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«Quanto Ă  mensagem, nĂ£o sei... NĂ£o hĂ¡ mensagem. A melhor coisa Ă© deixar a intuiĂ§Ă£o e a imaginaĂ§Ă£o agirem. É verdade que eu quero dizer com força qualquer coisa difĂ­cil de formular, qualquer coisa de escondido; mas sĂ£o os espectadores que tĂªm de o descobrir, senĂ£o tudo seria tosco e grosseiro; sĂ£o vocĂªs que tĂªm de o descobrir, eu nĂ£o posso proceder demasiado directamente. Frente a certos valores, Ă© preciso, acima de tudo, sensibilidade.»

Pina Bausch





" A Igreja diz: o corpo Ă© uma culpa. A CiĂªncia diz: o corpo Ă© uma mĂ¡quina. A publicidade diz: o corpo Ă© um negĂ³cio. E o corpo diz: eu sou uma festa."

Eduardo Galeano - Escritor uruguaio

Na imagem: "SagraĂ§Ă£o da Primavera", de Pina Bausch










A propĂ³sito do Dia Mundial da Dança, cĂ¡ estou eu dando o meu melhor, em pleno Teatro Rivoli (cidade do Porto).




‎Ă© sublime
alegria refletida
em momentos de amor

é mistério
o destino repentino
de se dar e sentir dor

é criança
borboleta de um planeta
tĂ£o distante, sem calor

Ă© poesia
palavras que se abraçam
alegria, destino, borboleta
e o sabor"

Ivan Petrovitch




MĂºsica John Surman - Edges Of Illusion

[Imagem de coreografia de Pina Bausch]


Nota: se puderem, ouçam atĂ© ao fim. Lendo o poema e olhando para a imagem, fica ainda melhor. NĂ£o hĂ¡ nada mais sublime que a mistura de mĂºsica, poesia e movimento. Um post todo ele dedicado ao bailarino e coreĂ³grafo TĂ³ Tavares, uma das almas mais generosas que jĂ¡ conheci na vida.








Companhia Raiz di Polon
Fotografias de Ricardo Oliveira Alves (galeria completa, aqui)





A Pina Baush conseguiu em vida algo que muitos poucos artistas almejaram: foi uma criadora de Ă­cones. As muitas imagens - espantosas metĂ¡foras corporais e imagĂ©ticas - que ela criou em cada um dos seus espectĂ¡culos sĂ£o, e serĂ£o, potentes sinais do que foi, e Ă©, a dança (e o mundo) contemporĂ¢nea do sĂ©culo XX e XXI.

Daqui um mĂªs estreia um filme sobre a vida dela, realizado pelo nĂ£o menos conceituado Win Wenders, e jĂ¡ estĂ¡ marcada uma ida ao cinema na minha agenda. Vejam o trailler, aqui, e digam lĂ¡ se isto nĂ£o nos deixa Ă¡gua na boca.

Cada vez que sou confrontado com um movimento criado por Pina Baush mais certo fico de que Ă© mesmo a arte e a criaĂ§Ă£o artĂ­stica que dĂ¡ beleza e poesia ao mundo. Hoje em dia, cada vez mais fundamental. Vital. Sem isto, somos meros animais em precoces e vazias lutas por diferentes poderes.






Bem recentemente esteve nas bocas do mundo ao dirigir uma ambiciosa e ousada Ă³pera no mais importante centro cultural de Lisboa. O que fica depois de uma gigantesca criaĂ§Ă£o como essa? Foi o que tentamos saber nesta curta conversa a dois.

Qual foi a sensaĂ§Ă£o para este rapaz de S. Vicente ter montado uma Ă³pera num espaço como o Centro Cultural de BelĂ©m?

TĂ³ Tavares: (risos) Antes de mais foi uma espĂ©cie de ocupaĂ§Ă£o, no sentido de ocupar mesmo, porque no fundo houve ali essa ideia da Ă³pera enquanto ocupaĂ§Ă£o, nĂ³s Ă©ramos uns forasteiros que chegamos ali e ocupamos um espaço, o espaço Ă³pera, que Ă  priori nĂ£o era o nosso, pois esta tem uma identidade sobretudo europeia.

O prĂ³prio espaço do grande auditĂ³rio do Centro Cultural de BelĂ©m tambĂ©m Ă© um lugar onde raramente hĂ¡ lugar para eventos ligados a algum paĂ­s africano…

HĂ¡ um jogo, uma dualidade. Um espelho. O que tu Ă©s, nĂ£o Ă©s. O que o espelho te dĂ¡, Ă© que parece que Ă©. No fundo, foi esse jogo que fizemos. E graças Ă s condições que tivemos as pessoas acabaram por aderir.

EstĂ¡vamos perante uma Ă³pera cabo-verdiana, pode-se dizer isso?

SerĂ¡ que existe uma Ă³pera cabo-verdiana? SerĂ¡ que hĂ¡ possibilidade de se fazer uma Ă³pera cabo-verdiana? Todas estas questões estavam inerentes Ă  prĂ³pria temĂ¡tica crĂ­tica da nossa prĂ³pria forma de ver a construĂ§Ă£o dos nossos trabalhos. No fundo, o que nĂ³s dizemos Ă© que se hĂ¡ um world music Norte – Sul, tambĂ©m hĂ¡ um world music Sul – Norte.

Como Ă© que se pode ter a ambiĂ§Ă£o de ter uma Ă³pera cabo-verdiana se, por exemplo, nĂ£o temos escolas de mĂºsica que ensine as nossas crianças a tocar instrumentos sinfĂ³nicos, se ainda vivemos num paĂ­s onde sĂ³ se houve mĂºsica clĂ¡ssica na rĂ¡dio quando morre alguĂ©m importante? NĂ£o hĂ¡ aqui uma questĂ£o bĂ¡sica que nos diz que nĂ£o podemos ter a ambiĂ§Ă£o de ter uma Ă³pera crioula ou mĂºsica erudita cabo-verdiana se nĂ£o nos preocuparmos com a educaĂ§Ă£o de base?

HĂ¡ dois vectores ligados a essa questĂ£o. Sendo uma obra de autor, isso trĂ¡s com ela uma identificaĂ§Ă£o clara. Um romance de um autor portuguĂªs, cabo-verdiano ou chinĂªs, Ă© sempre um romance. Assim, desde que tu te apropries da estrutura, a universalidade Ă© tida em conta e acaba por se manifestar. No caso da mĂºsica, Cabo Verde tem um pouco uma vivĂªncia estranha com ela. É a nossa maior riqueza, mas ainda passa de uma forma demasiado artesanal. A mĂºsica nĂ£o Ă© escrita, Ă© incorporada de uma forma quase fĂ­sica. As pessoas ouvem, repetem, tocam. Isso nĂ£o quer dizer que nĂ£o haja reflexĂ£o. A Ă³pera, por exemplo, Ă© tida como a obra de arte total, que inclui todas as outras, mĂºsica, teatro, artes plĂ¡sticas. O que fizemos aqui foi uma apropriaĂ§Ă£o da ideia de Ă³pera como uma possibilidade de demonstrar que, sendo uma obra de arte total, nĂ³s estamos em condições, tambĂ©m, de a concretizar. Yes we can.

NĂ£o te entristece que nĂ£o possas mostrar essa obra em Cabo Verde?

Cabo Verde precisa urgentemente de um espĂ­rito de agenciamento. Uma agĂªncia que faça com que as obras, os trabalhadores da cultura, os criadores estejam em contacto com o mundo. Agenciar para que as obras possam estar nos sĂ­tios certos, nos momentos certos. Isto Ă© fundamental. É fundamental que a polĂ­tica pĂºblica cabo-verdiana faço por isto. Cabo Verde tem que encontrar o seu prĂ³prio modelo para fazer circular as coisas.

HĂ¡ uma questĂ£o relacionada com a circulaĂ§Ă£o, mas hĂ¡ uma questĂ£o provavelmente mais bĂ¡sica ainda que estĂ¡ relacionada com a educaĂ§Ă£o artĂ­stica. Desta vivĂªncia que tens do trabalho desenvolvido em vĂ¡rios paĂ­ses da Europa, que tipo de modelo Ă© que achas que poderia ser implementado no paĂ­s, no que diz respeito Ă  componente da educaĂ§Ă£o artĂ­stica?

Isso tem muito a ver com a nossa histĂ³ria cultural que por sua vez estĂ¡ ligada de forma umbilical a Portugal. O nosso maior problema Ă© que nĂ³s nĂ£o acreditamos nos cientistas. Ainda desconfiamos disso. A mais-valia de Cabo Verde Ă© o Homem cabo-verdiano, mas quando hĂ¡ essa desconfiança acaba-se por aniquilar uma sĂ©rie de outras coisas. Estamos agora a chegar a um primeiro estado, ao estado da tese, substanciado com o aparecimento da universidade em Cabo Verde. Podemos colocar tudo em causa, mas com sustentabilidade cientĂ­fica. Temos que deixar de ser um Estado dos buldognhes, onde todos falam e acham que tĂªm sempre opiniĂ£o. NĂ£o hĂ¡ respeito por quem estuda e investiga. Quando sou recebido na Dinamarca, sinto que levam em conta o teu percurso e tu sentes isso. És ouvido e tu sabes que hĂ¡ espaço. Nos EUA, por outro lado, o que me fascinou foi a acĂ§Ă£o directa, chegar fazer. Aqui ainda estamos muito agarrados Ă  folha de 25 linhas.

Vivemos ainda no universo da sinopse?

Exactamente.

Quando foi a Ăºltima vez que estiveste em Cabo Verde, em criaĂ§Ă£o?

Em 2002 e 2003 estive nas ilhas para reflectir sobre uma outra maneira de estar. Questionava-me se Cabo Verde permitiria alguma vez que se pense a transnacionalidade, onde por exemplo se poderia estar por aĂ­ durante uns trĂªs meses, criar uma peça e depois sair com esse trabalho por trĂªs meses e depois regressar, para mais formaĂ§Ă£o, criaĂ§Ă£o, debates, aulas abertas, essa tal ideia da acĂ§Ă£o directa, onde se poderia entender outras dimensões de Cabo Verde. Acabei por entender que se nĂ³s largarmos alguns complexos que nĂ³s temos, poderĂ­amos ir muito mais longe. NĂ£o se compreende que nĂ£o haja um centro cultural cabo-verdiano em Lisboa, por exemplo, que Ă© a cidade no mundo onde hĂ¡ mais cabo-verdianos!

Quando falas em complexos estĂ¡s a referir-te a que aspectos, em particular? Como cabo-verdiano que tem um olhar de fora, como avalias essas pedras que se encontram no caminho e impedem essa tal circulaĂ§Ă£o de obras e conhecimento artĂ­stico? Porque Ă© que ainda nĂ£o conseguimos entrar nesse cĂ­rculo de criaĂ§Ă£o que podia ser tĂ£o benĂ©fico para o paĂ­s?

Lembro-me de ter conversado com o TchalĂ© onde ele dizia: tu podes sair para o mundo, expor nos maiores museus do mundo, mas chegas aqui e parece que nĂ£o aconteceu nada. É aquele raciocĂ­nio que nos diz que aquele que mora ao nosso lado nĂ£o pensa noutra coisa a nĂ£o ser no baile do prĂ³ximo fim-de-semana ou em qual cueca que tem que usar nesse dia. Cabo Verde nĂ£o Ă© um espaço isolado. Cabo Verde estĂ¡ aqui em Lisboa, estĂ¡ em Luanda, estĂ¡ em todo o lado. NĂ³s, os artistas, que hĂ¡ muito tempo perdemos as fronteiras, facilmente nos apercebemos dessas ligações, encontramos gente nos lugares mais variados que estĂ£o a tentar dizer as mesmas coisas que nĂ³s. O problema Ă© que ainda continuamos a achar que estes gajos, os artistas, sĂ£o uma espĂ©cie de bandeira. HĂ¡ baile, mandamos colocar a bandeira para assinalar que vai haver baile. Acaba o baile, tira a bandeira e joga para um canto. NinguĂ©m nos leva muito a sĂ©rio. O pensamento geral Ă© que nĂ£o fazemos nada de especial, qualquer um pode fazer. Isso Ă© muito perturbador.

Os artistas ainda sĂ£o vistos como parasitas?

Olha, quando vamos ao dentista, esperamos que a pessoa que lĂ¡ estĂ¡ com aquelas maquinetas todas a mexer-nos na boca, seja de facto, um dentista preparado. Tu vais, sais com a cara inchada e pagas sem perguntar nada. Em relaĂ§Ă£o a nĂ³s, as pessoas vĂ£o ver o trabalho e fica tudo a dar-te conselhos, a dizer-te que devias ter feito assim e nĂ£o assado, porque «fica mais giro, se for o Manuel em cima da Maria e nĂ£o o contrĂ¡rio». Somos uma troupe de opinadores.

E como lutar contra isso?

Por exemplo, a mĂºsica da CesĂ¡ria Évora tem a dimensĂ£o que tem e a repercussĂ£o no mundo que tem, mas Ă© estranho chegar em S. Vicente e nĂ£o ter um espaço CesĂ¡ria. O museu da CesĂ¡ria estĂ¡ na casa da CesĂ¡ria. Chegas na sala dela e estĂ£o lĂ¡ os grammys e os prĂ©mios todos. Mas aquilo Ă© tambĂ©m um patrimĂ³nio daquela cidade, daquele paĂ­s. NinguĂ©m pensa o quanto o paĂ­s poderia ganhar se as coisas fossem feitas de uma outra forma. Com merchandising, com divulgaĂ§Ă£o. AtĂ© para as pessoas saberem que o que a CesĂ¡ria canta começou com um senhor chamado B’Leza, que nos anos 30 começou a compor mĂºsicas com esta sublime universalidade. O Manoel de Oliveira, quando soube que eu era de Cabo Verde, veio logo dizer-me que o fado tinha vindo de Cabo Verde e ficou em Lisboa! EstĂ¡ mais que comprovado que o Ăºnico patrimĂ³nio que existe no arquipĂ©lago Ă© o Homem. Qual o paĂ­s que se pode gabar disso mesmo? A palavra pobre devia ser retirada do nosso dicionĂ¡rio. Essa e a palavra morabeza.

Morabeza, porquĂª?

Porque Ă© um bluff. NĂ³s somos kool. Qual kool! NĂ³s temos Ă© uma forma de estar peculiar, somos humildades – ou Ă©ramos, atĂ© uma determinada altura – porque passamos por grandes dificuldades. O nosso slogan devia ser Pequeno PaĂ­s, Grandes Ideias.





Fui ver este espectĂ¡culo da Companhia Clara Andermatt, «Void», com dois protagonistas cabo-verdianos, Avelino Chantre e SĂ³crates NapoleĂ£o. Uma palavra, apenas: sublime. HĂ¡ muito que nĂ£o via nada tĂ£o repleto de chĂ£o e energia das ilhas. A Clara estĂ¡ em grande forma enquanto criadora; o Avelino e o SĂ³crates estĂ£o crescidos enquanto intĂ©rpretes. Falam, muito. Dançam, bem. Tocam e fazem mĂºsica. Muito bom.

Ah, o anĂºncio? Sim, este espectĂ¡culo vai estar na cidade do Mindelo, no prĂ³ximo festival Mindelact 2010. Tinha que ser.Vai ser. Na segunda quinzena de Setembro.








Merce Cunningham
coreĂ³grafo
(1919 - 2009)






Esta mĂºsica vai para uma grande, grande amiga. Para uma espectacular coreĂ³grafa, que muito deu a Cabo Verde e continua a dar, porque amanhĂ£, dia 15 de Maio, poderĂ£o ver no Centro Cultural PortuguĂªs, da Praia, o resultado da formaĂ§Ă£o que deu estas duas Ăºltimas semanas na escola do Raiz di Polon. Para uma mulher de grande carĂ¡cter e incomparĂ¡vel energia: Clara Andermatt.




Imagem: Clara Andermatt em "Dan Dau", Fotografia de Jorge Gonçalves







Hoje, 29 de Abril, Ă©

Dia Mundial da Dança


"Eu sĂ³ acreditaria num Deus que soubesse dançar!"

Friedrich Nietzsche

Grande espectĂ¡culo com o
Teatro do BolhĂ£o & Joana ProvidĂªncia

"MĂ£o na Boca"




Onde & Quando
HorĂ¡rio: SĂ¡bado, 04 de Abril, Ă s 21:30 horas
Local: AuditĂ³rio do Centro Cultural do Mindelo



Excelente galeria de fotografias dos Raiz di Polon









Autoria: Velu (fotĂ³grafo holandĂªs).
Ver galeria completa aqui




Em Cabo Verde, temos medo de falar sobre o trabalho dos outros de forma aberta e natural. Se dizemos bem, Ă© porque somos amigos, compadres ou devedores de algum favor obscuro. Se assumimos que nĂ£o gostamos, somos trucidados e claro, acusados de alguma sede de vingança nĂ£o assumida, que nos tolda o raciocĂ­nio.

Por mim, assumo que me dou mal com essa mania, porque acredito no meu trabalho e gosto de ser mimado. Tenho pena que nĂ£o haja mais gente a escrever sobre as peças que jĂ¡ encenei ou interpretei. Mesmo que seja para dizer mal. Aprende-se sempre alguma coisa.

Isto para dizer que hoje, dia 05 de Setembro, vou assumir pessoalmente, e em forma de Prémio Copacabana, a homenagem que o Festival Mindelact vai fazer ao grupo Raiz di Polon.

Vai ser um momento emocionante e mais do que merecedor. Depois de ter lido o que escreveu o Cesar Schofield numa brilhante crĂ³nica publicada no jornal A Semana sobre a companhia da capital, pouco mais hĂ¡ a acrescentar. A nĂ£o ser dizer, ou melhor, sublinhar, que os integrantes do Raiz di PĂ³lon sĂ£o uns herĂ³is, talentosos, corajosos, generosos, criativos e a quem Cabo Verde e a sua imagem muito devem.

Vai dar gosto entregar aquela estatueta!


Fotografia de Baluka BrazĂ£o





Quem me dera estar em Lisboa, para ver este «Mazurka Fogo» da coreografa Pina Bausch. SerĂ¡ apresentado no CCB, hoje e nos dias 8 e 9 de Maio. Quem lĂ¡ estiver, e por cĂ¡ passar, que diga de sua justiça...

Que inveja!






Digam o que disserem, sou eu mesmo. Fiz ballet clĂ¡ssico durante 5 anos. Era o Ăºnico rapaz numa escola privada com mais de 500 meninas. Por ser o Ăºnico rapaz, nĂ£o tinha que pagar as altas propinas. Ali passei dos melhores momentos da minha infĂ¢ncia. Conhecem o filme, «Billy Elliot»? Era mais ou menos assim. SĂ³ que lĂ¡ em casa ninguĂ©m me obrigava a treinar boxe nem eu era nascido para dançar, como o protagonista do filme.

Nos espectĂ¡culos no final de cada ano lectivo, punham-me sempre a dançar um pas-de-trois, com uma loira (Mafalda) de um lado, e uma morena (Isabel), do outro. Enfim, a fantasia de qualquer macho que se preze. E como se pode ver pelas imagens, deu para grandes momentos. Como este solo, em pleno palco do Teatro S. JoĂ£o, rodeado de meninas por todos os lados! Nunca mais lhe perdi o gosto...


...pela dança, pela dança!





HĂ¡ espectĂ¡culos que nĂ£o se esquecem. «Uma HistĂ³ria da DĂºvida» Ă©, sem dĂºvida, um deles. Coreografado por Clara Andermatt, esta peça coreogrĂ¡fica Ăºnica foi o resultado de uma residĂªncia na cidade do Mindelo e mais de metade dos participantes foram cabo-verdianos, entre mĂºsicos e bailarinos. Entre estes estava Orlando Pantera.

«Uma HistĂ³ria da DĂºvida» fica-nos pelo poder das imagens, das figuras, da mĂºsica e da dança. HĂ¡ momentos que nĂ£o se esquecem. A longa fila dos intĂ©rpretes sentados no chĂ£o; o enorme cais de madeira movĂ­vel; a imponente parede de metal, com as suas portas e varandas; Pantera cantando de tronco nĂº ao longo da varanda; Avelino pendurado no cais como um morcego; Voginha a correr pela plateia quem nem um louco com um violino na mĂ£o; o velho Malaquias com o seu violino, sĂ³zinho na varanda, vestido de branco, dizendo para o pĂºblico num inglĂªs imaculado «I'm a profissional», and so on...

HĂ¡ finais que nĂ£o se esquecem. E o final, oh Deus, o final de «Uma HistĂ³ria da DĂºvida», com mĂºsicos a tocar uma morna, agarrados pelos bailarinos, que pegam neles, que nĂ£o param de tocar, e sĂ£o voltados de cabeça para baixo, sempre tocando, sempre bailando, atĂ© ao chĂ£o, corpos, instrumentos, poeira, suor, poesia. E a morna que acaba com uma longa nota do violino de Malaquias, em pleno solo.

Como escreveu Clara Andermatt (essa força da natureza) «tudo se expressa atravĂ©s do movimento e da mĂºsica. As palavras sĂ£o fundamentais. Accionam pensamentos e emoções que formam e informam tanto o movimento como a mĂºsica. Mas tudo o que Ă© relevante do ponto de vista do significado, foi incorporado no som, no ritmo e no gesto. Os intĂ©rpretes falam a maior parte do tempo, mas as palavras que por vezes murmuram, outras vezes gritam ou cantam sĂ£o como que explosões da alma, nĂ£o podendo ser encaradas como um discurso perceptĂ­vel e coerente. Por um lado as palavras sĂ£o força motriz e focos de energia para o movimento dos intĂ©rpretes. Por outro, sĂ£o ingredientes poderosos do som e do ritmo na partitura musical.»

HĂ¡ espectĂ¡culos que nĂ£o se esquecem. Tornam-se, pela sua qualidade, inovaĂ§Ă£o, energia e criatividade, em objectos imortais. «Uma HistĂ³ria da DĂºvida» Ă© um deles.





Hoje, dia 29 de Abril, Ă©
Dia Mundial da Dança

"Eu poderia acreditar somente num Deus que soubesse dançar"
Nietzche


Imagem: DDiArt «Fly to me»»




O Baluka BrazĂ£o vai estar durante os prĂ³ximos dias
a mostrar do que Ă© feita a sua arte.

A nĂ£o perder!


«Raiz di Polon, Entre a Arte e a Loucura»
ExposiĂ§Ă£o de Fotografia de Baluka BrazĂ£o

«AtravĂ©s da fotografia, contar a histĂ³ria deste grupo de dançarinos
que, sĂ£o suficientemente loucos para pensar que,
em Cabo Verde, a sociedade pode ser educada atravĂ©s da Arte!»

Vamos ver, ouvir & comentar!


24 de Abril a 10 de Maio
Local: Centro Cultural FrancĂªs da Praia




Esta aconteceu na cidade do Mindelo, Cabo Verde. Dois cidadĂ£os passavam pelo lado de fora do Centro Cultural do Mindelo, e reparam que as janelas que davam para o auditĂ³rio estavam abertas. Espreitam, timidamente, lĂ¡ para dentro, e vĂªm Bety, bailarina do grupo Raiz di PĂ³lon, a ensaiar um solo. DinĂ¢mica, enĂ©rgica, poderosa, Bety enche o palco com o seu talento e o seu suor, improvisando.

Um dos homens que via a cena, espantado, voltou-se para o companheiro e disse:

— Compadre, cultura Ă© fodido!


EstĂ³rea verĂ­dica relatada por Edson Fortes

Imagem: «Kagemi - AlĂ©m das metĂ¡foras do espelho», companhia japonesa Sankai Juku