«Num país a
sério serias processado!»

Anónimo comentador do Café Margoso sobre a polémica dos "Heróis"






          Sim, sei bem
          Que nunca serei alguém.
          Sei de sobra
          Que nunca terei uma obra.
          Sei, enfim,
          Que nunca saberei de mim.

          Sim, mas agora,
          Enquanto dura esta hora,
          Este luar, estes ramos,
          Esta paz em que estamos,
          Deixem-me crer
          O que nunca poderei ser.

          Fernando Pessoa




Se houve alguma consequência palpável da atribuição do Prémio Camões a Arménio Vieira foi isso ter obrigado - por motivos comerciais, naturalmente - a que o poeta tirasse uma série de trabalhos da gaveta e que estes acabassem por ver a luz do dia mais cedo do que o previsto (não foi preciso, por exemplo, esperar que o poeta morresse para que alguém se lembrasse de lhe publicar obra inédita a título póstumo - lagarto, lagarto!).

O primeiro destes livros, com o título "O Poema, a Viagem e o Sonho", que terminei de ler, é delicioso, de fácil leitura e com algumas frases antológicas que de forma clara explicam - se preciso fosse - a razão porque ele venceu o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Um livro da mais fina prosa poética, se me permitem a expressão. A edição que li foi a portuguesa (da Caminho) e já ouvi dizer que a cabo-verdiana Ilhéu Editora se prepara para lançar a edição nacional (o natural seria o contrário, mas pronto). Que venha depressa, porque este é um livro que merece ser lido (devorado, é o termo) pelo maior número de pessoas possível.




Confesso que fiquei espantado com alguma reacção ao painel que coloquei aqui no dia de ontem. Vozes indignadas se levantaram contra estes "pseudo-intelectuais" que proliferam que nem o mosquito do dengue, outros mandam indirectas aludindo a uma "dominação cultural" e outros ainda comentaram no próprio post contra a "banalização do conceito de herói". Isto tudo com uma violência verbal que, confesso, não consigo entender.

Acho que estes desmandos valem o que valem, mas devo dizer que não estava à espera. Como expliquei, o painel mostra personalidades, a maior parte delas ligadas à cultura, que tem sido referenciados aqui no Café Margoso ao longo deste dois anos e que se tem destacado nalguma área. Juntamente com estes coloquei ainda o próprio Amílcar Cabral, já que a data lhe é dedicada e uma mulher não identificada, que simboliza o conjunto de mulheres que tem lutado neste país em condições muito difíceis, nomeadamente pela educação dos seus filhos e netos.

Não entendo onde é que um painel que tem figuras como Eugénio Tavares, Bana. Cesária Évora, João Vário, Paulino Vieira, Bau, Vasco Martins, Manuel Figueira, Corsino Fortes, Boy Ge Mendes, Vadu, Katxás, Tutuna Évora, Ildo Lobo, Germano Almeida, Mito, José Luiz tavares, Luisa Queirós, Manuel d'Novas, Orlando Pantera, Jorge Martins ou Tito Paris possa ser ofensivo para certos indivíduos. Alguém me pode explicar?






E porque hoje devia ser um dia para (sobretudo) reflectirmos, cá vai:

"A nossa Cultura é de reprodução, com pequenos momentos de transformação, mas essencialmente reproduz, inova pouco, cria pouco e, para mim o mais importante, questiona pouco. Um sociedade tradicional, portanto.

Cesar Schofield Cardoso in Bianda





[E há muitos mais. Abençoado país este...]







Soube com um dia de atraso que ontem, dia 18 de Janeiro, e segundo estudos efectuados por um professor britânico da Universidade de Cardiff que não tinha melhor forma de ocupar o seu tempo, foi o dia mais deprimente do ano. Porquê? Bem, dizem eles, porque o Natal nunca esteve tão longe (para mim, isso é motivo de júbilo, mas tudo bem) e o Inverno tão agreste (aqui tem estado um frio gélido de 20 graus positivos de noite que faz com que ninguém queira sair de casa). Depois será deprimente também porque por esta altura já se deve ter recebido as contas do mês (como se não as houvesse todos os meses), e é neste dia preciso que se percebe que as resoluções do ano novo nunca serão cumpridas e que não se adivinham melhorias (como raio foram eles descortinar isto?).

Na verdade, tenho sido o primeiro a admitir que este início d'ano tem sido particularmente complicado, mas por condicionalismos outros que todos conhecemos. Mas o mais interessante da notícia não é o diagnóstico, é a proposta de cura. Diz o diário inglês Telegraph, que criou um guia prático de como combater este blue monday, que nada é melhor do que começar o dia comendo chocolate ao pequeno almoço. Apoiado! Depois, aconselha um passeio pelo jardim (aqui como ando sempre a pé e o centro do Mindelo é um pequeno-grande jardim, estou dentro do esquema). A seguir, uma exposição de pelo menos 15 minutos ao Sol (é só ir ali à varanda de casa e pronto, assunto resolvido!) e, finalmente, o cancelamento de uma reunião (praticamente um património cultural das ilhas). A conclusão é fácil e imediata: Cabo Verde é o paraíso do anti-stress. Será?

Se lermos os conselhos seguintes, talvez não: forçar um sorriso (há-os cada vez menos); marcar as suas férias (com que dinheiro, se é tudo caro e se ganha pouco?); imaginar o fim (despos de passa sabe, morre ka nada?); comer fruta (lá se vai o orçamento familiar!); e beber chá (só se for Ice Tea, mas não me parece que seja a mesma coisa). "Mude as músicas que ouve no ginásio" (se em vez de ginásio estivesse escrito rádios, estavamos fritos!); "tente exercer uma influência positiva" (com a nossa capacidade de invejar o vizinho, dúvido que o consigamos) e, se nada resultar, dormir uma hora mais cedo também é remédio para a depressão. Aqui, com a quantidade de festa e de paródia permanente, não me parece que seja essa a melhor solução!

Bem, mas se mesmo em Cabo Verde nada disto resultar, não desanimem: o estudo também revela que existe um dia que é "o mais feliz do ano". Acontecerá a 18 de Junho. Porque será? Cá por mim, acho tudo isto um disparate. Os dias mais e menos felizes podem acontecer a qualquer altura do ano e só depende da forma como, hora a hora, gerirmos as nossas emoções, tristezas, alegrias, pequenos prazeres e frustrações. O resto é conversa para boi dormir. E se chegaram ao final deste texto sem adormecer, certamente concordarão comigo.







Imagem escolhida de uma notável (e impressionante) galeria de fotografias dedicadas ao Haiti, intitulada Haiti six days later, que podem ver, na integra e com boa definição, aqui.





"A realidade fica nos subúrbios da utopia."

Maria João Freitas in A Namorada de Wittgenstein







Stória de Cinderela na linga de Soncent

(ou como contar a história da Cinderela às crianças de São Vicente para que não nos chamem gente bedje)


Já tem um data de time, tinha um eskurinha que sê pai já tinka rankód pa nha merkinha, entom el tive ke fcka ta môra ma kel chunga de sê madrasta e kesh sacana de sês irmã de criação (filhas de sê madrasta).

Cinderela (Cindy p'á maltas), tava vive móda se el tava estóde na djelz, tude dia na lómba e sem time pa mandá uns mail pa gang.

Ke tude es trapaiada na sê vida, tude o ke Cindy kria era fgi d'casa e ranki, mod sê madrasta tava tral merda. Entom um dia Cindy fcka ta sabe que maltas d'zona tava ta organiza um fistinha de kel bom. El fcka logue atente na muve, ma kesh filha de sê madrasta bai logue te cortal eskema.

Ai, el fcka flipóde, ma depôs de andá um time desanimóde, sômá um fada madrinha que dal speed num rupinha fashion e konde el pestil, el fcka ta parce kum suco +, prope sexy.

Sô ke kel fada dzel k'el podia fcka na festa sô até meia-note. Bzôte tita tcheká eskéma?!!!! Baby curty ideia e el desmarcá logue logue pa fistinha, chei de speed.

Konde el entra na fistinha, el tchecá um tipzat chei de paus, um moss dekel bom, ke ba logue ta metel frase. Entom Cindy ma brodix começá um góma e eje curti ól naite long, até k'el uvi kesh 12 badalada de meia-note e el dá kel tipzat um descontra pa desaparce na fmaça.

Brodix fcka completamente atoada konde baby ranka sem konde de nada, e el ranka trás del logue, ma infelizmente el incontra foi um sapatim de kel kuzinha na camin.

Na dia seguinte, tipzat mete na se diabom de córre e el anda de brock em brock ta espiá kem ke kel sapote tava sirvi. Chei de sorte, e depôs de esprimenta kel sapóte num data de Kamak de amdjer, el incontra kel doida, pa azar de um data de metrera ke já tava k'oi na kel broxi. E assim eje vive fliz pa psuda.

The End

*Ainda não consegui parar de rir com esta tradução genial, que me foi enviada por mail. Não sei quem é o autor, mas merece um forte aplauso.






"Mindelo e S.Vicente tem tudo para dar certo. Falta uma acção inteligente daqueles que são pagos com o dinheiro do Estado para fazer a promoção adequada das actividades culturais. Muita coisa vem acontecendo nesta ilha, só que muito poucos são aqueles que apreciam. Estou farto de ir a actividades culturais onde aparecem apenas meia duzia de pessoas. Neste momento está a decorrer uma exposição fantastica do pintor Amandio Oliveira no Centro Cultural do Mindelo. Ninguém fala disso, injustamente. Mindelo tem sim neste momento é falta de publico apreciador e claro que isso há de interferir na motivação e na criatividade. É certo que temos um campo imenso de possibilidades a explorar. Para isso as pessoas com capacidade e com motivação para a cultura precisam arranjar estratégias correctas para influenciar os politicos nacionais e locais bem como cativar as empresas para o mecenato cultural."

Américo Silva - comentando esta pergunta cafeana





No próximo dia 22 de Janeiro a Rua de Lisboa vai juntar num concerto comemorativo do dia do Município de S. Vicente nada mais nada menos que Boy Ge Mendes, Sara Tavares, Nancy Vieira e Paulo Flores. Sublinho o primeiro nome, compositor que comemora 40 anos de carreira e é, na minha opinião pessoal, um dos mais brilhantes músicos cabo-verdianos, criador de uma sonoridade única e original.

Bem que este seria um caso para dizer sabe pa fronta!, mas contando todos os gastos desta festa, acho que preferia ver esta verba ser aplicada numa entrada financeira da Câmara para a aquisição do Éden Park. E no dia da abertura do novo teatro municipal, convidavam-se estes e muitos outros músicos para a celebração do salvamento, in extremis, de um património cultural de inestimável valor para todos os mindelenses e cabo-verdianos. Aposto que nem cobravam cachet.

(A propósito, a petição já vai em 894 assinaturas. Seria interessante chegar ao milhar. O link está na coluna à direita.)

Nota Margosa: entretanto, soube hoje (dia 18 de Janeiro) que Sara Tavares, por motivos profissionais, não vai poder estar presente no concerto que comemora os 40 anos de carreira de Boy Ge Mendes. Uma pena.