chambers (Jack Nicholson), um viajante. Em pouco tempo Cora Papadakis (Jessica Lange), a mulher dele, está a ter um obsessivo e apaixonado caso com Frank. Logo o casal de amantes conclui que a única forma de ficarem juntos e ter todo o dinheiro que ambos querem ter é assassinar Nick. 

Um filme com uma carga erótica acima da média e uma das cenas mais quentes da história do cinema. Sabem daquele clássico de deitar as coisas da mesa da cozinha no chão e fazer "a coisa" acontecer ali mesmo? Pois bem, foi neste filme que tudo começou!








Sobre a questão do crioulo e da sua oficialização, urge perguntar: estão os nossos linguistas a fazer um bom trabalho? Se sim, o que está a falhar na socialização da proposta? Sabendo que a questão da oficialização, hoje, está intimamente relacionada com a padronização da escrita do crioulo, porque é que se escreve tão pouco na língua materna? Porque é que nos jornais e nos blogues cabo-verdianos mais de 90% dos textos são escritos em português? Porque é que a maioria esmagadora da nossa ficção e poesia, os romances, contos, cónicas, não é escrita e publicada em crioulo? Referir que os jovens comunicam nos chat's em crioulo é suficiente para esconder esta realidade? O que falta fazer para socializar a escrita da língua materna? Estão os nossos políticos a fazer um bom trabalho? Se o crioulo não é uma questão que divide os cabo-verdianos, então porquê que os ânimos se exaltam de cada vez que o assunto vem à baila? 

Sobre estas questões, por hoje, só tenho perguntas a fazer. E é tudo.












Bom fim-de-semana





E se as mulheres crioulas fizessem greve de sexo?


À melhor resposta, ofereço um café






"Afinal, as mulheres da Grécia Clássica tinham razão. 
E Aristófanes mantém-se actual."

Ler a notícia aqui


Nota: Aristófanes foi um dos mais importantes dramaturgos do teatro grego clássico, sendo considerado fundador do género cómico. A sua peça de teatro mais popular, "Lisístrata", conta a forma como as mulheres de Atenas e Esparta conseguem por fim a uma guerra secular e fratricida entre as duas maiores cidades da época, recorrendo a uma greve de sexo. 




A propósito da última Declaração Cafeana, cá vai.

História 01: 

"Michelle Frehel de Paris - França, era uma senhora saudável e com uma vida comum a tantas outras mulheres, mas uma fatalidade bateu-lhe à porta: foi-lhe diagnosticado cancro no sangue, fazendo com que os glóbulos brancos e verme-lhos fossem eliminados do seu corpo. (...) Não vendo solução, nem sequer na medicina, foi à Igreja Maná de Paris pedir ajuda, pois tinha ouvido o que acontecia nesta Igreja: as pessoas são curadas de várias enfermidades pelo poder de Deus que se manifesta na Igreja. O Pastor da Igreja aconselhou Michelle a ler o livro "Cura Divina" do Apóstolo Jorge Tadeu (traduzido para francês) para que ela soubesse qual a vontade de Deus, qual o príncipio da Fé e como podia receber a sua cura. Assim, Michelle leu o livro e na semana seguinte foi à igreja ao evento "Encontro com Deus" mas não para pedir oração e sim para receber, tal como ensinava o livro. Michelle ficou completamente curada.

Comentário: está encontrada a cura do cancro que mata milhares de pessoas todos os anos e ninguém sabia!


História 02:

"Catarina Alverca é directora da Promodel, uma agência de modelos e actores. Foi no ano de 1997 que Catarina iniciou o seu negócio juntamente com a sócia. Mas há 3 anos, tudo mudou. (...) Ao frequentar as reuniões da Igreja Maná, aprendeu que podia dar o dízimo do seu negócio, coisa que nunca tinha feito antes. “Eu não dou apenas para receber. Dou com muito amor e dou numa igreja que ensina a Bíblia e onde a unção e o poder de Deus são reais”, afirma Catarina, que actualmente vê o seu negócio crescer como nunca. Desde que começou a praticar o dízimo, Catarina e a sua sócia têm desenvolvido um trabalho repleto de novas ideias criativas que têm dado bastante resultado. 

Comentário: Está encontrada a solução para a crise económica que deixa no desemprego e na maior miséria biliões de pessoas em todo o mundo e ninguém sabia!


História 03:

"O filho de Ana Lúcia de Moçambique, foi atropelado por um autocarro. Mais tarde ele começou a vomitar e a ficar sem forças.  No Hospital, Ana assistiu às reuniões da Igreja pelo canal ManáSat e também ligou para o SOS Maná, onde os pastores da Igreja oraram pelo seu filho. Mais tarde ao fazer um TAC, os exames não acusaram nada. O seu filho ficou completamente curado e as manchas que ele tinha na cara por causa do acidente desapareceram. Hoje é muito saudável."

Comentário: os hospitais de todo o planeta deviam ser obrigados a ter estes canais de televisão ligados, assim se poupariam vidas que ninguém sabia poderem ser assim poupadas! E dinheiro dos contribuintes tão mal gasto...


História 04:

"O Sílvio começou a emagrecer muito, não tinha apetite, não tinha força muscular, chegou a pesar 55kg, fez exames e o pior dos resultados chegou, Sílvio estava infectado com o vírus da sida. A sua vida estava um caos até ao dia que assis u a um programa de Televisão da Igreja Maná. Quando Sílvio assis u ao programa “Esta é a Hora” ele conheceu a verdade, e ouviu falar de Cura Divina, que Deus queria curá-lo. Ouvindo muitas vezes a mensagem de Cura Divina, ganhou Fé, e hoje está completamente curado."

Comentário: qual retrovirais qual quê? Gastaram-se milhões de vidas e de recursos de forma impune, quando a cura estava assim à mão de semear. E ninguém sabia!


História 05: 

"Miriam desejava muito ter um filho, mas quando fez testes médicos, foi verificado que ela era estéril. Tentou engravidar durante 12 anos mas sem êxito. Depois de todas as suas esperanças estarem apagadas e após ter recorrido a toda a ajuda médica possível, Miriam começou a frequentar a Igreja Maná e aprendeu sobre o poder da oração no evento Encontro com Deus, todos os domingos. Não só aprendeu a receber a sua cura, mas também orou pela sua irmã que era igualmente estéril. Deus ouviu as orações de Miriam e o seu desejo foi cumprido. Ela teve um menino e a sua irmã teve gémeos."

Comentário: quem terá sido o responsável por esta (santa) gravidez? Afinal, há cura para a infertilidade e ninguém sabia!


Comentário final: depois de reler este post, por questões de aplicação de uma auto-sustentabilidade deste e de outros espaços públicos, sugiro o aluguer dos espaços culturais do arquipélago, por exemplo, às seguintes Igrejas: 

Igreja Evangélica Abominação à Vida Torta
Associasção Evangélica Fiel Até Debaixo dágua
Igreja Pentescostal Jesus Vem, Você Fica
Igreja Maradoniana

Ah, e porque não o Auditório Nacional para a Igreja Universal? Há que lutar contra a discriminação. Afinal de contas, os problemas da humanidade estão resolvidos e ao alcance de todos (e de todas as carteiras!). Peço, pois, desculpa a quem se sentiu ofendido pelo facto de ter ficado indignado por estas e outras histórias serem contadas no espaço nobre e público do Centro Cultural do Mindelo.  Afinal de contas, os contadores de histórias sempre fizeram parte da nossa tradição oral. Tudo a ver, portanto.