Crónica Desaforada

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Dentro, perto & baixo

1. Andaram todos estes dias a tentar dar-nos lições de cidadania. Não deixei de olhar para algumas dessas tentativas de evangelização cívica com um sorriso nos lábios, uma vezes de tristeza outras de escárnio, não só por ver tanta gente ir na cantiga dos novos retóricos da politica crioula como por estes acharem que somos todos feitos da mesma massa cefálica, perfeitamente programável por doses maciças de mensagens inócuas sem qualquer significado concreto, sem conteúdo que obrigue a reflexão ou questionamento, emitidas por carros sonoros que não respeitam nada nem ninguém, por nos quererem entupir de lugares comuns que não querem dizer rigorosamente nada e que parecem esquecer – quando convém – que o percurso de um homem ou de uma mulher não pode nem deve ser apagado, que as estradas e as opções de vida de cada um são reveladores do carácter de quem por elas se move e de quem por elas opta. O discurso da cidadania que ouvimos a rodos durante esta campanha eleitoral foi apenas um trampolim palavroso que tantas vezes soou a falso e devo dizer que não estou a referir-me especificamente à candidatura que tentou, com algum sucesso diga-se de passagem, chamar a si a patente e o direito exclusivo à utilização do termo.

2. Dizem os manuais que cidadania constitui-se do conjunto de direitos e deveres ao qual um individuo está sujeito em relação à sociedade em que vive. Um conceito nascido na Grécia Clássica, e lá utilizado para designar os direitos relativos ao cidadão, ou seja, aquele individuo que vive na cidade e participa activamente dos negócios e das decisões politicas. Então como agora, com as devidas distâncias, nos esquecemos que nem todos somos cidadãos de pleno direito. Na Grécia Clássica, sempre tida como berço e modelo da democracia, os proclamados cidadãos correspondiam a uma pequena minoria privilegiada, e nas cidades dominavam actividades como a escravatura, a violência gratuita, o desprezo pelas mulheres, os maus-tratos ao estrangeiros. Estes últimos eram carne para canhão, pois eram obrigados a fazer serviços militares numa época em que os grandes senhores faziam das guerras carnificinas o seu principal passatempo, às quais assistiam sentados confortavelmente nos palanques dos seus sumptuosos palácios. Da população total de Atenas no período áureo das reformas constitucionais que viriam a dar origem ao sistema democrático, apenas 10 a 15% era considerado cidadão de plenos direitos. Do lugar das mulheres nestas Polis, é melhor nem falar. Vá lá, que pelo menos era-lhes autorizada a ida aos grandes festivais de teatro dedicados a Dionísio, regalia que era concedida apenas às tragédias, e nunca às comédias, que poderiam ser catalisadoras de ideias pouco consentâneas com a sua condição de meras procriadoras de novos cidadãos ou de novos escravos, conforme o caso.

3. Como é evidente, e a História foi disso testemunha, houve neste período, principalmente em Atenas, grandes estadistas que tentaram, de forma empenhada e por vezes entusiástica, minimizar as tremendas desigualdades sociais oriundas de uma estratificação extremamente rígida encarada como algo tão natural como a extensão do mar ou a dureza das rochas. Inovações admiráveis foram aprovadas e algumas boas lições foram aproveitadas por aquele que é conhecido como o sistema democrático actual, vigente em grande parte dos países do planeta. Mas então como agora, as virtudes do sistema deixam a coberto muitos lados podres, incongruências, lixo escondido debaixo do tapete colorido nas virtudes democráticas e da liberdade de expressão. Se na Grécia isso era assumido de forma descarada, hoje a cada vez maior estratificação social é disfarçada por todos os meios através da propaganda, da estatística e da aritmética. Porque continua claro como funcionam certos corredores que dão acesso aos cadeirões dos gabinetes, assim como é claro que uns podem mais que outros. Nos tempos de crise que correm, os pobres estão cada vez mais pobres, os ricos cada vez mais ricos. Esse limbo social chamado classe média, que é como todos sabemos o saco de pancada das crises económicas, vai sobrevivendo como pode, sendo certo que são incomparavelmente mais os que passam a pobres e remediados do que aqueles que conseguem, por iniciativa própria e sem recurso a truques ligados a tráficos de influências ou outros, passar para o restrito clube dos mais abastados cuja entrada dará, mais tarde ou mais cedo, directa ou indirectamente, um livre passe aos principais foros de decisão negocial, financeira e politica.

4. Procurando reflectir sobre a actual campanha eleitoral e sobre os últimos acontecimentos, tenho escrito alguns textos que um amigo meu, com alguma piada, designou de “góticos”, ou seja, escuros, dramáticos, pessimistas. Alguns casos de mortes violentas depois, o passado recente parece querer confirmar esta visão. Cabo Verde não está imune, muito pelo contrário, ao que se passa na Europa ou nos Estados Unidos da América e essa terrível pressão exercida pela instalação a titulo definitivo de uma crise económica que veio para ficar e que foi provocada, não nos esqueçamos disso, pelos grandes barões do sistema financeiro global vigente, tem provocado um stress social que origina o actual quadro que acaba por marcar os noticiários da televisão nacional: violência, mortes, demagogias, incompetência e descaramento, em quantidades doseadas por controlo remoto. Comentando isso com meu pai, um dos seres humanos mais lúcidos, coerentes e brilhantes que conheço, este deu-me, numa curta mensagem, uma daquelas lições de vida que não queria deixar de partilhar com todos vocês. E então, foi assim:

5. “Esta é uma crise de fundo que - a meu ver - resulta de termos percebido que a esquerda não conseguiu construir uma alternativa para isto. Há pouco tempo escrevi - e disse-o às pessoas num recital - que a única solução é recomeçar tudo, começando pelo que está dentro, pelo que está perto e pelo que está em baixo. "O que está dentro": fazer a revolução por dentro, reorientando a nossa vida concreta drasticamente segundo os valores em que acreditamos (é mais fácil para os criadores, porque sem essa atitude não há verdadeira criação, apenas exibição). "O que está perto": começar pelas pequenas comunidades a que pertencemos, a família, os amigos, o bairro, a escola, o emprego/a empresa. Falhada a aplicação prática dos grandes sistemas ideológicos dos sécs. XIX e XX, só na nossa esfera de vida individual podemos propor, discutir, aceitar ou rejeitar as famosas "soluções de futuro". "O que está em baixo": colocar sempre a questão do poder, em nós e nos que estão à nossa volta. Porque falharam os belos sistemas propostos pela esquerda? Porque nunca conseguiram detectar (e evitar) a constituição de novas elites opressoras da maioria. Porque a democracia autogestionária de base não é um cliché, é uma forma de actuar na prática quotidiana. Dito (tudo) isto, só tens um belo caminho à tua frente, mas tenta vivê-lo com entusiasmo porque o entusiasmo dá-nos alegria. Pensa que fazes parte de uma ínfima parcela da humanidade que se pode dar ao luxo de comer todos os dias, de ter um tecto e (sobretudo) de trabalhar naquilo de que gosta.” Lendo isto, a única coisa que me resta, é preparar-me para o próximo ensaio e continuar a acreditar que é possível, ainda, dar um novo rumo ao actual estado de coisas.

Mindelo, 11 de Agosto de 2011



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10 comentários:

zito azevedo disse...

Passo pela Hitória Grega em leitura transversal para me reter no ponto 5. que li de cima para baixo e de baixo para cima ultrapassando o vício de ler da direita para a esquerda ou vice-versa...Filho que fui, pai e avô que sou, conheci a textura de diversos tecidos ideológicos, de malha mais ou menos estreita mas todos prometendo coisas que não existem se não forem "pescadas" por cada um de nós e não formos capazes de ensinar aos outros como se pesca, como se ama, como se deseja, como se almeja e como se sofrem os erros alheios e porque se sofrem...E porque somos capazes de, percorrida a vida, voltar atrás em busca de um sonho esquecido,,,E quem nos ensina a criar?

Anónimo disse...

Também os jugoslavos diziam que tinham "democracia autogestionária" e que eram "de esquerda".

Como o nosso amigo!

Tamos fartos de comunistas abrilistas que nao conseguirao nunca na vida fazer o aggiornamento!

Quem nasceu torto, torto morrerà!!!

JB disse...

Se não fossem esses tais "comunistas abrilistas" não estaríamos aqui a conversar. Essa é que é essa.

E pronto, cá estou eu a dar corda a quem tem corda quanto baste!

(Vem aí mais uma lições de história. Vai uma aposta?)

Anónimo disse...

Vê-se mesmo que é um ignorante da coisa historica.

A liberdade de expressao e o liberalismo sao conceitos que nao têm nada a ber com "comunistas abrilistas".

Pegue nos livros e deixe-se de ser ignorante!!!!

O comunismo nao anda com o liberalismo e o free speech! Utilizo o ultim conceito na sua lingua original para nao haver duvidas!

O comunismo falava russo e alemao... e outras linguas como o português que copiou no original.

Tem de aprender!. E tuga nunca deu corda a ninguém. Nem o relogio de PESSOA quanto mais agora comunistas..

zito azevedo disse...

Atenção, que essa de "dar corda" temn duas leituras: há quem se enforque com ela!

Anónimo disse...

Oi Zito, so duas leituras?!
Em tudo na vida sobretudo nessas coisas que implicam livros ha tantas leituras quanto os leitores.

E um leitor com a cabeça bem arrumada até consegue ler as cordas do relogio!....

zito azevedo disse...

Se fosse escritor, eu não gostaria que meus livros provocassem tantas leituras...
Gostei da ultima frase: merece ser assinada por Dali!:)

Anónimo disse...

Leituras aqui tem a ver mais com nivel de interpretaçao, um texto tem sempre varios graus de leitura.

Pode haver milhares de leitores de um livro e nenhum deles conseguir tirar o sumo da mensagem veiculada; pelo contrario pode haver um unico livro que tenha gerado bilioes de leituras, interpretaçoes, comentarios diversos.

A Biblia é por exemplo um desses unicos livros, pois tem uma interpretaçao à letra, outra religiosa, ou metaforica, alegorica, metafisica, esotérica,cabalistica etc etc....

Somos poucos no mundo os sortudos que conseguem fazer todas essas leituras de um determinado livro de Pessoa, por exemplo; que quereria ele dizer com o coraçao e o dar cordas a esse relogio? E a singela sombra que é gente? E essa pobre vaidade de carne e osso chamada homem?

Fiquemos por aqui porque caso contrario terei de falar na nulidade da média dos portugueses que tem nota negativa nos exames de Português....

Porquê? Porque nao sabem ler um texto; A média dessa vaidade ambulante é incapaz de interpretar dois versos do Quinto Canto de Lusiadas...

zito azevedo disse...

Eu até estava a brincar mas. claro, tudo tem diversas leituras, dependendo ás vezes, do estado do fígado do leitor e o meu simplismo
acabou por esbarrar no poste...Mas tive a minha lição - há quantos anos, as sabatinas - que agradeço, mas até há coisas que a gente sabe sem o saber...Claro, Pessoa...
Quando ele aperece, fundem-se as luzes da mediania e começa um filme de Manoel de Oliveira!

Anónimo disse...

Platao ja dizia que ha coisas que a gente sabe sem saber que sabe!
Mas hoje o mundo exige que demonstremos que sabemos.

Caso contrario nao teremos credibilidade, apesar de continuar a estranhar como é que a minha mandona analfabeta sabia a mitologia antiga com uma mestria de Medeia.

Mas ela nao sabia e se eu tivesse tido oportunidade de lhe dizer que ela era superior à Medeia ela ficaria a pensar que eu estava a compara-la com uma das suas amigas de infância de Sintanton.

E eu so fiquei a saber que ela era uma mestre dos gregos, romanos e célticos, so depois de ter ido beber nas tradiçoes e mitologias culturais e religiosas mundiais.

Como é evidente que ninguém me consegue convencer que é o fenomeno da herança e transmissao que chegou até ao fundo duma aldeia deserta e miseravel de Janela ainda nos anos de 188 e tal.

Nao Zito, nao foi liçao nenhuma, mas sim maiêutica!.

E' que você està também incluido nesses "VELHOS" da nossa tradiçao por quem tenho uma grande admiraçao. E no seu caso com um mais em cima, pois foi para a escola o que nao foi o caso da minha mandona!...

Sim, é um dilema, como é que sabemos as coisas? Como é que sabemos que sabemos mas precisamos sempre de confirmar?..

E o pior nisto tudo é quando ganhamos a consciência de que afinal nao sabiamos aquilo que pensavamos saber! E' um sofrimento fatal!!!!!