Criação

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Por vezes precisamos de gritar, de ir buscar forças lá onde elas parecem não mais existir. Criar é tão doloroso. Uma dor que vai e vem, sem avisar. A cada ensaio, a cada palavra, a cada impulso. A natureza humana, que a arte cénica melhor que outra forma de expressão artística sabe ser fiel, em tudo o que tem de mais podre e belo, impede-nos de ficar pela superfície, e de tanto mergulhar nela por vezes chega-nos aquele momento terrível em que o ar nos falta. 

Passamos vinte e quatro horas por dia com a nossa obra inacabada, é com ela que nos deitamos, é com ela que sonhamos, é com ela que acordamos para um novo dia. Um dia novo que acrescentará mais uma peça ao castelo de todas as nossas angústias e (quem sabe) alegrias. Como um castelo de cartas, tememos que ele possa cair num sopro e que tenhamos que recomeçar tudo de novo. Algo inevitável, começar tudo de novo. Quem abraça o teatro, devia-o saber ou então ir fazer alguma outra coisa.

Por vezes temos essa vertigem de tanto andar na corda bamba. Não há como ser diferente. Não sei como ser diferente. Olho para quem me dá tanto a cada ensaio e só posso dar tudo de mim também. Não tenho alternativa, não tenho outra saída a não ser ir até ao fim que nunca há-de chegar. Por vezes precisamos de gritar, mas o consolo é que se há algo que aprendemos na vida é que quando gritamos assim o amor dá-nos a irredutível certeza que há-de estar alguém mesmo do nosso lado para nos ouvir.



[música: Coldplay, The Scientist]





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2 comentários:

zito azevedo disse...

Não será porque, nesta vida tudo é transitório? Não será por não haver limites para o nossos sonhos, para as nossas realizações, para os nossos actos, para os nossos dislates, para o nsso esforço e para a nossa preguiça...E as palmas do publico? Fazem parte do espectáculo? Aclamam o parto ou ou nado-morto?

JB disse...

As palmas, meu caro Zito, são o Réquiem da obra cénica. Podem ser belas para os ouvidos e o ego, mas anunciam o final...