Crónica Desaforada

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Em jeito de balanço, José e Pilar


1. Acabei de assistir ao filme documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, que mostra o dia-a-dia do casal José Saramago e Pilar del Rio, sua mulher, num retrato surpreendente de um escritor durante o seu processo de criação. Mostra-nos um Saramago nunca antes visto e, como se lê no texto de promoção do filme, prova que génio e simplicidade são compatíveis. Nestes tempos conturbados, estes 125 minutos de visionamento desta obra-prima foram a melhor forma de terminar o presente ano.

2. Se chegaram até este ponto e sobreviveram a um primeiro parágrafo que vos poderia induzir ser este um texto mais ou menos intelectual sobre uma obra cinematográfica, ficam desde já a saber que, como quase acontece com o que se escreve e com o que nos acontece na vida, o filme é apenas um pretexto para escrever sobre coisas outras, talvez aquelas que realmente interessam na vida, sobre as quais poucas vezes paramos para avaliar, pese embora a importância que têm nas nossas existências, como sejam o amor, o tempo, o espaço, o conhecimento, a evolução, a liberdade.

3. A jornalista Ana Margarida de Carvalho escreveu sobre este filme na revista Visão que o filme é um documentário, mas é também muito mais do que isso: “tem tantas histórias, tanto mundo. Tanta música, alguns inéditos. Tantos bons diálogos como nos bons guiões. Tanta vida e um bocado de doença e morte, também. Tanto riso, tanta ironia, tanto escárnio e veneno. Tanta mágoa, tanta amargura, tanto amor.” Sobretudo, este último, tanto amor, uma palavra gasta, que aparece anunciada com cada vez menos convicção, verdade, emoção. E ao contrario do que está citado, não concordo que o filme contenha amargura: ao contrário, é um filme cheio de luz. Pilar, essa força da natureza, diz mesmo qualquer coisa como isto: para quê ficar triste, deprimido? Não há tempo para isso. É seguir em frente e continuar a lutar, a batalhar, sem nunca esquecer que estamos no pequeno grupo dos privilegiados.

4. Comecemos pelo amor: quando encenei a peça “Máscaras”, e quis fazer do espectáculo, pelo menos do ponto de vista do encenador, um “hino ao amor”, chamei a atenção precisamente para essa forma plastificada de festejar o evento amoroso, o amor que vem em embalagens pré-formatas, o amor dos peluches e corações nas montras das botiques na semana do S. Valentim, o amor das novelas brasileiras ou das letras de zouke love. Ora, este é um filme iluminado porque mostra que o amor não tem fronteiras, nem culturais, nem geracionais e que está sempre pronto para nos bater à porta quando menos se espera. José Saramago revelou numa conferência em S. Paulo isso mesmo: que se tivesse morrido aos sessenta anos, um pouco antes de ter conhecido Pilar, teria morrido muito mais velho do que morrerá com mais de oitenta. O amor faz isso às pessoas: dá vida. É o verdadeiro e único elixir da juventude, a pedra filosofal que transforma em ouro tudo em que toca.

5. Há ideias, imagens, pensamentos ao longo de todo o filme que nos tocam profundamente. O homem público que se dá, de tal forma que acaba gravemente doente muito provavelmente por excesso de trabalho. Semanas antes desse grave problema de saúde Saramago era capaz de estar horas a assinar livros. No encontro na Sociedade Brasileira de Letras assinou mais de 450 livros. Narcisismo? Não, generosidade, apenas. De tanto viajar acaba confessando que numa próxima oportunidade, quer ser árvore, para poder ter raízes e nunca sair do mesmo lugar. “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo dia”, disse. Mas não se esquece de agradecer a Pilar, “por não me ter deixado morrer.” O amor vencendo a morte? Com certeza.

6. Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo, disse um dia o até agora único prémio Nobel da literatura de língua portuguesa. E talvez seja essa a razão de ser desta crónica, nesta altura do campeonato. E que altura é essa? O final do ano, tradicionalmente para os balanços do ano. Ou ainda mais premente, a campanha eleitoral oficial que se aproxima a passos largos, mas que já está presente nas estradas nos cutelos, nos bares, nos passeios, nos cafés, nos discursos, nas preocupações, nas apostas, nos projectos de vida, nas tipografias, nas carreiras, nos outdours, nos jornais, na Internet, nas conferências de imprensa, as televisões, nas casas das pessoas, nas discussões, nas portas das casas, nas inaugurações e na má-língua. Façam as vossas lutas politicas, lutem pelas vossas convicções, mas não percam o norte para o que realmente importa levar desta vida.

7. Quando se perguntou a Saramago do que ele mais sentia falta, agora que pelos vistos já tinha tudo, ele deu a resposta que se esperava de um homem que sobretudo adora a viver: tempo e vida. Gostava de ter mais tempo para continuar o trabalho que tanto gosta de fazer e de ter mais vida, agora que no final de cada dia se tem a percepção tremenda de uma perda irreparável. “Deve ser isso a velhice”, afirmou. Mas abençoado quem, como ele, que descobriu o ofício de escritor já muito depois do meio século de idade, morre a fazer o que mais ama e também o que as pessoas mais amam que ele faça. Isso também demonstra que nunca é tarde. Nunca. Para descobrir uma vocação. Um caminho. Uma montanha. Uma canção. Um grande amor.

8. Continuamos especialistas em chorar os mortos que ignoramos em vida. Agora que a morte de Norberto Tavares está tão presente talvez poucos se lembrem do tempo não muito remoto em que este se encontrava gravemente doente, tendo sido o próprio irmão a oferecer um dos seus rins para que o músico conseguisse sobreviver. Deram o nome dele a um Centro Cultural em Santa Catarina, menos mal. E nem foi preciso esperar ele morrer para que tal homenagem acontecesse, ao contrário do que se fez com Ildo Lobo e o Palácio da Cultura que, a título póstumo, lhe foi confiado. Nunca é demais dizê-lo, que nos lembremos dos vivos, daqueles que tanto deram ao pais e que, por alguma razão, hoje passam por dificuldades. Na área da cultura os exemplos são mais do que muitos, num ano em que as perdas foram irreparáveis.

9. É esse, pois o meu apelo, neste final de 2010. Amem mais. Vivam mais. Sejam mais generosos e mais humildes. Isto pode vos parecer conversa de padre de freguesia, mas num ano em que tive a fantástica oportunidade de me cruzar com grandes mestres do saber na minha área de eleição, concluo que só tenho dois caminhos possíveis, no que à minha suposta e badalada vocação diz respeito: ou tenho consciência da minha infinita pequenez, do quanto tenho e preciso ainda de aprender ou acabarei a definhar no usufruto de uma suposta carreira de sucesso que não significará nada se não conseguir alcançar aquilo que Saramago mostra ser possível de forma tão espantosamente frágil e honesta neste filme assombroso: trabalhar sempre e amar melhor, a cada dia que passa. Subir a montanha e sorrir para os outros e para o mundo.




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9 comentários:

Fonseca Soares disse...

Adorei, JB!
Continua, no Novo Ano, o teu caminho de 'criar sempre' com Amor!
PS: o generoso António Tavares não é irmão do saudoso Norberto Tavares, apesar do apelido comum...

Anónimo disse...

Esta crónica não tem nada de desaforada! Acho até chato que mandes às pessoas que "Amem mais. Vivam mais. Sejam mais generosos e mais humildes."...a regra é faz isso tu e deixa que o resto acontece..

JB disse...

Obrigado pelo esclarecimento, Tchá. Um grande 2011 pa tud gent!

Anónimo disse...

Sábias palavras, caro JB, sábias palavras!
Eu apenas teria a audácia de acrescentar que tivessemos mais tolerância, mais respeito por nós e pelos outros, respeito para com a instituições, mais generosidade para com o próximo, e por fim que cultivassemos mais o estudo, o auto-conhecimento, as artes, a amizade...

Que protejamos melhor os nossos velhos, as nossas crianças, a natureza.

Que cumpramos os dez mandamentos da bíblia que, e apesar de não ser católica, considero princípios importantes para que convivamos melhor em sociedade.

Um Bom Ano Novo para todos nós!

Pimintinha

Anónimo disse...

Cronica desaforada:http://kufrontalidadi.blogspot.com/2010/12/gpi-knowledge-luta-continua.html

si bu tem coragem

JB disse...

Olha, um anónimo a falar de coragem. Essa é muito boa. Por acaso, o blogue do Redy também está aqui nos links do Margoso, não sei onde é que está o problema.

E já agora, feliz ano novo. Sem máscaras!

CCF disse...

Também gostei muito do filme, e escrevi sobre o amor que vive com tanta bravura dentro dele. Bom ano.
~CC~

PS.Por aqui com uma máquina de café novinha em folha.

JonDays disse...

Muito bom!
abraço
JT

JB disse...

CCF patrocinas-me a rúbrica Perguntas Cafeanas? :)

JT, bom ver-te por aqui. Abraço e bom ano