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Li isto no Facebook, não tenho como não partilhar:

"A Alemanha atribuiu um orçamento extra de 50 milhões de euros para a Cultura. O ministro alemão da cultura declara à imprensa "Não se trata de um subsidio. Trata-se de um investimento significativo no futuro da sociedade alemã". Todos os partidos, desde a esquerda à direita, aplaudem o Ministro Alemão da Cultura e congratulam esta medida. A cultura passa a ser assim 5,1% do Orçamento de Estado na Alemanha."

E isto, em plena crise, provavelmente a maior desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Ver o link da notícia, aqui.


Imagem: "The Rite of Spring" de Pina Bausch




No documento disponibilizado online - excelente iniciativa! - com o programa do Governo integral para a próxima legislatura (aqui), interessa-me especialmente a parte dedicada à cultura e à política cultural.

Cá fica o que de mais importante se projecta para o sector durante o período 2011 - 2016. O que pensam disto? Para já, parece-me um programa ambicioso quanto baste. Será realista ou exequível? Por nós, cá estaremos para opinar, propor, criticar, contribuir, sempre que se justifique. 


«Transformar a nossa Cultura num recurso estratégico»

Para transformar a Cultura Cabo‐verdiana em recurso estratégico, o Governo irá formular e implementar uma política cultural virada para o desenvolvimento dando uma atenção especial: 

• À revisão do quadro institucional de maneira a permitir uma maior parceria entre o Estado, os Produtores de cultura e o sector privado, bem como a gestão partilhada do sector da cultura e a capacitação institucional para promover, defender e divulgar os produtos culturais e a propriedade intelectual. Neste particular, o Governo irá dinamizar a criação de uma Sociedade para o Desenvolvimento da Cultura no quadro de uma Parceria Público Privado de promoção da cultura;

• À aprovação do quadro legal do desenvolvimento cultural, das indústrias culturais e criativas nas áreas que suportam a criação artística, artesanal e a recreação histórica, como: música, audiovisual, organização de espectáculos/ festas pagãs e religiosas, arte, teatro, gastronomia, moda, literatura, cinema, e ao reforço da segurança jurídica dos criadores e produtores de cultura nomeadamente na luta contra a pirataria cultural e a cobrança dos Direitos de autor;

• À profissionalização dos agentes culturais e dos organizadores de espectáculos bem como a formulação de um quadro legal que permita a protecção dos direitos dos criadores e uma melhor articulação entre os produtores de cultura e o público;

• À adopção de incentivos aos criadores e aos difusores de cultura através da criação de um Fundo de incentivos à cultura, de medidas de incentivos fiscais, de apoio através de ADEI ao empreendedorismo cultural, da concessão de subvenções aos gestores das pequenas salas de animação cultural, e de um sistema de incentivos para exportação de produtos culturais;

• Promover o desenvolvimento de infra‐estruturas culturais; 

• Construir centros de conferências e culturais multiusos na Praia e Mindelo; 

• À continuação de uma atenção especial à língua Caboverdeana, com recurso cada vez maior aos conhecimentos técnicos, ao aprofundamento e socialização aberta e generalizada desses conhecimentos, utilizando todos os meios técnicos e tecnológicos disponíveis interna e internacionalmente.

• Promover o desenvolvimento do sector artesanal ligado ao turismo.

Pintura "Crral da ruça" de Manuel Figueira





O anúncio do novo Governo de Cabo Verde trouxe, independentemente dos nomes escolhidos, uma boa notícia: o Ministério da Cultura volta a ser autónomo e a ocupar o lugar que merece na orgânica do elenco governamental. A junção da pasta do Ensino Superior com a da Cultura foi um lapso que, felizmente, não perdurou durante muito tempo. 

Resta-me agora dizer algo sobre a escolha do novo ministro, Mário Lúcio Sousa, de quem sou amigo e admirador, e portanto, suspeito para emitir qualquer opinião que possa ser considerada imparcial. Mas tudo bem. O que me apetece dizer é que prefiro um artista experiente na pasta do que um tecnocrata que não conhece o meio, nem os agentes culturais, nem as suas preocupações, muito menos as difíceis condições em que os artistas desenvolvem os seus percursos criativos em Cabo Verde.

Ora, Mário Lúcio, com o currículo que tem como músico, compositor, dramaturgo, escritor e artista plástico (área que explorou pouco e abandonou cedo) pode ser um triunfo poderoso. Além do mais é jurista, mesmo que não exerça e portanto domina os meandros de um dos sectores que mais falhas apresenta em toda a estrutura das políticas culturais no país: a legislação. 

É um homem que tem material produzido de reflexão na área e cabe-lhe agora criar as condições para que o que tem defendido possa ser aplicado na prática. Não sendo gestor - não se pode ter tudo - é também alguém com capacidade de ouvir os outros, assimilar, julgar e agir segundo aquilo que julga ser o melhor para a área. 

Já lhe chamam a versão Gilberto Gil cabo-verdiana. Se o percurso e o trabalho desenvolvido vier a confirmar esta doce ironia, só lhe fica bem, até porque estamos a falar de um ministro, também ele artista e músico, que revolucionou todo o panorama da aplicação de políticas públicas nesse imenso país que é o Brasil. 

Tudo o que aqui vai escrito não é o garante que venha a ser um bom Ministro da Cultura. Eu acredito que possa vir a ser. Agora é dar tempo ao tempo e esperar que aconteça o que certamente todos desejamos: que as políticas públicas na área da Cultura durante a próxima legislatura representem uma profunda viragem naquilo que foi a inércia, a incapacidade e a falta de criatividade que a caracterizou durante os últimos anos. 



O programador António Pinto Ribeiro deu uma conferência no Mindelo, onde falou de um exemplo de aplicação de políticas públicas para a cultura que talvez poucos conheçam: a antiga presidente do Chile, Michelle Bachelet, que liderou o país entre 2006 e 2010, durante o seu mandato fazia-se acompanhar em todas as suas viagens, por um grupo de teatro. A apresentação pública desse grupo no país visitado era quase sempre um dos pontos altos da agenda da visita e foi esta a forma que ela encontrou para promover o seu país e contribuir para o desenvolvimento teatral do Chile que também por causa desta medida conheceu nos últimos anos avanços extraordinários.

Ora cá está algo que nunca entendi porque não é aplicado a Cabo Verde: a diplomacia cultural. Não se entende porque é que não existem Adidos Culturais nas Embaixadas de Cabo Verde, responsáveis por uma programação dedicada à promoção da cultura do país, convidando artistas residentes no arquipélago ou no país da própria embaixada e promover um programa vasto de promoção cultural. Não se entende porque é que os artistas, músicos, bailarinos, actores, artistas plásticos, poetas, são tão poucas vezes convidados a fazer parte das comitivas, sejam elas Presidenciais ou o Chefe do Governo. 

Intitulamos Cesária Évora de "nossa embaixadora" mas nem paramos para pensar no que isso realmente significa. Cabo Verde deve ser dos países do mundo que mais teria a ganhar com a implementação séria, sustentada, programada, de uma vasta diplomacia cultural. Com ganhos, inclusive, de teor económico, até porque dar o país a conhecer ao mundo tendo a cultura como principal motor de promoção, é a melhor forma de contribuir para o seu pleno desenvolvimento. O que se tem visto nesta área? Muito pouco. Quase nada. Achar-se que a distribuição de alguns passaportes diplomáticos a artistas resolve esta lacuna é demasiada ingenuidade, para não lhe chamar outra coisa. 

Imagem. «petalaflor desta varanda», de Manuel Figueira





Um debate histórico entre os líderes dos 4 partidos políticos cabo-verdianos. Temas: economia, emprego, energia, educação, saúde, regionalização, segurança, competitividade. Sobre Cultura? Zero!

Quem decide os temas? Os jornalistas? As redacções? As administrações? Os jornalistas em acordo prévio com os partidos? Quem? Seja quem for, não venham dizer que a Cultura é alma do povo, que a identidade do cabo-verdiano é moldada pela sua Cultura, que é com a Cultura que Cabo Verde chega ao mundo, e mais isto e mais aquilo.

Pelo que se viu, a importância que se dá à Cultura é um redondo e desolador espaço vazio.





Um ciclo de debates prepara-se na cidade do Mindelo. Pertinente. Muito pertinente. Organizados pela investigadora Rita Lobo, este ciclo de encontros sobre o panorama cultural do Mindelo, intitulado genericamente «MINDELO - temos cultura?» terá o seu começo já no início de Janeiro.

«A cidade de Mindelo está em constante transformação. Nos últimos anos têm surgido novos espaços e agentes culturais e o desenvolvimento do ensino superior povoou a cidade com estudantes universitários. Para uns, a identidade cultural da cidade tem-se reforçado enquanto que, para outros, a cidade está a definhar tanto do ponto de vista económico como cultural. Mindelo ainda é capital da cultura ou a cidade perdeu o seu mais importante capital?»

Por aqui vamos dando conta do seguimento dos debates e contribuir para a sua divulgação, numa temática que pensamos ser crucial para o futuro da cidade do Mindelo. Porque também podemos dizer que já chega desta história de chorar sobre o leite derramado. O tempo é de agir. 2011 é o ano de acção. 

Parabéns à iniciativa.




Nos últimos meses aqui em Lisboa tenho tido a oportunidade de me cruzar várias vezes com a comunidade universitária cabo-verdiana. Nalguns debates promovidos - quase todos eles graças à fantástica dinâmica do grupo da Tertúlia Crioula, algo que seria vital reproduzir em território nacional - fiquei agradavelmente surpreendido com as intervenções do Rony Moreira, cujos textos no seu blogue Geração 20.j.73 aprecio bastante. 

No último encontro de José Maria Neves com universitários na capital portuguesa, Rony Moreira foi autor duma das interpelações mais originais da iniciativa, cujo teor não resisto em relatar aqui, de memória. O jovem recordou uma história que lhe acontecia quando chegava em casa: a mãe lhe pedia para que dissesse o que tinha feito de bom durante o dia ao que a criança respondia sem problemas. Fiz isto e aquilo, respondia orgulhoso. Depois, a mãe lhe dizia: agora fala o que fizeste de mal durante esse mesmo período. Era muito mais difícil.  Como admitir assim, do pé para a mão, os próprios pecados? Até no sagrado segredo do confessionário é complicado...

Pois bem, usando esta história, Rony Moreira voltou-se para José Maria Neves e perguntou-lhe: «senhor Primeiro-Ministro, já ouvimos muitas vezes o que o senhor acha que o seu governo fez de bom para o país. Agora eu gostaria de ouvir o que o senhor pensa que fez de mal e poderia ter feito melhor. Porque é muito mais difícil admitir os próprios pecados do que amplificar as nossas virtudes."

A resposta foi curiosa: "penso que na área da Cultura poderíamos ter feito um pouco mais." Lembrei-me imediatamente do Primeiro-Ministro português José Sócrates, que usou a mesma frase há uns meses atrás. Não me parece, em última análise, que a colocação da pasta da Cultura no mesmo ministério responsável pelo Ensino Superior tenha contribuído para melhorar esta performance e a verdade é que nesta área o vazio de ideias continua constrangedor. Umas das medidas imediatas da nova ministra foi a alteração do estado de coisas no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na cidade da Praia, e os resultados foram visíveis e imediatos. O que vem comprovar que, se calhar, fazer mais e melhor, não será assim tão complicado. Ou é?






Numa altura em que eleições presidenciais decorrem no Brasil, muito se tem escrito e analisado sobre a chamada "herança Lula". Aqui mesmo no Café Margoso fizemos referência a este espantoso antes & depois, que explica como é que um Presidente, depois de dois mandatos no poder, tem uma popularidade próxima dos 80% da população.

Uma das razões deste sucesso passa, não tenho qualquer dúvidas disso, pela aposta na cultura, dentro do país e também fora, na sua internacionalização como veículo de promoção de um país e de uma economia. Mas não com palavras e discursos bonitos. Com actos mesmo. E os resultados estão à vista.

Como se pode ler num texto publicado no jornal Público, a música popular brasileira é ouvida em todo o mundo, o cinema brasileiro está nos festivais e nas salas europeias e sul-americanas, há festivais de teatro, de dança, de literatura, e a moda e o design brasileiros são hoje exemplares para a moda e o design norte-americano e europeu. Lula da Silva anunciou neste ano que 1 por cento do Orçamento Geral do Estado brasileiro seria para a cultura, o que corresponde ao maior orçamento da história, incomparável com qualquer outro caso, seja na América latina seja na Europa. A promessa é subir para 1,5 já em 2011, o que seria ainda mais espantoso.

Muito do sucesso do Brasil passa pela sua aposta na cultura. É inquestionável. E uma lição a reter. Os resultados económicos, o turismo incrementado, as grandes vitórias da diplomacia internacional, com as organizações do Mundial de Futebol e dos Jogos Olímpicos, tudo isso passou por um intenso programa de incentivo à internacionalização da cultura brasileira e a uma aposta séria nas mais diversas vertentes da criação e produção cultural e artística assim como programas intensivos de incentivo do acesso da população a bens culturais. 

Não seria nada mau Cabo Verde aprender alguma coisa com isto. Porque quando vemos o trabalho das nossas embaixadas nesta área e as políticas dos governos e das Câmaras Municipais (quando e lá onde elas existem), e depois ouvimos como o país tem uma cultura que é o seu motor, farol, diamante, rubi ou qualquer outra metáfora ou pedra preciosa usada em discurso ou ocasião solene, é que nos apercebemos da imensa distância que vai entre as boas intenções e a realidade aplicada no terreno. Diplomacia cultural? Alguém sabe o que isso é, o que significa e o que pode trazer para o arquipélago? O exemplo brasileiro é a prova que a distância entre a retórica e a prática não tem que ser sempre assim tão grande.

Leiam o artigo completo, aqui.








A Margarida Fontes, não sei se como leitora atenta se como jornalista (se é que se podem separar estas duas vertentes), escreve no seu blogue (aqui) não saber ou não entender a natureza das entrevistas que tenho vindo a realizar para o jornal A Nação com outros criadores nacionais, confessando não descortinar se as entrevistas são feitas estando eu «como jornalista ou como alguém que entende de cultura.» O debate é pertinente e Fontes incentiva que este seja feito no âmbito dos blogues. Pois muito bem: vamos a isso.

Em primeiro lugar, como escrevi num comentário ao post da jornalista, o enquadramento destas conversas está perfeitamente definido no início da rubrica Dôs, onde se pode ler: «Uma conversa quinzenal entre João Branco e um artista cabo-verdiano, em tom descontraído, sobre a arte, a vida e as nossas pequenas inquietações.» e foi pena a jornalista ter escamoteado esta parte. Naturalmente, não faço as entrevistas enquanto jornalista, não o sou e nunca me assumi como tal. Faço as entrevistas enquanto criador. Por isso o título «Dôs». Dois artistas, frente a frente, falando de cultura e de criação artística. Inclusive, eu até prefiro o termo «conversa» ao de «entrevista» e penso, modéstia à parte, que o conjunto destes depoimentos podem dar pistas interessantes a quem se interessa por estas coisas da cultura. Incluindo a jornalistas competentes como a Margarida.

Agora, foi pena que não se tivesse comentado aquilo que realmente interessaria comentar, do meu ponto de vista: não a pergunta feita, mas a resposta dada pelo artista plástico Alex Silva quando este questiona a falta de preparação e especialização na área do jornalismo cultural. em Cabo Verde, onde artistas nascem quase que por geração espontânea nas antenas das rádios, nos ecrãs de televisão ou nas páginas dos jornais Certamente que não é com uma disciplina no meio de um conjunto vasto de outras disciplinas duma licenciatura de jornalismo que alguém se vai especializar seja lá no que for.

Por outro lado, se o jornalista tem que estar minimamente preparado para ser, por exemplo, editor de um caderno de economia ou de desporto, não vejo porque não o tenha que ser no que diz respeito à vertente cultural. A especialização faz-se também, mas não só, nas universidades. Hoje o que não faltam são mestrados em Jornalismo Cultural. Com o processo de Bolonha em curso, o normal , parece-me, é que haja um tronco comum na licenciatura e que depois cada um siga para o ramo para o qual sente que está mais vocacionado. Como na medicina ou na advocacia, por exemplo. O importante, creio, nesta como noutras profissões, é que haja uma vontade permanente de aprender, de ser cada dia melhor naquilo que se faz e não ficar apenas a olhar por cima do ombro em defesa de interesses corporativos que muitas vezes escondem mais os problemas do que servem a classe que procuram proteger.






«Não há um Palácio para a Cultura, mas temos o actual museu do artesanato a cair aos pedaços, uma fantástica sala de cinema abandonada à sorte, dois ou três pequenos auditórios sem manutenção. Mas como somos ricos, aliás muito ricos, abandonamos tudo isso e fazemos um Palácio. É claro que quando este também já não servir por má gestão e falta de conservação, faremos outro ainda maior e mais caro, e depois outro e outro, até termos entre nós o Reino da Cultura, semeado de Palácios e Criadores.»

Paulo - comentário publicado no Café de Memória Futura






Três pequenos pormenores, se quisermos assim considerar, motivam este texto. Em primeiro lugar, o facto de hoje se comemorar mais um Dia Internacional da Dança, e se estas datas comemorativas servem para alguma coisa - há muito boa gente que defende não servirem para rigorosamente nada - é de provocarem ou incentivarem alguma reflexão relacionada com o tema da data em comemoração. Hoje seria um bom dia para se reflectir sobre a dança cabo-verdiana, ou melhor ainda, qual o papel do Estado, qual pode ser o papel do Estado, na potenciação desta qualidade inata do povo crioulo que é saber-se mexer como poucos. Bem que poderíamos tirar um pouco de mais proveito disso, não?

O segundo pormenor está relacionado com a notícia de que os hotéis e pousadas da ilha do Fogo se encontrarem completamente esgotados e a razão principal é fácil de adivinhar: as festividades da Bandeira, o maior acontecimento cultural durante o ano da ilha do Vulcão, que mobiliza vontades, dinâmicas, gentes como nenhum outro acontecimento local, além de provocar, como se vê, uma movimentação com repercussões directas nos pequenos e grandes negócios, ou seja, na economia real. Não é novidade. Quando e onde se enchem os hotéis em Cabo Verde? Normalmente quando alguma grande actividade cultural tem lugar. Mais uma vez, esta seria uma boa altura para reflectir sobre aquela frase nuclear do economista David S. Landes já aqui referida há tempos idos que nos diz que "se aprendemos alguma coisa na história do desenvolvimento económico é que a Cultura faz toda a diferença."

E chegamos ao terceiro pormenor, que não o é (pormenor, digo). Falo do silêncio. O silêncio da nova equipa do Ministério da Cultura, melhor do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura. O Abraão Vicente chama atenção para o facto de não terem feito «nada de registo» e eu digo: há silêncios que são ensurdecedores. Com o pouco tempo que existe até ao final da legislatura, esta mudança de nomes só fará sentido se houver, nesse pouco tempo, sinais claros e inequívocos de uma alteração, eu diria radical, de políticas culturais públicas. Senão mais valia estar tudo como estava, mal por mal sempre nos íamos entretendo com uns fóruns de ocasião. 

Senhora Ministra, por quem tenho a maior consideração pessoal, já passou o tempo de «tomar o pulso», agora é hora de agir. Não é assim tão complicado. Há tanto por fazer. Olhe, comece por tomar uma medida efectiva para salvar o Éden Park, medida, aliás, que foi assumida publicamente e em texto escrito pelo seu antecessor. Mas seja o que for que estiver preparando, fale ao país, fale aos artistas, fale hoje sobre dança, amanhã sobre como potenciar acontecimentos como as festas de S. Filipe, e marque a diferença que é isso que se pede a quem governa os destinos deste país cultural. O país, esse, agradecerá certamente. Quebre o silêncio, d'izmola.


Fotografia «Danças» de Jorge Martins





«A marginalização cultural que se assistiu durante o KRIOLJAZZ é acima de tudo expressão do caos ideológico e da completa alienação das politicas de promoção cultural deste nosso Cabo Verde Kriol.»

Amilcar Aristides in KriolJazz, um festival-à-part (aqui)





Há poucos dias recebi de um dos maiores defensores do Éden-Park a seguinte mensagem:

«A petiçao já atingiu mais de mil pessoas e a pergunta que vai no ar é esta: e agora o que se vai fazer com os resultados desta petição? Penso que a questão deve ser repensada e entrar em acção com propostas plausiveis. Na altura te propuz a criação duma comissão para conduzir este combate junto dos organismos municipais e do Estado. Agora como vamos ter uma Associação de Defesa do Patrimonio liderada pelo Maurino Delgado porque não unir as forças em defesa do património de São Vicente? Não deixe morrer a ideia e diga-nos qualquer coisa através do teu blog.

Um abraço, Luiz Silva»

Pois bem, pretendo aqui relatar os últimos desenvolvimentos relacionados com esta questão:

1. Tive um encontro, por iniciativa dos próprios, com dois deputados eleitos pelo círculo eleitoral de S. Vicemte, do PAICV, que quiseram saber o que se passava relativamente a esta questão;

2. Expliquei o melhor que pude o que me motivava na petição em defesa do Éden-Park, e expus o facto de uma petição com mais de quinhentas assinaturas ter, por direito próprio e legal, pelo menos a oportunidade de ver o assunto agendado na Assembleia Nacional;

3. Os deputados aceitaram ser portadores por mãos próprias da petição,  a ser entregue ao Presidente da Assembleia Nacional, na altura com cerca de setecentas assinaturas. Neste momento, já ultrapassou o milhar;

4. Foi prometido ainda que os deputados, em sede de Comissão Parlamentar própria, iriam propor e pressionar para que o assunto fosse, pelo menos, debatido na plenária;

5. Nunca mais soube em que corredores se encontra a petição e em que ponto se encontra a motivação dos ditos deputados sobre este assunto.

Entretanto, um outro acontecimento teve lugar e que passou praticamente despercebido, pelo que penso ser importante dele dar conta neste espaço. Foi editada em Portugal, pela Associação Cena Lusófona, com lançamento público à pouco mais de uma semana, uma revista chamada Sete Palcos, dedicada exclusivamente ao teatro cabo-verdiano. Dada a importância extrema desta edição de tão vasto conteúdo e qualidade gráfica, e tendo em conta o investimento nela colocado, foi pedido pela associação editora um texto ao então Ministro da Cultura, Dr. Manuel Veiga, para abertura da revista, ao que este respondeu positivamente. Num texto sem grandes novidades intitulado «Desafios do desenvolvimento do Teatro em Cabo Verde», algo ficou lá escrito que merece um destaque e mais do que isso: uma publicitação.

Escreveu Manuel Veiga, enquanto Ministro da Cultura (e este ponto é essencial):

«A questão do Éden Park ultrapassa a capacidade imediata de solução por parte do Ministério da Cultura. Há a disponibilidade para a procura de uma solução partilhada. Para já, o edifício já faz parte de um pacote de espaços que serão declarados patrimónios nacionais pelo Governo.» (sublinhado meu)

Ora bem, cá está uma notícia interessante e que nos faz apenas solicitar ou até mesmo lembrar, enquanto cidadão, à nova titular da pasta da Cultura, o quanto importante é fazer cumprir esta promessa, que está escrita, publicada e assinada por um representante do Governo de Cabo Verde.

Até porque a cada dia que passa mais facilmente se percebe qual a estratégia desta espécie de solução terminal para aquela que foi a mais importante sala de espectáculos e cinema do país: deixar apodrecer, até que algum engenheiro nos venha dizer que o edificio não tem outra solução senão a sua demolição pura e simples. Já vi este filme muitas vezes.






A propósito desta entrevista da Ministra da Cultura de Portugal, comenta um blogueiro crioulo: «e ai de alguém que se atrever a defender ideias semelhantes em Cabo Verde; todos os "especialistas" em políticas culturais (ou todos os ex-críticos do ex-ministro de cultura de Cabo Verde, Manuel Veiga) vão-lhe cair em cima.»

Achei piada a este comentário que não diz nada a não ser ligar, de forma velada e mais ou menos directa, os especialistas (com aspas, claro!) de política cultural a todos os ex-críticos de Manuel Veiga. Pelos vistos, os que elogiam o seu ministério, são os verdadeiros especialistas em Política Cultural (com maiúscula) e sem aspas. Está bem.

Quanto à entrevista propriamente dita, continuo a dizer o que sempre tenho dito: se aparecesse alguém a dizer as mesmas barbaridades sobre escolas, tribunais ou hospitais, aí sim, teríamos o que discutir. Ou de como a cultura continua sendo visto como bem de terceira e quarta necessidade, onde menos Estado significa melhor Estado.Será? Embora lá privatizar o Ministério da Cultura?

Imagem: João Paredela






Depois de ler este extenso testemunho sobre o que deve & haver do anterior Ministro da Cultura,  Manuel Veiga, lembrei-me daquele célebre ditado que diz «quem dá o que tem, a mais não é obrigado.» E mais uma vez sou da opinião que o argumento de uma suposta vitimização de um auto-proclamado general da oficialização do crioulo que combateu na frente da batalha e que por isso foi sacrificado, é apenas (mais) uma forma de meter a cabeça na areia.  Além de que me parece que o testemunho revela, entre outras coisas, alguma falta de humildade política.

Só me resta desejar-lhe boa sorte na sua vida profissional, sem qualquer tipo de cinismo.





Porque nunca é demais, mais um apelo sentido sobre o Éden Park. Desta feita, do fotógrafo Jorge Martins, que reside em Portugal. Leiam, aqui. A imagem também é da sua autoria.






Os grupos carnavalescos resolveram reunir-se em associação para assumir as rédeas da festa do Rei Momo em São Vicente. Depois das críticas dirigidas ao júri do último Carnaval, as "escolas" querem elas próprias indicar os nomes dos jurados e gerir todo o evento.

“Esperamos que em finais Abril a Associação comece a trabalhar e a gerir o Carnaval em São Vicente. O objectivo é ter uma organização que mobilize fundos para pôr à disposição dos grupos, faça formações, nomeia um júri com pessoas capacitadas e idóneas e saiba fazer do Carnaval mindelense um elemento de atractividade turística e impulsionador do desenvolvimento da ilha.”

Zeca Reis - Grupo do Monte Sossego (fonte: A Semana)

Comentário Cafeano: já não era sem tempo. Mas nunca é demais lembrar que já houve uma Associação de Grupos de Carnaval de S. Vicente, não sei se legalmente constituída ou não. O que me parece é que este tomar das rédeas do Carnaval vem em boa hora, melhor, já vem tarde. Boa sorte para os promotores, é o mínimo que se pode desejar nesta altura do arranque da iniciativa.





Essa de transformarem o ex-Ministro Manuel Veiga num mártir do sistema, tem muito que se lhe diga. Neste sentido, esta entrevista, é verdadeiramente notável.







Hoje várias pessoas me perguntaram: então, sobre as mudanças na cultura, não dizes nada? Está certo que a política cultural é um assunto que me fascina e que este espaço tem sido particularmente crítico em relação ao ministério de Manuel Veiga. A nova ministra tem uma grande vantagem: pior é impossível. Temo é que já venha tarde para que se note grandes mudanças de rumo. Assim que tiver um pouco de tempo desenvolverei o tema. 







A primeira página do jornal A Nação desta semana dá manchete à entrevista com artista plástica Luisa Queirós que, mais uma vez, denuncia publicamente o desaparcimento de peças patrimoniais, antes pertencentes ao Centro Nacional de Artesanato, entretanto extinto. Os mais distraídos podem até salivar com esta novidade, mas esta denúncia é tudo menos nova. Há alguns anos, no jornal revista Artiletra, a mesma artista já tinha feito estas mesmas afirmações. Pergunta-se:  o que se fez entretanto para apurar se houve, ou não, desaparecimento ou roubo de obras de arte pertencentes ao património histórico de Cabo Verde? Nada. Alguém ligado à instituição responsável procurou indagar sobre o que se passava, promoveu uma comissão de inquérito, qualquer coisa, para tentar saber o que realmente aconteceu? E se houve roubo de património que é do Estado, porque é que o Ministério Público não actua?

Eis algumas perguntas para as quais gostava de ter resposta.