Lado do Pai



Finalmente, "Mudar de Vida, José Mário Branco" vai estrear no dia 25 de Abril. O dia da Liberdade. Tudo farei para que possa ser apresentado também em Cabo Verde. A propósito, vejam no momento 25'' um menino atrevido de macacão e camisola amarela... Sou eu, com a saudosa Isabel Alves Costa. É por essas e por outras, pela herança dos meus pais, que serei sempre livre de pensamento, na vida e na arte!






Lado da Mãe



Isabel Alves Costa será homenageada, postumamente, no Dia Mundial do Teatro, na cidade do Porto. Em comunicado enviado pelo Teatro Nacional S. João, Isabel Alves Costa, a antiga responsável pelo Rivoli Teatro Municipal e também fundadora e diretora do Festival Internacional de Marionetas do Porto, é lembrada pelo "inestimável trabalho de uma vida dedicada às causas do teatro e das artes do espetáculo em Portugal, ao longo de mais de 40 anos". Mais uma bela herança que viverá para sempre em mim!





Hoje, dia 25 de março, o Grupo de Teatro Juventude em Marcha, sediado em Porto Novo, na mágica ilha de Santo Antão, comemora o seu 30º aniversário. É um número espantoso de um grupo que marcou, marca e certamente continuará a marcar a história e o percurso vitorioso do teatro cabo-verdiano. Trouxe, entre muitas outras coisas, um estilo próprio de comédia que conquistou milhares de adeptos às salas de teatro, espaços alternativos, polivalentes desportivos, enfim, nas dezenas de locais em que este grupo já se apresentou por todo o país e na Diáspora. 

Tendo por base a cultura e a língua de Santo Antão, com os carismáticos Jorge Martins e César Lélis, meus queridos amigos, como caras mais conhecidas, este colectivo, que a cada apresentação provoca autênticas romarias de buscas desesperadas por bilhetes, tem feito muito pelo teatro, em particular e pelo fomento da nossa cultura, em geral. 

Não foi certamente por acaso, que na primeira edição do Prémio de Mérito Teatral, em 1999, o Grupo de Teatro Juventude em Marcha tenha sido o primeiro homenageado pela Associação Mindelact e que César Lélis, dez anos depois, tenha sido o primeiro actor a receber o mais importante prémio do teatro em Cabo Verde. 

O meu respeito por eles é infinito. São gente boa, lutadora, amante do teatro, que com as suas particularidades conquistam não só público mas muitos outros jovens que se aventuram nas lides teatrais inspirados nos heróis que hoje completam 30 anos de vida. Parabéns, queridos, e que venham mais trinta!





Assim de repente, acabei de verificar que o Café Margoso ultrapassou, a semana passada, o bonito número de 400 mil acessos. Nada mau! 

Obrigado a todos os seguidores e fãs do blogue, a ver se até ao final do ano chegamos ao primeiro milhão!




- Nem só de pão vive o homem, disse Jesus a um mísero homem da rua, ao que este redarguiu:
 - Dizes bem, o homem também carece de ar, de água e, sobretudo, de dinheiro.

Jesus viu que o sujeito, embora fosse um simples vagabundo, não era um dos muitos cegos da Judeia, e foi-se embora sem nada contrapor.

 XEQUE-MATE!

Arménio Vieira, em texto enviado via SMS

(Fotografia de Dariusz Klimczak)













Algumas fotografias de "Quotidiamo, esta não é uma história de amor", da autoria de Hélder Doca. (Com Janaina Alves e Renato Lopes)

E agora? Fica sempre um vazio tão grande...





"Qual a lógica de classificar um edifício, ou parte de uma cidade, como património nacional (precisamente para preservar e não alterar) e depois se permite a construção de um edifício estética e volumetricamente tão agressivo e desenquadrado que não só destrói o equilíbrio da Praça Nova como "esmaga" o edifício que teoricamente se pretende preservar, abafando totalmente a sua presença e sua beleza? 

Querer preservar o centro histórico não é, obviamente ser contra a modernização e crescimento de Mindelo, nem contra a construção em altura. Sou sim contra a destruição do seu centro histórico e espero que cada erro do passado não seja desculpa para a construção de novos erros com mais e mais pisos."

Dra. Ana Cordeiro


"Quando num debate tão importante para o Mindelo em vez de se apresentar argumentos em defesa do projecto EP se começa a insultar aqueles que manifestam reservas - perfeitamente naturais - os seus autores dão um péssimo sinal à cidade que dizem ter vindo defender. Continuem assim, continuem..."

João Branco


Nota final: o debate à volta do projeto que está a ser apresentado para o espaço do Éden Park resvalou, como se podia prever conhecendo o histórico de alguns dos intervenientes, para o insulto pessoal, pelo que me abstenho de voltar a entrar neste tipo de discussão. Para mim, quem diz representar os donos do projecto, perdeu toda a credibilidade e não merece que perca um segundo sequer da minha vida, que já é bastante agitada. Quanto ao que está a ser proposto, caberá agora às autoridades reagir, ao abrigo da lei e do bom senso.

O que vier, que venha e que seja para o bem da cidade do Mindelo. Agora, recuso-me a receber lições de moral ou de patriotismo de quem não percebe e muito menos conhece a nossa história, e de quem esta cidade tem recebido como contribuição apenas insultos e desrespeito. 

Saudações


Na imagem, um programa cultura do Éden Park, de 1943.




Com a Mão na Queixada

1. Um turista australiano - que é mais do que isso, visto ser um jornalista e escritor conhecido lá na terra dele e escrever num jornal importante - passou umas horas em S. Vicente, por intermédio do conhecido turismo de cruzeiro e não gostou do que viu. Vai daí escreve um artigo desaforado, em inglês, que o sempre atento Dai Varela descobriu sabe-se lá como e publicou no seu blogue pessoal.

2. Essa publicação provocou alguns terramotos nas redes sociais, além do aumento exponencial de visitas ao blog em referência. Outra coisa não seria de esperar. Os mindelenses não gostam de ser atacados, mais ainda por gente de fora que vem, passa umas horas, vira umas esquinas, mete a viola no saco e regressa com a mesma rapidez com que chegou. 

3. Aliás, não são apenas os mindelenses. De uma forma geral, reagimos muito mal às críticas que vem de fora, reagimos de forma epidérmica, apaixonada e por vezes até violenta. Lembram-se do caso da cozinheira brasileira? O burbur foi tanto que teve que pedir desculpas públicas via representantes diplomáticos e hoje, não deve querer saber de Cabo Verde nem pintado de ouro.

4. Claro que a forma como se critica algo, por vezes, tira a razão de quem o faz. Mas sempre defendi que devemos ter a inteligência de entender o porquê daquele olhar mesmo que, à primeira vista, ele nos pareça exagerado ou até insultuoso. O problema é que nos deixamos cegar pelo orgulho e em vez de aprender com o olhar do outro continuamos de olho fixo no próprio umbigo. E sem sair do lugar.

5. Eu quero lá saber que o senhor australiano tenha trocado o nome da capital de Cabo Verde ou dito algumas incongruências geográficas ou históricas. Acham mesmo que isso é o mais importante? Esmiuçando o que ali está, a verdade é que quase todos nós - mindelenses ou não - já passamos por experiências semelhantes. E temos que aturar situações inacreditáveis. Imaginem como é para quem vem de fora!

6. Esperar uma hora por uma omelete, ser servido com cara mau como se nos estivessem a fazer um favor e não a prestar um serviço, ir às praias e encontrar um monte de lixo acumulado, ter as estradas esburacadas, ser assaltado pela falta de segurança ou assediado pelos múltiplos pedintes nas ruas de todas as idades nas portas dos supermercados, são acontecimentos tão comuns que se tornaram normais.

7. A verdade é que não me lembro de ver tanto turista nas ruas do Mindelo como nos últimos tempos. Quase todas as semanas temos um navio enorme atracado no Porto Grande do Mindelo. Não caberá agora à ilha, aos operadores, às autoridades, aos empresários, aos artesãos, aos profissionais liberais, aos criativos fazer a sua parte? Onde estão os encontros de trabalho concertados entre autoridades, operados e empresários? Onde está a prestação de serviços com qualidade, que não a encontro?

8. Vamos continuar com a mão na queixada a dizer que Soncent está parado? Tanta coisa por fazer e potenciar! Como se explica que nos infindáveis metros quadrados da nova Lajinha haja apenas duas balizas de futebol e não se tenha ainda colocado os múltiplos equipamentos que fazem duma praia algo mais aprazível e atraente? 

9. Como se explica a anedótica "exposição" (assim mesmo, com muitas aspas) da capitania - réplica da Torre de Belém - que se limita a uns painéis pendurados em algumas salas? Como se explica a falta de materiais de promoção da cidade, da ilha em outras línguas? Como se explica o aparente abandono dos principais pontos de atracção turística? Como se explica que não haja grupos organizados de folclore cabo-verdiano que possam ser contratados e tirar partido desta movimentação?

10. Concordo com a Rosário da Luz que faz a distinção entre "turista" e "viajante". Não interessa aqui se gostamos ou não dessa gente. Interessa a forma como poderemos beneficiar da sua presença em prol do desenvolvimento da nossa cidade. Os serviços tem que melhorar, a produtividade tem que crescer, a criatividade tem que se multiplicar, senão corremos o risco de daqui a alguns anos estar a chorar mais uma morte prematura do magnífico Porto Grande do Mindelo. E com a mão na queixada, claro. 

Mindelo, 18 de Março de 2014 




Estar no mundo do teatro deu-me sempre muito mais alegria do que tristeza. Muito mais boas recordações do que memórias dolorosas. Muito mais realização do que frustração. De quando em quando, em cada projecto, sou confrontado com vivências inesquecíveis.

Vem isto a propósito da estreia, ontem, da série de espectáculos "Cinco Peças para Cinco Sentidos", apresentado pela sempre inovadora Trupe Pará Moss.

Começou esta quinta-feira e foi mágico. No final do primeiro dia das cinco peças para os cinco sentidos - cinco estreias apresentadas em simultâneo e com três apresentações cada - fizemos logo ali uma reunião de balanço do dia. E eu só olhava para aqueles quase trinta jovens amantes do teatro, cansados, corajosos e criativos, e pensava: "tanto talento, tanta dedicação!" O teatro cabo-verdiano agradece. E se não agradece, devia. 

Se estão no Mindelo e não viram, dêem um salto lá no Centro Nacional de Artesanato e Design e vejam com os próprios olhos, toquem com as próprias mãos, cheirem com os próprios narizes, degustem com as próprias bocas e escutem com os próprios ouvidos. Depois não digam que não vos avisei!







Andam a dizer por aí que o filme dos beijos - colocado ontem aqui no Facebook, é uma "farsa comercial". Não sei se é ou se não é. Para mim continua a ser um belo filme. Só para quem gosta de beijos, claro!





Uma realizadora, de seu nome Tatia Pilieva, apareceu com uma proposta interessante e cujo resultado não resisto colocar aqui para partilhar convosco: um filme em que vários casais foram desafiados a dar um primeiro beijo. A especificidade do resultado advém do facto de nenhum dos integrantes dos casais se conhecerem, ou sequer saberem o nome uns dos outros. O resultado, belíssimo, foi este:








O objectivo de uma campanha publicitária é chamar atenção para o produto que se quer vender. No caso de uma campanha com objectivos solidários e/ou sociais, é chamar atenção para uma qualquer problemática social e lançar o debate sobre ela, quebrando tabus, colocando meio mundo a falar sobre o tema. Se essa campanha tiver um bom slogan, daqueles que fica no ouvido, melhor ainda. A frase, começa a ser repetida até à exaustão e, o que é mais fantástico, o efeito multiplicador permite-nos observar a utilização dessa mesma frase em dezenas de contextos diferentes. Ou brincando, ou ironizando, ou criticando. Mas se esse slogan estiver na boca do povo, a campanha já é uma campanha vencedora. 

Vem isto a propósito do burburinho à volta da campanha "Homem que é homem não bate em mulher", à qual tive todo o prazer de me associar, dando a cara, e fazendo do Café Margoso um parceiro. Muitas participações, algumas críticas construtivas, observações pertinentes, debate lançado, a campanha na boca do povo. Por aí, a campanha já vence e os promotores estão de parabéns.

Depois há que se entender em que sociedade vivemos. Basta ir aos jornais online para verificar a podridão que grassa pelas mentes de tanta gente que, sempre sob a capa cobarde do anonimato, insulta, acusa sem fundamento, utilizando na maioria das vezes linguagem rasteira, cuja única sensação que consegue provocar é uma sensação de nojo e vómito. Há muito deixei de ler esses comentários, mas não deixam de ser um retrato social, mesmo que escondido, da lixeira mental que se sente, mas não se quer admitir que exista. 

Como não podia deixar de ser, uma campanha como acabou provocando algumas reacções que, no meu entender, são despropositadas mas absolutamente expectáveis: estar a gerir egos, porque fulano ficou na frente de sicrano; que o partido amarelo está mais representado que o verde (ou vice-versa); que o logo mostra o homem em cima e a mulher em baixo e que portanto contribuí para o acirrar do preconceito; que esse ou aquele não pode estar porque "todo o mundo sabe" que dá pancada nas mulheres (e isto dito sem provas, sem acusação, sem julgamento e muito menos, sem condenação), esse tal diz que não diz que é um dos maiores venenos sociais do nosso meio, tudo isso não podia deixar de acontecer, mais ainda numa campanha em que o assunto é tão sensível numa sociedade tão hipócrita como a nossa. 

Estão os promotores sujeitos a críticas? Com certeza! Coloco a foto que mostra a participação do Tchalé Figueira, que de forma construtiva participa e critica ao mesmo tempo, sugerindo algo mais, dando exemplos de outras frases ou outros slogans. Outros o tem feito, lançando e promovendo um debate necessário e profícuo. Agora, podíamos estar a falar de violência doméstica sem o lançamento desta campanha? 

Podíamos, mas não era a mesma coisa!





Dôs com Celina Pereira


Conversa com Celina Pereira, certamente uma das figuras mais emblemáticas do espectro cultural cabo-verdiano. Com uma longa carreira de décadas, não deixa de ser uma mulher cheia de planos e projectos em curso e não se inibe de dar um recado onde demonstra alguma mágoa por não ser mais considerada na sua terra natal.  E explica porque é que, orgulhosamente, gosta de mostrar o seu lado africano.


Chegada a este momento dentro de uma tão longa carreira, tão cheia de obra, o que te falta fazer. O que é que gostavas de fazer e que ainda não fizeste?

Celina Pereira:  Falta-me fazer tudo Porque acredito que qualquer criador ou artista, se tem consciência do papel que tem, nunca está contente com o que faz. Depois sou uma pessoa extremamente exigente comigo, acho sempre que pode ser mais e melhor. Mas por vezes, dou por mim a fazer-me festinhas porque (em consciência) também já fiz algumas coisas boas durante estes anos...

Como é que gostavas de ser lembrada?

Como uma cabo-verdiana, cidadã do mundo, que quis sempre honrar o nome e a cultura do seu pais e dos seus ancestrais, sobretudo da minha família, de que --- tenho muito orgulho. Do meu pai e da minha mãe que me criaram tão bem e--- me deram esta noção de responsabilidade, de lugares de intervenção onde sempre deveremos estar. 

AS ORGENS

Nasceste em que ilha?

Na Boavista, onde morei até aos seis anos e tal.  Depois mudei-me para S. Vicente com os meus pais. Costumo dizer que sou de duas ilhas, em termos de proveniência: da Boavista, onde nasci, e de S. Vicente, onde vivi parte da minha infância e adolescência, fiz o liceu, tive o primeiro namorado, essas coisas todas. 

Como é que foram os teus primeiros anos aqui em Portugal, numa época muito complicada? 

Sim, não foi fácil. Fui para Viseu, nos anos 60. Um choque térmico, chorava todas as noites. Mas foi muito bom em termos de abrir outros horizontes, conhecer novas gentes, uma culinária diferente  daquela a que estava habituada.. Quando vim para Portugal pela segunda vez em 1970, a minha ambientação foi mais pacifica, pois acabei ficando em casa de familiares.

Gostas que as pessoas te vejam como cantora, como contadora de estórias, como intérprete, como actriz? Com qual destas facetas de intervenção artística te sentes mais identificada? 

Eu acho que qualquer dessas áreas é minha. Sou, acima de tudo, uma comunicadora que utiliza essas diferentes estradas para chegar ao público. Quando estava num balcão da TAP a falar com o público não era muito diferente, era comunicar com as pessoas. Quando estou numa escola a contar uma estória às crianças, estou a comunicar do mesmo modo. Considero-me acima de tudo uma comunicadora, que utiliza a música, a palavra, a poesia, a representação, o que quiseres. A gente tem dons que precisa de explorar e melhorar e eu tenho procurado fazer isso, com formações contínuas, para me aperfeiçoar neste caminho da comunicação. É evidente que de tudo isto, o que eu mais gosto de fazer é de cantar.  

Mas curiosamente, gravas muito pouco...

Sim, porque as coisas são complicadas. Se eu tivesse nascido de uma família rica, quem sabe se poderia ter uma discografia mais vasta. 

FRUSTRAÇÃO POR GRAVAR POUCO

Gostarias de ter tido a oportunidade para gravar mais vezes e com mais frequência?

Sem dúvida. E é curioso que aos discos dos meus áudio-livros, as pessoas não se referem como trabalhos discográficos, que também são. Referem-se ao livro e não pensam no CD. 

Onde tu não dizes apenas, cantas também, dentro do que é habitual na tua forma de contar histórias, já que tu as contas cantando, ou cantas contando estórias, como quiseres...

É isso mesmo. E se os genes têm memoria, são os meus genes africanos que trazem essa característica. África, onde há muitos contadores de estórias que contam cantando e cantam contando. Eu considero que esta minha forma de contar estórias é uma herança que trago de África.

Aproveito esta deixa para lançar uma pequena provocação: há muitos cabo-verdianos, principalmente nas ilhas no Norte, que não têm uma tendência muito vincada, para reivindicar o seu lado africano. Ainda hoje continuamos a discutir este assunto, a polemizar sobre esta questão da maior ou menor africanidade do povo cabo-verdiano. Tu, claramente, sempre fizeste questão de vincar esse teu lado africano. Como é que vês esta polémica?

Considero que é uma discussão completamente estéril. Em termos históricos e sociológicos --- não posso nem devo esquecer-me que os portugueses trouxeram escravos do continente africano e que Santiago foi um enterposto de escravos durante quase cinco séculos.   Venho de uma cultura tão misturada, onde o lado africano foi sempre tão posto para trás, pois no tempo colonial os batuques, o kola san jon, as tabancas, eram proibidas porque eram consideradas expressões menores.  Em consciência, talvez eu esteja, inconscientemente, a provocar os meus patrícios, porque é mais do que óbvio que temos genes dos dois lados e não podemos menosprezar nenhum dos dois. 

Não te parece também que muitos artistas que trabalham fora de Cabo Verde acabam por entender que é vincando o seu lado africano que conseguem se afirmar melhor neste terreno chamado mercado, marcando pela diferença a sua presença nesse mesmo mercado? 

Devo dizer-te que quando cantei pela libertação de Nelson Mandela, no final dos anos oitenta, em Roma , usava roupas africanas. Na capa do meu primeiro EP, a foto também me mostrava com uma indumentária desse tipo. Quando Mandela veio a Portugal depois da sua libertação, --- fui convidada a cantar na Aula Magna e levei um belo fato ocidental. Houve uma amiga --- cantora que me disse isto: olha, adorei a tua actuação, mas faltou-me ver-te  com aquela roupa que costumavas usar.

Que hoje é tua imagem de marca.

Pois é, hoje eu não a dispenso. Faz parte da minha identidade enquanto artista. É o meu selo

Depois de 40 anos fora de Cabo Verde, sentes que o teu trabalho é valorizado no teu pais?

Seria cínica se respondesse que sim. Acho que não tem sido. Vou ser muito directa: ninguém faz obra a pensar em prémios, mas quando comecei com esta “mania” de contar estórias e gravei o meu primeiro trabalho sobre contos tradicionais, logo de seguida recebi um prémio internacional na Itália. E mais se seguiram. A verdade é que teve pouca ou nenhuma repercussão em Cabo Verde. Passaram-se muitos anos sem que o pais desse nenhuma importância ao que eu andava a fazer. E considero que é um trabalho válido e importante: de preservação da memória, um trabalho para a educação, para as referências identitárias. Em 2004, o Presidente Jorge Sampaio deu-me uma medalha de mérito e uma comenda. Cabo Verde fê-lo muito mais tarde. O meu país não me tem dado a atenção que eu gostaria de ter tido. Tive uma bela experiencia em S. Vicente com um périplo pelas escolas convidada pela Isaura Gomes, e sinceramente adorava fazer isso em Santiago, no Maio, na Boavista, no Fogo, por todo o meu Cabo Verde. O país tem tido esta fragilidade: só há bilhetes de avião para alguns artistas. E são pouquinhos. Não me perguntes porquê que eu não tenho resposta para isso. 


Nota: resolvi publicar esta entrevista, realizada por mim há um par de anos, porque a minha grande amiga Celina Pereira foi, no passado fim de semana, distinguida com o Prémio Carreira, pela CVMW. Fiquei muito feliz e considero o prémio de uma justiça absoluta. Abraço crioulo, como ela costuma dizer!


Entrevista publicada no jornal A Nação
Fotografia de Joaquim Saial




Face à Primeira Edição do "Mudjer Forsa di Mundu, Mulher Força do Mundo", realizado no Átrio do Praia Shopping, o ano passado, este ano, a Artemedia Produções e a Associação de Mulheres Empresárias de Santiago resolveram ir mais longe... 

Inspirando-se na campanha levada a cabo pelo Banco Mundial do Brasil, em 2013, ma também tendo em conta a campanha desenvolvida pelo ICIEG e o Laço Branco, em 2009,  este ano para as Comemorações do Mês da Mulher, foi criada a campanha “HOMEM QUE É HOMEM NÃO BATE EM MULHER”, que pretende alertar e chamar atenção para a Violência Baseada no Gênero. 

A violência que atinge milhares de mulheres em todo o mundo, decorrente da desigualdade nas relações de poder entre homens e mulheres, continua a ter uma presença forte nas sociedades muitas vezes silenciosa mas tambem muitos vezes mortifera.E em Cabo Verde esta é uma dura realidade. Por exemplo, segundo os ultimos dados há uma incidência da violência contra mulheres jovens, com idades compreendidas entre 20-39 anos.

E Neste sentido, há que se continuar a agir!

Doze personalidades masculinas, conhecidas do público cabo-verdiano, (Primeiro-Ministro de Cabo Verde, Presidente da Assembleia Nacional, Presidente da Câmara Municipal da Praia, Líder Parlamentar do MPD, o músico Batchart, o apresentador Éder Xavier, o escritor David Hopffer Almada, o encenador João Branco, os atletas Tigana e Bruno Moniz,  o Presidente do Conselho de Administração da RTC e o Presidente do Laço Branco) dão a cara por esta campanha, através da sua participação nos dois spots de TV e Rádio TV (que serão emitidos em duas versões: Português e Crioulo), mas também nos cartazes e outdoor cuja mensagem é só uma “Homem que é Homem Não Bate em Mulher”. 

Esta campanha pretende chegar a todas as ilhas... não só através da televisão, da rádio e da imprensa... mas de uma forma contínua, aproveitando a importância das redes sociais e do poder da Internet. Desta forma criou-se um Blog, em parceria com o Sapo CV, que funcionará durante o ano de 2014. Através deste meio, e em parceria com o ICIEG, irá se colocar fotos de vários homens, das diversas ilhas, com a mensagem que dá mote à campanha. Mas também, durante este ano, o Blog “Homem que é Homem Não Bate em Mulher” irá disponibilizar testemunhos de mulheres que já sofreram de Violência, mas que conseguiram superar, irá se lançar reportagens e videos relacionados com esta temática. O intuito é que este blog funcione não somente durante o Mês de Março, mas que durante 2014 possamos dar a conhecer as actividades, das Instituições ligadas às questões de gênero, informar e alertar para esta grande problemática, que em diversas ilhas ainda é muito silenciosa mas por vezes mortífera. 

É de realçar, que o Primeiro-Ministro, Dr. José Maria Neves, é o padrinho desta campanha e a Sra. Ministra da Saúde, a Sra. Ministra da Juventude, a Sra. Embaixadora dos E.U.A e a Coordenadora das Nações Unidas são as madrinhas. 

A culminar as comemorações do Mês da Mulher, no dia 27 de Março, Dia Nacional da Mulher Cabo-Verdiana, realiza-se o espectáculo “II Edição Mulher Força do Mundo – Mudjer Forsa di Mundu”, no Atrio do Praia Shopping, contando com a actuação de vários artistas e com a nossa diva Lura, que também é um dos rostos desta campanha.

O blogue Café Margoso orgulha-se de se associar a esta campanha.







Orgulho de fazer parte desta campanha.






Confesso, torna-se até um pouco insuportável: a cada produção cénica, a cada nova aventura, não consigo fazer tarefas outras, falar de novos assuntos, meu foco acaba, invariavelmente, nos mil e um pormenores de que nos devemos ocupar quando estamos em processo de criação. Como um pai babado ou mãe galinha, no blogue pessoal, nas redes sociais, só se fala dele (do “filho”), sobre ele, quase que obrigando os amigos a olharem para ele (para o “filho”). Cada peça de teatro nova é, pois, como um filho. E já lá vão cinquenta. 

Quando a temporada acaba, há sempre um pedaço de nós que morre. Fica ali, impregnada nas tábuas. Nos figurinos, nos pedaços de cenografia, nas fotografias que se tiraram, nas notícias de jornal que foram publicadas e, sobretudo, nas nossas memórias. De quem viu. De quem transmitiu. Se vestiu. No caso dos atores, nos corpos. Que estes também tem memória, como se sabe. E fica um vazio, vamos falar do quê agora? Para quem? Com quem?

Até que aparece um novo projeto. E voltamos ao nosso ciclo vicioso de um viciado de teatro, algo que já confessei ser, nestas crónicas mensais. E, portanto, eu vou dizer algo que já disse, provavelmente das 49 vezes em que produções cênicas viram a luz e nasceram na (e para) a cena. Esta sim, é especial. Nunca houve como esta! Acreditem, tanta coisa nova, desafios tremendos, generosidades encontradas, talento múltiplo, energias cruzadas, e desta vez – aqui sim, posso gritar alto e bom som, - inédito! Oito mãos na escrita, na construção de uma dramaturgia (nova?) multicultural e multinacional. 

Falo-vos do espetáculo que iremos estrear aqui na cidade do Mindelo, no próximo dia 20 de Março. Falo-vos de “Quotidiano, esta não é uma história de amor”, um texto escrito a oito mãos (nestes tempos modernos, as mãos são sempre em dobro, já que se digitaliza e não mais se “manuscreve”), em quatro países e três continentes. 

Sinceramente, não sei onde ou quando me nasceu a ideia. Desafiei o escritor Rui Zink, de Portugal, a iniciar o processo. Depois, o dramaturgo José Mena Abrantes, de Angola, a dar seguimento. De Cabo Verde, convidei Abraão Vicente, para avançar com a terceira parte e, finalmente, desafiei o Ivam Cabral, cujo espírito de generosidade falou mais alto do que a falta de tempo provocada pelos bilhões de projetos em que sempre se encontra envolvido. Que privilégio, ter um texto escrito por estas quatro pessoas tão talentosas! E agora, publica-se? Não, não foi esse o combinado. Vamos lá, senhor diretor, meta as suas mãos na massa e avance para a etapa seguinte.

A história nasceu sem nome e foi-se revelando assim, órfã de um batismo. Até que chegamos a uma palavra nova, criada para o efeito. Quotidiamo.  O título do espetáculo, que é um jogo entre as palavras quotidiano e amor, dá um vislumbre do retrato desenhado pelos quatro autores do texto: a relação de um casal que é vítima dos problemas do dia-a-dia, desde a crise financeira à própria rotina de uma vida a dois. Não podia ser mais universal.

Para dar corpo, voz e alma às palavras seria indispensável uma dupla de atores mais do que competente. Duas pessoas que não tivessem medo de arriscar, de se jogar, e com uma capacidade técnica acima da média. Quis o destino que este pequeno elenco também fosse multinacional. Janaina Alves, brasileira, a viver no Mindelo há cerca de três anos e Renato Lopes, um dos atores cabo-verdianos mais talentosos da nova geração, aceitaram o repto e com dedicação, talento e suor, dão o corpo ao manifesto cénico que nos chegou em mãos.

De Portugal, vieram mais duas colaborações artísticas: o músico e compositor Rui Rebelo compôs uma belíssima banda sonora – algo raríssimo em Cabo Verde, apesar de sermos conhecidos como um país musical – e Paulo Cunha, desenha a arquitetura luminosa do espaço e das cenas, sendo ainda responsável pela projeção do vídeo que, em tempo real, está sendo filmado pelas personagens e emitido no fundo, acrescentando ao caráter já de si trimendisional (TD) da arte cénica, uma possibilidade de visão em alta definição (HD), das expressões e do respirar das personagens nalgumas passagens da história. 

Para compor o bolo criativo, estou eu, que neste momento não tenho mais assunto a não ser este. Um encenador / diretor cabo-verdiano, filho de pais portugueses, nascido na França, pai de duas filhas crioulas e casado com uma brasileira do Piauí. É como se esta produção tentasse ser, de alguma forma, uma síntese de mim mesmo enquanto agente teatral, um culminar de um amadurecimento artístico, de influências díspares e cruzamentos de três continentes, com epicentro numa bissetriz chamada cidade do Mindelo. 

Numa altura em que por razões académicas me encontro mergulhado numa profunda reflexão sobre identidade cênica, mormente do teatro que se faz em Cabo Verde, corolário de um percurso de mais de vinte anos de trabalho e meia centena de produções encenadas, Quotidiamo não deixa de ser uma obra paradoxal. Mas continuo convencido de que somos do lugar de onde somos felizes. Que o nosso umbigo, enterrado algures, e o nosso DNA, herança dos nossos antepassados, se manifestam de uma ou outra forma conforme o contexto social, cultural, geográfico, antropológico do lugar onde nos encontramos. O que sempre chamei de “a energia do lugar”, é isso que nos vai moldando.

É por isso que não tenho qualquer dúvida em afirmar que Quotidiamo é uma obra de teatro cabo-verdiano, puro e duro, apesar da diversidade na origem das diversas colaborações artísticas que lhe deram corpo. Porque nasce aqui. Neste chão. Imana com esta poeira oriunda do deserto do Saara. Com a maresia deste mar azul que nos rodeia por todos os lados. Com a musicalidade deste povo que ecoa a cada esquina. Porque a universalidade do tema nos toca também, embora seja quase sempre difícil admiti-lo, assim, fora do recato onde se escondem a sujeira e as frustrações do nosso dia-a-dia. Quotidamo veio do mundo mas nasce em nós.

E para o mundo há-de voltar.  (Quem sabe, um dia destes, em S. Paulo)











Efeito produzido pelo fotógrafo francês Ludovic Florent, que retratou bailarinos dançando, na série Poussière d’étoiles (“Pó de Estrela”), com um detalhe aumentando a carga dramática da coreografia: a areia envolta em corpos.

Belíssimo!




Parem de chamar palhaços aos senhores deputados, uma falta de respeito inaceitável, não se admite uma coisa dessas! Eu, se fosse palhaço, processava-vos a todos.

Na foto, o meu grande e querido amigo palhaço Enano




segunda versão do projecto, ainda sem o prédio mais alto por trás (ver última imagem)


aspecto geral do auditório


galerias inferiores, que servirão para espaços de exposições artísticas


Acompanhei o processo, graças à generosidade e confiança que me foi depositada por Carlos Hamelberg, arquitecto do projecto de recuperação do Éden Park, com muito entusiasmo. Neste momento, não estou assim tão satisfeito. Melhor, sinto-me dividido. Procuro entender as razões. Mas tenho dúvidas - muitas dúvidas - relativamente ao resultado final do mesmo.

A componente relativa ao auditório propriamente dito, se for feita tal como se encontra projectada, fornecerá à cidade um equipamento cultural de elevada qualidade. Conforto, preparado para ter uma excelente acústica, tecnicamente pronto para receber qualquer tipo de espectáculos, incluindo um cinema, com o novo Éden Park a cidade do Mindelo passará a ter uma sala que dará resposta imediata às principais necessidades dos artistas, produtores e público vasto amante das artes em geral.

A manutenção da fachada original, assim como do nome do espaço cultural, são duas boas notícias, que demonstram respeito pelo passado e pela história da mais importante salta de espectáculos e cinema da história de Cabo Verde. Esse é um bom princípio e, ao que parece, ambos serão mantidos.

Mas tudo tem um preço. E como se pode verificar na última imagem, esse preço é que por detrás do equipamento cultural nascerá um complexo de apartamentos ou hotel, cuja volumetria me assusta e tenho algumas dúvidas se visualmente favorece a própria Praça Nova. 

A sensação que dá, principalmente com o prédio mais traseiro, é que teremos na outra extremidade da praça, um segundo Mindel Hotel (a coincidência da cor ser a mesma pode não ser apenas uma coincidência), muito mais alto que o Hotel Porto Grande mesmo ali ao lado.

Se esse for o preço económico a pagar, para viabilizar financeiramente um projecto que poderá dotar a cidade do Mindelo de um moderno e funcional equipamento cultural, cabe-me perguntar-vos: é esse um preço demasiado elevado?

As minhas dúvidas mantêm-se e foram transmitidas pessoalmente ao arquitecto, a quem, mais uma vez, agradeço a confiança deposita em mim para acompanhar, de perto, a elaboração e o nascimento do "novo" Éden Park.

A hora é de debate.


a última versão do projecto inserido na Praça Nova





Como foi público, participei, em representação do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, em vários encontros organizados pela nova direcção da Associação Mindelact, para preparação do Março - Mês do Teatro. Continua a espantar-me a quantidade de projectos teatrais existentes na cidade do Mindelo. É verdadeiramente impressionante a dinâmica conseguida e a forma como a arte cénica é hoje uma arte de primeira necessidade. 

Desde o teatro nas escolas, com grupos organizados ou apresentação de dramatizações, grupo de teatro na Cadeia Civil, oficinas de teatro para crianças, jovens explorando a magnífica história de D. Quixote, projectos individuais de elevado risco, companhias já consagradas, recomeços inesperados, gente nova, menos nova, homens, mulheres e crianças, todos unidos neste amor incondicional pelo teatro, cada um apresentando as suas propostas, estreias, muitas estreias, espectáculos na rua, em locais inusitados e nunca antes experimentados, a possibilidade de utilização do auditório público sem pagar aluguer, muitos ensaios, trabalho, suor.

Esta é a melhor forma de promover o teatro. Fazendo. Não é por acaso que quando o Março - Mês do Teatro foi criado, há 14 anos atrás, o lema proposto foi "mais teatro para um melhor teatro". E o programa deste ano, que reúne um leque impressionante de espectáculos já é uma vitória, porque corresponde a uma promoção ao teatro de grande tamanho e alcance. Sabem de uma coisa? Vejo o panorama do teatro actual no Mindelo e sorrio, orgulhoso. Eu contribuí para isto!

Nem todas as peças serão do agrado de todos. Nem todos os espectáculos provocarão ruidosos aplausos e entusiásticas criticas. Nada mais normal. Mas esta energia contagiante, apesar de Carnaval, apesar da crise, apesar da inoperância dos responsáveis, apesar das dificuldades, apesar da falta de locais para ensaio, apesar das injustiças, apesar da falta de meios financeiros, esta força colectiva do teatro em Mindelo, tornou-se algo indestrutível. Este mês de Março que vem aí, é a maior prova disso.

Viva o teatro!






"Quem vive da (na) arte, nessa missão tão nobre e fundamental para o espirito humano, não pode sustentar o seu fazer no ódio e na frustração. Esse é o caminho, assim penso, para a liberdade, sem a qual o que construimos de nada vale, a ninguém importa."

Essa fui eu que escrevi, depois de verificar que estava a dar importância a mais ao que importância nenhuma tinha.

Fotografia do meu querido amigo Pedro Moita






Que legenda para esta imagem?


À melhor legenda, ofereço um café 




Denominado Projecto 47, este é  um passatempo fotográfico inspirado em outro projectos semelhantes existentes noutras paragens (Project 52 ou o Project365, por exemplo). 

O passatempo consiste na colocação online em álbuns próprios e por temas designados para cada semana, de fotografias feitas pelos participantes. No final de 2014, as fotografias mais votadas em cada semana farão parte de uma mostra a ser apresentada na "Noite Branca" deste ano, na Praia e, em estudo, a organização de uma exposição também na cidade do Mindelo.

Semana 07: tema, DESFOCO.

Para saber mais sobre as regras, ver aqui





"No que respeita a representação simbólica, falta aos nossos decisores culturais a tal da base formal: nem todos os diretores de serviço do Ministério da Cultura cresceram rodeados de arte e literatura; nem todos os vereadores municipais entendem a diferença abissal entre cultura e folclore; e o apetite dos governantes pelo patrocínio do folclore ao invés da cultura parece insaciável."

Rosário da Luz (ler artigo completo, aqui)

Pintura de Kiki Lima





"A maior religião do mundo é tratar BEM as pessoas" 

Paulino Vieira.- mestre da música cabo-verdiana

(caricatura do talentoso Sai Rodrigues)






Bzot deskulpam, ma linga kabuverdiana inda ka e ofisial, mod ke? A seriu, mod ke? Bzot espera: ja el é? Não? Mod ke, porra? 

À melhor promessa, ofereço um café







Que legenda para esta imagem?


À melhor legenda, ofereço um café 




Um dos sintomas da pobreza cultural que nos espera é a raridade em encontrar algum jovem que tenha o hábito da leitura. Já o disse algumas vezes publicamente, essa é a minha maior batalha dentro de casa com as minhas filhas, chegando ao ponto de exercer alguma chantagem psicológica, trocando benefícios domésticos por algumas páginas de leitura comprovada. A minha esperança é que o esforço inicial, que é natural dada a falta de costume em ter um livro e lê-lo - se possa transformar, com o tempo, numa prática prazeirosa e, em última instância, num vício incontornável.

Até porque para se dominar a escrita, tem que ter o hábito da leitura. Não tem como escapar. Ninguém pode pretender um dia ser um bom escritor - poeta, cronista ou romancista - se não tiver impregnada em si mesmo a paixão pela leitura do que os outros escrevem ou já escreveram. 

Vem isto a propósito de uma bela novidade na blogosfera crioula que venho aqui partilhar com os meus leitores: numa época em que os blogues mad in Cabo Verde parecem querer ressurgir, uma jovem estudante, muito talentosa, ganhou coragem para mostrar alguns dos seus textos. São bem mais do que simples devaneios de adolescente com hormonas aos saltos. São textos profundos, poéticos e que indiciam um futuro talento na arte de escrever.

Visitem o blogue Insonhos, de Yara Azevedo, jovem estudante de 16 anos da cidade do Mindelo, que escreve pequenas pérolas como esta:

"Sou igual a muitos outros. Tenho um corpo, uma alma, uma razão. Tenho um coração. Tivesse eu algo a mais, ou a menos... Mas não. Sou igual ao que me cerca. Lutei por não ser… para que não fosse, o que de mim quiseram fazer. Mas de tantas voltas, tantos tropeços, me envolvo mais no que me aflige e me limita."

Vale a pena a visita, aqui







(sem palavras... para quê?)





(Desta vez em forma de carta, enviada hoje mesmo, para um estabelecimento de ensino do Mindelo):

Hoje, depois do período normal das aulas, a minha filha Inês Gonçalves Branco, aluna do 3º ano do período matinal, chega em casa relatando ter apanhado do professor com a tristemente tradicional “palmatória”. Aliás, esta não é a primeira vez que chegam a minha casa relatos deste “método” educacional bárbaro, talvez entendível à luz do início do século passado, mas absolutamente intolerável, em pleno século XXI.

 Será que sou só eu que acha que ter palmatória nas escolas primárias do nosso País é uma coisa bárbara e desnecessária? Até quando vamos admitir esse tipo de crueldade, pois nada, nada mesmo justifica a violência! Que tipo de lição que as crianças vão apreender com esse comportamento?

Como pai e educador, venho por este meio apresentar formalmente o meu veemente protesto por esta situação, e exijo que a direcção desta escola tome providências para que tais actos de violência não voltem a acontecer, seja com que criança for. 

Se a minha filha cometeu algum acto menos próprio ou condenável, a obrigação do professor, em primeira instância, é chamar atenção da criança, como educador que é. Em segunda instância, apelar à direcção da escola, no caso de o episódio apresentar alguma gravidade. E nesse caso, chamar o encarregado de educação que, no seio familiar, tomará as devidas providências.

Espero que esta chamada de atenção tenha algum efeito prático, pois se tais actos de violência continuarem a ser cometidos, não hesitarei em levar o caso às instâncias superiores. Não descansarei por um instante enquanto souber que as nossas crianças são alvo, em nome de um processo educativo caduco e inaceitável, de violência física que a tal palmatória implica, sob o jugo de uma autodenominada “tradição cultural”.

Sem mais, aceite os meus respeitosos cumprimentos, solicitando desde já uma resposta por escrito a esta minha missiva, que poderá ser entregue através da minha filha. 


Mindelo, 17 de Fevereiro de 2014


João Guedes Branco
Cidadão nacional portador do BI nº191725, do arquivo de identificação de S. Vicente


Legenda da imagem: O quadro "Palmatória", de Debret, retrata escravos em um ambiente interno de trabalho, sendo que um deles é disciplinado com o instrumento punitivo palmatória, usado até o início do século XX nas escolas.




Denominado Projecto 47, este é  um passatempo fotográfico inspirado em outro projectos semelhantes existentes noutras paragens (Project 52 ou o Project365, por exemplo). 

O passatempo consiste na colocação online em álbuns próprios e por temas designados para cada semana, de fotografias feitas pelos participantes. No final de 2014, as fotografias mais votadas em cada semana farão parte de uma mostra a ser apresentada na "Noite Branca" deste ano, na Praia e, em estudo, a organização de uma exposição também na cidade do Mindelo.

Semana 07: tema, TEXTURA.

Para saber mais sobre as regras, ver aqui





Apesar de alguns solenes mandamentos (se calhar palavras vãs, e mesmo assim portadoras de gravíssimo sentido), o tigre espreita, ataca e mata, a serpente repta, sibila e crava os letais caninos. (O t-rex e o brontossauro, esses não, pois que do antiquíssimo furor e das enormes carnificinas somente restam nulas presas e ressequidos ossos).

Tais palavras só as ouviu o Velho da Montanha, o qual, pelo travão e pelo fogo, as grafou em rijas pedras. Embora ainda constem (não obstante as perdidas tábuas), quem nos garante que um deus realmente as ditou, assinou e mandou cumprir?

Arménio Vieira, em texto enviado via SMS

(Fotografia de Dariusz Klimczak)





No último Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact 2013, e no âmbito do Encontro Internacional de Programadores de Artes Cênicas, que decorreu enquadrado no maior evento teatral da África Ocidental, aconteceram vários momentos históricos. Se virmos a sala onde decorreram os trabalhos desse salutar encontro, verificaremos a quantidade incrível de homens e mulheres que por todo o mundo lutam diariamente para, com o teatro e pelo teatro, fazer deste lugar chamado Planeta Terra um espaço mais de partilha do que individualismo, mais de arte do que de violência, mais de fraternidade do que de comércio puro e duro. 

As múltiplas conversas paralelas geraram certamente frutos que já se começam a fazer sentir. Mas não podemos deixar de destacar aquele que, para nós, foi o momento mais importante desse histórico encontro: a assinatura de um convênio entre a Associação Artística e Cultural Mindelact e a SP Escola de Teatro.

Entre muitas outras possibilidades, o que este documento permite é, em primeiro lugar, o início de uma edificação de uma ponte entre os nossos dois países, entre Brasil e Cabo Verde, entre São Paulo e o Mindelo, sustentada por pilares indispensáveis como são a formação, a amizade, a educação artística, a troca de experiências e a vontade de partilhar saber, conhecimento, memórias, cultura e sinergias. 

Como primeiro fruto palpável, digamos assim, viaja nestes dias o primeiro intercambista cabo-verdiano, para durante os próximos meses aprender, partilhar, sugar, transmitir, conhecer e espalhar um amor pelo teatro que é certamente algo que temos em comum, vocês aí na SP Escola de Teatro, e nós, aqui no Mindelo, que fazemos acontecer o teatro em condições inimagináveis.

Sabendo como sabemos o quão revolucionário é o sistema de ensino implementado nessa escola maravilhosa, o quão humanista é a práxis diária e o quão desafiadora é a exigência em cada momento do processo de aprendizagem, a participação de um agente teatral cabo-verdiano na vida da Escola, por dentro, nas entranhas, será algo que, estamos certos, dará início a uma nova era da história da formação teatral deste pequeno arquipélago, e nós orgulhamo-nos em sentir que fazemos parte deste momento tão especial.

Desse lado podem também ter a certeza de que, e independentemente da escolha feita (num processo de seleção que é sempre subjetivo por mais que se queira sempre acertar), o jovem cabo-verdiano que nesses dias vai estar com vocês, levará esta boa energia das ilhas, esta capacidade de do nada fazer tudo, uma infinita vontade de aprender e uma abertura total de, com a sua história pessoal, contribuir para a história e a construção do coletivo da escola, em geral, e dos grupos com quem vier a trabalhar, em particular. 

Seremos, porque esse é o nosso destino, dignos desta ponte que agora edificamos. Queremos mais daí e estamos prontos para vos dar o que for preciso daqui. Estamos gratos por esta oportunidade e sabemos da imensa responsabilidade que temos de fazer desta experiência um multiplicador de vivências e conhecimento. Mas, acima de tudo, deixamos aqui o nosso profundo reconhecimento a toda a equipe da SP Escola de Teatro, em particular ao Ivam Cabral, Óscar Cutello, Quim Gama e Denise Relvas, por deixarem Cabo Verde entrar um bocadinho que seja nas vísceras desse projeto único e, quem sabe, deixar um pouco da nossa marca aí também.

Que esta ponte permita muitas passagens, múltiplas viagens. Que permita o nascimento de histórias outras, de projetos comuns e de crescimento humano, cientifico, cultural e artístico, de parte a parte.

Daqui, neste momento particular, só nos resta dizer: obrigado SP, por deixares Cabo Verde fazer parte de ti também.

A minha crónica mensal no portal da SP Escola do Teatro (leia as restantes, aqui)






Vai estrear, mas este tema de abertura interpretado por Lana del Rey e a caracterização da Angelina Jolie fazem desta versão "maléfica" da Bela Adormecida, um dos filmes mais aguardados do ano. Como diz a promoção, "você conhece o conto, agora vai saber a verdade!"

Ai, Éden Park, quando vais dar cinema de novo à cidade do Mindelo?










Não sei se já o fiz, mas hoje foi aqui confessar publicamente a minha paixão por uma criatura algo misteriosa, ambígua, e que ao mesmo tempo que parece envelhecer torna-se a cada dia inovadora, surpreendente e, mais importante, indispensável para muitos: a rádio.

Também é verdade que por motivos profissionais, não sou um bom ouvinte, mas tenho noção do impacto que ela tem na sociedade, por mais enterros que lhe queiram fazer sob ameaças de um aparente e inevitável esmagamento provocado pelas novas tecnologias (que cada vez mais tem sido utilizadas em proveito dessa mesma rádio). Mas sim, adoro estar naquele outro lado. Tenho, como se diz também no teatro, o bichinho (neste caso, da rádio).

Ainda me lembro como se fosse hoje do programa "Janela Indiscreta", na Rádio Nova, aos Sábados de manhã, emitido em directo. Lembro-me da selecção musical inovadora e dos comentários que ouvia assim que sai dos estúdios para a rua. Os taxistas estacionados ao lado da barbearia Jovem, que comentavam comigo as incidências do último programa. Lembro-me dos amigos que fiz ali, do cheiro do estúdio, do sinal do técnico para entrarmos "no ar". Adorava, e adoro, aquela voz de peito, grossa e sedutora que na rádio fazemos quando falamos "para o outro lado."

Na Rádio Nacional de Cabo Verde tive algumas aventuras também. Um curto programa diário, chamado "Caipirinha" dedicado à nova música brasileira. E mais recentemente, uma crónica radiofónica que tinha a mesma designação deste blogue e que por motivos que até hoje ainda não compreendi muito bem viu a sua emissão cancelada, o que estranhei pois essas crónicas eram muito comentadas e recebia não poucas vezes mensagens e paradas na rua de anónimos e conhecidos comentando a crónica que tinham escutado naquela manhã.

Na Rádio Morabeza ainda não me aventurei mas lá iremos, pois estamos aqui, eu e eles, a conspirar umas possibilidades. Seja como for, hoje é dia de clelebração. É o Dia Mundial da Rádio e eu dedico esta pequena declaração de amor a três bons amigos que tenho nas três prioncipais emissoras nacionais: Fonseca Soares, da Rádio Nacional de Cabo Verde, Bonga Gomes, da Rádio Nova e Nuno Andrade Ferreira, da Rádio Morabeza. A vocês, meus caros, ergo a minha taça, pela forma como contribuem com a vossa paixão pela rádio, para fazer desta um bem de primeira necessidade em Cabo Verde.






"É uma pena que muitos comediantes, e não só comediantes, mas muitos artistas jovens brasileiros sejam de direita. Sejam garotos fascistas. Eles fazem um trabalho que a gente ensina nossos filhos a não fazer. Apontam para os outros e dizem “hahaha, você é preto, você é viado, você é aleijado”. Eu sou politicamente correto. O politicamente correto é uma ferramenta civilizatória que inventamos para que uma criança negra não veja um negro sendo humilhado na TV. Mas todo garotão que é artista gosta de dizer que o maneiro é ser politicamente incorreto. Isso não é engraçado, não é humor. Ser radical como artista é diferente de humilhar os outros."

Wagner Moura - actor

Podem ler a entrevista completa aqui



As mulheres são fantásticas

A mãe e o pai estavam assistindo televisão quando a mãe disse:

- Estou cansada e já é tarde,vou me deitar !!!

Foi à cozinha fazer os sanduíches para o lanche do dia seguinte na escola, passou água nas vasilhas das pipocas, tirou a carne do freezer para o jantar do dia seguinte, confirmou se as caixas de cereais estavam vazias, encheu o açucareiro, pôs tigelas e talheres na mesa e preparou a cafeteira do café para estar pronta para ligar no dia seguinte.

Pôs ainda umas roupas na máquina de lavar, passou uma camisa a ferro, pregou um botão que estava caindo. Guardou umas peças de jogos que ficaram em cima da mesa, e pôs o telefone no lugar. Regou as plantas, despejou o lixo, e pendurou uma toalha para secar. Bocejou, espreguiçou-se e foi para o quarto. Parou ainda no escritório e escreveu uma nota para a professora do filho, pôs num envelope junto com o dinheiro para pagamento de uma visita de estudo e apanhou um caderno que estava caído debaixo da cadeira. Assinou um cartão de aniversário para uma amiga, selou o envelope, e fez uma pequena lista para o supermercado, colocou ambos perto da carteira.

Nessa altura, o pai disse lá da sala:

- Pensei que você tinha ido se deitar.

- Estou a caminho - respondeu ela. Pôs água na tigela do cão e chamou o gato para dentro de casa. Certificou-se de que as portas estavam fechadas. Passou pelo quarto de cada filho, apagou a luz do corredor, pendurou uma camisa, atirou umas meias para o cesto de roupa suja e conversou um bocadinho com o mais velho que ainda estava estudando no quarto. Já no quarto, acertou o despertador, preparou a roupa para o dia seguinte e arrumou os sapatos. Depois lavou o rosto, passou creme, escovou os dentes e acertou uma unha quebrada. A essa altura o pai desligou a televisão e disse:

-Vou me deitar.

E foi. Sem mais nada.

E foi. Sem mais nada.


Carlos Drummond de Andrade




O debate foi lançado no Facebook pelo César Schofield Cardoso, o actor Flávio Hamilton deu o seu ponto de vista, e nalguns comentários públicos ou privados que fui recebendo, alguns se sentiram ofendidos pelo primeiro, outros defenderam ser importante o lançamento de um debate sobre o tema e a mim parece-me que o importante mesmo é conversar e conhecer. Até porque como todos estamos cansados de saber, falar sem conhecer do que se fala, é meio caminho andado para se fazer papel de idiota.

Facto: os Mandingas, goste-se ou não do estilo, aprecie-se ou não a designação, são hoje um fenómeno popular, com raízes profundas e que não surgiu nos últimos anos com fôlego redobrado, vindo do nada. Há testemunhos, que publicamos aqui, de vivências com Mandingas ocorridos há mais de cinquenta anos. A mim, parece-me, já se justificaria um estudo mais aprofundado. Com tantos mestres e doutores em Ciências Sociais que por aí há, espanta-me que ainda nenhum deles se tenha predisposto a sujar-se de óleo e tentar entender - e depois partilhar - o que há de tão especial neste fenómeno de massa, com contornos verdadeiramente populares. 

Aqui ficam as diferentes opiniões, ilustradas pelas extraordinárias fotografias de Tchitche

O que escreveu César Schofield Cardoso

" Esses "Mandingas do Mindelo", recordo-me bem desde criança, sempre simbolizaram a sociedade maldita, a que vem lá das "fraldas", sujos, perigosos e feios. Eram assim vistos, nas nossas cabecinhas. Ressurgiriam agora, num misto de moda e reclamação do direito à tradição, com um certo apoio, não sei se alargado ou não, da sociedade que os acolhe. Claramente continuam a representar um certo protesto, como atesta as palavras de um deles, em entrevista, dizendo: "vocês já tiveram a vossa diversão, agora queremos ter a nossa". Esse "nós e vocês" não deixa de ser sintomático dentro de uma mesma sociedade. Mas esse "nós e eles" também é bastante sintomático na forma como se representam. Pintam-se de negro e qual é o significado de um africano se pintar de negro? Ou serão não-africanos a representarem africanos? Enfeitam-se de vestes, acessórios e objetos, da mesma forma que um cinema e um teatro antigamente ridicularizavam os negros e os povos "primitivos". Têm uma dança própria, carburada de álcool, sexo-exibicionista e poses guerreiras. Qual o significado disto tudo?

Para além de todas as considerações, em relação aos produtos altamente tóxicos com que se revestem, do alcoolismo e do excesso de linguagem, uma consideração mais básica não devia ser feita em relação ao próprio nome que carregam? Já perguntaram aos guineenses, senegaleses e malianos, que porventura sejam Mandingas, o que pensam desse carnaval? Ah bom, mas é a tradição. Pois, tradição também é mutilar o sexo de jovens moças."




O que escreveu Flávio Hamilton:

"Gostava sobretudo de saber como começou a tradição e quais os fundamentos que estiveram na sua génese. Mas a verdade é que ela sempre existiu; não sei se degenerou em fenómeno de moda pura e simplesmente, mas o facto é que me recordo bem desde os meus tempos de criança dos Mandingas invadindo a cidade e inclusivamente as casas das pessoas por esta altura do ano. 

O Carnaval é a festa da caricatura por excelência; talvez os verdadeiros Mandingas não se revêem nessa caricatura, mas o propósito é mesmo esse: brincar com coisas sérias, tendo como fim último a catarse. É costume aceite por todos em muitos países, por altura do Carnaval, sobretudo em pequenas aldeias, expôr em praça pública os podres dos seus habitantes ao longo do ano, precisamente para que dessa forma haja uma espécie de purificação de emoções e sentimentos recalcados. Tradicionalmente, o Carnaval é folia, é libertação pelo excesso. Outra coisa é o crime em nome da tradição. Por isso mesmo nem toda a tradição pode ser aceitável."

O que escreveu João Paulo Brito, actual Director Nacional das Artes:

Sem entrar noutro tipo de considerações, gostaria de acrescentar alguns pontos ao vosso debate.

1. Sobre o assunto, surgimento o nome, proponho a leitura de "O Carnaval do Mindelo” de Moacyr Rodrigues. Do meu escasso conhecimento, a única obra/ estudo sobre a matéria – porque creio que há aqui, alguns equívocos de interpretação;
2. A relação com a etnia Mandiga, neste contexto, não é tão importante. Há na história inúmeros casos em que manifestações diametralmente opostas têm o mesmo nome ou com uma origem etimológica semelhante, porque, se calhar, o que inspirou a designação está lá. Nós é que, com a distância do tempo, não conseguimos ver a relação;
3.  Se era uma manifestação feia e suja, que agora virou moda, ainda bem. Também temos imensos casos em que manifestações que mereceram o desprezo são agora enaltecidos – a Tabanka, por ex;
4. Toda a tradição começou um dia! Se repararmos os grandes movimentos artísticos (alguns com obras agora consideradas clássicas) surgiram sempre em reacção a um “Status” anterior e não raras vezes foram considerados “atentado à “boa arte”;
5. O excesso sempre foi a principal característica do Carnaval. Está na sua génese e é, por natureza e definição, um momento de catarse;
6. A grande diferença, César, em relação a mutilação genital feminina é que neste caso falamos (como dizias no outro dia) de violação de Direitos Humanos, uma conquista da Humanidade. E os mandingas, para além de se gostar ou não, não fazem mal a ninguém, além deles próprios com os produtos tóxicos – e neste ponto, estamos de acordo. 




Alguns testemunhos publicados no Blogue Praia de Bote:

Adriano Lima:

"A primeira vez que vi actuar os mandingas tinha eu 5 aninhos, e foi mesmo na minha rua, frente à porta da casa. Fiquei intrigado e algo intimidado porque a cena não se enquadrava naquilo a que até à data me habituara ver. Tanto mais que o mandinga, que dançava e saracoteava ao som da música de um cavaquinho, de vez em quando soltava um grito feroz (arrreaaaa!), munido de um varapau. Mas a minha mãezinha explicou-me que era brincadeira de Carnaval e a partir dali fiquei um admirador dos mandingas carnavalescos.

Depois dos 7 anos fui morar em Fonte Cónego, e lembro-me que o artista principal dessa representação era um homem que tinha a profissão de ferreiro ou de funileiro, salvo erro, que morava pelos lados da Ribeira Bote, aparecendo sempre a bater a zona onde eu morava. Era um festival de espontaneidade e animação concentradas numa única pessoa, que sozinha fazia festa que me chegava para todo o Carnaval. Pelo menos no que se circunscrevia à zona onde eu morava. Mais tarde, a partir dos 15 anos, passei a rondar outros carnavais, principalmente os bailes populares no Eden Park. Bons tempos."

NIta Ferreira:

"Lembro-me bem dos mandingas nos carnavais da minha infância. Eu tinha um medo deles que nem fazem ideia. O tal homem todo tisnado, com chifres na cabeça e o varapau de que o Adriano se lembra; o grito medonho ficou gravado na minha memória como um ardaaaaa, ardaaaaa, Tudo isso faz parte do viver mindelense dos meus tempos de criança, de diaza na munde. Passei o Carnaval de 2013 em Cabo Verde, achei lindérrimo e os mandingas lá estavam, dando sua pitada de sal na festa que mais entusiasma o povo mindelense e não só."

Valdemar Pereira:

"Ai os Mandingas!!! Os primeiros eram os de Dmingue Sapater e eram conhecidos pelos "Djangolê," palavra que sempre empregavam para correr com os meninos que se aproximavam ou para brincar com uma pessoa mais séria que os apreciava mas que não se atrevia a entrar e a quem enviam um convite com o "arredààà... arredààà"

Os mais conhecidos no grupo eram, além de Nhô Dmingue, um seu colaborador aleijado e um catraeiro com um varapau que fazia o caminho. O Mestre começava e acabava o desfile fazendo uma graaande gemada... num penico. Bons tempos, esses de Quarenta!"


O testemunho de Tchitche, que é também o autor das fotografias:

“Lembro-me do Djunga, quando era criança. Era um homem que tinha o espírito mandinga no sangue, impunha medo e respeito, principalmente às crianças. O filho seguiu essa tradição e criou um grupo fantástico que tinha danças e movimentos lindos, fascinantes. É preciso algum cuidado para distinguir o que é originário da moda ou da tradição porque hoje até os meninos de jardim querem sair como Mandingas!” 


E tu, o que pensas ou que recordações tens dos Mandingas do Mindelo? Ariá!


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