Declaração Cafeana

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Um país inteiro de pés descalços

A primeira vez que chorei em Cabo Verde, há quase vinte anos, foi por ter ouvido a voz de Cesária Évora, que se apoderou de mim como um furacão de alma e sentimento. Tinha acabado de chegar ao Mindelo e pela mão do músico Vasco Martins fomos a um bar de amigos, para um serão tranquilo de boa conversa. Estava sentado, distraído com uma qualquer leitura, quando aquele espaço foi invadido por uma voz única, grave, possante. O disco era o Miss Perfumado, o CD que haveria de catapultar Cesária para a fama internacional, por via do mercado francófono e a transformaria na maior embaixadora da história do arquipélago, hoje no mapa global muito por responsabilidade do retumbante e espantoso sucesso da sua ímpar carreira.

No saudoso Café Royal, da mítica Rua de Lisboa, para onde ela ia quase diariamente, numa época em que ainda não tinha que viajar constantemente, com tournées que a obrigavam a ficar tão longe da sua cidade querida, a sua chegada de carro, sempre com um condutor próprio, e a entrada com os pés descalços no estabelecimento, eram dignos de um cerimonial que nunca mais esquecerei.

A mesa onde se sentava Cesária ia-se enchendo e esvaziando, à medida que ela recebia amigos, familiares, conhecidos ou curiosos. Pagava bebidas a todo o mundo, dava dinheiro aos pedintes, brincava constantemente com aqueles que a rodeavam, muitos já adivinhando que ali estava uma fonte inesgotável de talento e projeção. Na sua casa, sempre tinha a porta aberta, com o mesmo espírito generoso, próprio de uma grande matriarca.

Hoje, depois do choque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda a cidade do Mindelo. Nas ruas, nos cafés, nos bares, nos carros, nas vozes das pessoas. Um mendigo grita no centro histórico do Mindelo: Cesária já morrê! Hoje, Cabo Verde, é uma Nação que se curva, de pés descalços, perante a sua maior Diva.




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11 comentários:

MrCosmos disse...

Ainda não te tinha visitado desde está triste noticia, nem antes de publicar e estender a minha singela homenagem neste post http://cosmeticas.org/141776.html ao Café Margoso.

E como há uma primeira vez para tudo, depois de muita maratona feita na blogosfera, acho que é hoje também que saio de um blog com os olhos lacrimejantes, verificado e confirmado aqui o vosso sentimento.
Um sentimento lusitano, com certeza.

Anónimo disse...

faltou sentimento

JB disse...

A quem?

doca disse...

Mando aqui do Brasil nossa grande admiração por essa artista. Tive a honra de vê-la em 3 shows. Essa notícia me pegou de surpresa. Hoje é dia de "saudade". Abraços a todos.

doca disse...

mando aqui do Brasil nossa enorme admiração por essa grande artista. Tive a honra de vê-la em 3 shows aqui no meu país. Essa notícia me pegou de surpresa. Hoje é dia de meditação e "sodade". Excelente blog. Leio ele faz tempo mas só agora deixo mensagem. Abraços a todos.

Elias M. disse...

Ninguém fica indiferente ao desaparecimento físico da Rainha dos Pés Descalços. Toda a comunicação social do mundo pronuncia sobre a Rainha, os Cabo-Verdianos choram e dão graças pelo tesouro incalculável deixada a nação e os demais admiradores. Nós como Criolos e súbditos da sua leda e melancólica voz, prestamos- Lhe a merecida Homenagem na rua, no palco, em casa, no facebook, blogs…
Por conseguinte, exigimos a Comunicação Social de Cabo Verde e o Estado prestar-Lhe tributo maior e agradece-La por elevar de tal forma a nossa Morna, a nossa Cultua e o nosso Povo.
CISE descansa em paz e que façamos para que a Sua memória se prolonga além dos tempos…

Lily disse...

Estou profundamente triste... a música da Cesária Evora marcou o meu primeiro contacto com Cabo Verde.
Vi-a uma única vez, no Coliseu de Lisboa, uma recordação marcante e inesquecível. Este ano, quando estive no Mindelo, passei por sua casa, e coincidiu com a altura em que pôs termo à sua carreira.
A minha homenagem, cá de Portugal, tem sido ouvir e ouvir os cd´s desta Diva.
Lá na ceu bô é um estrela, li na terra bô é eterna...

Anónimo disse...

Espero que todos irao ao intero de Cesaria com Pes Descalcos

Anónimo disse...

ô anonimo se assim fosse muitos iam chegar no 1888 à mancar e pê ratchod (têm sola de pê mut fine hahaha)
Sport de rotcha era um vez agora é sô mama cabra quês criá deboxe d'acacia chei de espim...

E sês trocá nome de aeroporte de Son Ped pa Cize ês tem plantá otes tipo d'arv naquel estrada! Ta forte de oiá quês arv fei e sec e ca ta dá nada pa natureza..

caranguej

W.A. disse...

Belíssimo Texto!

PortoMaravilha disse...

Olá,

O diário fr "Libé" de 2ª passada dedica 5 páginas ao percurso ou vida de C. Évora.
A rádio FPI ( que tem 40 anos) dedicou-lhe uma grande homenagem.
Não sei se é verdade ou não...mas parece-me realista e plausível: Durante a colonização, os negros ( e não só)que andavam descalços não podiam andar nos passeios e tinham que andar na rua. Os pés descalços de C Évora não mais não eram que o não deixar morrer a memória desta enorme opressão e descriminação. Esta tese é de François Xavier-Gomez ( Libé, pp. 28-33 ).

Nuno