Espero não ser mal interpretado, mas cá vai: ao que parece o meu nome consta mesmo no Boletim Oficial onde se referem as personalidades da área da cultura que foram condecoradas recentemente pela Presidência da República de Cabo Verde. No domínio das artes cénicas fui condecorado com a medalha de 1ª Classe da Ordem do Vulcão juntamente com o encenador Francisco Fragoso e Manú Preto, coreógrafo e director artístico do Raiz di Pólon.

Devo dizer, em primeiro lugar, que me sinto duplamente honrado: por se terem lembrado de mim como merecedor de tais honrarias, e pelos dois nomes referidos, em cuja companhia me sinto muito bem por serem ambas pessoas que conheço e que admiro.

Peço desculpa por não ter ido à cerimónia de entrega das condecorações que, pelos vistos, decorreu aqui na cidade do Mindelo na última segunda-feira, porque para falar a verdade ainda ninguém me informou oficiosa, formal ou sequer informalmente que havia sido condecorado com uma das mais altas distinções da Nação Cabo-verdiana. Portanto, oficiosa, formal e informalmente não posso dizer que tenha tomado conhecimento da honra que me coube em direito e muito menos faria sentido aparecer no Palácio do Povo na Rua de Lisboa sem ter sido convidado (ou convocado) nem que me fosse permitido levar os dois acompanhantes da praxe nestas ocasiões.

Isto tudo para vos dizer, mais do que para me por em bicos de pés, que agradeço e me sinto honrado e que a minha não comparência em tão solene acto se deveu, única e exclusivamente, ao facto de não ter sido convidado e/ou informado por ninguém da Presidência, apesar de me encontrar a poucos metros do local de onde decorreu a cerimónia. Para que não haja nenhuma pessoa mal informada, a começar pelo próprio Presidente da República, cujo punho assina o decreto que me concede tamanha distinção, a pensar que eu sou algum ingrato ou um grande mal educado. Porque isso é coisa que eu não sou.







«No meio da aflição subjectiva de sobreviver nesta cidade, neste país, neste planeta, neste tempo - ando também bastante sereno. Acho.»


Caio Fernando Abreu - escritor

Fotografia de Gregory Colbert







«Não há um Palácio para a Cultura, mas temos o actual museu do artesanato a cair aos pedaços, uma fantástica sala de cinema abandonada à sorte, dois ou três pequenos auditórios sem manutenção. Mas como somos ricos, aliás muito ricos, abandonamos tudo isso e fazemos um Palácio. É claro que quando este também já não servir por má gestão e falta de conservação, faremos outro ainda maior e mais caro, e depois outro e outro, até termos entre nós o Reino da Cultura, semeado de Palácios e Criadores.»

Paulo - comentário publicado no Café de Memória Futura






"Estamos a preparar o projecto para a construção de um grande palácio da cultura em S. Vicente, com auditórios e espaços para valorizar toda a dinâmica cultural da ilha."

José Maria Neves - entrevista ao A Nação de 29 de Julho de 2010



Nota Cafeana: em tempos de pré-campanha eleitoral, inauguramos esta nova secção do Café Margoso, porque certamente iremos ouvir muitas coisas em forma de promessa. Esta pareceu-me uma boa forma de começar...







A compra de um carro


Contribuinte - Gostava de comprar um carro.
Estado - Muito bem. Faça o favor de escolher.
Contribuinte - Já escolhi. Tenho que pagar alguma coisa?
Estado - Sim. De acordo com o valor do carro (IVA).
Contribuinte - Ah. Só isso.
Estado – Sim. E mais o imposto automóvel (IA).
Contribuinte – Dois impostos sobre a mesma coisa?
Estado – Quer comprar um automóvel, não é? Então paga Imposto Automóvel. Qual é a dúvida?
Contribuinte – Ah!
Estado - E uma "coisinha" para o pôr a circular (selo).
Contribuinte - Ah!
Estado - E mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule (ISP).
Contribuinte - Mas sem gasolina eu não circulo.
Estado - Eu sei.
Contribuinte - Mas eu já pago para circular.
Estado - Claro.
Contribuinte - E vai cobrar-me pelo valor da gasolina?
Estado - Também. Mas isso é o IVA. O ISP é outra coisa diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Muito. O ISP é porque a gasolina existe.
Contribuinte - Porque existe?
Estado - Há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petróleo. E você paga.
Contribuinte - Só isso?
Estado - Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer.
Contribuinte - Então?
Estado - Tem que pagar para o estacionar.
Contribuinte - Para o estacionar?
Estado - Exacto.
Contribuinte - Portanto pago para andar e pago para estar parado?
Estado - Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro.
Contribuinte - Então pago para circular, pago para conseguir circular e pago por estar parado.
Estado - Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?
Contribuinte - Novo?
Estado - É que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí.
Contribuinte - Pago para você ver se pode cobrar?
Estado - Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha...
Contribuinte - Mais uma coisinha?
Estado - Para circular em auto-estradas.
Contribuinte - Mas eu já pago imposto de circulação.
Estado - Mas esta é uma circulação diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Sim. Muito diferente. É só para quem quiser.
Contribuinte - Só mais isso?
Estado - Sim. Só mais isso. Paga 25 euros.
Contribuinte - E acabou?
Estado - Sim. Depois de pagar os 25 euros acabou.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros que custa pagar para ter uma coisa para andar nas auto-estradas.
Contribuinte - Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse?
Estado - Sim. Mas todos pagam os 25 euros.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros é quanto custa essa coisa.
Contribuinte - Custa o quê?
Estado - Pagar.
Contribuinte - Custa pagar?
Estado - Sim. Pagar custa 25 euros.
Contribuinte - Pagar custa 25 euros?
Estado - Sim. Paga 25 euros para pagar.
Contribuinte - Mas eu não vou circular nas auto-estradas.
Estado – Isso é o que você pensa. Imagine que um dia quer... tem que pagar.
Contribuinte - Tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer?
Estado - Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer.
Contribuinte - E se eu não quiser?
Estado - Paga multa.


Recebido por e-mail






Identidade
 
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



Não sei porquê, mas este poema combina com este filme...






Em Agosto o país entra em férias, mas a igallery continua aberta para acolher mais uma exposição. Desta vez uma série de esboços/ experiências do que virá a ser uma exposição em grandes dimensões: sketches for “freedom fighters collection” são um conjunto de 15 peças feitas à base de serigrafia e acrílico da autoria de Abraão Vicente. Apenas uma parte dos freedom fighters estão presentes nesse lote de experimentações. A expo estará aberta ao público a partir de segunda feira, 2 de Agosto. Venham pois degustar livros e imagens.









Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 






No momento em que assistimos a essa coisa sinistra a que se resolveu dar o nome de debate sobre o estado da nação, não se tem a nítida sensação de que estão a gozar com a nossa cara (uns e outros)?

À melhor resposta, ofereço um café









"No dia seguinte ninguém morreu."

José Saramago - As Intermitências da Morte (grande, grande livro!)







"Acho que não há nenhum homem que, pelo menos uma vez na vida, não se tenha sentado esgotado num sofá e dito para si mesmo qualquer como "nunca mais quero saber de gajas". Eu já o fiz e mais do que uma vez, completamente convencido que nunca mais me ia chatear na vida por causa duma mulher que fosse. Enganei-me sempre."

Bagaço Amarelo (fonte: aqui)


Imagem do filme Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de Pedro Almodóvar







A Nação ainda é o que era?

1. Há alguns dias fui convidado para assistir a um ensaio geral da peça «Contos em Viagem – Cabo Verde», uma etapa para a apresentação da mesma num festival no Rio de Janeiro. Esta peça é uma produção que a companhia de Lisboa Teatro Meridional estreou na cidade do Mindelo, no festival mindelact, há dois anos, numa daquelas noites memoráveis que nos fazem agradecer a todos os deuses e espíritos conspiradores o facto de a vida nos ter guiado por este caminho sinuoso das artes cénicas, o campo onde mais se mergulha nas entranhas da humanidade, de uma forma absolutamente arrebatadora e implacável.

2. A referida peça, construída a partir de textos de mais de uma dezena e meia de autores cabo-verdianos, é um hino à tão propalada cabo-verdianidade, mas a inquietação que no final me assaltou estava relacionada com uma dúvida premente e que justifica esta introdução teatral: ainda existe esta poesia no quotidiano do arquipélago cabo-verdiano? Ainda se pode cantar, chorar, contar histórias nas soleiras das portas, olhar para o céu e pedir a Deus que abençoe o nosso espectáculo ou a nossa vida, com uma confiança inusitada de que além há-de sempre existir algo de muito superior que vai proteger o destino deste abençoado país?

3. Estava com uma amiga cabo-verdiana que nunca tinha assistido a esta peça e não queria desperdiçar esta oportunidade única e no final comentamos este facto. Ela, que havia terminado o curso há alguns anos e se tinha fixado em Lisboa com um emprego fixo e estável, contou-me que durante as últimas férias que passara em Cabo Verde deixara na sua casa, em Portugal, as malas feitas para regressar definitivamente ao país. «Estava em dúvida. Pelo sim pelo não, deixei tudo pronto, não se desse o caso de querer ficar em Cabo Verde.» Depois de uma pausa suspirada e algo triste rematou: «como vês, não fiquei. Também me custa verificar que o meu país está a perder a sua poesia. Não me senti bem e resolvi regressar a Lisboa. E olha que não me arrependo.»

4. Que reflexão podemos retirar deste episódio? Pessoalmente, não vejo nesta atitude nenhuma patada ingrata, antes um sintoma de muitas coisas que ao longo dos últimos meses tenho procurado chamar atenção nestas crónicas e no blogue Café Margoso. Na minha área de referência, que é a arte e a cultura, o panorama continua a ser um imenso deserto de iniciativa e ideias novas, um desaproveitar de gente com vontade de fazer acontecer, um deixa andar que não se resolve com medidas avulsas, muito menos com fóruns hipócritas e enganadores que todos sabem à partida não resolver coisíssima nenhuma.

5. Uma das situações com que me confrontei várias vezes, a este propósito, foi a constatação do que chamei então, «o olhar de fora». Este reflecte o olhar de alguém que, não vivendo a realidade e o dia-a-dia de Cabo Verde, escreve sobre ele, ainda sob o domínio de um enganador fascínio resultante de uma visita pré-determinada para agradar, com itinerário certo e argumento definido. Geralmente, estamos na presença de alguém que aterra em Cabo Verde com uma imagem que mistura uma ideia mais ou menos romantizada de «África» (como se esta fosse uma entidade só) com cubatas e tubarões à mistura, com aquela certeza irredutível de que se vai cruzar com alguma dessas tragédias «africanas» que misturam fome, miséria, lixo, pobreza extrema e, claro, alguma doença misteriosa.

6. Claro que, partindo desses pressupostos, o visitante chega a Cabo Verde e fica agradavelmente surpreendido: os aeroportos internacionais são modernos e funcionais, as ligações entre estes e os hotéis são hoje feitas por estradas asfaltadas com razoável aspecto, há praças digitais espalhadas pelas principais cidades com dezenas de jovens com computadores portáteis acendendo gratuitamente à Internet e tirando aquela imagem de marca do cinzentismo do tijolo das casas inacabadas que domina mais de dois terços da paisagem das nossas ilhas, até que o balanço de uma visita destas acaba por ser positivo. E é mais ainda se o termo de comparação for a de alguns outros países africanos. Mas é daquelas coisas: justificar o nosso mal com o mal do vizinho é a mesma coisa que tapar o Sol com a peneira. Ou seja, nunca foi solução para nada.

7. Esta perspectiva que tenho agora é diferente de todas essas: é um pouco com a dessa amiga cabo-verdiana que decide que ainda não é hora de regressar. Estou longe há alguns meses, mas acompanho diariamente a realidade com um olhar de quem viveu efectivamente durante mais de 15 anos a realidade arquipelágica, principalmente da cidade do Mindelo, sentindo na pele os seus sabores e dissabores. Tenho a pretensão de saber quando me estão a tentar enganar e quando a realidade vai um pouco além das estatísticas ou de um lugar honroso nalgum ranking definido por instituição internacional.

8. Cabo Verde está numa encruzilhada, isso parece-me claro como a água das praias da Boavista. Sei que é banal e fútil fazer tal afirmação, é como quem descobre a pólvora, mas a verdade é que este parece ser o tempo que vai definir muito do futuro do arquipélago. Não se sabe ainda, nem se entende bem, se este é o país dos anúncios bombásticos de centros internacionais disto ou daquilo, sem os quais o planeta Terra nunca será mais o mesmo, ou o país onde um mosquito ataca uma percentagem assustadora da população, incluindo o chefe do Governo. Foram anunciados na altura planos estratégicos de remoção de resíduos sólidos e líquidos, acordos com os municípios, mas onde estão os planos de aterros sanitários, de estações de resíduos sólidos, em suma, da mudança radical de tratamento do nosso lixo, anunciado com tanta pompa à pouco menos de um ano atrás?

9. Em tempo de campanha eleitoral, preparem-se, certamente veremos sempre os dois lados da mesma moeda: amarelo de um lado, verde do outro. E é em tempos de campanha eleitoral que mais se nota aquele que me parece ser um dos maiores cancros sociais de Cabo Verde, aquele que mais trava e menos contribui para um futuro risonho que é certamente o desejo sincero de todos: a extrema partidarização da sociedade. A guerra aberta que se instala nos dois lados da barricada, que nos anos mais pacatos se resume ao triste espectáculo que nos é ofertado pelas sessões da Assembleia Nacional e ao mundo obsceno e sujo dos comentários nos fóruns da Internet, invade-nos por todo lado nesta época: nos jornais, na televisão, nas ruas, nos táxis, nas conversas de café.

10. As convicções políticas deixam de ser políticas e passam a convicções partidárias. E estas resumem-se, tantas e demasiadas vezes, em saber quais os galos que vão ocupar os muitos poleiros que o Estado vai colocando à disposição dos seus supostos servidores. Portanto, ideias novas, nem pensar. A possibilidade de uma dialéctica construtiva transforma-se aos olhos mais atentos numa utopia absurda. Ficamos confusos, apreensivos, obrigados a escolher o mal menor, ou a encolher os ombros e pura e simplesmente concluirmos que o melhor é nem participar nesta discussão incongruente.

11. Devemos orgulhar-nos do país que temos? Com certeza. Mas isso já não basta. Quem se consegue manter com o nariz fora do lodaçal em que se transformou a disputa política, deve poder dar um murro na mesa, fazer alguma coisa, activamente, agir, falar, de forma livre e descomprometida. Claro que é bom, por exemplo, verificar quanto o nosso teatro evoluiu nestes anos, seja por causa dos grupos de teatro, das acções de formação promovidas, dos festivais internacionais que nos abrem portas e nos dão referências, incluindo aquele que temos no Mindelo. Mas talvez seja mais importante, nesta altura do campeonato, pensarmos que este enorme avanço conquistado está a ser muito mal aproveitado e continuamos a navegar por águas incertas, desnorteadas e sem qualquer tipo de rumo definido. Talvez seja bom, por uma vez, acordar para a realidade real. E quem sabe recuperar a poesia perdida nestas águas agitadas dos tempos modernos.


Mindelo, 29 de Julho de 2010