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“A Tempestade”, escrita pelo grande dramaturgo William Shakespeare foi provavelmente a sua última obra teatral e a mais singular, na opinião de alguns críticos. Essa extraordinária narração é, ao mesmo tempo, uma história de vingança e de perdão, de dor e de reconciliação, de traição e de lealdade, de amor e de ódio, em suma uma história de contrastes, concebida algures numa pequena ilha provavelmente perto da Itália, no início da segunda década do século dezassete. 

 Transportada no tempo e no espaço físico, e com cenário fincado nas ilhas Cabo-verdianas de Santiago e Santo Antão, o grupo de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo e o grupo de teatro Craq’Otchad, recriaram e montaram “Tempêstad”, para gáudio de uma plateia rendida à magia de uma representação surpreendente e de qualidade monumental, onde não faltaram elementos visuais e sonoros, desde a sobriedade do cenário, o primor nos figurinos, a luminotecnia com efeitos muito bem rebuscados, uma sonoplastia inventiva com música ao vivo (coros, percussão, violoncelo, flauta e saxofone), e sobretudo uma representação e interpretação exímia dos actores, de todos sem excepção. 

Gostaria, contudo, de ressaltar três interpretações que em minha opinião marcaram de forma destacada a peça “Tempêstad”. 

Emanuel Ribeiro (que regressa ao teatro, quase duas décadas depois), com uma pujança de fazer inveja, e empresta ao seu personagem Próspero, rico proprietário da ilha de Santiago e exilado na ilha das montanhas, uma verve admiravelmente poética de versos do texto original de Shakespeare, que nos chegam à catadupa, adaptados com requinte, à nossa língua materna. 

João Branco mais uma vez nos relembra a sua polivalência e competência nas diversas áreas do teatro, pois além de responder pela encenação e direcção artística, composição e direcção musical, e figurinos da peça, interpreta Caliban, ser disforme e bestial, pelo que forçosamente teve de recorrer a uma caracterização bem aprimorada com resultados visual e estético bem condizente com a figura. Não passa despercebido a ninguém, a forma como o João Branco se entrega por inteiro e parodia com gozo o seu personagem, numa capacidade de doação completa. 

Christian Lima interpreta Ariel, o espírito multifacetado do ar, da água e do fogo. Uma soberba actuação que marca não só pela excelente caracterização, mas também e mais uma vez, pelo preciosismo de uma deliciosa linguagem prenhe de poesia que chega como sussurros, vindos do etéreo, e preenchem os espaços e penetram os corpos dos espectadores. 

Depois de Romeu e Julieta, e Rei Lear, “Tempêstad”, é o terceiro parto bem sucedido, dessa tríade Shakespeariana, magistralmente encenada em crioulo Cabo-verdiano, por João Branco, uma obra prima que é mais um contributo para o crescimento e afirmação do teatro que se faz em Cabo Verde, com o selo da crioulização dos grandes clássicos do teatro Mundial.


 Texto sobre a peça "Tempêstad", de João  Faria; fotografia de Diogo Bento






Caliban, ban, ban! Esta personagem acaba comigo. Chego em casa todas as noites, cheio de dores, quebrado, cansado, esgotado, mas sempre com a sensação do dever cumprido. O meu único desejo é que todos os que possam, gente de teatro e gente que não seja de teatro mas que aprecie um trabalho de qualidade, possa estar nestes três dias para ver esta equipa incrível e generosa em cima do palco. Vinte e duas pessoas no palco, outras tantas que deram o seu contributo "deste outro lado", todos eles merecem, certamente, uma visita. E aí, vamos ao teatro este fim de semana?




Estamos todos enganados

1. Há dias, conversando com um amigo, chegamos à conclusão que o maior problema de Cabo Verde não é a pobreza de espírito, o descaramento, a falta de zelo, o compadrio, a lei do menor esforço, a falta de criatividade, a violência urbana, a incompetência, mas algo que reúne tudo isso numa coisa só. O nosso maior problema é mesmo um problema de mentalidade. E grave.

2. Voltamos ao mesmo. À mesma luta de sempre. Ao mesmo tema, porque não consigo ficar calado. A mais recente declaração aqui no Café Margoso, sobre a forma como está sendo implementada a disciplina de Expressão Dramática nos Liceus, teve até honras de primeira página num semanário da praça. A defesa da representante do Ministério de Educação foi inócua, vazia e encara o problema como quase sempre fazemos por cá: enfia a cabeça na areia, empurra com a barriga e siga o baile porque tudo está bem quando acaba bem. Problemas? Não! Há bagagem! Nós é que estamos todos enganados!

3. Mas a verdade é que não está bem. Não, não há bagagem, nem materiais pedagógicos de apoio, muito menos preparação metodológica para dar esta disciplina dentro das salas de aula. O último sinal foi-mo dado ontem. Como saberão, estamos em vias de apresentar no próximo fim de semana uma curta temporada de "Tempêstad", adaptação crioula da obra maior do génio da dramaturgia universal, William Shakespeare. Que melhor oportunidade do que esta, no Mindelo, para enriquecer uma disciplina que devia falar de teatro?

4. Fiz questão de entrar em contacto com os professores de Expressão Dramática aqui do Mindelo, enfatizando o fato de que a melhor forma de se falar e transmitir conhecimentos sobre esta arte, é vendo, é sentindo, é fazendo parte, é estando ali, na plateia. No teatro, tem que se ver para crer. Para se entender. Mesmo que seja para se concluir que aquilo não nos interessa para nada. Ver teatro para falar sobre teatro, essa sim é uma bagagem fundamental.

5. A resposta foi a esperada, mas mesmo assim, desanimadora. A única professora que se deu ao trabalho de falar com os seus alunos pediu que estes solicitassem autorização dos pais e encarregados de educação. A esmagadora maioria não obteve autorização dos pais para ir ao teatro! Isto é mesmo verdade? É uma comédia ou uma tragédia?

6. Não me espanta nada se alguém me disser que muitos destes jovens, agora não autorizados a usufruir de um bem cultural que pode vir a ser também uma importante ferramenta pedagógica numa disciplina curricular, fossem os mesmo que pululavam nas ruas do Mindelo, bebendo e fumando, na grande paródia do Halloween que as casas nocturnas ofereceram no passado fim de semana, a troco da módica quantia de mil e quinhentos escudos.

7. Depois, queixem-se! O mal começa em casa, nas famílias e continua na escola, até porque houve professores que nem se dignaram em responder à mensagem em que se fazia o convite aos seus alunos, procurando criar condições (leia-se, preços muito mais baratos), para irem ao teatro, ver uma obra de grande qualidade cénica, plástica, artística e toda ela, nossa, crioula, cabo-verdiana. Levar os alunos ao teatro? Eh, caramba, isso dá muito trabalho!

8. Mostrei-me disponível, mais uma vez, para ir às salas de aula, e depois do visionamento da peça, falar da mesma, das nossas opções dramatúrgicas, artísticas e estéticas. Ouvir as questões dos alunos - se as houvesse - e esclarecer todas as dúvidas e curiosidades. Mas assim, perante este silêncio, como fazer? Como avançar? Como crescer?

9. A minha parte está a ser cumprida. Coloco, com o meu trabalho e de uma enorme equipa de gente dedicada e competente, um produto artístico de altíssima qualidade (perdoem-me a imodéstia) ao serviço da comunidade. Incluindo a comunidade estudantil. Se isto não interessa, então mais uma vez estamos a ir pelo caminho errado e promover a disciplina de Expressão Dramática nas escolas é só mais um bluf, que apenas servirá os relatórios que, como tantas vezes acontece, são feitos para nos convencer que a realidade é muito melhor do que aquela que vemos todos os dias.

Mas nós, claro, é que estamos todos enganados!







Segundo a representante do Ministério da Educação, e em resposta ao meu artigo no Café Margoso, "Os professores estão devidamente capacitados" e que o MED "garante aos docentes essa bagagem" (para lecionar Expressão Dramática nas escolas e liceus de Cabo Verde). Fiquei muito mais descansado.













E vocês, vão perder?





Nos últimos dias algumas pessoas entraram em contacto comigo perguntando se eu não teria algum "material", com exercícios de teatro, incluindo de expressão corporal, vocal, dinâmicas de grupo, improvisação ou informações compiladas de história da arte cénica. Fiquei curioso pela coincidência de, num curto espaço de tempo, receber o mesmo pedido, com poucas variações, sendo que o comum em todos eles era a urgência em poder ter algum material pedagógico nas mãos.

Claro que não era coincidência. Está a decorrer no sistema de ensino cabo-verdiano uma reforma curricular e em algumas turmas "experimentais" resolveu-se considerar a disciplina de Expressão Dramática. Essa é, sem dúvida, uma fantástica notícia. O que não se compreende é que não tenha havido qualquer formação em exercício para os professores que forem ministrar essa disciplina. E tirando uma ou outra excepção, estes professores não estão minimamente preparados para lidar com um conjunto de técnicas que podem ser valiosas ferramentas de ensino, mas que para o serem, tem que ter alguém com experiência, conhecimento e o mínimo de formação na área.

Sendo o teatro uma forma de expressão artística que mexe com o ser humano na sua globalidade - chamo-lhe a arte dos 3 "Cês" precisamente porque implica trabalhar com corpo, coração e cabeça - ter gente mal preparada à frente desta disciplina, é um ato da mais pura irresponsabilidade. Segundo informações que me foram dadas, temos professores formados em artes visuais, arquitectura, ciências sociais e até engenharia a quem foi dada a responsabilidade tremenda de desenvolver e experimentar a disciplina de Arte Dramática a adolescentes nos liceus de Cabo Verde. Não se percebe porque não houve uma formação prévia, uma preparação metodológica, uma abordagem pedagogicamente aceitável para que estes profissionais da educação possam fazer um trabalho nas mínimas condições.

Feito assim, às três pancadas e desta forma irresponsável, a introdução da Arte Dramática nas escolas de Cabo Verde pode vir a transformar-se num tremendo tiro no pé de todos os envolvidos, a começar pelo próprio sistema educativo. Já agora, coloquem-se licenciados em matemática a ministrar português, sociólogos como professores de educação física ou advogados a ensinar química-física. Se vale para o teatro não ser preciso saber o que se ensina, então que se estenda este criativo método a todas as valências do ensino e que o Google e a Wikipédia nos salve a todos! 

Que fique claro desde já para quem não sabia: ensinar teatro ka é brinkadera!






Uma iniciativa muito feliz do Centro Cultural Português - Pólo do Mindelo, fazendo a ligação entre a cultura, história e o passeio. No próximo Sábado, será a ver do teatro. Vamos?






Viciados

1. Há atitudes, posturas e até percursos que apenas o vício consegue explicar. Escrevo isto a propósito de um comentário do diretor e grande amigo Márcio Meirelles, numa conversa recente. Ao saber que tínhamos montado a nossa versão crioula de “A tempestade”, de Shakespeare, em apenas 45 dias, com uma equipe de 24 elementos, onde, só por raras vezes, se conseguiam juntar todos na sala de ensaio, com parte do elenco em viagem para fora de Cabo Verde por terem compromissos relativos a outras apresentações, e somado a tudo isto, o fato de a estreia se dar em pleno epicentro do Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact, fez com que nos olhasse incrédulo e sorrisse, com aquela aparente mansidão de quem acolhe um vulcão no peito. “Somos loucos, não somos?”, perguntei-lhe. “Não”, respondeu ele, “o que vocês são é viciados!”

2. Esta coisa do teatro é algo que poucos conseguem explicar mesmo sabendo que muitos – quase todos nós – temos prontas para atirar em cima da mesa, nas conversas e discussões entre os nossos pares, múltiplas teorias de índole das mais variadas, seja na área da teoria e história de arte, sociologia, psicologia social, antropologia ou ciência política. Por que fazemos; por que teimamos; por que nos importamos; por que nos sacrificamos; por que nos sujeitamos; por que sentimos prazer na morte inevitável a cada criação que passa; por que somos por vezes tão masoquistas? Numa oficina que tive o prazer de realizar com o mesmo Márcio Meirelles, no mítico e fenomenal Teatro Vila Velha, em Salvador, esse foi o questionamento básico: por que fazemos teatro? Cada um dos cerca de 30 participantes deu o seu depoimento, necessariamente curto e improvisado ali, no momento. Uma das respostas que ficaram na minha memória foi esta “eu faço teatro porque não sei não fazer teatro”. Querem melhor definição de vício do que esta?

3. Mas o teatro é um vício diferente, embora seja também uma droga que pode provocar perigosos efeitos colaterais, tais como ataques de ansiedade, desequilíbrios emocionais, atritos familiares, crises financeiras, hecatombes matrimoniais, lesões físicas, momentos de delírio, períodos mais ou menos prolongados em que os cuidados com a alimentação ficam relegados para segundo plano, e por aí vamos, nesta estrada sempre sinuosa que por mais extraordinária que nos possa parecer, tendo em conta todas essas aparentes sequelas, não tem nada nem ninguém que nos faça desviar do nosso caminho. Uma vez nela, sempre nela. O teatro é assim, vicia a gente. Não podemos passar sem ele e todas as justificativas que cada um de nós possa dar para essa insanidade que invade nossas vidas, só piora a situação. Como os viciados, não há justificação. Apenas desculpas esfarrapadas. Ou, no nosso caso, ainda pior, teorias pretensamente científicas. 

4. Milanka, atriz cabo-verdiana, escreveu, há dias, num comentário no Facebook, a seguinte frase: “A falta de teatro faz a gente menos gente." É uma das melhores frases dos últimos tempos sobre este assunto e uma claridade se apresenta  perante nossos corações e, sobretudo, as nossas cabeças. É isto mesmo. Garcia Lorca já o tinha dito – e muitos outros disseram também, frases e poemas, recados e obituários, ditados e pequenos hinos – sobre o quão fundamental é o teatro nos tempos que correm, principalmente nos tempos que correm, tal como já o tinha sido no passado, nos tempos que correram então, há dezenas, centenas ou milhares de anos. Por coincidência, ou talvez não, as mais fantásticas palavras escritas sobre a arte cénica têm o denominador comum de terem sido escritas por gente de teatro, dramaturgos, atores e atrizes, diretores, artistas plásticos, cenógrafos, poetas, dançarinos e acrobatas, palhaços, ilusionistas. Sim, é um cliché, mas é isso mesmo: outra coincidência com a droga – só quem experimentou pode entender o que é isto do teatro nas nossas vidas!

5. Aqui na cidade do Mindelo, bem no meio do Atlântico, nasceu uma nova companhia de teatro. A Trupe Pará Moss – TPM, apresentou-se com três espetáculos diferentes em três dias, um deles em estreia. Neste novo grupo, que tive o prazer de acompanhar durante os dois anos de formação teatral, existe de tudo um pouco, caleidoscópio social da cidade e do amor que esta dedica ao teatro: uma psicóloga, um cortador de vidro, vários estudantes, um militar em início de carreira, uma brasileira apaixonada, um monitor de um centro de apoio a tóxico-dependentes, um operário de uma fábrica de enlatados de peixe, alguns desempregados, dois ou três licenciados. Muitos deles, depois de oito horas de duro trabalho nos respetivos empregos, vão para os ensaios com uma energia e uma disponibilidade que envergonha muitos atores ditos profissionais com os quais tenho cruzado nesta caminhada. 

6. É por isso que faz sentido falar de vício. E hoje também faz sentido recordar uma belíssima frase dita por um conceituado diretor português, Luís Miguel Cintra: “Para cada nova companhia de teatro que nasce deveriam nascer mil estrelas no céu”. O céu de Cabo Verde, esse, ficou um pouco mais brilhante nos próximos dias.

Mindelo, 12 de Outubro de 2013

Crónica também publicada no Portal da SP Escola de Teatro (aqui) Fotografia: Trupe Pará Moss, "As Mindelenses" (2013), de Nelson RIbeiro






No passado fim de semana, na cidade do Mindelo, a Trupe Pará Moss, grupo de teatro recém-criado e oriundo do 14º Curso de Iniciação Teatral do Centro Cultural Português, apresentou uma série de 3 diferentes espetáculos, o que só por si, é um acontecimento. Mas não é sobre isso que vou falar hoje.

Uma das peças, "As Mindelenses", foi apresentada pela 10ª vez (as outras nove apresentações foram feitas seis no auditório do Centro Cultural do Mindelo - e nem por isso merece um cartaz na exposição que a instituição resolveu promover para lembrar os momentos que "marcam a história do Centro Cultural do Mindelo" - e três no auditório da Academia de Música Jotamont.) Esgotou sempre. Sempre teve uma procura muito superior à oferta, com um desespero na procura de bilhetes que por vezes roçou o surreal. Feitas as contas, neste momento, o espetáculo já foi visto por cerca de três mil pessoas. Notável, se tivermos em conta a realidade da ilha de S. Vicente!

O que faz com que a procura seja tão grande? Encontro três motivos: o primeiro, é a qualidade do trabalho, naturalmente. Se não fosse assim, não teria tanta gente querendo ver a peça. O segundo motivo, as opções de encenação, que passam por um registo cenográfico minimalista e uma construção toda ela sustentada num competente trabalho de interpretação. O terceiro motivo, é a identificação do público com o tema e, principalmente, com as personagens. Mesmo quando as histórias são estranhas, bizarras e surrealistas.

Inspirado no universo do dramaturgo Nelson Rodrigues, a peça retrata a vida de dez mulheres do Mindelo, de dez bairros diferentes da cidade. A separar as cenas, a intervenção do narrador que, com excelentes textos e interpretação de Carlos Araújo, nos leva a viajar por cada uma das zonas. Mas o que provoca esta atração das pessoas por estas dez estranhas mulheres?

Senão vejamos: uma é tão vaidosa que até as nódoas negras provocadas pela violência do marido são motivo de regozijo; outra é cleptomaníaca e polícia ao mesmo tempo; uma terceira tem tantos ciúmes que prende o namorado de forma a que fiquem juntos, para sempre, "como numa moldura"; outra é apresentadora de televisão que vira candidata a vereadora; outra uma beata que incomoda os vizinhos no domingo de manhã para dar catequese mas ao mesmo tempo tem uma vida paralela de luxúria e depravação; uma outra, excita-se irremediavelmente, só por ouvir o crioulo de Santo Antão; outra, só pensa em suicidar-se e ao verificar que o irmão gémeo morre primeiro fica furiosa com o fato; uma é noiva e só quer ser noiva, pelo que arranjar sempre forma de noivar e de romper antes de consumado o matrimónio; outra, é tão invejosa que chega ao ponto de convencer o namorado a matar uma terceira pessoa, para lhe poder roubar a pele e os olhos; e finalmente, uma mulher bonita que não se sente traída pelo fato de o seu marido a trair com outro homem e não com uma mulher. 

Estou cada vez mais convencido que nos cantos e recantos do Mindelo, nos becos, nos quartos, nos guethos, nos esconderijos, dentro dos carros, nas estradas e caminhos isolados, poderíamos encontrar muitas mais histórias destas, mais ou menos macabras e inacreditáveis. O sucesso da peça também se deve a isso: todos ficam encantados com a forma como lhes é permitido, de uma forma tranquila e divertida, espreitar pelo buraco da fechadura da sociedade mindelense. Melhor prenda que essa, não há!


Foi um prazer e um desafio, interpretar esta personagem. Foi uma ironia e foi uma homenagem ao meu querido amigo Sérgio Grilo. A adrenalina do palco é saborosa, mais a mais quando estamos bem acompanhados, numa produção teatral que tanto gozo deu em fazer. Faria tudo de novo! Ban ban, Caliban!












Há atitudes, posturas e até percursos que apenas o vicio consegue explicar. Escrevo isto a propósito de um comentário do diretor e grande amigo Márcio Meirelles, numa conversa recente. Ao saber que tínhamos montado a nossa versão crioula da “Tempestade” de Shakespeare em apenas 45 dias, com uma equipa de 24 elementos onde só por raras vezes se conseguiam juntar todos na sala de ensaio, com parte do elenco em viagem para fora de Cabo Verde por terem compromissos relativos a outras apresentações, e somado a tudo isto, o fato de a estréia se dar em pleno epicentro do Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact, fez com que nos olhasse incrédulo e sorrisse, com aquela aparente mansidão de quem acolhe um vulcão no peito. “Somos loucos, não somos?”, perguntei-lhe. “Não”, respondeu ele, “o que vocês são é viciados!”

Esta coisa do teatro é algo que poucos conseguem explicar mesmo sabendo que muitos – quase todos nós – temos prontas para atirar em cima da mesa nas conversas e discussões entre os nossos pares, múltiplas teorias de índole a mais variada, seja na área da teoria e história de arte, sociologia, psicologia social, antropologia ou ciência política. Porque fazemos, porque teimamos, porque nos importamos, porque nos sacrificamos, porque nos sujeitamos, porque sentimos prazer na morte inevitável a cada criação que passa, porque somos por vezes tão masoquistas. Numa oficina que tive o prazer de realizar com o mesmo Márcio Meirelles no mítico e fenomenal Teatro Vila Velha, em Salvador, esse foi o questionamento básico: porque fazemos teatro? Cada um dos cerca de trinta participantes deu o seu depoimento, necessariamente curto e improvisado ali, no momento. Uma das respostas que me ficou na memória foi esta “eu faço teatro porque não sei não fazer teatro”. Querem melhor definição de vicio do que esta? Mas o teatro é um vicio diferente, embora seja também uma droga que pode provocar perigosos efeitos colaterais, tais como, ataques de ansiedade, desequilíbrios emocionais, atritos familiares, crises financeiras, hecatombes matrimoniais, lesões físicas, momentos de delírio, períodos mais ou menos prolongados em que os cuidados com a alimentação ficam relegados para segundo plano, e por aí vamos, nesta estrada sempre sinuosa que por mais extraordinária que nos possa parecer tendo em conta todas essas aparentes seqüelas, não tem nada nem ninguém que nos faça desviar do nosso caminho. Uma vez nela, sempre nela. O teatro é assim, vicia a gente. Não podemos passar sem ele e todas as justificações que cada um de nós possa dar para essa insanidade que invade nossas vidas, só piora a situação. Como nos viciados, não há justificação. Apenas desculpas esfarrapadas. Ou no nosso caso, ainda pior, teorias pretensamente científicas. 

Uma atriz cabo-verdiana escreveu há poucos dias num comentário no Facebook, a seguinte frase: “falta de tiatre ta faze gent menus gent” (a falta do teatro faz a gente menos gente). É uma das melhores frases dos últimos tempos sobre este assunto e uma claridade se apresenta perante nossos corações e, sobretudo, as nossas cabeças. É isto mesmo. Garcia Lorca já o tinha escrito, "o teatro é poesia que sai do livro e se fsaz humana", e muitos outros disseram também, frases e poemas, recados e obituários, ditados e pequenos hinos, sobre o quão fundamental é o teatro nos tempos que correm, principalmente nos tempos que correm, tal como já o tinha sido no passado, nos tempos que correram então, há dezenas, centenas ou milhares de anos atrás. Por coincidência, ou talvez não, as mais fantásticas palavras escritas sobre a arte cênica tem o denominador comum de terem sido escritas por gente de teatro, dramaturgos, atores e atrizes, diretores, artistas plásticos, cenógrafos, poetas, dançarinos e acrobatas, palhaços, ilusionistas. Sim, é um clichê mas é isso mesmo: outra coincidência com a droga – só quem experimentou pode entender o que é isto do teatro nas nossas vidas! 

Aqui na cidade do Mindelo, bem no meio do Atlântico, no próximo fim-de-semana, vai nascer uma nova companhia de teatro. A Trupe Pará Moss – TPM, vai se apresentar com três espetáculos diferentes em três dias, um deles em estréia. Neste novo grupo, que tive o prazer de acompanhar durante os dois anos de formação teatral, existe de tudo um pouco, caleidoscópio social da cidade e do amor que esta dedica ao teatro: uma psicóloga, um cortador de vidro, vários estudantes, um militar em inicio de carreira, uma brasileira apaixonada, um monitor de um centro de apoio a tóxico-dependentes, um operário de uma fábrica de enlatados de peixe, alguns desempregados, dois ou três licenciados. Muitos deles, depois de oito horas de duro trabalho nos respectivos empregos, vão para os ensaios com uma energia e uma disponibilidade que envergonha muitos atores ditos profissionais com quem me tenho cruzado nesta caminhada. É por isso que faz sentido falar de vicio. E hoje também faz sentido, recordar uma belíssima frase dita por um conceituado diretor português, Luis Miguel Cintra: “por cada nova companhia de teatro que nasça deviam nascer mil estrelas no céu”. O céu de Cabo Verde, esse, ficará um pouco mais brilhante nos próximos dias.

Fotografia de Diogo Bento




Para um artigo do jornal A Nação fui entrevistado pela jornalista Maguy Gonçalves a propósito do livro "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde". Aqui ficam, de forma integral, as perguntas e respostas que serviram de base ao referido artigo.


- Quanto é que resolveste escrever um livro sobre a história do teatro? O que o motivou a isso?

O teatro é uma arte que vive do momento vivido, ou seja, só existe, enquanto forma de expressão artística, nos instantes em que é colocada frente a frente com um público. Depois o que fica são os registos e as memórias. Se não cuidarmos de fixar essas provas testemunhais, o acontecimento cénico apaga-se com o passar do tempo. Daí a importância de arquivar e registar tudo. Ora, eu sempre tive essa preocupação, não só em relação ao meu trabalho enquanto encenador e professor de teatro no IC - Centro Cultural Português, mas também enquanto público. A dada altura comecei a constatar que já tinha material que justificava um arranque para uma investigação mais profunda referente à história do teatro em Cabo Verde. No início dos anos 2000, meti mãos à obra, organizando o material que tinha e recolhendo muito outro, nomeadamente com a realização de inúmeras entrevistas de pessoas que estiveram directamente envolvidas no movimento teatral cabo-verdiano, algumas delas já falecidas.

- Foi muito difícil reunir documentos e informações sobre esse aspecto? Porquê?

Foi e não foi. Por um lado foi porque a informação era, na época, muito escassa. Por exemplo, fiz uma pesquisa profunda em toda a imprensa escrita dos primeiros anos da independência e entrevistei muitos intervenientes e testemunhas do teatro de outras épocas. Li muitos documentos históricos procurando entender um pouco de como e onde se fazia teatro nos tempos antigos. Acabei fazendo algumas descobertas interessantes que estão no livro. Mas por outro lado, foi muito prazeiroso, porque o objecto de investigação, o teatro, é parte importante da minha vida e, como se sabe, quem corre por gosto não cansa.

- Quanto tempo levou a preparar este livro?

Cerca de dez anos de investigação e dois de escrita e revisão.

- Contou com a colaboração de quem?

De todos os que aceitaram partilhar informações, que foram preciosas. Destaco ainda o papel da Dra. Ana Cordeiro, na correcção final da obra, da Luisa Queirós que ilustrou a capa e da Dra. Zelinda Cohen, na altura responsável pelas edições da Biblioteca Nacional, que acreditou neste projecto. Aliás, o livro foi o primeiro de uma nova linha editorial e gráfica do IBNL e tenho algum orgulho nisso.

- Porquê o título "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde"?

Porque a primeira expressão é uma metáfora da segunda. Cabo Verde é, sempre foi, uma Nação profundamente apaixonada pela arte cénica, e eu quis que esse aspecto fundamental do povo cabo-verdiano estivesse patente no título da obra.

- De onde conseguiu reunir todas as informações reunidas neste livro?

Testemunhos, directos e indirectos, imprensa escrita, documentos oficiais e materiais referentes a peças de teatro como programas, bilhetes, cartazes e fotografias.

- Algumas personagens criticam este livro a dizer que não reúne ou não versa, da melhor forma, a história do teatro em Cabo Verde. Qual a tua posição?

Não sei quem são essas pessoas nem nunca li essas críticas, possivelmente porque as primeiras nunca deram a cara e as segundas nunca foram publicadas. Por alguma razão continuamos sem ter uma tradição de crítica artística em Cabo Verde. Mas é normal que um estudo desta natureza nunca esteja completo. A História vai-se construindo, nunca é um produto completo. Lembro-me bem do que disse o historiador António Correia e Silva na apresentação, ao referir estarmos "ante um estudo de inegável valor científico, dotado de rigor metodológico e epistemológico." Aquele que é por todos reconhecido pela sua competência na investigação histórica, afirmou também que "quanto ao compulsar de informações o livro em análise só tem paralelo no monumental Os Bastidores de José Vicente Lopes" o que me orgulhou especialmente porque sou um admirador confesso da obra do JVL. Entretanto foram-me chegando em mãos outras fontes e informações preciosas que poderão enriquecer, e muito, uma futura nova edição. 

- É necessário que se estude melhor o teatro em Cabo Verde, mesmo que por diversas vezes seja colocado em outros postos em relação às artes em Cabo Verde, ganhando expressão maior no Março, mês de Teatro ou no Mindelact?

Mais uma vez sublinho: sendo o teatro uma arte que só tem existência efectiva no acto da sua concretização enquanto espectáculo cénico, é fundamental a preservação da sua memória por todos os meios possíveis. Quanto maior e mais variada for a informação a respeito, melhor.

- Falando nestas duas datas marcantes para o teatro em Cabo Verde, este tornou-se mais expressivo no momento em que surgiram estas duas datas. Já é necessário que as autoridades e os cidadãos comuns tenham mais em conta, o teatro em Cabo Verde e a sua importância?

Eu penso que isso já acontece e esta entrevista é apenas mais uma prova disso. O teatro em Cabo Verde conquistou o seu espaço e duvido muito que alguém o venha tirar de onde ele está, ou seja, num patamar bem razoável do ponto de vista de adesão e criação. Sabendo isso, é natural que se defenda um maior investimento das autoridades e do Mecenato para esta forma de expressão artística. Garcia Lorca escreveu que "um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo.” Eu acredito cada vez mais nisto.

- Neste momento estás a pensar em mais alguma obra sobre o teatro, ou uma reescrição da história do teatro tendo em conta os 8 anos que passaram em cima da apresentação "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde"?

Gostaria de fazer uma re-edição aumentada do que já existe. Tenho já muito material acumulado que poderia ser uma mais valia de uma obra que por si já tem muita informação reunida nas suas mais de 550 páginas. Mas neste momento estou concentrado num outro estudo, de investigação artística e sociológica, que é tentar entender a identidade do teatro cabo-verdiano, nas suas diversas vertentes. 

Mindelo, 23 de Junho de 2012






“A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós.(....). E no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros, de insanos e, em suma de uma salada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los.” 

 Nelson Rodrigues - dramaturgo





Vão ver. Falaremos de pedofilia. Estamos a trabalhar no duro para que esta ferida social não seja tocada de forma leviana. A cada dia de ensaio, chegamos em casa extenuados dada a enorme exigência do excelente texto do Caplan Neves. Homenagem aos actores, Fonseca Soares e Janaina Alves, que com a sua imensa generosidade tem encarado este desafio com enorme coragem e talento. 




No próximo dia 27 de Abril, sexta-feira, os alunos do 14º Curso de Iniciação Teatral voltam ao palco do Centro Cultural do Mindelo para apresentar o espectáculo "Pará Moss - Stand Up Comedy". Vinte e dois números de stand-up comedy, um formato que pode trazer alguma rentabilidade para quem mostrar ter talento para esta difícil arte de fazer rir o outro falando na primeira pessoa. E neste grupo de gente corajosa há muito talento. 

Quem estiver no Mindelo, não perca!






O ITI – International Theatre Institute UNESCO, honrou-me ao convidar-me para redigir a mensagem comemorativa do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro. Vou dirigir estas breves palavras aos meus companheiros do teatro, colegas e amigos.

Que o vosso trabalho seja convincente e genuíno. Que seja profundo, tocante, comunicativo e incomparável. Que nos ajude a refletir sobre a questão do que significa ser humano e que essa reflexão seja conduzida pelo coração, pela sinceridade e pela bondade. Que superem a adversidade, a censura e a escassez algo que, na verdade, muitos de vocês são forçados a confrontar. Que sejam abençoados com talento e rigor necessários para ensinarem, em toda a sua complexidade, as causas pelas quais deve bater o coração Humano, tendo em conta a humildade e a curiosidade para fazer dessa tarefa a obra da vossa vida. E que seja o vosso melhor – porque o melhor que derem, mesmo assim, só acontecerá nos momentos únicos e efémeros – Em consonância com a pergunta mais elementar de todas:

“Porque vivemos?”

Merda!!!

John Malkovich












Actor Manuel Estevão, Prémio de Mérito Teatral 2012, em "No Inferno", adaptação do romance de Arménio Vieira levada a cabo pelo GTCCP-IC.






É bonito, ver a dinâmica da coisa!



Espectáculo único, do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC, na sua 45ª Produção Teatral. Vamos ao teatro? A peça vale a pena, garanto, pela parte que nos toca. Como não há teatro sem público, contamos com a vossa presença!














"Bodas de Sangue", pelo Grupo de Teatro do CCP - IC. Fotografias de João Barbosa