Um dos episódios mais interessantes do dia da minha primeira experiência na cidade do Mindelo, onde cheguei por mão e conselho do músico Vasco Martins - a quem sou, também por isso, eternamente grato - foi ter sido levado, no próprio dia de chegada à ilha, até casa de uns amigos do Vasco, para entre muita euforia assistir a um clássico do futebol português entre o Sporting e o Benfica. Fiquei espantado com a forma entusiástica e conhecedora com que se acompanhava o campeonato luso, algo que se mantém até hoje, até com mais visibilidade.

Nunca mais me esqueço de assistir a alguns jogos na rua, à porta da casa do fotógrafo Djibla, que apanhava a emissão com a sua antena e, de forma generosa, colocava uma televisão num parapeito da sua casa para que os amantes da bola pudessem seguir as incidências das principais partidas do campeonato português. Nessa época não havia Internet, nem Sport TV, nem transmissão de jogos pela televisão nacional de Cabo Verde. O futebol era seguido pela rádio, com o mesmo entusiasmo com que é seguido hoje pela televisão.

Aqui também "aprendi" a passear orgulhosamente pela cidade a camisola do meu clube que, como não podia deixar de ser, é o FC Porto. E desde que conheci, também nesses primeiros tempos, um taxista entusiástico adepto dos dragões que coleccionava camisolas do clube, passei a fazer o mesmo, mais ainda nos dias de hoje, onde por questões de marketing, estas mudam de formato e cores quase todas as épocas. E felizmente que nestes últimos vinte anos tenho tido todos os motivos e mais algum para passear esta indumentária pelas ruas do Mindelo: o FC Porto é um clube diferente que, graças às muitas vitórias nacionais e internacionais, ao seu poderio e competência, continua a fazer crescer a olhos vistos os adeptos que vai conquistando um pouco por todo o mundo. Não é por acaso também que as minhas duas filhas são hoje acérrimas adeptas do clube azul e branco e que para a mais nova Inês, a música preferida seja a dos Filhos do Dragão.

Na cidade do Mindelo, assim que festejamos o último campeonato com um cheirinho à-la-Electra - com um delicioso apagão em pleno Estádio da Luz - ouviam-se da janela da minha casa, em Monte Sossego, inúmeras buzinas e gritos de vitória. Adeptos gritando o nome do seu clube das janelas e varandas das suas casas. Somos cada vez mais. E é natural que assim seja. Neste mundo triste e perigoso, as vitórias do nosso clube do coração são um bálsamo para a alma. Por isso também, foi delicioso estar ontem num bar do Columbim a abarrotar de adeptos do FC Porto para testemunhar mais um momento extraordinário do clube que, ao golear por 5-1 o adversário numa meia final de uma competição europeia, deu mais uma prova do seu poder de fogo dentro de campo. Neste local, havia dois bares, cada um com a sua televisão, cada um passando o seu jogo. E devo dizer, sem que isso queira dizer nada, que no lado onde se festejou cinco vezes, o número de clientes era substancialmente. Coincidências...




Para quem estiver em Lisboa, o lançamento de uma obra maior. A não perder.





«A cama é um móvel metafísico.»

Nelson Rodrigues - dramaturgo brasileiro




Sempre senti esta foto, ícone do 25 de Abril, como um pouco minha. Sendo eu mais ou menos da mesma faixa etária e com o aspecto físico da criança que está com a mão no cravo vermelho colocado na espingarda, também me revia naquele miúdo, transformado em ícone da mais bela revolução do século XX, juntamente com a do Maio de 68, de Paris. Tal como o riso de Cohen Bendit neste último caso, a criança da fotografia ficaria para sempre ligada a um dia que não deve ser esquecido, agora que caminhamos a passos largos para um novo tipo de ditadura, comandada pelos lucros do Fundo Monetário Internacional.

Curiosa a história desta foto. O fotógrafo chama-se Sérgio Guimarães e morreu relativamenmte novo, em 1986. Trabalhava, sobretudo de publicidade. Orgulhava-se de ser filiado no Partido Comunista e, quando viveu em Paris nos anos sessenta, onde trabalhou para a revista Elle, terá ficado sem o dedo mínimo da mão esquerda, por razões que só ele sabia. Aí frequentou o atelier de Fernand Léger.

Consta que ganhou algum dinheiro com essa fotografia reproduzida um pouco por todo o mundo, mas depois perdeu o controle, apesar das suas dificuldades económicas.

Diz o relato (aqui), que no dia 25, pegou no filho do Pedro Bandeira Freire, que na altura teria dois ou três anos, e foi com ele ao aerporto da Portela para fazer a célebre fotografia. Pediu a três soldados da Marinha da Força Aérea e do Exército para segurarem na arma, e click com a Nickon. «Parece que o miúdo está a colocar o cravo na G3, mas não, ele está esticado para tirar o cravo que eu lá pus em cima»- contou.

Todas as crianças que fomos um dia, estão um pouco nesta imagem de Abril.







Se ninguém te entende, para que te explicas?

À melhor resposta, ofereço um café












Selecção de fotos de Pedro Madeira Pinto (fonte: aqui)









Óbito? Não, obrigado!

1. Tem-se falado muito e escrito ainda mais sobre a pouca dinâmica da cidade do Mindelo, sobre o seu aparente adormecimento, a sua apatia criativa, a sua megalomania reivindicativa. Eu próprio aqui no Café Margoso, e por diversas vezes, tenho reflectido sobre a urbe e a sua maior ou menor dinâmica, tendo por vezes manifestado algum desagrado pelo seu estado de letargia. 

2. Entretanto, estive quase um ano fora de S. Vicente, com um interregno no Verão passado, e esse distanciamento permitiu-me, entre outras coisas, uma análise mais nítida sobre a realidade agora que passou cerca de um mês relativamente ao meu regresso. Quando não estamos emersos no objecto observado, isto é claro para quem estudou ciências sociais, a clareza das nossas observações fica, desde logo, potenciada. 

3. Mindelo está a acordar e, espantem-se, parece não querer dormir na forma. Podemos sempre nos queixar do abandono dos políticos, da inércia dos empresários ou da falta de criatividade dos artistas e criadores da ilha, mas a sensação que eu tenho é que a cidade pulsa, indiferente a leituras mais ou menos exageradas, mais ou menos alarmantes, mais ou menos oportunistas. 

4. No programa do "Março - Mês do Teatro" participaram treze grupos de teatro. Sim, treze. Activos, vivos, fazendo teatro. Sim, no Mindelo. Nas escolas, nos bairros, nas casas particulares. Há dificuldades, faltas de apoio? Vamos fazer. Mostrar o trabalho. E depois reivindicar. Não temos lugar para ensaiar? Não faz mal, ensaiamos no nosso quintal, no terraço, na rua. A maioria das peças demonstraram uma falta de maturidade gritante, alguma falta de cuidado no preparo? Talvez, mas a vontade de mostrar trabalho, de participar, de dizer presente foi maior, o que não se pode criticar. 

5. Neste momento é rara a semana em que não há um lançamento de algum livro, um concerto para a apresentação de algum novo trabalho discográfico, uma palestra. Assiste-se ao nascimento de um novo cine-clube, a uma nova dinâmica da Academia Jotamont, entra-se num Centro Cultural do Mindelo de cara lavada, passeia-se pelos diversos bairros durante o final de semana e ouve-se música em bares, hotéis, restaurantes, existem dois locais bem no centro que promovem bailes populares à moda antiga, com música ao vivo, pelo menos uma vez por semana, grupos de capoeira invadem a Praça Nova, a Praça D. Luís, a Ponta d'Água. 

6. Certamente, continuamos com muito por fazer. O apodrecimento trágico do Éden Park, a indefinição gritante de critérios, projectos e mesmo falta rumo para a utilização de espaços públicos como o antigo Centro Nacional de Artesanato, a réplica da Torre de Belém ou o próprio Centro Cultural do Mindelo, a má-língua e desentendimentos entre os próprios artistas, algum desânimo e a falta de autio-exigência de novos valores, são tudo sintomas de uma cidade que reclama atenção.

7. Estes dias loucos, com o Congresso dos Quadros na Diáspora ou a comemoração dos vinte anos do jornal Artiletra, contribuiu para uma movida acima do habitual, mas não se pense que é apenas foguetório temporário. Cada vez mais, espaços comerciais, bares, cafés e outros espaços alternativos apostam na música ao vivo, na projecção de filmes, na actuação e na performance, na promoção de exposições de fotografia ou pintura, para atrair clientela. 

8. S. Vicente tem o mais antigo e maior festival de música do país, um festival internacional de teatro que é orgulho de toda uma Nação, o carnaval mais criativo com participação popular em larga escala, tem a única escola superior de artes do arquipélago e, espantem-se, tirando o caso do festival de música, tudo isto é produto da iniciativa privada, a tal cidadania que se diz adormecida na ilha do Porto Grande.

9. Andamos na rua e cruzamo-nos com artistas plásticos, músicos, instrumentistas, actores, encenadores, criativos, estudantes de arte e design, intelectuais, escritores, poetas, e claro, loucos, pés descalços, vendedores de jornais, polidores de calçada, velhos proxenetas, negociadoras de café e toda a casta de gente com toda a espécie de profissões, mais ou menos liberais. A cidade pulsa. 

10. Além de que também me parece ser esta uma cidade capaz de olhar para dentro e de discutir os seus problemas. Fê-lo durante estes meses com o ciclo de debates, "Mindelo - Temos Cultura?", organizado pelo Centro Cultural Português - IC. Com certeza que há muitos problemas, estamos carecas de saber quais são. A resolução de muitos deles passam pela implementação de políticas públicas, por um lado, e por uma mudança de mentalidades dos próprios criadores, por outro. Mas que ninguém se atreva a passar ao Mindelo uma certidão de óbito criativa, cultural ou artística. Porque a cidade está viva, orgulhosa do que é e continua a dar (e a ser) exemplo. 

Mindelo, 21 de Abril de 2011

(foto, aqui)





 
«Disse-me hoje uma amiga que está a viver um sonho porque lhe aconteceu apaixonar-se. Bebi mais um gole da cerveja, saboreando apenas a espuma. O Amor nunca é um sonho, disse-lhe. E não é. Um sonho cumpre-se imediatamente, já que o seu objectivo encerra-se em si mesmo: sonhar. O Amor é diferente porque tem dois fins: a alma e a carne. Aliás, quando amamos não paramos de sonhar, mas quando sonhamos podemos parar de Amar. E ela perguntou-me o que é que eu queria exactamente dizer com isto. Bebi mais um gole de cerveja, desta vez mais fundo como se procurasse petróleo no copo. Ao contrário do Amor que nos acontece de vez em quando, um sonho é aquilo que nunca aconteceu, e é bom termos consciência que não estamos a sonhar.»

Bagaço Amarelo (aqui)




“Aumento das tarifas não implica 
aumento da qualidade do serviço”

Antão Fortes - Presidente do CA da Electra (fonte: aqui)



Comentário Cafeano: qualquer estudante de economia, gestão ou marketing sabe, desde os finais dos anos 80 que o centro das preocupações das empresas é a satisfação dos seus clientes. Fazem-se estudos de mercado, questionários e organizam-se formações entre trabalhadores, gestores e funcionários para que, num ambiente de competição segundo as regras do mercado, se consiga conquistar o maior número de clientes possível e, mais que isso, se consiga fidelizar aqueles que já existem. Pois bem, parece que a nossa Electra não pensa assim. Aumento de preços não implica aumento de qualidade! E isto dito como se fosse a coisa mais natural do mundo. Então implica o quê? Paga-se mais para se ter mais do mesmo? É caso para se dizer que a Electra está muito à frente. A isto se chama terapia de choque! Um study case para os estudantes de marketing.





Pensando bem, o que realmente distingue um bom beijo de um bom café?

À melhor resposta, ofereço um café







Hoje, ao que parece, é o dia internacional do café. Ontem, foi o dia internacional do beijo. Esta é uma boa semana, não hajam dúvidas!

A propósito do café, essa bebida mágica, aqui estão três curiosidades, para que conste:

Sementes com um sabor dos diabos
O café é uma semente que nasce de um arbusto (mede entre dois e cinco metros) chamado cafeeiro e que, antes de tratada e torrada, se assemelha bastante àquelas bagas que em criança disparávamos à força de um sopro, quais índios da Amazónia, nos tubos de PVC. Do ponto de vista botânico, muito haveria a dizer sobre a planta de onde se colhe o café, mas o que realmente interessa saber é que existem cerca de 103 espécies diferentes de cafeeiros, daí as bicas que bebe terem sabores tão diferentes.

História (muito) abreviada do café
Não há certezas quanto a datas, mas terá sido por volta de 800 d.C. que o café terá sido descoberto para o mundo, na Etiópia, onde algumas tribos usavam as sementes de cafeeiro (misturadas com tudo e mais alguma coisa) como suplemento energético. Daí terá passado para a Arábia, onde em 1000 d.C. alguém descobriu que o café podia ser torrado e bebido. À custa das invasões e das guerras, a moda espalhou-se pelo mundo e hoje não dispensamos uma bela de uma bica na esplanada.

Mundo de café
O cafeeiro desenvolve-se em regiões com temperaturas médias anuais na ordem dos 20oC, onde sol e chuva dividem irmãmente as condições climáticas, tornando os solos ricos e porosos. Ou seja, as plantações de café concentram-se exclusivamente nas zonas tropicais do planeta Terra. O Brasil está no topo da lista dos maiores produtores, com uma média de 22,5 milhões de sacos (de 60 kg) de café produzidos por ano, seguido da Colômbia (10,5 milhões) e Indonésia (6,7 milhões).

O cafézinho mais cara do mundo
Um café do Kopi Luwak produzido na Indonésia pode custar 60 euros. Porquê? É feita com grãos de café que passaram pelo sistema digestivo da civeta (um mamífero carnívoro), onde uma enzima reduz o sabor amargo dos grãos de café e o torna mais aromático e doce. Os grãos são apanhados das fezes e os bichos só conseguem expelir cerca de 230 kg por ano.

Café terapêutico
O café está ao nível de produtos polémicos como o azeite: um ano é a melhor gordura do mundo, no outro seguinte alguém descobre que faz muito mal ao coração. Recentemente, um grupo de investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra descobriu que a ingestão de doses moderadas de café diminuía a incidência de doenças ligadas ao cérebro, como o Alzheimer, por exemplo.

Dar um café
Aqui no MIndelo, uma expressão tem, de certa forma, torcido o significado e a boa energia que o café sempre nos dá. "Dar um café" corresponde, nem mais nem menos, em levar às últimas circunstâncias um negócio de troca de serviços sexuais. "Aquela mulher está ali a dar um café ao senhor Esteves, estás a ver?" Estou, estou. Não podiam arranjar outra expressão, sem a necessidade de estar a utilizar tão digna e secular bebida? Dar uma coca-cola, dar uma vodka, dar um sumo de maracujá? Haja imaginação!











Fotografias de João Barbosa, da peça "Os Amantes", do GTCCP. Uma curta temporada de 4 dias decorreu no Mindelo, com grande sucesso e satisfação de todos os envolvidos, incluindo o público. Obrigado a todos!