segunda versão do projecto, ainda sem o prédio mais alto por trás (ver última imagem)


aspecto geral do auditório


galerias inferiores, que servirão para espaços de exposições artísticas


Acompanhei o processo, graças à generosidade e confiança que me foi depositada por Carlos Hamelberg, arquitecto do projecto de recuperação do Éden Park, com muito entusiasmo. Neste momento, não estou assim tão satisfeito. Melhor, sinto-me dividido. Procuro entender as razões. Mas tenho dúvidas - muitas dúvidas - relativamente ao resultado final do mesmo.

A componente relativa ao auditório propriamente dito, se for feita tal como se encontra projectada, fornecerá à cidade um equipamento cultural de elevada qualidade. Conforto, preparado para ter uma excelente acústica, tecnicamente pronto para receber qualquer tipo de espectáculos, incluindo um cinema, com o novo Éden Park a cidade do Mindelo passará a ter uma sala que dará resposta imediata às principais necessidades dos artistas, produtores e público vasto amante das artes em geral.

A manutenção da fachada original, assim como do nome do espaço cultural, são duas boas notícias, que demonstram respeito pelo passado e pela história da mais importante salta de espectáculos e cinema da história de Cabo Verde. Esse é um bom princípio e, ao que parece, ambos serão mantidos.

Mas tudo tem um preço. E como se pode verificar na última imagem, esse preço é que por detrás do equipamento cultural nascerá um complexo de apartamentos ou hotel, cuja volumetria me assusta e tenho algumas dúvidas se visualmente favorece a própria Praça Nova. 

A sensação que dá, principalmente com o prédio mais traseiro, é que teremos na outra extremidade da praça, um segundo Mindel Hotel (a coincidência da cor ser a mesma pode não ser apenas uma coincidência), muito mais alto que o Hotel Porto Grande mesmo ali ao lado.

Se esse for o preço económico a pagar, para viabilizar financeiramente um projecto que poderá dotar a cidade do Mindelo de um moderno e funcional equipamento cultural, cabe-me perguntar-vos: é esse um preço demasiado elevado?

As minhas dúvidas mantêm-se e foram transmitidas pessoalmente ao arquitecto, a quem, mais uma vez, agradeço a confiança deposita em mim para acompanhar, de perto, a elaboração e o nascimento do "novo" Éden Park.

A hora é de debate.


a última versão do projecto inserido na Praça Nova





Como foi público, participei, em representação do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, em vários encontros organizados pela nova direcção da Associação Mindelact, para preparação do Março - Mês do Teatro. Continua a espantar-me a quantidade de projectos teatrais existentes na cidade do Mindelo. É verdadeiramente impressionante a dinâmica conseguida e a forma como a arte cénica é hoje uma arte de primeira necessidade. 

Desde o teatro nas escolas, com grupos organizados ou apresentação de dramatizações, grupo de teatro na Cadeia Civil, oficinas de teatro para crianças, jovens explorando a magnífica história de D. Quixote, projectos individuais de elevado risco, companhias já consagradas, recomeços inesperados, gente nova, menos nova, homens, mulheres e crianças, todos unidos neste amor incondicional pelo teatro, cada um apresentando as suas propostas, estreias, muitas estreias, espectáculos na rua, em locais inusitados e nunca antes experimentados, a possibilidade de utilização do auditório público sem pagar aluguer, muitos ensaios, trabalho, suor.

Esta é a melhor forma de promover o teatro. Fazendo. Não é por acaso que quando o Março - Mês do Teatro foi criado, há 14 anos atrás, o lema proposto foi "mais teatro para um melhor teatro". E o programa deste ano, que reúne um leque impressionante de espectáculos já é uma vitória, porque corresponde a uma promoção ao teatro de grande tamanho e alcance. Sabem de uma coisa? Vejo o panorama do teatro actual no Mindelo e sorrio, orgulhoso. Eu contribuí para isto!

Nem todas as peças serão do agrado de todos. Nem todos os espectáculos provocarão ruidosos aplausos e entusiásticas criticas. Nada mais normal. Mas esta energia contagiante, apesar de Carnaval, apesar da crise, apesar da inoperância dos responsáveis, apesar das dificuldades, apesar da falta de locais para ensaio, apesar das injustiças, apesar da falta de meios financeiros, esta força colectiva do teatro em Mindelo, tornou-se algo indestrutível. Este mês de Março que vem aí, é a maior prova disso.

Viva o teatro!






"Quem vive da (na) arte, nessa missão tão nobre e fundamental para o espirito humano, não pode sustentar o seu fazer no ódio e na frustração. Esse é o caminho, assim penso, para a liberdade, sem a qual o que construimos de nada vale, a ninguém importa."

Essa fui eu que escrevi, depois de verificar que estava a dar importância a mais ao que importância nenhuma tinha.

Fotografia do meu querido amigo Pedro Moita






Que legenda para esta imagem?


À melhor legenda, ofereço um café 




Denominado Projecto 47, este é  um passatempo fotográfico inspirado em outro projectos semelhantes existentes noutras paragens (Project 52 ou o Project365, por exemplo). 

O passatempo consiste na colocação online em álbuns próprios e por temas designados para cada semana, de fotografias feitas pelos participantes. No final de 2014, as fotografias mais votadas em cada semana farão parte de uma mostra a ser apresentada na "Noite Branca" deste ano, na Praia e, em estudo, a organização de uma exposição também na cidade do Mindelo.

Semana 07: tema, DESFOCO.

Para saber mais sobre as regras, ver aqui





"No que respeita a representação simbólica, falta aos nossos decisores culturais a tal da base formal: nem todos os diretores de serviço do Ministério da Cultura cresceram rodeados de arte e literatura; nem todos os vereadores municipais entendem a diferença abissal entre cultura e folclore; e o apetite dos governantes pelo patrocínio do folclore ao invés da cultura parece insaciável."

Rosário da Luz (ler artigo completo, aqui)

Pintura de Kiki Lima





"A maior religião do mundo é tratar BEM as pessoas" 

Paulino Vieira.- mestre da música cabo-verdiana

(caricatura do talentoso Sai Rodrigues)






Bzot deskulpam, ma linga kabuverdiana inda ka e ofisial, mod ke? A seriu, mod ke? Bzot espera: ja el é? Não? Mod ke, porra? 

À melhor promessa, ofereço um café







Que legenda para esta imagem?


À melhor legenda, ofereço um café 




Um dos sintomas da pobreza cultural que nos espera é a raridade em encontrar algum jovem que tenha o hábito da leitura. Já o disse algumas vezes publicamente, essa é a minha maior batalha dentro de casa com as minhas filhas, chegando ao ponto de exercer alguma chantagem psicológica, trocando benefícios domésticos por algumas páginas de leitura comprovada. A minha esperança é que o esforço inicial, que é natural dada a falta de costume em ter um livro e lê-lo - se possa transformar, com o tempo, numa prática prazeirosa e, em última instância, num vício incontornável.

Até porque para se dominar a escrita, tem que ter o hábito da leitura. Não tem como escapar. Ninguém pode pretender um dia ser um bom escritor - poeta, cronista ou romancista - se não tiver impregnada em si mesmo a paixão pela leitura do que os outros escrevem ou já escreveram. 

Vem isto a propósito de uma bela novidade na blogosfera crioula que venho aqui partilhar com os meus leitores: numa época em que os blogues mad in Cabo Verde parecem querer ressurgir, uma jovem estudante, muito talentosa, ganhou coragem para mostrar alguns dos seus textos. São bem mais do que simples devaneios de adolescente com hormonas aos saltos. São textos profundos, poéticos e que indiciam um futuro talento na arte de escrever.

Visitem o blogue Insonhos, de Yara Azevedo, jovem estudante de 16 anos da cidade do Mindelo, que escreve pequenas pérolas como esta:

"Sou igual a muitos outros. Tenho um corpo, uma alma, uma razão. Tenho um coração. Tivesse eu algo a mais, ou a menos... Mas não. Sou igual ao que me cerca. Lutei por não ser… para que não fosse, o que de mim quiseram fazer. Mas de tantas voltas, tantos tropeços, me envolvo mais no que me aflige e me limita."

Vale a pena a visita, aqui







(sem palavras... para quê?)





(Desta vez em forma de carta, enviada hoje mesmo, para um estabelecimento de ensino do Mindelo):

Hoje, depois do período normal das aulas, a minha filha Inês Gonçalves Branco, aluna do 3º ano do período matinal, chega em casa relatando ter apanhado do professor com a tristemente tradicional “palmatória”. Aliás, esta não é a primeira vez que chegam a minha casa relatos deste “método” educacional bárbaro, talvez entendível à luz do início do século passado, mas absolutamente intolerável, em pleno século XXI.

 Será que sou só eu que acha que ter palmatória nas escolas primárias do nosso País é uma coisa bárbara e desnecessária? Até quando vamos admitir esse tipo de crueldade, pois nada, nada mesmo justifica a violência! Que tipo de lição que as crianças vão apreender com esse comportamento?

Como pai e educador, venho por este meio apresentar formalmente o meu veemente protesto por esta situação, e exijo que a direcção desta escola tome providências para que tais actos de violência não voltem a acontecer, seja com que criança for. 

Se a minha filha cometeu algum acto menos próprio ou condenável, a obrigação do professor, em primeira instância, é chamar atenção da criança, como educador que é. Em segunda instância, apelar à direcção da escola, no caso de o episódio apresentar alguma gravidade. E nesse caso, chamar o encarregado de educação que, no seio familiar, tomará as devidas providências.

Espero que esta chamada de atenção tenha algum efeito prático, pois se tais actos de violência continuarem a ser cometidos, não hesitarei em levar o caso às instâncias superiores. Não descansarei por um instante enquanto souber que as nossas crianças são alvo, em nome de um processo educativo caduco e inaceitável, de violência física que a tal palmatória implica, sob o jugo de uma autodenominada “tradição cultural”.

Sem mais, aceite os meus respeitosos cumprimentos, solicitando desde já uma resposta por escrito a esta minha missiva, que poderá ser entregue através da minha filha. 


Mindelo, 17 de Fevereiro de 2014


João Guedes Branco
Cidadão nacional portador do BI nº191725, do arquivo de identificação de S. Vicente


Legenda da imagem: O quadro "Palmatória", de Debret, retrata escravos em um ambiente interno de trabalho, sendo que um deles é disciplinado com o instrumento punitivo palmatória, usado até o início do século XX nas escolas.




Denominado Projecto 47, este é  um passatempo fotográfico inspirado em outro projectos semelhantes existentes noutras paragens (Project 52 ou o Project365, por exemplo). 

O passatempo consiste na colocação online em álbuns próprios e por temas designados para cada semana, de fotografias feitas pelos participantes. No final de 2014, as fotografias mais votadas em cada semana farão parte de uma mostra a ser apresentada na "Noite Branca" deste ano, na Praia e, em estudo, a organização de uma exposição também na cidade do Mindelo.

Semana 07: tema, TEXTURA.

Para saber mais sobre as regras, ver aqui





Apesar de alguns solenes mandamentos (se calhar palavras vãs, e mesmo assim portadoras de gravíssimo sentido), o tigre espreita, ataca e mata, a serpente repta, sibila e crava os letais caninos. (O t-rex e o brontossauro, esses não, pois que do antiquíssimo furor e das enormes carnificinas somente restam nulas presas e ressequidos ossos).

Tais palavras só as ouviu o Velho da Montanha, o qual, pelo travão e pelo fogo, as grafou em rijas pedras. Embora ainda constem (não obstante as perdidas tábuas), quem nos garante que um deus realmente as ditou, assinou e mandou cumprir?

Arménio Vieira, em texto enviado via SMS

(Fotografia de Dariusz Klimczak)





No último Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact 2013, e no âmbito do Encontro Internacional de Programadores de Artes Cênicas, que decorreu enquadrado no maior evento teatral da África Ocidental, aconteceram vários momentos históricos. Se virmos a sala onde decorreram os trabalhos desse salutar encontro, verificaremos a quantidade incrível de homens e mulheres que por todo o mundo lutam diariamente para, com o teatro e pelo teatro, fazer deste lugar chamado Planeta Terra um espaço mais de partilha do que individualismo, mais de arte do que de violência, mais de fraternidade do que de comércio puro e duro. 

As múltiplas conversas paralelas geraram certamente frutos que já se começam a fazer sentir. Mas não podemos deixar de destacar aquele que, para nós, foi o momento mais importante desse histórico encontro: a assinatura de um convênio entre a Associação Artística e Cultural Mindelact e a SP Escola de Teatro.

Entre muitas outras possibilidades, o que este documento permite é, em primeiro lugar, o início de uma edificação de uma ponte entre os nossos dois países, entre Brasil e Cabo Verde, entre São Paulo e o Mindelo, sustentada por pilares indispensáveis como são a formação, a amizade, a educação artística, a troca de experiências e a vontade de partilhar saber, conhecimento, memórias, cultura e sinergias. 

Como primeiro fruto palpável, digamos assim, viaja nestes dias o primeiro intercambista cabo-verdiano, para durante os próximos meses aprender, partilhar, sugar, transmitir, conhecer e espalhar um amor pelo teatro que é certamente algo que temos em comum, vocês aí na SP Escola de Teatro, e nós, aqui no Mindelo, que fazemos acontecer o teatro em condições inimagináveis.

Sabendo como sabemos o quão revolucionário é o sistema de ensino implementado nessa escola maravilhosa, o quão humanista é a práxis diária e o quão desafiadora é a exigência em cada momento do processo de aprendizagem, a participação de um agente teatral cabo-verdiano na vida da Escola, por dentro, nas entranhas, será algo que, estamos certos, dará início a uma nova era da história da formação teatral deste pequeno arquipélago, e nós orgulhamo-nos em sentir que fazemos parte deste momento tão especial.

Desse lado podem também ter a certeza de que, e independentemente da escolha feita (num processo de seleção que é sempre subjetivo por mais que se queira sempre acertar), o jovem cabo-verdiano que nesses dias vai estar com vocês, levará esta boa energia das ilhas, esta capacidade de do nada fazer tudo, uma infinita vontade de aprender e uma abertura total de, com a sua história pessoal, contribuir para a história e a construção do coletivo da escola, em geral, e dos grupos com quem vier a trabalhar, em particular. 

Seremos, porque esse é o nosso destino, dignos desta ponte que agora edificamos. Queremos mais daí e estamos prontos para vos dar o que for preciso daqui. Estamos gratos por esta oportunidade e sabemos da imensa responsabilidade que temos de fazer desta experiência um multiplicador de vivências e conhecimento. Mas, acima de tudo, deixamos aqui o nosso profundo reconhecimento a toda a equipe da SP Escola de Teatro, em particular ao Ivam Cabral, Óscar Cutello, Quim Gama e Denise Relvas, por deixarem Cabo Verde entrar um bocadinho que seja nas vísceras desse projeto único e, quem sabe, deixar um pouco da nossa marca aí também.

Que esta ponte permita muitas passagens, múltiplas viagens. Que permita o nascimento de histórias outras, de projetos comuns e de crescimento humano, cientifico, cultural e artístico, de parte a parte.

Daqui, neste momento particular, só nos resta dizer: obrigado SP, por deixares Cabo Verde fazer parte de ti também.

A minha crónica mensal no portal da SP Escola do Teatro (leia as restantes, aqui)






Vai estrear, mas este tema de abertura interpretado por Lana del Rey e a caracterização da Angelina Jolie fazem desta versão "maléfica" da Bela Adormecida, um dos filmes mais aguardados do ano. Como diz a promoção, "você conhece o conto, agora vai saber a verdade!"

Ai, Éden Park, quando vais dar cinema de novo à cidade do Mindelo?










Não sei se já o fiz, mas hoje foi aqui confessar publicamente a minha paixão por uma criatura algo misteriosa, ambígua, e que ao mesmo tempo que parece envelhecer torna-se a cada dia inovadora, surpreendente e, mais importante, indispensável para muitos: a rádio.

Também é verdade que por motivos profissionais, não sou um bom ouvinte, mas tenho noção do impacto que ela tem na sociedade, por mais enterros que lhe queiram fazer sob ameaças de um aparente e inevitável esmagamento provocado pelas novas tecnologias (que cada vez mais tem sido utilizadas em proveito dessa mesma rádio). Mas sim, adoro estar naquele outro lado. Tenho, como se diz também no teatro, o bichinho (neste caso, da rádio).

Ainda me lembro como se fosse hoje do programa "Janela Indiscreta", na Rádio Nova, aos Sábados de manhã, emitido em directo. Lembro-me da selecção musical inovadora e dos comentários que ouvia assim que sai dos estúdios para a rua. Os taxistas estacionados ao lado da barbearia Jovem, que comentavam comigo as incidências do último programa. Lembro-me dos amigos que fiz ali, do cheiro do estúdio, do sinal do técnico para entrarmos "no ar". Adorava, e adoro, aquela voz de peito, grossa e sedutora que na rádio fazemos quando falamos "para o outro lado."

Na Rádio Nacional de Cabo Verde tive algumas aventuras também. Um curto programa diário, chamado "Caipirinha" dedicado à nova música brasileira. E mais recentemente, uma crónica radiofónica que tinha a mesma designação deste blogue e que por motivos que até hoje ainda não compreendi muito bem viu a sua emissão cancelada, o que estranhei pois essas crónicas eram muito comentadas e recebia não poucas vezes mensagens e paradas na rua de anónimos e conhecidos comentando a crónica que tinham escutado naquela manhã.

Na Rádio Morabeza ainda não me aventurei mas lá iremos, pois estamos aqui, eu e eles, a conspirar umas possibilidades. Seja como for, hoje é dia de clelebração. É o Dia Mundial da Rádio e eu dedico esta pequena declaração de amor a três bons amigos que tenho nas três prioncipais emissoras nacionais: Fonseca Soares, da Rádio Nacional de Cabo Verde, Bonga Gomes, da Rádio Nova e Nuno Andrade Ferreira, da Rádio Morabeza. A vocês, meus caros, ergo a minha taça, pela forma como contribuem com a vossa paixão pela rádio, para fazer desta um bem de primeira necessidade em Cabo Verde.






"É uma pena que muitos comediantes, e não só comediantes, mas muitos artistas jovens brasileiros sejam de direita. Sejam garotos fascistas. Eles fazem um trabalho que a gente ensina nossos filhos a não fazer. Apontam para os outros e dizem “hahaha, você é preto, você é viado, você é aleijado”. Eu sou politicamente correto. O politicamente correto é uma ferramenta civilizatória que inventamos para que uma criança negra não veja um negro sendo humilhado na TV. Mas todo garotão que é artista gosta de dizer que o maneiro é ser politicamente incorreto. Isso não é engraçado, não é humor. Ser radical como artista é diferente de humilhar os outros."

Wagner Moura - actor

Podem ler a entrevista completa aqui



As mulheres são fantásticas

A mãe e o pai estavam assistindo televisão quando a mãe disse:

- Estou cansada e já é tarde,vou me deitar !!!

Foi à cozinha fazer os sanduíches para o lanche do dia seguinte na escola, passou água nas vasilhas das pipocas, tirou a carne do freezer para o jantar do dia seguinte, confirmou se as caixas de cereais estavam vazias, encheu o açucareiro, pôs tigelas e talheres na mesa e preparou a cafeteira do café para estar pronta para ligar no dia seguinte.

Pôs ainda umas roupas na máquina de lavar, passou uma camisa a ferro, pregou um botão que estava caindo. Guardou umas peças de jogos que ficaram em cima da mesa, e pôs o telefone no lugar. Regou as plantas, despejou o lixo, e pendurou uma toalha para secar. Bocejou, espreguiçou-se e foi para o quarto. Parou ainda no escritório e escreveu uma nota para a professora do filho, pôs num envelope junto com o dinheiro para pagamento de uma visita de estudo e apanhou um caderno que estava caído debaixo da cadeira. Assinou um cartão de aniversário para uma amiga, selou o envelope, e fez uma pequena lista para o supermercado, colocou ambos perto da carteira.

Nessa altura, o pai disse lá da sala:

- Pensei que você tinha ido se deitar.

- Estou a caminho - respondeu ela. Pôs água na tigela do cão e chamou o gato para dentro de casa. Certificou-se de que as portas estavam fechadas. Passou pelo quarto de cada filho, apagou a luz do corredor, pendurou uma camisa, atirou umas meias para o cesto de roupa suja e conversou um bocadinho com o mais velho que ainda estava estudando no quarto. Já no quarto, acertou o despertador, preparou a roupa para o dia seguinte e arrumou os sapatos. Depois lavou o rosto, passou creme, escovou os dentes e acertou uma unha quebrada. A essa altura o pai desligou a televisão e disse:

-Vou me deitar.

E foi. Sem mais nada.

E foi. Sem mais nada.


Carlos Drummond de Andrade




O debate foi lançado no Facebook pelo César Schofield Cardoso, o actor Flávio Hamilton deu o seu ponto de vista, e nalguns comentários públicos ou privados que fui recebendo, alguns se sentiram ofendidos pelo primeiro, outros defenderam ser importante o lançamento de um debate sobre o tema e a mim parece-me que o importante mesmo é conversar e conhecer. Até porque como todos estamos cansados de saber, falar sem conhecer do que se fala, é meio caminho andado para se fazer papel de idiota.

Facto: os Mandingas, goste-se ou não do estilo, aprecie-se ou não a designação, são hoje um fenómeno popular, com raízes profundas e que não surgiu nos últimos anos com fôlego redobrado, vindo do nada. Há testemunhos, que publicamos aqui, de vivências com Mandingas ocorridos há mais de cinquenta anos. A mim, parece-me, já se justificaria um estudo mais aprofundado. Com tantos mestres e doutores em Ciências Sociais que por aí há, espanta-me que ainda nenhum deles se tenha predisposto a sujar-se de óleo e tentar entender - e depois partilhar - o que há de tão especial neste fenómeno de massa, com contornos verdadeiramente populares. 

Aqui ficam as diferentes opiniões, ilustradas pelas extraordinárias fotografias de Tchitche

O que escreveu César Schofield Cardoso

" Esses "Mandingas do Mindelo", recordo-me bem desde criança, sempre simbolizaram a sociedade maldita, a que vem lá das "fraldas", sujos, perigosos e feios. Eram assim vistos, nas nossas cabecinhas. Ressurgiriam agora, num misto de moda e reclamação do direito à tradição, com um certo apoio, não sei se alargado ou não, da sociedade que os acolhe. Claramente continuam a representar um certo protesto, como atesta as palavras de um deles, em entrevista, dizendo: "vocês já tiveram a vossa diversão, agora queremos ter a nossa". Esse "nós e vocês" não deixa de ser sintomático dentro de uma mesma sociedade. Mas esse "nós e eles" também é bastante sintomático na forma como se representam. Pintam-se de negro e qual é o significado de um africano se pintar de negro? Ou serão não-africanos a representarem africanos? Enfeitam-se de vestes, acessórios e objetos, da mesma forma que um cinema e um teatro antigamente ridicularizavam os negros e os povos "primitivos". Têm uma dança própria, carburada de álcool, sexo-exibicionista e poses guerreiras. Qual o significado disto tudo?

Para além de todas as considerações, em relação aos produtos altamente tóxicos com que se revestem, do alcoolismo e do excesso de linguagem, uma consideração mais básica não devia ser feita em relação ao próprio nome que carregam? Já perguntaram aos guineenses, senegaleses e malianos, que porventura sejam Mandingas, o que pensam desse carnaval? Ah bom, mas é a tradição. Pois, tradição também é mutilar o sexo de jovens moças."




O que escreveu Flávio Hamilton:

"Gostava sobretudo de saber como começou a tradição e quais os fundamentos que estiveram na sua génese. Mas a verdade é que ela sempre existiu; não sei se degenerou em fenómeno de moda pura e simplesmente, mas o facto é que me recordo bem desde os meus tempos de criança dos Mandingas invadindo a cidade e inclusivamente as casas das pessoas por esta altura do ano. 

O Carnaval é a festa da caricatura por excelência; talvez os verdadeiros Mandingas não se revêem nessa caricatura, mas o propósito é mesmo esse: brincar com coisas sérias, tendo como fim último a catarse. É costume aceite por todos em muitos países, por altura do Carnaval, sobretudo em pequenas aldeias, expôr em praça pública os podres dos seus habitantes ao longo do ano, precisamente para que dessa forma haja uma espécie de purificação de emoções e sentimentos recalcados. Tradicionalmente, o Carnaval é folia, é libertação pelo excesso. Outra coisa é o crime em nome da tradição. Por isso mesmo nem toda a tradição pode ser aceitável."

O que escreveu João Paulo Brito, actual Director Nacional das Artes:

Sem entrar noutro tipo de considerações, gostaria de acrescentar alguns pontos ao vosso debate.

1. Sobre o assunto, surgimento o nome, proponho a leitura de "O Carnaval do Mindelo” de Moacyr Rodrigues. Do meu escasso conhecimento, a única obra/ estudo sobre a matéria – porque creio que há aqui, alguns equívocos de interpretação;
2. A relação com a etnia Mandiga, neste contexto, não é tão importante. Há na história inúmeros casos em que manifestações diametralmente opostas têm o mesmo nome ou com uma origem etimológica semelhante, porque, se calhar, o que inspirou a designação está lá. Nós é que, com a distância do tempo, não conseguimos ver a relação;
3.  Se era uma manifestação feia e suja, que agora virou moda, ainda bem. Também temos imensos casos em que manifestações que mereceram o desprezo são agora enaltecidos – a Tabanka, por ex;
4. Toda a tradição começou um dia! Se repararmos os grandes movimentos artísticos (alguns com obras agora consideradas clássicas) surgiram sempre em reacção a um “Status” anterior e não raras vezes foram considerados “atentado à “boa arte”;
5. O excesso sempre foi a principal característica do Carnaval. Está na sua génese e é, por natureza e definição, um momento de catarse;
6. A grande diferença, César, em relação a mutilação genital feminina é que neste caso falamos (como dizias no outro dia) de violação de Direitos Humanos, uma conquista da Humanidade. E os mandingas, para além de se gostar ou não, não fazem mal a ninguém, além deles próprios com os produtos tóxicos – e neste ponto, estamos de acordo. 




Alguns testemunhos publicados no Blogue Praia de Bote:

Adriano Lima:

"A primeira vez que vi actuar os mandingas tinha eu 5 aninhos, e foi mesmo na minha rua, frente à porta da casa. Fiquei intrigado e algo intimidado porque a cena não se enquadrava naquilo a que até à data me habituara ver. Tanto mais que o mandinga, que dançava e saracoteava ao som da música de um cavaquinho, de vez em quando soltava um grito feroz (arrreaaaa!), munido de um varapau. Mas a minha mãezinha explicou-me que era brincadeira de Carnaval e a partir dali fiquei um admirador dos mandingas carnavalescos.

Depois dos 7 anos fui morar em Fonte Cónego, e lembro-me que o artista principal dessa representação era um homem que tinha a profissão de ferreiro ou de funileiro, salvo erro, que morava pelos lados da Ribeira Bote, aparecendo sempre a bater a zona onde eu morava. Era um festival de espontaneidade e animação concentradas numa única pessoa, que sozinha fazia festa que me chegava para todo o Carnaval. Pelo menos no que se circunscrevia à zona onde eu morava. Mais tarde, a partir dos 15 anos, passei a rondar outros carnavais, principalmente os bailes populares no Eden Park. Bons tempos."

NIta Ferreira:

"Lembro-me bem dos mandingas nos carnavais da minha infância. Eu tinha um medo deles que nem fazem ideia. O tal homem todo tisnado, com chifres na cabeça e o varapau de que o Adriano se lembra; o grito medonho ficou gravado na minha memória como um ardaaaaa, ardaaaaa, Tudo isso faz parte do viver mindelense dos meus tempos de criança, de diaza na munde. Passei o Carnaval de 2013 em Cabo Verde, achei lindérrimo e os mandingas lá estavam, dando sua pitada de sal na festa que mais entusiasma o povo mindelense e não só."

Valdemar Pereira:

"Ai os Mandingas!!! Os primeiros eram os de Dmingue Sapater e eram conhecidos pelos "Djangolê," palavra que sempre empregavam para correr com os meninos que se aproximavam ou para brincar com uma pessoa mais séria que os apreciava mas que não se atrevia a entrar e a quem enviam um convite com o "arredààà... arredààà"

Os mais conhecidos no grupo eram, além de Nhô Dmingue, um seu colaborador aleijado e um catraeiro com um varapau que fazia o caminho. O Mestre começava e acabava o desfile fazendo uma graaande gemada... num penico. Bons tempos, esses de Quarenta!"


O testemunho de Tchitche, que é também o autor das fotografias:

“Lembro-me do Djunga, quando era criança. Era um homem que tinha o espírito mandinga no sangue, impunha medo e respeito, principalmente às crianças. O filho seguiu essa tradição e criou um grupo fantástico que tinha danças e movimentos lindos, fascinantes. É preciso algum cuidado para distinguir o que é originário da moda ou da tradição porque hoje até os meninos de jardim querem sair como Mandingas!” 


E tu, o que pensas ou que recordações tens dos Mandingas do Mindelo? Ariá!







Denominado Projecto 47, este é  um passatempo fotográfico inspirado em outro projectos semelhantes existentes noutras paragens (Project 52 ou o Project365, por exemplo). 

O passatempo consiste na colocação online em álbuns próprios e por temas designados para cada semana, de fotografias feitas pelos participantes. No final de 2014, as fotografias mais votadas em cada semana farão parte de uma mostra a ser apresentada na "Noite Branca" deste ano, na Praia e, em estudo, a organização de uma exposição também na cidade do Mindelo.

Semana 06: tema, SIMETRIA.

Para saber mais sobre as regras, ver aqui





Hoje, o grande Paulo Miranda, "Crazy" nos primeiros tempos do teatro aqui no Mindelo, completa a bonita idade de 40 anos. 

"O, then I see Queen Mab hath been with you. She is the fairies' midwife, and she comes, In shape no bigger than an agate stone." 

E estas são as três primeiras linhas do célebre monólogo de Mercutio, da peça "Romeu e Julieta", e que o Paulo de forma tão brilhante interpretou em crioulo, no final dos anos noventa. (Na fotografia ele, com o ator e amigo Flávio Hamilton, no momento dessa cena específica). 

Nunca encontrei, como ele, pessoa que mais respeitasse a sua arte, e quem dela vivem. Ele, o Paulo, é para mim um irmão, amigo, companheiro e um profissional que adoro, porque ele tem uma forma de adorar a vida como poucos. Obrigado, Paulo! Que os nossos caminhos se cruzem muitas vezes, porque assim terei maiores probabilidades de me cruzar com a Rainha Mab, a que nos conduz ao mundo dos sonhos! 

Abraço!



ou, como diria Shakespeare, muito barulho por nada...




"S. Vicente faz, assim, lembrar aquelas meninas arrebicadas que pitam as unhas, usam rouge e baton e se vestem de seda, mas esquecem o sovaquinho ou evitar a caspa que lhe cai sobre o vestido. (...) Culpa do Governo? De modo algum. Culpa de nós próprios que nos desinteressamos daquilo que está em nossas mãos remediar e perdemos tempo a discutir assuntos que poderão ter muito interesse mas cuja solução não depende exclusivamente de nós e a reclamar, também muitas vezes com razão, contra aquilo que poderíamos ter evitado se o nosso procedimento fosse outro.

A leviendade só pode gerar o desprestígio."

Adriano Duarte Silva - exímio cidadão mindelense, 1957

(Excerto de crónica publicado no livro "Na Esquina do Tempo" de Manuel Brito-Semedo)






O facto de os atores e atrizes do Mindelo terem a tendência de falarem o crioulo da ilha onde estão a atuar e não o seu próprio crioulo, é um sinal de adaptação, de generosidade ou o que é? 

À melhor promessa, ofereço um café




Dose dupla de teatro, no Mindelo. Com a companhia mala voadora, a não perder, eis as duas peças a serem apresentadas.

A entrada é livre, mediante levantamento prévio de bilhete, na biblioteca do Pólo do Mindelo do C-CCP.








Denominado Projecto 47, este é  um passatempo fotográfico inspirado em outro projectos semelhantes existentes noutras paragens (Project 52 ou o Project365, por exemplo). 

O passatempo consiste na colocação online em álbuns próprios e por temas designados para cada semana, de fotografias feitas pelos participantes. No final de 2014, as fotografias mais votadas em cada semana farão parte de uma mostra a ser apresentada na "Noite Branca" deste ano, na Praia e, em estudo, a organização de uma exposição também na cidade do Mindelo.

Semana 05: tema, ÁGUA.

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