Caliban, ban, ban! Esta personagem acaba comigo. Chego em casa todas as noites, cheio de dores, quebrado, cansado, esgotado, mas sempre com a sensação do dever cumprido. O meu único desejo é que todos os que possam, gente de teatro e gente que não seja de teatro mas que aprecie um trabalho de qualidade, possa estar nestes três dias para ver esta equipa incrível e generosa em cima do palco. Vinte e duas pessoas no palco, outras tantas que deram o seu contributo "deste outro lado", todos eles merecem, certamente, uma visita. E aí, vamos ao teatro este fim de semana?




Estamos todos enganados

1. Há dias, conversando com um amigo, chegamos à conclusão que o maior problema de Cabo Verde não é a pobreza de espírito, o descaramento, a falta de zelo, o compadrio, a lei do menor esforço, a falta de criatividade, a violência urbana, a incompetência, mas algo que reúne tudo isso numa coisa só. O nosso maior problema é mesmo um problema de mentalidade. E grave.

2. Voltamos ao mesmo. À mesma luta de sempre. Ao mesmo tema, porque não consigo ficar calado. A mais recente declaração aqui no Café Margoso, sobre a forma como está sendo implementada a disciplina de Expressão Dramática nos Liceus, teve até honras de primeira página num semanário da praça. A defesa da representante do Ministério de Educação foi inócua, vazia e encara o problema como quase sempre fazemos por cá: enfia a cabeça na areia, empurra com a barriga e siga o baile porque tudo está bem quando acaba bem. Problemas? Não! Há bagagem! Nós é que estamos todos enganados!

3. Mas a verdade é que não está bem. Não, não há bagagem, nem materiais pedagógicos de apoio, muito menos preparação metodológica para dar esta disciplina dentro das salas de aula. O último sinal foi-mo dado ontem. Como saberão, estamos em vias de apresentar no próximo fim de semana uma curta temporada de "Tempêstad", adaptação crioula da obra maior do génio da dramaturgia universal, William Shakespeare. Que melhor oportunidade do que esta, no Mindelo, para enriquecer uma disciplina que devia falar de teatro?

4. Fiz questão de entrar em contacto com os professores de Expressão Dramática aqui do Mindelo, enfatizando o fato de que a melhor forma de se falar e transmitir conhecimentos sobre esta arte, é vendo, é sentindo, é fazendo parte, é estando ali, na plateia. No teatro, tem que se ver para crer. Para se entender. Mesmo que seja para se concluir que aquilo não nos interessa para nada. Ver teatro para falar sobre teatro, essa sim é uma bagagem fundamental.

5. A resposta foi a esperada, mas mesmo assim, desanimadora. A única professora que se deu ao trabalho de falar com os seus alunos pediu que estes solicitassem autorização dos pais e encarregados de educação. A esmagadora maioria não obteve autorização dos pais para ir ao teatro! Isto é mesmo verdade? É uma comédia ou uma tragédia?

6. Não me espanta nada se alguém me disser que muitos destes jovens, agora não autorizados a usufruir de um bem cultural que pode vir a ser também uma importante ferramenta pedagógica numa disciplina curricular, fossem os mesmo que pululavam nas ruas do Mindelo, bebendo e fumando, na grande paródia do Halloween que as casas nocturnas ofereceram no passado fim de semana, a troco da módica quantia de mil e quinhentos escudos.

7. Depois, queixem-se! O mal começa em casa, nas famílias e continua na escola, até porque houve professores que nem se dignaram em responder à mensagem em que se fazia o convite aos seus alunos, procurando criar condições (leia-se, preços muito mais baratos), para irem ao teatro, ver uma obra de grande qualidade cénica, plástica, artística e toda ela, nossa, crioula, cabo-verdiana. Levar os alunos ao teatro? Eh, caramba, isso dá muito trabalho!

8. Mostrei-me disponível, mais uma vez, para ir às salas de aula, e depois do visionamento da peça, falar da mesma, das nossas opções dramatúrgicas, artísticas e estéticas. Ouvir as questões dos alunos - se as houvesse - e esclarecer todas as dúvidas e curiosidades. Mas assim, perante este silêncio, como fazer? Como avançar? Como crescer?

9. A minha parte está a ser cumprida. Coloco, com o meu trabalho e de uma enorme equipa de gente dedicada e competente, um produto artístico de altíssima qualidade (perdoem-me a imodéstia) ao serviço da comunidade. Incluindo a comunidade estudantil. Se isto não interessa, então mais uma vez estamos a ir pelo caminho errado e promover a disciplina de Expressão Dramática nas escolas é só mais um bluf, que apenas servirá os relatórios que, como tantas vezes acontece, são feitos para nos convencer que a realidade é muito melhor do que aquela que vemos todos os dias.

Mas nós, claro, é que estamos todos enganados!







Segundo a representante do Ministério da Educação, e em resposta ao meu artigo no Café Margoso, "Os professores estão devidamente capacitados" e que o MED "garante aos docentes essa bagagem" (para lecionar Expressão Dramática nas escolas e liceus de Cabo Verde). Fiquei muito mais descansado.





E pronto, mais uma vez Mindelo está em festa! Prepara-se ali na marginal um mega-super-potente trilho eléctrico, festas em pontos estratégicos nomeados a partir de filmes de terror famosos tipo Carrie, Psico etc e tal, o preço? uma pechincha, mil e quinhentos paus e não se fala mais nisso! Carnaval no Outono, batucada na morada, milhares de decibéis invadindo ruas e becos, roupas a condizer com a ocasião. Esta é também certamente mais uma actividade que vai incentivar a economia local, o comércio, os transportes, as telecomunicações e pronto, é isso, Mindelo está em festa novamente! Sabe pa cagá!

Que se lixem a crise, os representantes do Governo que estão prestes a ser nomeados para as ilhas - dejá vú, dejá vu! - a pasmaceira, a falta de produtividade, perspectivas ou emprego, as pequenas fortunas que se gastam cada vez que vamos fazer compras na Fragata, a tristeza, os cassubodis, os compadrios, as putas precoces a preço de saldo, os crimes contra o património da cidade ou as dezenas de vezes que crianças e medingos te estendem a mão a pedir esmola, quem sabe se para tentar juntar os tais mil e quinhentos paus que a paródia exige, que "nos também é fidje de deus e no tem dret a diverti também"! A cidade está em festa, é isso que interessa. 

E desta vez, é coisa séria, como sempre aliás! Afinal de contas, o halloween é "um evento tradicional e cultural, que ocorre basicamente em países de língua inglesa, mas com especial relevância nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações dos antigos povos Celtas do Século III". Mindelo não é, sempre foi, influenciado pelos ingleses? Então, está tudo bem! Let's go party!















E vocês, vão perder?





Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia 
que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em 
direção ao mar. Dorme, e consente que o meu coração 
escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita 
de pontes atravessadas, kms noturnos e segundos de asfalto. 


 Al Berto, in "Dispersos"




Nos últimos dias algumas pessoas entraram em contacto comigo perguntando se eu não teria algum "material", com exercícios de teatro, incluindo de expressão corporal, vocal, dinâmicas de grupo, improvisação ou informações compiladas de história da arte cénica. Fiquei curioso pela coincidência de, num curto espaço de tempo, receber o mesmo pedido, com poucas variações, sendo que o comum em todos eles era a urgência em poder ter algum material pedagógico nas mãos.

Claro que não era coincidência. Está a decorrer no sistema de ensino cabo-verdiano uma reforma curricular e em algumas turmas "experimentais" resolveu-se considerar a disciplina de Expressão Dramática. Essa é, sem dúvida, uma fantástica notícia. O que não se compreende é que não tenha havido qualquer formação em exercício para os professores que forem ministrar essa disciplina. E tirando uma ou outra excepção, estes professores não estão minimamente preparados para lidar com um conjunto de técnicas que podem ser valiosas ferramentas de ensino, mas que para o serem, tem que ter alguém com experiência, conhecimento e o mínimo de formação na área.

Sendo o teatro uma forma de expressão artística que mexe com o ser humano na sua globalidade - chamo-lhe a arte dos 3 "Cês" precisamente porque implica trabalhar com corpo, coração e cabeça - ter gente mal preparada à frente desta disciplina, é um ato da mais pura irresponsabilidade. Segundo informações que me foram dadas, temos professores formados em artes visuais, arquitectura, ciências sociais e até engenharia a quem foi dada a responsabilidade tremenda de desenvolver e experimentar a disciplina de Arte Dramática a adolescentes nos liceus de Cabo Verde. Não se percebe porque não houve uma formação prévia, uma preparação metodológica, uma abordagem pedagogicamente aceitável para que estes profissionais da educação possam fazer um trabalho nas mínimas condições.

Feito assim, às três pancadas e desta forma irresponsável, a introdução da Arte Dramática nas escolas de Cabo Verde pode vir a transformar-se num tremendo tiro no pé de todos os envolvidos, a começar pelo próprio sistema educativo. Já agora, coloquem-se licenciados em matemática a ministrar português, sociólogos como professores de educação física ou advogados a ensinar química-física. Se vale para o teatro não ser preciso saber o que se ensina, então que se estenda este criativo método a todas as valências do ensino e que o Google e a Wikipédia nos salve a todos! 

Que fique claro desde já para quem não sabia: ensinar teatro ka é brinkadera!






«Quanto à mensagem, não sei... Não há mensagem. A melhor coisa é deixar a intuição e a imaginação agirem. É verdade que eu quero dizer com força qualquer coisa difícil de formular, qualquer coisa de escondido; mas são os espectadores que têm de o descobrir, senão tudo seria tosco e grosseiro; são vocês que têm de o descobrir, eu não posso proceder demasiado directamente. Frente a certos valores, é preciso, acima de tudo, sensibilidade.»

Pina Bausch






Uma iniciativa muito feliz do Centro Cultural Português - Pólo do Mindelo, fazendo a ligação entre a cultura, história e o passeio. No próximo Sábado, será a ver do teatro. Vamos?






A noite de ontem foi especial por dois acontecimentos que passo a relatar de forma resumida: primeiro, apresentamos a peça "Teorema do Silêncio" em Nova Sintra, ilha Brava, para um público atento, ávido de teatro, curioso e, à medida que a peça avançava, emocionado e generoso. Este não é um espectáculo qualquer. É um texto difícil, um tema actual mas sempre complexo, uma encenação que é tudo menos óbvia, onde o que parece não é e o que é nem sempre parece. A reacção de quem muito raramente tem acesso a este tipo de bem cultural foi surpreendente. No final, várias pessoas chegaram até nós, agradecendo, de lágrimas nos olhos, o facto de termos, com a nossa arte, quebrado o silêncio para um assunto tão delicado (o abuso sexual de crianças). O nosso trabalho saiu valorizado e de novo se demonstra da profunda necessidade de trabalharmos para uma universalização do acesso aos bens culturais, em todos os cantos do nosso Cabo Verde. Seja lá onde for, existem pessoas que querem, precisam e estão dispostas a personificar esta troca tão bela. Como a que aconteceu nesta apresentação inesquecível.

Um pouco mais tarde, pelas ruas de Nova Sintra, um grupo razoável de amantes da morna corporizaram uma belíssima serenata, com as mornas de Eugénio Tavares, cantadas de forma incrivelmente harmónica e afinada, principalmente pelas muitas mulheres do povo ali presentes. Foram horas inesquecíveis. Belas. Tocantes. Algumas mornas belíssimas que eu nunca tinha ouvido e que, segundo me informaram, nunca foram gravadas (para meu espanto!). A alma de Cabo Verde se revela quando a morna é cantada. E não só! Uma estrangeira que vive por cá há alguns anos, e assistia a tudo chorava ao ouvir o coro cantando em êxtase a morna "Força di Cretcheu". Perguntei-lhe porque chorava ela e disse-me: "não sei explicar o que é. Mas ouvir esta música faz-me sentir saudades de casa."

No Dia Nacional da Cultura de Cabo Verde a morna se revela, mais uma vez, o eixo que nos liga a todos, de ponta a ponta, de Sul a Norte, de Este a Oeste, que une todas as diásporas de todos os universos crioulos. Eugénio Tavares se revela, mais uma vez, o patrono ideal num dia que é um dos mais importantes de ser-se comemorado. E, mais uma vez, no cantinho deste querido arquipélago, sou tocado de novo de forma inapelável, por um povo generoso e belo, que transforma esta nossa passagem pela vida numa aventura mais do que fantástica.




Quando se descobre que alguma teoria científica explica um fenómeno com o qual somos confrontados praticamente todos os dias e nunca conseguimos explicá-lo apesar da forma arrebatadora como esse fenómeno perturba as nossas vidas, temos motivos para festejar. Mais ainda quando essa teoria, mesmo que possa ter uma designação complicada que advém do fato de ter obrigatoriamente o nome dos teóricos responsáveis pela sua criação, está explicada numa linguagem acessível a todos, sem grandes palavrões científicos ou conceitos que mal somos capazes de ler quanto mais entender.

Quantas vezes já nos cruzamos com indivíduos "que possuem pouco conhecimento sobre um assunto" mas que mesmo assim "acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos, porém esta própria incompetência os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros."? Não é espantosa a familiaridade com esta descrição?

Segundo ainda explica a teoria "estas pessoas sofrem de superioridade ilusória. Por outro lado, a competência real pode enfraquecer a auto-confiança e algumas pessoas muito capacitadas podem sofrer de inferioridade ilusória, achando que não são tão capacitados assim e subestimando as próprias habilidades, chegando a acreditar que outros indivíduos menos capazes também são tão ou mais capazes do que eles." Onde é que já vimos e ouvimos isto? Não foram já vezes demais?

A campanha de vacinação nacional que vai começar em Cabo Verde contra o sarampo e a rubéola é uma excelente notícia para a saúde pública nacional. Mas faço desde já aqui o apelo para que no dia em que se encontrar uma vacina para combater o Efeito Dunning-Kruger - o nome complicado do simples mal que assola os dias de hoje - se faça uma campanha de vacinação com a mesma extensão, de preferência começando pelo maior grupo de risco, os detentores dos diferentes poderes que de forma tão incompetente, empatam as nossas vidas. 





Viciados

1. Há atitudes, posturas e até percursos que apenas o vício consegue explicar. Escrevo isto a propósito de um comentário do diretor e grande amigo Márcio Meirelles, numa conversa recente. Ao saber que tínhamos montado a nossa versão crioula de “A tempestade”, de Shakespeare, em apenas 45 dias, com uma equipe de 24 elementos, onde, só por raras vezes, se conseguiam juntar todos na sala de ensaio, com parte do elenco em viagem para fora de Cabo Verde por terem compromissos relativos a outras apresentações, e somado a tudo isto, o fato de a estreia se dar em pleno epicentro do Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact, fez com que nos olhasse incrédulo e sorrisse, com aquela aparente mansidão de quem acolhe um vulcão no peito. “Somos loucos, não somos?”, perguntei-lhe. “Não”, respondeu ele, “o que vocês são é viciados!”

2. Esta coisa do teatro é algo que poucos conseguem explicar mesmo sabendo que muitos – quase todos nós – temos prontas para atirar em cima da mesa, nas conversas e discussões entre os nossos pares, múltiplas teorias de índole das mais variadas, seja na área da teoria e história de arte, sociologia, psicologia social, antropologia ou ciência política. Por que fazemos; por que teimamos; por que nos importamos; por que nos sacrificamos; por que nos sujeitamos; por que sentimos prazer na morte inevitável a cada criação que passa; por que somos por vezes tão masoquistas? Numa oficina que tive o prazer de realizar com o mesmo Márcio Meirelles, no mítico e fenomenal Teatro Vila Velha, em Salvador, esse foi o questionamento básico: por que fazemos teatro? Cada um dos cerca de 30 participantes deu o seu depoimento, necessariamente curto e improvisado ali, no momento. Uma das respostas que ficaram na minha memória foi esta “eu faço teatro porque não sei não fazer teatro”. Querem melhor definição de vício do que esta?

3. Mas o teatro é um vício diferente, embora seja também uma droga que pode provocar perigosos efeitos colaterais, tais como ataques de ansiedade, desequilíbrios emocionais, atritos familiares, crises financeiras, hecatombes matrimoniais, lesões físicas, momentos de delírio, períodos mais ou menos prolongados em que os cuidados com a alimentação ficam relegados para segundo plano, e por aí vamos, nesta estrada sempre sinuosa que por mais extraordinária que nos possa parecer, tendo em conta todas essas aparentes sequelas, não tem nada nem ninguém que nos faça desviar do nosso caminho. Uma vez nela, sempre nela. O teatro é assim, vicia a gente. Não podemos passar sem ele e todas as justificativas que cada um de nós possa dar para essa insanidade que invade nossas vidas, só piora a situação. Como os viciados, não há justificação. Apenas desculpas esfarrapadas. Ou, no nosso caso, ainda pior, teorias pretensamente científicas. 

4. Milanka, atriz cabo-verdiana, escreveu, há dias, num comentário no Facebook, a seguinte frase: “A falta de teatro faz a gente menos gente." É uma das melhores frases dos últimos tempos sobre este assunto e uma claridade se apresenta  perante nossos corações e, sobretudo, as nossas cabeças. É isto mesmo. Garcia Lorca já o tinha dito – e muitos outros disseram também, frases e poemas, recados e obituários, ditados e pequenos hinos – sobre o quão fundamental é o teatro nos tempos que correm, principalmente nos tempos que correm, tal como já o tinha sido no passado, nos tempos que correram então, há dezenas, centenas ou milhares de anos. Por coincidência, ou talvez não, as mais fantásticas palavras escritas sobre a arte cénica têm o denominador comum de terem sido escritas por gente de teatro, dramaturgos, atores e atrizes, diretores, artistas plásticos, cenógrafos, poetas, dançarinos e acrobatas, palhaços, ilusionistas. Sim, é um cliché, mas é isso mesmo: outra coincidência com a droga – só quem experimentou pode entender o que é isto do teatro nas nossas vidas!

5. Aqui na cidade do Mindelo, bem no meio do Atlântico, nasceu uma nova companhia de teatro. A Trupe Pará Moss – TPM, apresentou-se com três espetáculos diferentes em três dias, um deles em estreia. Neste novo grupo, que tive o prazer de acompanhar durante os dois anos de formação teatral, existe de tudo um pouco, caleidoscópio social da cidade e do amor que esta dedica ao teatro: uma psicóloga, um cortador de vidro, vários estudantes, um militar em início de carreira, uma brasileira apaixonada, um monitor de um centro de apoio a tóxico-dependentes, um operário de uma fábrica de enlatados de peixe, alguns desempregados, dois ou três licenciados. Muitos deles, depois de oito horas de duro trabalho nos respetivos empregos, vão para os ensaios com uma energia e uma disponibilidade que envergonha muitos atores ditos profissionais com os quais tenho cruzado nesta caminhada. 

6. É por isso que faz sentido falar de vício. E hoje também faz sentido recordar uma belíssima frase dita por um conceituado diretor português, Luís Miguel Cintra: “Para cada nova companhia de teatro que nasce deveriam nascer mil estrelas no céu”. O céu de Cabo Verde, esse, ficou um pouco mais brilhante nos próximos dias.

Mindelo, 12 de Outubro de 2013

Crónica também publicada no Portal da SP Escola de Teatro (aqui) Fotografia: Trupe Pará Moss, "As Mindelenses" (2013), de Nelson RIbeiro