«O Governo concedeu para esta segunda-feira, 23, tolerância de ponto na função pública na ilha de São Vicente. Sendo assim, os festeiros que passaram pela Baía das Gatas terão um dia para retemperar as energias e voltar com outro ânimo ao trabalho amanhã, terça-feira.» (fonte: aqui)



Soncent é sabe, é sabe pa cagá. Tolerância de ponto todo o santo dia!
(E eu que não sabia de nada...)






"Houve um dia em que adormeci na toalha. Acordei com a Raquel a afastar-se para ir tomar café numa das esplanadas da praia e fiquei a vê-la a desenhar na areia pegadas mudas. É estranho como a repentina ausência de quem gostamos nos acorda e a sua presença nos embala num sono leve. Sempre em silêncio."

Bagaço Amarelo (aqui)








Este é um relato que me chegou. Aconteceu há poucos dias. A globalização é só para alguns. Um grupo de teatro barrado ou como ainda há muito filho da puta nas fronteiras da Europa. Leiam e tirem as vossas ilações.


«Queridos amigos

Há aproximadamente 6 meses, a nossa Companhia – Teatro da Curva – recebeu um convite do Camden Fringe Festival , de Londres, para apresentar o espetáculo “Otimismo”, de Voltaire, adaptação de Ralph Maizza. Estreamos esse espetáculo em 2008 e ao longo de 2 anos fizemos 3 temporadas. Esse convite representou a expansão e coroação de um espetáculo realizado com poucos recursos, mas com muita dedicação, profissionalismo e amor. Durante esses 6 meses, trabalhamos continuamente e intensamente no levantamento de recursos afim de financiar a nossa viagem, visto que não haveria remuneração financeira, e sim apenas o intercâmbio cultural. Levantamos a verba necessária e adaptamos o nosso espetáculo para atender às necessidades do público inglês, de forma a proporcionar uma ampla compreensão do texto encenado, sem que o mesmo perdesse a sua essência.

Enfim, reunimos toda a documentação necessária de acordo com a legislação da imigração inglesa e seguindo orientação do Festival, que inclusive nos enviou uma carta convite, constando o nome de todos os envolvidos, para que a mesma fosse apresentada na imigração. Nos endividamos, recebemos o apoio de amigos, familiares e classe artística, e embarcamos rumo à concretização dos nossos sonhos e expectativas. Após uma longa viagem de 12 horas, chegamos cansados, porém muito empolgados e felizes, em solo inglês. Num primeiro momento, fomos recebidos cordialmente pelos agentes da imigração inglesa. Apresentamos todos os documentos necessários, demos as devidas explicações e fomos sinceros e claros quanto aos nossos objetivos em território inglês. Entregamos ao oficial nossos passaportes, a carta convite, as passagens de ida e de volta, o endereço no qual ficaríamos hospedados com carta de acomodação e informamos o quanto possuíamos em libras, quantia essa mais do que suficiente para bancar a nossa permanência em Londres durante os 10 dias de viagem.

Enquanto o oficial da imigração checava toda a documentação apresentada, fomos conduzidos a outra sala, onde nos revistaram e também as nossas bagagens, tudo de maneira cordial, porém, com algumas perguntas evasivas e atitudes invasivas (como, por exemplo, pedir para traduzir a carta de “boa viagem” da mãe de um dos atores, entre outras violações). Após 5 horas de espera, sendo ludibriados pelos oficiais da imigração, que nos diziam tudo aquilo se tratar de procedimento padrão para que pudéssemos entrar em território inglês, fomos comunicados da nossa inadmissão naquele país. A imigração alegou que não poderíamos entrar, pois não se tratava de um festival que possuía registro oficial e, portanto, o mesmo não tinha o direito de nos convidar. Sendo assim, necessitávamos de um visto de trabalho. No entanto, segundo cláusula do site de imigração londrina (no qual não consta a lista de registro dos Festivais Oficiais), é permitida a entrada no país de turistas e artistas para mostrarem o seu trabalho temporariamente, num período de 10 dias, não necessitando do visto de trabalho, já que não há remuneração. Mesmo sem o direito da palavra, dissemos isso ao oficial da imigração que, com muito cinismo e prepotência, nos replicou que poderíamos entrar como turistas, porém não naquele dia e, se quiséssemos, poderíamos voltar no dia seguinte. Ainda assim, manifestações, e pessoas do festival estavam no aeroporto tentando falar com a imigração para confirmar a veracidade das nossas informações, a falha de um documento complementar por parte do festival, bem como explicar que a nossa situação era completamente legal. A imigração, com seu radicalismo e xenofobia, não permitiu que essa comunicação fosse efetuada. A partir desse momento, a cordialidade dos oficiais ingleses transformou-se em uma hostilidade injusta e inadequada, já que estavam lidando com artistas (turistas) com documentação legal, que não haviam cometido nenhum delito. Digitais (mãos inteiras) e fotos foram tiradas de todos, e o direito de réplica nos foi negado de maneira estúpida e ameaçadora. Nos revistaram novamente, mas dessa vez de maneira agressiva. Nenhuma explicação. Agentes da segurança foram chamados para impedir qualquer manifestação da nossa parte, que apenas desejava conversar e entender o ocorrido. O pedido de tomar banho, trocar de roupas ou mesmo de fumar um cigarro foi negado rudemente, bem como a comunicação com a nossa produtora local. Os celulares foram apreendidos para que não tirássemos fotos. Em seguida, fomos escoltados por um grupo de seguranças até o momento de entrada no avião, cuidando para que não abríssemos as bagagens. Nos cercaram na zona de embarque na frente de todos os passageiros, até que os mesmos entrassem no avião. Nos sentimos envergonhados e acuados, e enquanto embarcávamos de volta, os seguranças ingleses nos davam um “tchauzinho” cínico e um sorriso sarcástico.

É importante registrar o quanto foi saudosa a recepção da tripulação da TAM, assim como a reação dos passageiros a nossa volta, bem como a calma e solidariedade da Policia Federal ao chegarmos no Brasil.

Com relação à falha da documentação complementar que não foi emitida pelo festival (registro), o grupo já está tomando as devidas providências. Vale ressaltar que tal falha do festival não tornava a nossa condição ilegal para que pudéssemos, de alguma forma, entrar em solo “shakespeareano”.

Escrevemos essa carta para o esclarecimento dos fatos, para que não haja dúvidas e tampouco distorções a respeito do ocorrido. Sobretudo, colocamos aqui que o objetivo não é o ressarcimento financeiro, e sim a expressão de nossa tristeza, indignação e sensação de impotência, visto que nos sentimos envergonhados sem termos feito nada de errado, bem como nos sentimos fracassados e humilhados sem termos falhado. Não é possível descrever o sentimento de rejeição e injustiça gratuita que experienciamos. No mais, acima de tudo, queremos fazer jus a nossa dignidade. Chegou a hora de lutarmos efetivamente contra a xenofobia, bem como reivindicar nossos direitos de cidadãos do mundo e artistas.

Abraço a todos,
Teatro da Curva»

Fonte: aqui







«A Bíblia nos ensina a amar o próximo e também a amar os nossos inimigos provavelmente porque eles são, em geral, as mesmas pessoas.»

Mark Twain - Escritor

Fotografia de Pedro Soares (aqui)






Uma cidade sem os seus loucos é uma cidade sem alma. Hoje o Mindelo está estranho com os loucos todos fora de circulação. Bem, quase todos, porque isto dos loucos é como tudo na vida, uns vão outros vem. Nunca mais me esqueço de um espectáculo de rua que fizemos na Praça Nova do Mindelo, cada um interpretando estranhos personagens animalescos, que começou com 20 actores e terminou com 21, porque um dos loucos do lugar - que antes da actuação fazia discursos políticos furiosos a altos berros - sentiu naquelas duas dezenas de estranhos seres colegas à altura de competir com os seus devaneios mais estranhos e se juntou à festa teatral, não só dentro do espírito da coisa, como interpretando, ele próprio, um personagem que se enquadrava no que todos nós estávamos ali a fazer. Foi épico, digo-vos. E terapêutico para o louco, não tenho dúvidas.

Vem isto a propósito desta imagem que encontrei nas minhas andanças pela Internet, que trouxe de novo Kmê Deus, provavelmente o louco mais emblemático da cidade do século XX, que com as suas latas ao pescoço e o seu apurado sentido de humor, dava ao centro do Mindelo um ar de rebeldia anárquica que tão bem lhe vestia. Morreu faz tempo, e como gostaria de dizer que o seu espírito ainda ronda pelos becos e ruas da morada, mas infelizmente sou daqueles que está cada vez mais convencido que até o espírito de Kmê Deus os tempos modernos estão a conseguir varrer do nosso quotidiano. É pena.






Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
de árvores alheias

Fernando Pessoa






Já fui a tantos festivais da Baía das Gatas que estou naquela fase irritante em que tenho saudades do que já foi. Agora nem a lua cheia nos deixam ter. Pela primeira vez em muitos anos, que eu me lembre, o maior festival de música do país não vai ter a bela lua cheia a iluminar a piscina natural que é a delícia das milhares de pessoas que se deslocam para a baía nesse fim-de-semana. De resto, poucas novidades, que é como quem diz, o mesmo de sempre. O que não tem que ser necessariamente mau.

Sim, já sabemos. O que importa é o convívio, as barracas, os pinchos, as cervejas estupidamente geladas, o balanço foi positivo, vai certamente exceder as melhores expectativas, vamos parabenizar o comportamento da população, praticamente não há acidentes a registar, o civismo impera como sempre, fora uma ou outra rixa normal dado o consumo acima da média de bebidas espirituosas de grau e qualidade variáveis, média essa já de si bem superior ao desejável, lá teremos certamente a presidente da câmara rejuvenescida a dar o seu show habitual para um povo sempre em festa. Viva a liberdade.

No entanto, aqui como quem não quer a coisa, continuo a não entender certos critérios e escolhas, mas pronto, o mal é que se espera sempre mais e há gente que só sabe criticar e deitar abaixo o que os outros, com tanta e valente generosidade, demoram a construir. Mas tenho que confessar que depois do anúncio do célebre concerto de Norah Jones na cidade da Praia, que é excelente artista mas não tanto que possa estar a actuar em dois lugares ao mesmo tempo, como se veio a comprovar, depois desse episódio, dizia, ficou--me água na boca. 

Por exemplo: o facto de um dos cabeças de cartaz do festival da Baía das Gatas deste ano e representante brasileiro ser o grupo Calcinha Preta, sem desprimor para quem gosta deste género de música, não me parece ser do melhor que um país musical como aquele nos pode dar, mas pronto, o povo gosta e o povo é que sabe, não é? Eu só lamento que não se consiga trazer um de tantos e tantos nomes de músicos que este fascinante país não se cansa de brotar para o mundo de forma ininterrupta. Já imaginaram um Gilberto Gil, Djavan, Caetano, Ney Matogrosso, Beth Carvalho, Maria Bethânia, Maria Gadu, Ana Carolina, Seu Jorge ou, sonho dos sonhos, um Chico Buarque a cantar na Baía das Gatas? Eu iria lá, senhores, eu iria lá.






O poeta cabo-verdiano Zé Cunha escreveu a propósito da última cafeína aqui publicada algo que gostaria de partilhar. Escreve ele, com a sabedoria certeira que lhe é característica que, à Clarice Lispector, "é preciso lê-la, pelo gozo de ler, pelo prazer da boa literatura, pelo dever de a conhecer, ou então, nem que seja para combater este gosto da frase feita, e das citações, que acaba por ser, muitas vezes, a morte de alguns autores às mãos do seu próprio veneno, ou o alfinete com que prendemos certas obras como borboletas num mostruário."

Clarice Lispector é uma escritora única, misteriosa, densa, que faz como poucos a autópsia da vida e do ser humano. Mostra-nos os nossas próprios intestinos e os órgãos em sangue com o mesmo espírito implacável e inquietante com que nos revela os segredos do amor ou as vicissitudes da alma. As suas citações são conhecidas e andam de mão em mão, agora que vivemos a era dos 140 caracteres, mas não se deixem enganar. A arca do tesouro de onde sairam essas frases é quase infinita. Pode-se viver uma vida inteira e o mais provável é continuarmos a nos interrogar, emocionar e, sobretudo, a tentar entender Clarice Lispector.

Ou como escreveu outro enorme poeta, Drummond de Andrade sobre ela:


"Clarice, veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério. Ou o mistério não era essencial, era Clarice viajando nele. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo, onde a palavra parece encontrar sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barataou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. São coisas, são jóias particulares de Clariceque usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum, carteira de identidade, retrato. De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia, cuidados, providências. Clarice não saiu, mesmo sorrindo. Dentro dela o que havia de salões, escadarias, tetos fosforescentes, longas estepes, zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas, formava um país, o país onde Clarice vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos. Os papéis,os cumprimentos falavam em agora, edições, possíveis coquetéis à beira do abismo. Levitando acima do abismo Clarice riscavaum sulco rubro e cinza no ar e fascinava. Fascinava-nos, apenas. Deixamos para compreendê-la mais tarde.

Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice."

Para terminar: procurem saber mais. Leiam mais. E se a escolha recair em Clarice Lispector, se preparem. O impacto vai ser profundo.







«Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.»

Clarice Lispector in Um Sopro de Vida 





A todos os meus amigos digo o mesmo: ter um filho muda tudo. E não falo apenas da questão prática, das fraldas, do cheiro a cocó, dos choros, das cólicas, das depressões pós-parto, dos horários, dos jeetlags provocados pela nova realidade, das roupas cor-de-rosa, ou azul conforme o sexo, da escolha do nome, do registo, da tranquilidade do sono, da emoção do primeiro sorriso, do guarda-cabeça ao sétimo dia ou da reviravolta brutal que tudo isso provoca no nosso quotidiano.

Há uma visão, diria, mais metafísica ou filosófica que implica o nascimento de um primeiro filho. Quando naquela manhã do dia 17 de Agosto de 1997 vi aquele ser minúsculo pela primeira vez, recebi dentro de mim um choque tremendo, uma poderosa percepção do ciclo de vida, de um começo, um meio e um fim, mas sobretudo de algo que continua. Algo que vai continuar nela, na Laura, quando eu deixar de andar por cá. Um sinal inequívoco de que não somos eternos mas que somos continuados. Tudo isto, estou certo, é um acto de profundo amor.

Parabéns, filha.

 




O novo visual do Café Margoso ajusta-se 
ao espírito da coisa ou nem por isso?

À melhor resposta, ofereço um café (vá lá, ajudem-me nesta!









O Centro Cultural Português - IC / Pólo do Mindelo promove uma exposição de fotografias de António Cembrano, com abertura amanhã, dia 17 de Agosto, na brasseria do Pont'Água, pelas 18:30 horas. Já vi algumas destas imagens e valem bem uma visita.










Num corredor com várias portas ele sabia por qual delas queria entrar.

No exacto momento em que se preparava para entrar, aparece-lhe um amigo que o aconselha: «não vás por aí. É demasiado arriscado.» Pára. E pensa: «quem não arrisca, não petisca», e avança de novo.

Nesse preciso momento, aparece-lhe um segundo amigo que o avisa: «essa porta tem uma péssima energia. Não vás por aí. Tive um sonho, falei com um astrólogo, li as minhas cartas, fui a um curandeiro, consultei o Tarot e vejo nas tuas mãos: nada disto augura nada de bom. Não vás por aí.»

Ao ouvir isto resolveu fazer o que sempre havia feito: agradeceu aos amigos o cuidado, ouviu o seu coração e entrou pela porta escolhida inicialmente. Foi o mais feliz dos homens.







"De todas as taras sexuais não existe nenhuma 
mais estranha que a abstinência."

Millor Fernandes - jornalista e humorista








Pronto, o que nos vale são esses jornalistas especialistas em investigação para nos abrir os olhos. Afinal de contas, Cabo Verde acabou de ser definido nesta esplêndida frase que, quem sabe, poderia ser aproveitada para acompanhar o novo logo da marca do país: «Cabo Verde Sem Recursos Sem Problemas». Ou seja, tud kool, tud nice! 

Finalmente percebi porque é que Mindelo está sempre em festa.

Ler aqui, reportagem sobre o Cabo Verde real...





"Mal informados sobre a natureza profunda da morte, cujo outro nome é fatalidade, os jornais têm-se excedido em furiosos ataques contra ela, acusando-a de impiedosa, cruel, tirana, malvada, sanguinária, vampira, imperatriz do mal, drácula de saias, inimiga do género humano, desleal, assassina, traidora, serial killer outra vez, e houve até um semanário, dos humorísticos, que, espremendo o mais que pôde o espírito sarcástico dos seus criativos, conseguiu chamar-lhe filha-da-puta."

José Saramago - As Intermitências da Morte





15 de Agosto de 2009 - 15 de Agosto de 2010. Um ano sem Isabel. Sempre presente.







Tudo Bons Rapazes


1. Um amigo contou-me um episódio ocorrido no último fim-de-semana na pacata cidade do Mindelo: estava ele à porta de uma festa para se encontrar com um amigo, numa das zonas periféricas da cidade do Mindelo, quando um grupo de seis jovens menores rodeou um homem dos seus trinta anos e o espancaram com uma violência inusitada. Começou com uma garrafada na cabeça, sem qualquer aviso prévio, blocos de pedra e depois, de forma vil e cobarde, já com o homem no chão, pontapés na cabeça, nas costelas, enfim, coisa que a gente só vê nos filmes.

2. “Fiquei chocado”, confessou o relator, “porque o homem ficou com a cara feita em papa. E o pior é que ninguém faz queixa destes gangs, compostos por miúdos entre os 13 e os 16 anos, porque toda a gente tem medo deles. Só na zona tal e tal existe um gang com mais de duzentos membros. A cidade está em estado de sítio e ninguém faz nada para alterar esta situação. Reina o medo.” Isso mesmo, na pacata cidade do Mindelo, um homem, por razões que se desconhecem foi espancado quase até à morte na frente de inúmeras testemunhas, naquelas cenas que conhecíamos apenas de filmes como “Tudo Bons Rapazes”, de Scorsese.

3. Andei o dia seguinte pelos sítios noticiosos da Internet à procura de alguma notícia sobre o ocorrido mas não encontrei rigorosamente nada. Pensei cá com os meus botões que o homem tão barbaramente agredido talvez tivesse sobrevivido porque quando há morte as notícias correm sempre mais depressa. Espero que esteja bem, dentro do possível. Mas isso não faz com que este episódio seja menos assustador, antes pelo contrário. O silêncio que reina no Mindelo é ensurdecedor. Principalmente no meio da insuportável poluição sonora dos carros anunciando as imensas festas que se inventam sempre neste período de veraneio.

4. Já tinham sido aqui nestas conversas de café referenciados episódios mais ou menos análogos não menos assustadores, aqui classificados como sintomas de uma doença urbana grave, de vandalismos provocados por grupos de jovens contra viaturas e casas particulares. Pessoal que chega e manda blocos contra carros novos ou invade festas privadas impondo um clima de terror. No Verão, as coisas pioram, com o aumento da população, as visitas dos emigrantes e os turistas. E não é por ver de quando em quando dois policias militares a passear pelas principais artérias da cidade que vou ficar mais descansado.

5. Vão ver o ambiente da Lajinha neste Verão, dominado pelo medo dos assaltos. Todos os dias sou confrontado com algum conhecido ou amigo que foi assaltado recentemente. “O que tens aí, passa para cá”, assim é feita a abordagem, quase sempre por grupos compostos por mais de 3 ou 4 elementos. Se for um telemóvel, o cartão é retirado em frente do antigo proprietário com um sorriso cínico, para que não haja qualquer dúvida sobre quem manda onde e em quem. A cidade está doente, só não vê quem não quer.

6. A Lei que rege o consumo das bebidas alcoólicas, por exemplo, é uma farsa, porque basta ir a qualquer bar, discoteca, café ou algum outro estabelecimento nocturno para sermos confrontados com menores bêbados ou muito próximos de o estar. Essas mesmas bebidas são vendidas pelas rabidantes nas ruas do centro da cidade em frente dos poucos narizes policiais que por aquelas bandas aparecem. O medo do piquete já era. Passada a novidade, parece que as coisas pioraram. Um momento de distracção e estamos a ser assaltados. Sem dó nem piedade.

7. “O pessoal está a acumular rendimentos para o festival da Baía das Gatas”, diz-me algo confrontada, uma outra amiga mindelense com quem comentei o actual estado de coisas. E comentava, entre uma porção de razão e outra de ironia, que no maior festival de música de Cabo Verde não há muitos problemas porque a policia está lá em peso e porque os que poderiam estar a roubar ou perturbar estão lá também a divertir-se com os produtos dos serviços que foram garantindo nas semanas anteriores. Afinal de contas, até os bandidos tem direito à sua quota-parte de regabofe.

8. Além das bebidas alcoólicas, também outras drogas menos lícitas circulam de forma impune e quase descarada. Toda a gente sabe onde se vende, quem vende, como e onde se consome, o quê e em que circunstâncias. Desde a mais inofensiva erva, vulgo poof, aos mais pesados cocktails de heroína e, principalmente cocaína, passando ainda pelas pastilhas mágicas que dão um speed não só necessário como indispensável nesta época de festas intermináveis, tudo é vendido e consumido de forma quase relaxada. Mindelo transformada numa crioula Amesterdão, com a diferença de aqui ser tudo feito fora da alçada da lei.

9. Pois é, os políticos do poder pedem-nos para sermos optimistas e adoptarmos uma postura empreendedora e voltada para o futuro. Os da oposição, por outro lado, não nos dão qualquer garantia com um discurso de terra queimada, sem ideias, sem alternativa, sem qualquer criatividade. À ideia do paraíso na terra respondem-nos com um quanto pior, melhor. E nesta época de pré-campanha eleitoral já sabemos o que vai acontecer: tudo é publicidade e ficamos sem saber em quem e no que acreditar. Mas por outro lado, temos aí esta terrível realidade, que nos bate à porta todos os dias. Nem é preciso procurar os sarilhos. Hoje, são eles que nos encontram.

10. Outro caso sintomático: um velhote, num dos bairros mais tradicionais da cidade, foi espancado por um tipo, “um terrorista, acredita”, só porque o viu a bater numa criança e o chamou de forma até bastante educada. Levou o troco. As pessoas que assistiam à cena, ficaram caladas. O homem ficou 5 dias em coma. Sobreviveu. Mas o agressor continua aí, à solta, provavelmente à espera de mais uma oportunidade para vir a fazer mais uma demonstração do seu poder. “De catana na mão, se for preciso”, dizem-me. Não há problema, são tudo bons rapazes. Malta que apenas se quer divertir. Desde que ninguém se meta, tudo vai correr bem neste Verão. Ou talvez não.

11. Senhores do Ministério da Administração Interna, do Ministério da Defesa, das Policias, das Forças de Segurança, vejam o que se está a passar na minha cidade. Neste momento, estamos numa situação em que nenhuma das minhas duas filhas pode sair à rua sem que eu, como pai, não fique com o credo na boca. Seja de dia, seja de noite. Por essas e por outras é que sempre fui a favor de ver a tropa na rua. Melhor na rua do que nos quartéis, sem produzir para o bem do país a não ser esperar umas chuvas torrenciais que provoquem uma convocação de urgência dos serviços de protecção civil. Porque somos todos bons rapazes, mas há uns rapazes mais simpáticos e outros que por aí andam, sem rumo e sem direcção, à espera da primeira faísca para nos colocar uma bomba atómica nas mãos.

Mindelo, 12 de Agosto de 2010




Duas peças de teatro que não vou ver, mas que gostaria muito...


Fragmentos do Desejo - Companhia Dôs à Deux
Temporada no CCBB / Rio de Janeiro, até 24 de Outubro




A Casa de Bernarda Alba - Companhia Harém de Teatro
Temporada em Teresina, durante o mês de Agosto










A certeza de que nunca um administrador da Electra ficará mais 17 dias sem água da rede em sua casa é uma realidade matemática?

À melhor resposta, ofereço um café









«Proibir algo é despertar o desejo.»

Montaigne

Fotografia de Mary McCartney