Ironias do destino?





Se vivesse nos Estados Unidos, onde ter consultas de psiquiatra é tão natural como ir ao dentista, eu seria cliente pela certa. Enervo-me com demasiada facilidade, sou tão susceptível ao elogio quanto à crítica, mesmo quando sinceros e bem intencionados, e sou incapaz de, numa primeira reacção, rir-me do insulto gratuito de fantasmas psicóticos com nicknames terroristas. Por isso digo também que o tempo, esse que faz com que depois de um segundo venha o outro é, de longe, o meu maior aliado, em todos os sentidos. 

A reacção de amigos ou conhecidos à última crónica desaforada provocou-me toda uma tempestade de emoções. Primeiro fiquei algo revoltado. Há pessoal que não consegue viver sem dar e receber à bruta. "Já sabes como eles são, porra!" Pois! Tentei escrever uma declaração logo pela manhã, depois outra à tarde, mas felizmente tomei a decisão de esperar e deixar o tempo fazer-me encontrar o bom senso que tantas vezes me falta em cima do acontecimento. A verdade é que nada disto tem muita importância. Considero que está tudo tão claro no que escrevi e tenho escrito, agora e no passado recente, sobre o actual estado da política cultural em Cabo Verde,  que nem vale a pena estar a ripostar arrojos grosseiros com citações de frases e ideias que qualquer um pode ler, dois post's abaixo.

Tenham lá calma, curtam o fim-de-semana que Deus falha mas não tarda, ou no mínimo, escreve direito por linhas tortas, o que é o mesmo que dizer, para quem acha que Deus não tem nada a ver com este enredo, que há que manter a esperança, que por natureza é a última a morrer. Esperança de que havemos de ter a língua nacional cabo-verdiana oficializada, as crianças aprendendo a ler e a escrever na escola as mesmas primeiras palavras que aprenderam em casa, uma política cultural decente, corajosa, arrojada, forte e coerente com os pergaminhos de quem faz da arte e da cultura uma forma de vida e que, se todos quisermos, Cabo Verde será amanhã um país melhor do que é hoje. No dia em que deixar de acreditar nisso, deixo de lutar e passarei a gastar o tempo que me resta a produzir pouco em muito tempo, e o muito tempo que certamente me irá restar, será gasto a maldizer aqueles que com pouco, muito conseguem fazer. 

Fotografia: Jim Fiscus





Clica-me!

(Nicole Scherzinger)




Uma entrevista esclarecedora

1. Nada me move, a título pessoal, contra Manuel Veiga, titular da pasta da Cultura do Governo de Cabo Verde desde 2004. Antes pelo contrário, sempre que nos temos encontrado em várias situações, sempre foi educado, simpático e nunca transpareceu da sua parte qualquer inimizade pela minha pessoa ou alguma atitude que me pudesse ter feito embirrar com o homem por alguma razão especial;

2. Já fui seu anfitrião duas vezes, na primeira das quais foi assinado um protocolo entre o Ministério da Cultura e a Associação Mindelact, a segunda no encerramento do festival Mindelact do ano passado, onde o ministro, tal como já aconteceu em várias outras situações, teceu rasgados elogios à obra que esta associação cultural vem desenvolvendo em prol das artes cénicas no país;

3. Por me interessar especificamente e de forma empenhada por assuntos relacionados com aplicação das políticas públicas para a área da cultura aceitei ainda o amável convite que me foi endereçado pelo seu ministério para participar no Fórum da Economia da Cultura em Outubro passado e nele participei de forma activa, empenhada e construtiva, como dei conta nesta crónica;

4. Finalmente, procuro em todas as críticas que faço, evitar uma postura destrutiva, azeda ou demasiado tempestuosa, procurando, pelo contrário, escrever de forma fundamentada as análises que neste espaço foram sendo feitas sobre política cultural, em geral, e sobre a actuação deste ministro, em particular;

5.  Dito isto devo dizer que achei a grande entrevista que o Ministro Manuel Veiga concedeu ao jornal A Nação bastante esclarecedora e a principal conclusão que podemos tirar não é novidade para ninguém: estamos perante um linguista de excepção, com o qual podemos não concordar, mas que está, sem qualquer sombra de dúvida, absolutamente preparado para defender as suas ideias nesta área;

6. O seu discurso em defesa da língua cabo-verdiana é claro, directo e não deixa margem para muitas dúvidas. Reflecte, como é óbvio, a obra extraordinária que possui na defesa da língua cabo-verdiana e tira as dúvidas que possa haver em relação a muitos dos equívocos que vem alimentando a sociedade cabo-verdiana nesta questão basilar da oficialização do crioulo;

7. Manuel Veiga mostra, nesta entrevista, e no que ao crioulo diz respeito, não só capacidade de argumentação. Mostra também humildade e jogo de cintura perante a onda de críticas. Fala num processo em construção, quando os críticos insistem na imposição; defende a pluralidade de opinião, quando os críticos falam em autismo propositado; está aberto a propostas e refere que no processo de padronização do alfabeto - que não da língua - todos são livres de usar e defender outros modelos, mas que seria bom que os sustentassem cientificamente, o que até agora não aconteceu;

8. Também concordo com o Manuel Veiga quando ele fala de equívocos referentes ao Alfabeto  cabo-verdiano, sendo certo que se alguns destes equívocos são provocados por pura ignorância ou vontade de provocar confusão deliberada à custa de bairrismos exacerbados, também é verdade que isso acontece porque a proposta agora aprovada não foi socializada, nem sujeita a amplo debate, o que poderia ter evitado o que está acontecer hoje na sociedade cabo-verdiana;

9. Não nos enganemos: os cabo-verdianos estão não só profundamente divididos, como completamente desinformados. Basta ir a qualquer fórum onde este assunto venha à baila para se verificar o nível do debate e a profunda ruptura que está a provocar entre cidadãos de uma mesma Nação, livre e independente já lá vão 35 anos, que pensa, sonha e ama em crioulo mas é incapaz de perceber que não faz sentido não dar um estatuto mais amplo, sistematizado e premente à sua própria língua materna;

10. E aqui chegamos à segunda conclusão da entrevista: Manuel Veiga tem falhado como Ministro da Cultura não apenas na aplicação das políticas da área, mas especificamente nesta que é a sua vertente de eleição: a oficialização da língua cabo-verdiana. Porque se há falta de informação, de debate, de esclarecimento, de procura de consensos mais amplos, de consultas, de conferências, de colóquios, ou seja, de socialização desta questão central, à inèrcia deste ministério o devermos e não fosse assim não estaríamos hoje com o mesmo nível de debate que existia há 15 anos atrás, quando se discutiam os excessos de chapéus e sinais do crioulo escrito e, curiosamente, com o mesmo protagonista;

11. Quando este ministro foi empossado, em 2004, nos discursos da praxe, e com o entusiasmo natural de quem vê um dos maiores linguistas da nossa historiografia assumir um cargo onde poderia, finalmente, colocar em prática tudo o que vinha defendendo nos circuitos académicos e intelectuais, foi dito, alto e bom som que "crioulo vai passar a ser língua oficial em Cabo Verde em 2005" (aqui). Passaram-se quatro anos e quase tudo está por fazer;

12. Sendo certo que esse amplo debate não pode estar confinado ou dependente apenas da vontade de um ministro e do seu gabinete, também não se pode assobiar para o lado e dizer que este não deve ser responsabilizado pela situação que vivemos hoje. Porque muito mais podia e devia ser feito a este nível, e num assunto onde, como se referiu atrás, o ministro domina a seu bel-prazer, com capacidade técnica, teórica e de argumentação acima da média, maiores são as suas responsabilidades políticas;

13. Além da forma pouco elegante como insinua que algumas das críticas feitas ao seu ministério surgem motivadas por ambições pessoais ou por falhadas expectativas de apoio instituicional, todos os outros assuntos abordados na entrevista confirmam a segunda conclusão: a política cultural, que ninguém sabe qual é, continua emersa num lodo estratégico que balança entre os acontecimentos casuísticos, as homenagens pontuais, a economia da cultura que continua por explicar e/ou definir, os planos estratégicos anunciados que nunca viram a luz do dia, a confiança (natural) nos seus mais directos colaboradores e a utilização de termos bombásticos, ontem o diamante do país, hoje o oxigénio da educação. 

Nota final: desejo, com toda a sinceridade, que no próximo dia 22 de Junho, a Cidade Velha de Ribeira Grande de Santiago possa vencer essa imensa batalha e transformar-se em Património da Humanidade para que possamos dar, por esse intermédio, uma importante vitória ao actual ministro da cultura. Porque acima de tudo, continuo acreditar que ele só quer o bem do país e está a fazer o melhor que sabe e pode. E digo isto sem qualquer ponta de sarcasmo ou de ironia.


Mindelo, 19 de Junho de 2009


Imagem: Ta sumara um aiam de Mito





Afinal, é dos humildes que o povo gosta mais?


À melhor resposta, ofereço um café



"A partir de agora, não poderão dizer 
que Obama nunca fará mal a uma mosca."

Marco Santos - Blogueiro do Bitaites

(Para entender porquê, basta ver isto)



Falta uma semana para a estreia, mas o certo é que vem aí...
...uma nova fornada de actores e actrizes!




De 25 a 28 de Junho, serão 8 espectáculos, com apenas 50 espectadores de cada vez. Entrar no Jardim do Dr. Gordner Bricker vai ser como entrar num comboio fantasma...



Não vi, mas foi um amigo que me avisou, entusiasmado: "sabes qual foi a primeira frase que disse o Primeiro-Ministro de Portugal, na grande entrevista que deu hoje à SIC?" Não sabia, evidentemente. Mas ele disse-me. E eu pensei cá com os meus botões, espero que os dois primeiros, o de cá e o de lá, tenham falado deste assunto na última visita que fez ao arquipélago! 

Ah, a frase foi esta:

"Se há um erro que é possível identificar ao longo destes anos é que talvez deveríamos ter investido mais em cultura."

Se penso que isto vai mudar alguma coisa? Não sei. Mas com a tendência que temos de copiar modelos da antiga metrópole não seria mau ler esta frase e ver a sua possível aplicação à realidade cabo-verdiano. 

Ilustração: "Opportunity" de bexe




Como eu desejo a que ali vai na rua,
tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se eu a tivera um dia,
toda sem véus, a carne estilizada
sob o meu corpo arfando transbordada,
nem mesmo assim, ó ânsia!, eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
sobre o seu corpo de êxtases dourados,
se fosse aqueles seios transtornados,
se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
e vejo-me em destroço até vencendo:
é que eu teria só, sentindo e sendo
aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá-Carneiro




"As folhas secas cobrem em abundância o caminho das recordações."

James Joyce - Escritor irlandês


(Ontem, comemorou-se o Bloomsday, um feriado comemorado na Irlanda em homenagem ao livro Ulysses, de James Joyce. É o único feriado em todo o mundo dedicado a um livro não sagrado.)




A Margarida volta à carga para lembrar o absurdo deste concurso (aqui), já referido também no Café Margoso (aqui). Desta vez, encontrei no blogue de Rui Simões, Der Terrorist, este comentário:

"Nesta “coisa” das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, uma das “maravilhas” a concurso era a Cidade Velha de Santiago em Cabo Verde, cidade que «nasceu e desenvolveu-se por conta do tráfico negreiro», vulgo comércio de escravos. Há bocado ouvi na RTP1 uma menina referir a Cidade Velha de Santiago como “importante entreposto humano”. Assim mesmo. E assim vai a História de Portugal e assim vai a nossa relação com a nossa História."

Realmente, quando a televisão pública portuguesa tem gente que escreve e utiliza na antena termos como "entreposto humano", referindo-se ao tráfico escravo com a mesma leveza com que fala de um supermercado do Continente, está tudo dito.

Bela imagem do 25 de Abril de 1974. Quem será o crioulo que observa a cena com tanto interesse?



Fonte: aqui