Declaração Cafeana

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Praticamente desde a sua fundação, há mais de 18 anos, o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, de que faço parte, ensaia numa biblioteca. Na verdade, a mesma biblioteca que muitos conhecem quando lá vão para consultar um livro, fazer pesquisas, trabalhos de grupo ou estudar alguma matéria. E portanto, o que é para quase todos um espaço de silêncio, meditação ou estudo, transforma-se num local de criação artística direccionado para as artes cénicas. Para isso, todos os dias, mas todos os dias mesmo, na hora marcada do ensaio, quase sempre a partir das 19 horas, o elenco chega e a primeira actividade é o arrastar de mesas e cadeiras e a transformação da biblioteca num espaço de ensaio. Todos os dias, no início dos ensaios: tira mesas, tira cadeiras. Todos os dias, no final dos ensaios: coloca mesas, coloca cadeiras e lá estamos nós a transformar de novo o que foi, durante algumas horas, um espaço de ensaio numa biblioteca normal, igual a tantas outras.

Confesso que sempre me agradou esta sensação de criar uma obra de arte, como é uma peça de teatro, rodeado de livros por todos os lados. É que cada um dos livros que está na biblioteca foi, certamente, resultado de um grande esforço, dedicação, de uma forte energia criativa. Agora, imagine-se tudo isso multiplicado por centenas, por milhares de livros. O que temos como resultado é um espaço pleno de boas energias, pronto para receber aquelas pessoas generosas que, depois de um cansado dia de trabalho, ali estão para mais um ensaio de teatro!

Ora, acontece que esta biblioteca do Centro Cultural Português está situada mesmo no centro da cidade do Mindelo e, como tal, rodeada de casas onde vivem outras pessoas. E como podem imaginar, o som dos ensaios acaba por extravasar para o exterior e entrar pelas casas adentro. É como se tivéssemos no nosso lar doce lar uma espécie de aparelho radiofónico onde, todos os dias à mesma hora, ouvíssemos repetições de uma mesma peça de teatro. E no nosso caso particular temos tido nos últimos anos uma espectadora atenta que, montagem após montagem, peça após peça, faz questão de abrir a janela da sua casa para generosamente deixar entrar no seu ambiente pessoal, as falas das nossas personagens. Durante dias e dias a fio. E sendo assim, quando a peça está pronta para ser estreada, já conhece a peça como a palma da sua mão! E agora, é hora de ir ao teatro e verificar o resultado visual de tudo o que ouviu durante tantos dias seguidos.

Num dos últimos ensaios lá estava ela, na sua janela, a cantar uma das músicas da produção Bodas de Sangue, que vai estrear na abertura do festival Mindelact, no próximo dia 09 de Setembro. Pois claro, já a sabia todo de cor, de tanto a ouvir, pela boca dos actores do elenco! Esperamos poder contar com a presença dela nesse dia de estreia para lhe retribuir a sua fidelidade e paciência, que são duas fantásticas qualidades para se poder ser um bom espectador de teatro, desde que, claro, nunca se perca o lado crítico daquilo que se está a ver.



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4 comentários:

Joaquim Saial disse...

Conheço bem a sala, onde já falei em público por duas vezes e lancei um romance. Gabo o vosso esforço, gabo o trabalho do João Branco e o inesgotável entusiasmo da Ana Cordeiro. Já gora, gabo essa dedicada espectadora de janela.

Quanto aos livros da sala, para além do dito romance mindelense, lá estão alguns volumes que levei de Lisboa, propositadamente, oferecidos pelo Museu do Chiado, a quem os pedi e que com generosidade mos cedeu. Um bocadinho de arte portuguesa na sala onde vocês esforçadamente ensaiam. Enfim, digamos que um bocadinho de mim também está lá sempre convosco.

Um braça teatral
Djack

zito azevedo disse...

Moral da história: No MIndelo, como em qualquer parte do Mundo, aínda existem pessoas que já se não usam...

argumentonio disse...

belas histórias numa só crónica e nos comentários antecedentes!

que felicidade!!

abraço e que o Teatro cumpra o seu dever!!!

;_)))

Anónimo disse...

JB, bons momentos ne quel sala. Mais não digo. Quesh memoria te fca marcod ne livro de nhe vida. Obrigado pe quesh momento e pe ess excelent texto. Abraço

G.Silva