"Pedras no caminho? 
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa - poeta








Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro,
faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gnomo.
Meu Deus, qusndo é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa


Imagem: Scarlett Johansson, deitadinha no sofá...






"Políticos e gestores não cumprem 
lei de declaração de bens e rendimentos."
Jornal A Semana - 30 de Abril de 2009

"Partidos sem contas em dia."
Jornal A Semana - 08 de Maio de 2009


Ainda a propósito da segunda notícia: "PCD, surgido em 1994  extinto em 2005, foi para o mundo dos mortos sem apresentar uma conta sequer." E ninguém é responsabilizado? Acham isto normal?



A melhor imagem dos vencedores




O FC Porto sagrou-se Tetracampeão. Parabéns!






Bom fim de semana





Partindo do princípio que esta é uma verdade inquestionável, porque são as mulheres mais invejosas que os homens?


À melhor resposta, ofereço um café






No último romance de Isabel Barreno, Vozes do vento, segunda parte de uma longa saga familiar em Cabo Verde iniciada com O Senhor das Ilhas, uma das mais importantes personagens, Maria Josefa, descreve um colar, uma relíquia pessoal, oferecida pelo seu falecido marido. Um colar estranho e díspar. Porquê? Porque foi concebido como uma homenagem às ilhas de Cabo Verde, e cada ilha estava representada por uma pedra diferente. 

A ilha do Sal, a primeira pedra, estava representada por um diamante; S. Nicolau, por uma cornalina; Santa Luzia, por uma opala; S. Vicente, por uma ametista; Santo Antão, por um rubi; a Brava por uma granada; Fogo por um topázio; Santiago, por uma aventurina; Maio por uma água-marinha e, finalmente, a ilha da Boavista, por uma safira. 

"O presente de Manuel António. Gesto de amor para Maria Josefa, amor também para as suas amadas ilhas." Bonito colar. Belo gesto.

(Ver artigo sobre o livro aqui)





Fonte: O Jumento







"Parabéns!"

A estrada Porto Novo / Janela, um sonho para Santo Antão, é inaugurada hoje.





A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.

Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz

para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

Carlos Drummond de Andrade


Pintura de Amedeo Modigliani





Dedicado à minha grande amiga Catarina Viana, arquitecta paisagista, mãe de três meninas e um grande coração!





Na semana em que o Blog Joint escolheu como tema a questão da(s) língua(s) houve um cabo-verdiano que comentou comigo, com algum enfado: "outra vez? Mas vocês não se cansam de discutir sempre a mesma coisa?". Entretanto, a edição desta semana do Expresso das Ilhas dedica parte do seu suplemento cultural ao debate sobre a oficialização do crioulo, com opiniões e depoimentos contrários e favoráveis, como é natural. Nos blogues e nos principais sítios de notícias de Cabo Verde, o crioulo continua a ser um tema debatido de forma apaixonada e, muitas vezes, irracional. Aliás, como sabemos, paixão e razão não costumam andar juntas...

Isto para dizer que quem pensa que esta não é uma questão fundamental para o Cabo Verde de hoje, está enganado. O processo de oficialização está em andamento, isso é inquestionável e de aplaudir. As regras da escrita, com o tão polemizado alfabeto unificado, está aí, com força de lei para ser aplicado. Mas o maior erro que se pode cometer é pensar que este é um assunto pacífico, esgotado ou que o tempo resolverá. Não é. Basta ler os comentários a qualquer artigo, seja a favor seja contra, para verificarmos como a Nação cabo-verdiana está completamente dividida em relação a este assunto. E não é só dividida: é também muito mal informada.

Já o disse várias vezes: a forma como os defensores do establishment linguístico entram no debate não tem contribuído para um esclarecimento da opinião pública. Continuam a utilizar-se os termos "alienados", "complexados", "iluminados" ou "neocolonialistas" para classificar aqueles que defendem outro caminho, por convicção ou porque, o que acontece em grande parte dos casos, por estarem mal informados. Há que continuar a debater, discutir, partir pedra, mas de uma forma muito mais pedagógica, arejada, tranquila e inteligente. Há que promover mais debates, conferências, encontros, mesas redondas, onde todos e cada um possam dizer de sua justiça, contribuir para o enriquecimento de uma questão central e, até hoje, fracturante: encontrar a melhor forma de assimilar o carácter bilingue da nossa sociedade.

Ao Estado cabe também fazer muito mais. Como proponente, continua a fazer pouco. E fazendo pouco passa uma imagem da política do facto consumado decidida por uns quantos por motivações pessoais, que mesmo que possa ser injusta se torna compreensível por uma ampla franja da população. A primeira grande medida seria, na minha opinião, a fundação, com carácter de urgência, de um Instituto da Língua Cabo-verdiana, que ficaria responsável pela recolha de toda a informação e estudos já existentes sobre a matéria, mas principalmente que pudesse ser elo e motor para um debate intenso, aberto e pedagógico, envolvendo todos e não apenas alguns, que esclarecesse e não dividisse, que recolhesse subsídios e não se fechasse numa ortodoxia redutora, que preparasse, enfim, o país para que finalmente se dê a dignidade devida a uma língua primeira como é a língua cabo-verdiana, património de todos.

Imagem: pintura de Mito






Aporkalypse!