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Ao ler este testemunho sobre o estado de degradação do antigo Liceu Gil Eanes, depois Escola Preparatória Jorge Barbosa, do meu bom amigo Joaquim Saial, no seu blogue Praia de Bote, pouco mais há a acrescentar. Foi lá que tive o meu primeiro emprego quando estive a dar aulas (de Ciências da Natureza) durante dois anos e olhar para o estado de degradação dá uma raiva muito grande. Estão à espera que caia tudo? Temos ali um novo Éden-Park? Até quando Mindelo vai continuar assistindo à podridão que o invade, quieto e calado? Até quando? 

"Não lho disse, mas ainda lho direi, que ninguém parece estar interessado nisso, que a indiferença reina, que a memória dos grande cabo-verdianos que por ali passaram não parece ser suficiente para alguém arranjar uns tostões para uns míseros sacos de cimento e para uns baldes de tinta... Ao ver a sua velha casa degradada (em rua próxima do liceu), ao ver o velho liceu a entrar em ruína, as lágrimas afloraram-lhe aos olhos, como ele me contou. Enfim, ao deparar-me com estas imagens que partilho com os frequentadores da Praia de Bote, também as minhas pálpebras se molharam. Era inevitável...

Termino, dizendo que se houver um movimento local que se abalance à tarefa da recuperação deste edifício mais que simbólico, finalmente uma vaga de fundo credível construída por gente séria, terei um cheque disponível para oferecer, com montante correspondente à saudade e à dívida contraída para com ele."

Joaquim Saial

Já não passo pela Praça Nova, porque ver o Éden-Park naquele estado dá-me náuseas. Ao que parece o dono do imóvel estaria preso num outro país. Agora, isto. Vamos continuar, alegremente a assistir a este triste espetáculo?

Espero, ansiosamente, que o meu querido amigo Manuel Brito Semedo, pessoa sempre sensível para estas questões de património, consiga, enquanto vice-reitor da Universidade de Cabo Verde, dar o impulso que falta para a reabilitação deste importante e histórico edifício!





Rua de Escola Técnica no Mindelo (Avenida Che Guevara) aquando da passagem de uma plataforma petrolífera pela baia da Lajinha.

Captado por Quarts (Panoramio)






"África não existe - existem áfricas e desconheço a maioria. As minhas áfricas, aquelas de que posso falar, têm em comum serem territórios propícios à surpresa e aos encontros. Lugares que desprezam as fronteiras entre a realidade e o maravilhoso. Finalmente: espaços em construção. Assim se explicam os livros que escrevo. Vêm de lá.

José Eduardo Agualusa - escritor angolano

"Parece um nome. Mas é mais do que isso. Trata-se de um conceito carregado de fantasmas e produtor de equívocos, quando pronunciado no singular. O que há são Áfricas. Plurais e diversas, em negação da imagem mistificada, do estereótipo e da visão folclórica."

Mia Couto - escritor moçambicano





Sempre ouvi dizer que o Carnaval representava a maior festa pagã do Mundo. Segundo rezam (salvo seja) as enciclopédias "pré-Cristãos medievais e Carnavais modernos tem um papel temático importante. Eles celebram a morte do inverno e a celebração do renascimento da natureza, ultimamente reunimos o individual ao espiritual e aos códigos sociais da cultura. Ritos antigos de fertilidade, com eles< sacrifícios aos deuses, exemplificam esse encontro, assim como fazem os jogos penitenciais Cristãos. Por outro lado, o carnaval permite paródias, e separação temporária de constrangimentos sociais e religiosos. Por exemplo, escravos são iguais aos seus mestres durante a Saturnália Romana; a festa medieval dos idiotas inclui uma missa blasfemiosa; e durante o carnaval fantasias sexuais e tabus sociais são, algumas vezes, temporariamente suspensos.”

Por outro lado, sempre fui acostumado a que amigos e conhecidos mais religiosos me viessem dizer que durante estes dias loucos estariam "em retiro", aproveitando que a cidade era invadida pelo êxtase para, em conjunto com outros companheiros e fugindo da confusão, irem para longe da cidade, aproveitando para uma reflexão que de alguma forma os alimentasse espiritualmente.

Não deixa de ser por isso curioso que o Carnaval do Mindelo tenha tido nesta edição de 2012 um grupo ligado à Paróquia de Nossa Senhora da Luz a desfilar, com música, carro alegórico, alas, coreografias e tudo o que é preciso para não envergonhar uma passagem pelo circuito habitualmente ocupado pelos foliões. Com túnicas, bíblias na mão, personagens representando personagens caras à historiografia cristã, um modesto trilho eléctrico, cerca de uma centena de crentes fizeram-se ao carnaval e desfilaram pelas mesmas ruas do Mindelo. 

Longe, pois, vão os tempos de retiros. Numa ilha onde grande percentagem da população assume-se como católica praticante e que tem no Carnaval a sua maior festa popular, é caso para dizer que já não era sem tempo que os nossos católicos se juntassem à festa, pela positiva tentando simplesmente passar a sua mensagem. Tempos modernos ou como diz o outro, se não podes vencê-los, junta-te a eles!




17 de Janeiro de 1462 - 17 de Janeiro de 2012

550 anos da descoberta de um dos lugares mais belos do planeta, a ilha de Santo Antão





Desde que me lembro de produzir o festival mindelact, no já longínquo ano de 1996, a chuva vem nos visitar neste período. Ainda recordo da primeira apresentação de As Virgens Loucas, do nosso António Aurélio Gonçalves, cujas primeiras cenas eram apresentadas no pátio interior de um Centro Cultural do Mindelo ainda por inaugurar, onde numa das falas, uma das meninas dizia: “a gente não pode sair agora à procura de petróleo para as nossas lanternas, ainda mais com esta chuva”! E caiu bem esse comentário, porque como se fosse um efeito especial cinematográfico, lá fora caía uma daquelas tempestades de chuva incansável que deixava as ruas do Mindelo transformadas em rios. Nessa noite também se realizava a tradicional procissão da Nossa Senhora da Luz, conhecida por ser um poderoso chamariz das chuvas que quase sempre caem impiedosamente na terra seca da ilha de S. Vicente, nesta ocasião tão especial para os devotos da cidade do Mindelo.

Todos os anos, as chuvas acabaram por criar problemas à organização do festival de teatro, mas nunca como nos últimos anos, até porque já sabemos que quando chove a cidade pára. As lojas fecham, a luz falta, os restaurantes esvaziam, falta rede nos telemóveis, as crianças não vão à escola, e até os táxis desaparecem das ruas, porque não tem condições de circulação para nelas andarem. Lembro-me bem de há três anos, em pleno mindelact, quase ter sido arrastado, dentro do carro onde circulava, pelas correntes provocadas pelas águas das chuvas bem na frente do centro cultural do Mindelo. Foi, digo-vos, um grande susto.

Num município que nunca se preparou condignamente para estas torrentes foi com alguma desconfiança que os cidadãos olharam as intermináveis obras que a Câmara municipal promoveu para, de uma vez por todas, tentar resolver o problema do escoamento das águas das chuvas. As obras foram duras e prolongadas e como bons mandadores de boca que somos, logo muitos torceram o nariz para tanta azáfama obreira. Mas não é que resultou?

Vem isto a propósito destas chuvas que nestes dias nos vieram fazer uma prolongada visita, esperando, digo eu, que caia agora muito para que nos dias do Mindelact nos poupem um bocadinho e nos permitam receber os nossos visitantes com a mesma tranquilamente climatérica característica de grande parte do ano. Ora, nestes dias a chuva caiu e caiu a sério. E funcionou como o primeiro grande teste às obras de que falava ainda agora. Um teste com um sinal mais do que positivo. Mesmo para aqueles que tem memória curta, facilmente nos lembramos de que bastava uma chuvinha para que as nossas ruas ficassem intransitáveis, a Praça de Estrela ou a rotunda de Ribeira Bote, transformadas em imensos lagos. Pois bem, hoje a cidade acordou alegre e lavada. O alcatrão bem à vista, os pontos mais críticos sem qualquer problema de circulação. Um bem haja, pois, para a Câmara Municipal de S. Vicente, e quem saiba agora, não tenha que haver toda uma cidade que pare, só porque S. Pedro resolveu lhe dedicar uma atenção especial.



Cordá Monte Cara

1. Que andam a brincar com S. Vicente não é de hoje. Os deputados eleitos por este círculo eleitoral, de um e do outro lado, nunca se vêem, não se lhes conhece uma única iniciativa que tenha tido um pingo de repercussão na melhoria das condições de vida desta população. O famoso partido charneira aproveita-se desta ilha ser a única com capacidade de atenuar a doença crónica do bipartidarimo que este país sofre, para convencer os mais coitados de que eles, sim, são os verdadeiros defensores dos interesses de S. Vicente, quando até agora o que se viu foi um mal amanhado conjunto de lugares comuns atirados para a comunicação social, que não são carne nem são peixe, não tomam partido, não dão o murro na mesa que se impõe.

2. Concorre-se, muitas vezes com a mesma cara, à Assembleia Nacional, ao Governo, à Câmara Municipal, à Presidência da República, consegue-se um tacho aqui e outro ali, mas ainda ninguém nos conseguiu mostrar como é possível estar-se em dois lugares ao mesmo tempo, como se podem defender os interesses desta ilha e deste povo quando a sensação que nos dá é que cada um está mas é a tratar da sua vidinha, que isto não está fácil para ninguém, há que aproveitar enquanto se consegue enganar os filhos de cada um e os netos de cada qual.

3. Na Câmara Municipal, a situação não é melhor. A vergonhosa trapalhada da venda de terrenos, o aproveitamento político que esta situação tem originado, o vazio de poder, a bandalheira que grassa por aquelas bandas, só nos permite temer o pior. O Governo, por outro lado, também não entendeu ainda do que S. Vicente precisa e reclama. Só para dar um exemplo que me toca particularmente, considero que anunciar um Palácio da Cultura novo com o cine-teatro Éden Park, o maior símbolo patrimonial da história desta ilha, a apodrecer aos olhos de todos na principal praça da cidade, só pode ser uma piada de mau gosto.

4. Ou seja, como diria o povo, estamos entregues à bicharada. Ou para ser ainda mais directo, estamos fodidos e mal pagos.  Portanto, quando vejo um movimento cívico a surgir para dar um grito contra este estado lastimável de coisas só podia me manifestar a favor. Porque nesta história ninguém é inocente, ninguém. Nem os ministros amarelos, nem os vereadores verdes, nem os ditos defensores dos pobres que nunca defendem coisa nenhuma a não ser os seus próprios interesses pessoais, muito menos a própria população que parece querer acordar só quando há festa da boa. Acorda Monte Cara sim. Já é tempo de darmos o nosso grito e não é de hoje.

5, A primeira ideia é organizar «uma manifestação para acordar São Vicente contra o abandono do Governo e traição por parte da Câmara Municipal de São Vicente». Mas uma manifestação que fique na história desta ilha. Uma coisa em grande. Porque é triste se pensarmos que a maior manifestação a que tivemos oportunidade de assistir durante os últimos 15 anos foi aquela motivada pela proibição da emissão da televisão do Pulu, porque por causa dessa proibição esse mesmo povo deixou de poder ver novelas, filmes e futebol. E de vez em quando uma reportagem sobre baleias a morrer na praia da Lajinha. Portanto, urge, e já de faz tarde, uma profunda mudança de mentalidades.  Porque estamos a ser comidos à grande e à francesa e ainda fazemos a festa com isso. Não pode ser.

6. Nascido na rede social Facebook, o movimento cívico Cordá Monte Cara anuncia: “decidiu-se que vamos à luta com força e contamos com o apoio positivo de todos os que amam São Vicente, vamos à luta em forma de protesto sim, mas sobretudo vamos à luta em forma de contribuição positiva, apresentar soluções, fazer valer a nossa presença como povo desta ilha!” A opção por uma manifestação de rua é explicada da seguinte forma: “decidimos que iremos começar a nossa caminhada convocando uma manifestação de rua, uma manifestação essa que contamos com o apoio de todos, vamos ter de sair do espaço cibernético e materializar o nosso protesto, e ir levando as nossas preocupações a todos quantos nos puderem ouvir.”

7.Apoio incondicionalmente este movimento e as pessoas que o promovem. É uma vergonha o que se passa na nossa ilha, na nossa cidade. Não podemos pensar que somos um povo que apenas sabe festejar. Não podemos pensar que só conseguimos sair à rua no Carnaval ou na passagem do ano aos gritos que somos uma ilha sabe pa cagá. É preciso mais, muito mais. E eu iria mais longe: que este movimento seja transformado num partido e concorra às próximas eleições, que consiga colocar pelo menos um deputado na Assembleia Nacional que faça ouvir a sua voz e que seja uma pedrada no charco neste imenso lodo em que se transformou a política na ilha do Porto Grande. 

8. A próxima reunião é já amanhã, no dia 03 de Novembro, na sede da ADECO. Acordem! Participem, não se deixem ficar. Mostrem que ainda podemos ter alguma palavra a dizer. Para aderir ao movimento via Facebook, é só vir aqui. Acabar com a inércia, apresentar soluções. Está bom de comer e calar. Eu já aderi, e vocês?




Vasco Martins, músico, poeta e amigo, o homem que provavelmente tem maior sensibilidade para sentir a natureza que brota da ilha de S. Vicente escreveu no seu blogue Deserto do Sul: «Nunca estive de acordo com a construção da estrada litoral mas quando teimam em construir estradas e pontes avançam! Agora que está feita gosta dela! Às vezes tenho a impressão que gastaram um milhão para eu e os meus amigos catitas usufruirmos dela. Erro de paralaxe é bem claro. Mas aproveito aproveito: penetro nos vales misteriosos, medito nas dunas de arenito, cheiro a rara carqueja, vejo o voo espiral das águias, contemplo o oceano Atlântico, as grandes nuvens que nunca param de passar, o vento de Nordeste esculpe as ondas, a estrada vai vai parece ir até às antípodas quando a Lua sobe, ilumina as brumas que tocam os picos dos montes.»

Não podia estar mais de acordo. Como eu adoro aquela estrada! A paisagem e a beleza que dela imanam. Por lá vagueia a alma de Isabel Alves Costa, minha mãe, a quem foi feita no local, com outros actores, actrizes, amigos e conhecidos, uma sentida homenagem no mar, um mês após o seu falecimento. Por lá se instala a Lua, matreira, cúmplice de amantes, poetas, loucos, solitários, guardadora de mil e um segredos. Andar por lá é um dos mais belos passeios que a ilha pode proporcionar. É a minha estrada.






Uma cidade sem os seus loucos é uma cidade sem alma. Hoje o Mindelo está estranho com os loucos todos fora de circulação. Bem, quase todos, porque isto dos loucos é como tudo na vida, uns vão outros vem. Nunca mais me esqueço de um espectáculo de rua que fizemos na Praça Nova do Mindelo, cada um interpretando estranhos personagens animalescos, que começou com 20 actores e terminou com 21, porque um dos loucos do lugar - que antes da actuação fazia discursos políticos furiosos a altos berros - sentiu naquelas duas dezenas de estranhos seres colegas à altura de competir com os seus devaneios mais estranhos e se juntou à festa teatral, não só dentro do espírito da coisa, como interpretando, ele próprio, um personagem que se enquadrava no que todos nós estávamos ali a fazer. Foi épico, digo-vos. E terapêutico para o louco, não tenho dúvidas.

Vem isto a propósito desta imagem que encontrei nas minhas andanças pela Internet, que trouxe de novo Kmê Deus, provavelmente o louco mais emblemático da cidade do século XX, que com as suas latas ao pescoço e o seu apurado sentido de humor, dava ao centro do Mindelo um ar de rebeldia anárquica que tão bem lhe vestia. Morreu faz tempo, e como gostaria de dizer que o seu espírito ainda ronda pelos becos e ruas da morada, mas infelizmente sou daqueles que está cada vez mais convencido que até o espírito de Kmê Deus os tempos modernos estão a conseguir varrer do nosso quotidiano. É pena.






«Não há um Palácio para a Cultura, mas temos o actual museu do artesanato a cair aos pedaços, uma fantástica sala de cinema abandonada à sorte, dois ou três pequenos auditórios sem manutenção. Mas como somos ricos, aliás muito ricos, abandonamos tudo isso e fazemos um Palácio. É claro que quando este também já não servir por má gestão e falta de conservação, faremos outro ainda maior e mais caro, e depois outro e outro, até termos entre nós o Reino da Cultura, semeado de Palácios e Criadores.»

Paulo - comentário publicado no Café de Memória Futura






Quando foi anunciado que estava a ser preparada uma logo marca Cabo Verde, para a promoção do arquipélago cabo-verdiano, confesso que temi o pior. Basta olhar para os anúncios, outdoors, revistas, sítios na Internet ou jornais crioulos para verificar que, no que diz respeito ao nosso design criativo, ainda estamos na pré-história. Pior ainda, numa pré-história de inusitado mau-gosto. Ainda hoje o que mais se vê, por exemplo, são páginas de jornal de produtos ou serviços inacreditavelmente primários ou folhas de papel que continuam a colocar na montra dos TACV com anúncios de promoção ranhosos feitos em word com aquelas letrinhas pavorosas.

Portanto, só posso dizer que fiquei bastante agradado com o desenho escolhido. Fica bem em qualquer lado, gosto da variedade das cores e da forma criativa como as ilhas estão representadas. Só o facto de não terem escolhido algo que nos fizesse mais lembrar a União Europeia, com estrelinhas amarelas etc e tal, já foi um grande, grande avanço. 











Jogo da bola, na cidade da Praia
Fotografias de Pedro Moita (via Nha Terra Nha Cretcheu)







Só quem já ficou horas e horas nos aeroportos do Sal e da Praia nos últimos anos é que pode entender a alegria que esta notícia oferece aos mindelenses. Pelo menos de final de Abril a final de Outubro, e pelo menos uma vez por semana, os TACV vão promover um voo com ligação directa entre São Vicente e Lisboa. Todas as sextas-feiras, para ser mais exacto.

É uma fantástica notícia. Em primeiro lugar porque as viagens vão ficar mais baratas já que deixa de contar a utilização de um aeroporto e o pagamento de uma viagem interna. Calcula-se, assim por alto, que viajar de e para Portugal, custará menos de 20 contos, mais coisa menos coisa. Além disso, os charters que já estão a utilizar o aeroporto, fazendo ligações directas aos Estados Unidos e a Paris, e acredita-se que a TAP, concorrente directa da companhia cabo-verdiana, vá acabar por deixar as suas reticências de lado e apostar também nesta ligação. Porque se o aeroporto serve para uma companhia deixa de ser aceitável que não sirva para outra. Ou seja, ou o Aeroporto Internacional de S. Vicente está operacional ou não está. E pelos vistos, está mesmo.

Eu não sei qual vai ser a sensação de entrar no avião em Lisboa e sair já em S. Vicente. Que vai ser estranho vai. Que vai ser fantástico, também vai. Eu até podia entrar em Cabo Verde por outro lado. Podia, mas não era a mesma coisa.





Já está disponível a página oficial do Kriol Jazz Festival 2010, que terá lugar na cidade da Praia nos próximos dias 9 e 10 de Abril. Segundo se pode ler esta edição contemplerá "um vasto leque de artistas crioulos num intercâmbio musical e humano em torno da eloquente programação oferecida nesta segunda edição."

Em 2010, o Festival presta homenagem ao compositor e pianista Horace Silver (na foto), co-fundador do movimento hard bop nos anos 50, um ícone do lendário Blue Note, um gigante do jazz, um monstro sagrado cuja as canções "Capeverdean Blues" e "Song for my father" demonstram seu compromisso com Cabo Verde, onde seu pai nasceu.

Consulte as novidades do certame, aqui






Recebi esta carta que, naturalmente, merece ser publicada e comentada.

"Caro João Branco:

Durante o Congresso dos Quadros Caboverdianos que teve lugar em São Vicente em 1998 no Éden-Park, fiz uma pequena intervenção sobre a importância do Éden-Park na formação e na consciencialização do homem caboverdiano. Depois tive um encontro com o Professor Francisco Lopes da Silva e a Dona Maria Luiza Marques da Silva em que se fez um inventario sobre o cinema e a sua gestão em Cabo Verde. Ela lutava sozinha, apoiada por antigos empregados e amigos, para a sobrevivência daquilo que foi a obra cultural e social mais importante da família Marques da Silva em São Vicente. Queixava-se da falta de apoios, tanto do Municipio como do Ministério da Cultura. Convidou-me a assistir a um grande filme, mas a sala estava meia vazia e sem o ambiente de outrora. Logo à entrada faltava aquele ambiente festivo, a distribuição do programa dos filmes seguintes, a simpatia do Lulu, do Djosa e do Tony Marques, com sorrisos e abraços, as discussões sobre os filmes anunciados entre amigos, as criticas , etc. Nunca esquecerei o filme Cochise onde pela primeira vez o indio tinha razão no cinema americano.

Nos anos cinquenta/sessenta, o cinema fazia parte da vida quotidiana do Mindelo: discutia-se na rua de Lisboa e na Praça Estrela como na Praça Nova (onde se punham os cartazes) quem era o maior actor, o melhor filme, a actriz mais bela, qual era o melhor cinema, o do Tuta (Park Mira-Mar) ou o Éden-Park. Havia boa publicidade (distribuição de folhetos), tanto o Rádio Club como a Rádio Barlavento fazia anúncios e programas de cinema, etc. Era através do cinema que se furava a censura colonial e se aprendia a dignidade e a sonhar com as liberdades.

Com a Independência esperava-se uma política cultural do cinema: quando muito ter-se-ia realizado ao menos dois filmes sobre a luta de libertaçao na Guiné-Bissau. Tivemos, ao contrario que afirmava Amilcar Cabral de que “a luta de libertação é um acto cultural”, ministros políticos a dirigir a cultura, nomeados por filiação política e não por provas dadas na vida cultural de Cabo Verde. E as consequências foram graves tanto em Cabo Verde como na emigração que bem merece também uma política cultural. Creio que o Arménio Vieira, conhecido cinéfilo na sua juventude, chegou a ter uma página de cinema no Vozdipovo, que infelizmente não durou muito tempo. Foi a única iniciativa de criar escola e fazer pensar o cinema na nossa sociedade do pós-independência.

A responsabilidade do encerramento do cinema não se situa ao nível da nossa população. Foram os politicos que mataram o cinema em Cabo Verde. A ausência duma verdadeira politica cultural teve na péssima e horrível televisão que possuímos o encargo de executar com folhetins brasileiros o cinema em Cabo Verde. Nem a crise económica afastaria o caboverdiano do seu cinema. Como pode uma televisão do Estado, paga pelos contribuintes, passar o tempo a transmitir folhetins brasileiros e portugueses e todos os jogos de futebol, embrutecendo as pessoas e em especial as crianças, que não conhecem o próprio país e a sua história?

Um país de desenvolvimento médio deve ter também uma política cultural que corresponda à sua economia. Perdemos cinco anos a bater na tecla do crioulo que, aliás, mais nos dividiu quando precisamos de unidade. Para se manter os cinemas Éden-Park e Park Miramar seria necessário uma política cultural de cinema, integrando-a no currículo escolar, dos liceus às universidades e transformando as rádios e a televisão num utensílio cultural de formação do homem e da mulher caboverdianos.

A crise do cinema esconde a verdadeira crise cultural que Cabo Verde atravessa. No dia em que tivermos um projecto cultural coerente para Cabo Verde e sua diáspora, estamos convencidos de que haverá muitas salas de cinema em Cabo Verde. O exemplo não vem da Europa, mas sim de um pequeno país chamado Burkina Faso, economicamente sub-desenvolvido mas muito mais desenvolvido do que Cabo Verde no plano cultural, que hoje possui uma boa equipa de cineastas e um festival de cinema muito concorrido. Este pais seria o modelo para o nosso país e os nossos municipios em matéria de cinema.

O povo mindelense está de luto do seu cinema morto pela falta de cuidados de quem devia ter-lhe dado o tratamento devido: o Ministério da Cultura.

Luiz Silva - Paris 2/2/2010"





Hoje a declaração não é minha, mas aqui vai, com a devida autorização:


"Caro João Branco

Sobre os herois nacionais Baltasar Lopes deixou um texto duma grande justiça, próprio dum homem que sabia pensar e sentir o seu pais, no n° 9 da revista Ponto & Virgula sobre os Herois Nacionais. Acho mesmo que poderias reeditar o texto porque é dos raros que pôe o dedo nesta pretenciosa doença nacional e faz justiça à emigração. Estou certo que hoje, dia 22 de Janeiro, ninguém vai fazer uma referência à contribuição dos emigrantes na construção de São Vicente e de Cabo Verde e nenhum emigrante será condecorado por tudo aquilo que tem feito por São Vicente a todos os niveis (económico, social, cultural, politico, etc). Nem direito de voto tem no Municipio que ele construiu do sofrimento deriba d'água de mar. Ontem fiquei banso de ver no Liberal uma declaração do Dr. Jorge Carlos Fonseca na Holanda de que foi o 13 de Janeiro que deu prestigio internacional a Cabo Verde. Onde estava a cabecinha desse homem ao falar para emigrantes que há mais de dois séculos vêm promovendo e divulgando Cabo Verde pelo Mundo? Herois, nessa terra terra nhanhida como dizia Baltasar Lopes, somente o emigrante. Os outros vem atrás e é uma grande injustiça no dia São Vicente, no 5 de Julho ou no 13 de Janeiro ignorar o papel dos emigrantes na vida de Cabo Verde. Desculpa-me esse desabafo mas não poderia deixar passar esta data sem me refererir aos emigrantes que entre outras coisas puseram termo à emigração para São Tomé. Na verdade, como dizia Baltasar Lopes, se Carpistrano de Abreu conhecesse o caboverdiano ele nao diria que o brasileiro é o povo mais ingrato do Mundo.

Luiz Silva - Paris / França"





"Mindelo e S.Vicente tem tudo para dar certo. Falta uma acção inteligente daqueles que são pagos com o dinheiro do Estado para fazer a promoção adequada das actividades culturais. Muita coisa vem acontecendo nesta ilha, só que muito poucos são aqueles que apreciam. Estou farto de ir a actividades culturais onde aparecem apenas meia duzia de pessoas. Neste momento está a decorrer uma exposição fantastica do pintor Amandio Oliveira no Centro Cultural do Mindelo. Ninguém fala disso, injustamente. Mindelo tem sim neste momento é falta de publico apreciador e claro que isso há de interferir na motivação e na criatividade. É certo que temos um campo imenso de possibilidades a explorar. Para isso as pessoas com capacidade e com motivação para a cultura precisam arranjar estratégias correctas para influenciar os politicos nacionais e locais bem como cativar as empresas para o mecenato cultural."

Américo Silva - comentando esta pergunta cafeana






"Os surrealistas são os senhores que sorriem." Assim define esta importante corrente artística o jovem Santiago, filho de Mito Elias, no vídeo de apresentação da exposição-ciclo de projecções urbanas de vídeo, de Mito Elias e Ana Rita Pires, promovida pela Câmara Municipal da Praia, juntamente com os dois artistas (ver vídeo de apresentação aqui).

O título completo da mostra é "De Pareidolia: Rabislongo & Nha Paredi" e consiste, se bem percebi na conversa que tive com os dois, numa mostra de arte com duas vertentes: artes plásticas "fixas" (as de Ana Rita com Nha Paredi) e artes plásticas "ambulantes" (os sempre apelativos e criativos vídeos de Mito, que vão ser projectados - oito vídeos, um por dia - durante uma semana), cada um com 30 minutos, sempre na rua e em locais diferentes da cidade da Praia (é o tal Rabislongo).

Entenderam? Se sim, vão à abertura. Se não, mais uma razão para não perder a abertura. Vai acontecer hoje, dia 14 de Janeiro, pelas 18:30 minutos, no (auto-intitulado) Palácio da (dita) Cultura. Para consultar o programa completo do que vai acontecer estes dias, é só vir a esta página aqui.

Mito e Ana, venham ao Mindelo, porque andamos a precisar de inovação e criatividade como a vossa. Os surrealistas do Porto Grande andam desaparecidos, e os que existem sorriem muito pouco (bem, talvez não haja motivos para isso, mas não são os surrealistas assim intitulados por sorrirem sem precisar da razão para o fazer?)...






Já que estamos todos com vontade de discutir sobre o tema, pergunto abertamente: Mindelo - Cidade Cultural é hoje um bluff do tamanho do Monte Cara?



À melhor resposta, ofereço um café







O grupo de teatro Craq'Otchod, de Ribeira de Craquinha, vai estrear no próximo dia 19 de Dezembro a sua nova produção teatral, “mim'delo” - estórias de uma periferia à solta, integrada no projecto artístico de Miguel Pinheiro, com a colaboração de Veronica Bestetti (Associação Stringhe Colorate) e de Filipe Martins (Departamento de Antropologia - Inst. Univ. Lisboa).

Esta peça tem várias particularidades que justificam um olhar atento e, mais do que isso, uma presença solidária nos dias de apresentação: “mim'delo” é um grito à necessidade de responsabilidade individual na construção de uma sociedade: mim’ = eu, quem sou eu que habito em redor do Mindelo, eu que (também) sou Mindelo?

Além deste questionamento sobre quem somos e o que podemos fazer pela e/ou para a nossa cidade, o grupo apresenta-se com outra inovação: o preço dos bilhetes tem um desconto de 100 escudos para aqueles que sugiram num livro que estará à disposição dos interessados uma acção que promova o desenvolvimento social da cidade do Mindelo. Esse livro, também com o título “mim’delo” será depois oferecido à Câmara Municipal de S. Vicente. Portanto, quem tem coisas para falar, criticar, sugerir, gritar, desaforar, construir ou partilhar sobre a cidade do Porto Grande, esta é, seguramente, uma óptima ocasião.


Quem, Quando & Onde

ESPECTÁCULO DE TEATRO, pelo grupo Craq’Otchod
Dias 19 e 20 de Dezembro,
Centro Cultural do Mindelo, 21h