"Um mundo novo não se constrói procurando esquecer o antigo. Um mundo novo alicerça-se num espírito novo, em novos valores. O nosso mundo poderia ter começado daquela maneira, mas hoje é somente uma caricatura. O nosso mundo é um mundo de coisas. É todo ele constituído por comodidades e luxos, ou então pelo desejo de os alcançar. O que mais tememos, ao alcançar o débâcle iminente, é sermos obrigados a abandonar as nossas futilidades, as nossas engenhocas, todos os pequenos objectos cómodos que nos tornaram tão desconsolados. Não há nada de admirável e de cavalheiresco, de heróico ou de magnânimo, nas nossas atitudes. Não somos almas tranquilas; somos presunçosos, tímidos, demasiado escrupulosos, enfastiados e instáveis."

Henry Miller - escritor

Imagem David La Chapelle






"Moss, ele é mau!" Este foi o comentário que um dos meus alunos de teatro fez sobre o jovem jornalista Odair Varela que tem sido o único em Cabo Verde que de forma reiterada tem escrito no seu blogue textos sobre peças de teatro - ou discos, concertos e livros - dentro de um estilo próximo do que conhecemos da crítica especializada. E porque é que Odair Varela "é mau"? Porque diz o que pensa, sem nenhum problema com o que possam pensar dele pelo facto dele não pensar como aqueles que são alvos das suas opiniões. 

Dedico-lhe esta declaração porque é um valor raro. Além de que, no que ao teatro diz respeito, tem vindo a aprimorar os seus textos sobre as peças que tem visto nos últimos tempos. De um ponto de vista técnico e do domínio das terminologias que a esta arte são exigidas, as críticas de Odair Varela são hoje muito mais do que meras opiniões pessoais, porque sustentadas, fundamentadas e bem escritas. 

Há anos que ando a lutar para a promoção de crítica teatral em Cabo Verde. Para quem não sabe, o curso de teatro tem uma disciplina dedicada a esta vertente onde todos os alunos são obrigados a escrever sobre todas as peças que vêem e estes textos estão sujeitos a avaliação. Dos que se destacaram nesta difícil tarefa nenhum deles encontrou motivação ou espaço para desenvolver este potencial, a maioria julgo que por opção pessoal.

É que ter opiniões próprias sustentadas, mais ainda sobre objectos artísticos e estar sujeito dessa forma aos sempre imprevisíveis egos dos nossos criadores não é para qualquer um. Daí o destaque dado aqui ao trabalho de Odair Varela que merece ser enaltecido e incentivado. Um oásis no deserto. 




"Muito cuidado com o teatro!"

Um dos lemas da censura salazarista







"O meu tema actual - que, como a palavra indica, está cheio de promessas - é o vazio. "Le creux de la vague". Não, ainda, o súbito recuo do mar na praia antes do tsunami, mas um intervalo côncavo de duração não mensurável entre dois ciclos históricos. Não creio que se possa descer mais fundo, e isso dá-me esperança. É preciso que a juventude "média" dê o salto para o lado de lá, onde estão os pobres a sofrer, muito calados, sem (des)tino. "Vou ao fundo da lama / Do outro lado / Do outro lado da mente / Do outro lado da gente / Do lado da gente do outro lado / Do lado da gente que vive de frente / Da gente que vive o futuro presente" (Margem de Certa Maneira, 1972).

Por isso... talvez apareça, não prometo. Estou a tratar do que está aqui perto: fazer música e mais música, inventar novas canções, novos espectáculos, ajudar outros músicos a serem melhores. Ler e ouvir música. Cantar de vez em quando as canções que tenho para dar ao público. É isso."

José Mário Branco - músico e poeta (e pai), que completa hoje a bonita idade de 70 anos. 

Parabéns!







Os dois lados do Silêncio


1. Qualquer pessoa familiarizada com o mundo do teatro sabe o quanto o silêncio é um elemento fundamental. Não o silêncio imposto mas o que resulta de um tácito e prévio acordo entre quem faz e quem vê. O silêncio na arte cénica é precioso porque permite uma leitura. Ou melhor, várias. Vai-se construindo, ao longo de cada espectáculo, uma espécie de partitura do silêncio, onde este se manifesta a vários níveis. Na leitura desta partitura podemos sentir o pulsar de uma peça porque o silêncio não é sempre o mesmo. Há um silêncio atento, em que a plateia inteira está respirando junto com as personagens; há o silêncio desatento e desinteressado que promove, necessariamente, um outro tipo de energia; há ainda o que eu chamaria de silêncio ruidoso, aquele que acaba indubitavelmente com o público a ver as horas no telemóvel, a falar com o colega do lado ou a abrir o programa para disfarçar o tédio. 

2. Ao falar sobre o estudo aprofundado da Tradição – compreendendo este termo como um determinado número de doutrinas e práticas religiosas ou morais transmitidas de século a século pelo discurso oral ou pelo exemplo –, o físico Nicolescu aponta que esta sempre nos ensinou que devemos criar no nosso interior uma sensação de vazio, um espaço para silêncio a fim de permitir que haja um desenvolvimento total das potencialidades para conpreensão da realidade. Não é muito diferente no teatro, talvez a forma de expressão artística que mais vai beber aos costumes tradicionais naquilo que eles têm de cerimonial e mítico. Por isso, o silêncio em teatro é fundamental sem com isto querer dizer que o publico deva permanecer calado. Não é assim. Não tem público pior do que aquele que não se manifesta, querendo-o. Que trava o riso, o espanto ou as palmas. Também isso faz parte de uma comunicação que se quer e exige no acto solene da apresentação teatral. E é aí que o silêncio é mais válido: quando comunica e quer dizer alguma coisa.

3. A sensação de um bom silêncio é a melhor dádiva que podemos ter em teatro. Nos meus espectáculos gosto muito de ficar no lugar dos técnicos, que geralmente fica atrás da plateia, pois essa é um local que nos dá, por um lado, uma visão privilegiada e, por outro, nos permite ouvir e sentir a plateia com em nenhum outro lugar de um auditório. Quantas vezes me apanhei de ouvido apontado para os espectadores a saborear o silêncio conquistado por uma determinada cena! Quantas vezes já me voltei para colegas que comigo estão naquele lugar e digo-lhes bem baixinho (até para não estragar o momento) “ouve, ouve só este silêncio!” E fico ali, por vezes de braços abertos como quem saboreia uma doce vitória, mergulhado naquele silêncio atento, participativo, cúmplice. Uma peça de teatro que consegue em determinada altura conquistar um silêncio destes torna-se, certamente, um triunfo criativo. Mais ainda nos tempos de hoje, onde o ruído e a cacofonia insuportável dominam, de forma quase pornográfica, o nosso quotidiano.

4. Por outro lado, temos os tais silêncios que nos são impostos. Por vergonha, por medo, por conveniência, por hipocrisia, por cobardia, até por cinismo. Estes são os silêncios que o teatro deve combater. Escondemos realidades sujas debaixo dos nossos tapetes e é função da arte torná-las públicas. A humanização artística passa pelo cântico da beleza e da poesia mas também pela expiação dos nossos maiores demónios. Deve tocar pelo riso e pela ironia, mas também pelo confronto com realidades com as quais não sabemos ou não podemos lidar. E há silêncios que são ensurdecedores. O mais tremendo de todos é, sem dúvida nenhuma, aquele que esconde o abuso sexual de menores, de crianças. Esse é um silêncio que me dá vómitos porque não consigo conceber que algum ser humano se possa calar sabendo ou testemunhando, directa ou indirectamente, alguma história macabra que envolva o abuso sexual de alguma criança. Estamos cansados de saber que uma enorme percentagem destes casos acontecem com pessoas muito próximas das crianças. Com pais, padrastos, irmãos, primos, amigos dos pais, professores, vizinhos. E todos os outros, não sabendo, desconfiam. E sabendo, calam. E calando, tornam-se cúmplices de um dos mais hediondos crimes que a humanidade conhece ou é capaz de produzir. 

5. Por isso fazemos peças como “Teorema do Silêncio”, que estreia esta semana. Numa tentativa que tem tanto de arrebatada quanto de revoltada colocamos em palco um dos maiores tabus. Que é vergonhoso precisamente por ser considerado tabu. O silêncio à volta do abuso sexual de crianças não pode continuar. Este não pode ser um assunto tabu. Tem que ser um assunto sempre presente. Tem que estar no lugar mais destacado das denúncias. Tem que ter uma abordagem mais implacável da justiça. Promovendo uma sociedade que seja mais alerta, solidária e lutadora. Uma sociedade menos permissiva, cúmplice e obscena que é aquela em que hoje somos obrigados a viver. No fundo, procuramos através desta peça cumprir uma das mais nobres funções do teatro: ser catarse e caleidoscópio da natureza humana. Porque só conhecendo o mal, poderemos combater o mal.     

Mindelo, 24 de Maio de 2012

Ilustração de Chiharu Shiota






" A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa."

Eduardo Galeano - Escritor uruguaio

Na imagem: "Sagração da Primavera", de Pina Bausch





Espantosa campanha contra o abuso sexual de crianças. Confiram os cartazes com as respectivas explicações.


“Turn off the lights and help Annie overcome her fear of the dark”
Desligue as luzes e ajude Annie vencer o seu medo do escuro.



“Turn off the lights and help Emily overcome her fear of the dark”.
Desligue as luzes e ajude Emily vencer o seu medo do escuro.



“Turn off the lights and help Peter overcome her fear of the dark”.
Desligue as luzes e ajude Pedro vencer o seu medo do escuro.


“This is the original ad printed with flourescent ink, wich glows in the dark. With the lights on, u see the ad like this. When the lights are off, a new imagem will appear. Pedofolia. You might not see it, but it could be happening. 70% of child abuse cases take place in their own home.“

Este é o anúncio original impresso com tinta fluorescente, que brilha no escuro. Com as luzes acesas, você vê o anúncio desta forma. Quando as luzes estão desligadas, uma nova imagem irá aparecer.

Pedofolia. Você pode não ver, mas ela pode estar acontecendo.

70% casos de abuso infantil acontecem dentro do próprio lar.





Se há algo que me tem causado alguma mágoa tem sido verificar o desaproveitamento absurdo que a classe de actores e actrizes do Mindelo tem sido vítima, por não haver uma aposta séria e competente numa produção audiovisual que do talento dela já justifica há longa data. 

O máximo que tem acontecido tem sido a oportunidade de participar uma vez por outra nalguma produção cinematográfica estrangeira que tem, na maioria dos casos, o elenco todo pré-definido e ditado por exigências de produção, ou seja, os principais papeis entregues a vedetas de novelas brasileiras ou portuguesas.

É por isso com enorme agrado e renovada esperança que tenho acompanhado, mesmo que à distância, o trabalho feito pela equipa que está a produzir a série de televisão Soncente Talqualsesent, com o actor e dramaturgo Emanuel Ribeiro à frente das operações e uma equipa técnica totalmente nacional. Dá gosto ver actores de diferentes gerações tendo a oportunidade de mostrar o que valem e eu sei que valem muito.

Espero que esta série seja, mais do que um sucesso, um exemplo e uma prova de como se pode e deve aproveitar a nossa mão-de-obra para produzir obras do género, que a televisão nacional abra os olhos e que comece a apostar, a sério e de forma sustentada, no que de melhor temos por cá e que tem sido desaproveitado de forma quase obscena. Também assim se produz riqueza e valoriza um país.

Bem hajam.



Todos sabemos que o Google é o grande motor de busca do planeta. Qualquer coisa, assunto, personalidade, acontecimento, relato, biografia, enfim, seja o que for, pode ser encontrado utilizando essa poderosíssima ferramenta da Internet.

Pois bem, acabei de descobrir que este post, denominado Kamasutra Cafeano, foi o que de longe teve mais visitas, desconfiando eu que isto tenha acontecido por causa do absurdo número de pessoas que anda pelo espaço virtual à procura com que se entreter...

Isto para dizer que se você veio aqui porque o Google o encaminhou para este blogue só por terem sido utilizadas neste texto as palavras "sexo, mulher pelada, oral, as melhores posições sexuais do universo, famosas nuas ou políticos travestis", devo informar que isto é apenas um teste para verificar se graças ao Google este post passa a bater o record do mais visto da história do Café Margoso.

Se ficou desiludido, até porque este é um estabelecimento sério, volta ao seu motor de busca que alternativas nunca hão-de lhe faltar.





Vão ver. Falaremos de pedofilia. Estamos a trabalhar no duro para que esta ferida social não seja tocada de forma leviana. A cada dia de ensaio, chegamos em casa extenuados dada a enorme exigência do excelente texto do Caplan Neves. Homenagem aos actores, Fonseca Soares e Janaina Alves, que com a sua imensa generosidade tem encarado este desafio com enorme coragem e talento. 





"Estar desempregado 
não pode ser um sinal negativo"

Pedro Passos Coelho - Primeiro Ministro de Portugal


Quem diz uma coisa estas pode estar à frente de um Governo? Mas estamos todos loucos?