O jornal britânico The Sun considerou este anúncio "um dos mais sexy's de sempre". O filme começa com dezenas de mulheres vestidas de vermelho avançando em slow motion numa pista de aeroporto ao som dos primeiros acordes da Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner (e como se pode ver pelo pequeno filme, a música foi muito bem escolhida). Já dentro do avião, altitude e temperatura sobem na mesma proporção à medida que as modelos se despem mesmo antes de saltarem de pára-quedas para fora da aeronave. Tudo isto para fazer um anúncio para uma cadeia de supermercados.

Eu não sei se é o mais sexy ou não. Mas era bem capaz de perder o meu peculiar medo das alturas e experimentar o mesmo paraquedismo nestas condições. Apenas lamento que ninguém se tenha lembrado disto para a inauguração do Aeroporto Internacional de S. Vicente. Defintivamente, a ASA anda muito distraída.






Não sei mais o que fazer porque ando louca e doida por ti, Jorge Daniel!

Eu mando-te esta carta porque quero saber se gostas de mim e se estás interessado em mim. O ideal era que estivesses, mas se não estiveres eu vou ficar muito triste e se calhar vou ter que mandar uma carta ao Tó Quim, mas tu é que sabes.

Todas as minhas amigas te acham o mais giro da turma e o mais adulto, pois és o que dás menos erros e falas como um adulto. Por exemplo, quando foste meter aqueles papeis de bolicau no lixo que nem sequer eram teus!!

Os meus pais tem um Mercedes e uma casa de férias em Vieira.

Responde-me que eu só penso em ti.

Filipa Alexandra (11 anos de idade), numa carta com duas partes. A segunda, é o pedido de resposta que se segue:












3 frames do filme Vertigo, de Alfred Hitchcock







"Atrás de portas fechadas e em segredo, as mulheres são sujeitas a violência por parte dos seus companheiros, estão demasiado envergonhadas e receosas para o denunciarem e quando o fazem, raras vezes são levadas a sério."

Por vezes há pequenas medidas que fazem toda a diferença. Esta soube-a através do blogue Terra Longe de Virgílio Brandão a quem agradeço e sigo o exemplo. É o que o Ministério da Justiça de Cabo Verde publicou (e tem online no seu sítio oficial) uma broxura com informação preciosa sobre violência doméstica, nomeadamente definindo as formas de violência, indicando como devem as mulheres agir em casos do tipo, a que serviços poderão recorrer e algumas normas legais relacionadas com esta problemática social. O documento tem o pertinente título de "Quebrando o Silêncio" e a sua principal justificação estará nesta frase que se pode ler no início deste post. Conferir, aqui.

Aplausos.







Perante tanta desgraça, só a poesia nos salva (ah e o amor também). A sério.







«(…) Hoje, dia 13 de janeiro, o povo haitiano está se perguntando mais do que nunca: onde está a Minustah [Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti] quando precisamos dela?

Posso responder a esta pergunta: a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros. Longe de mim ser contra qualquer medida nesse sentido, mesmo porque, por sermos estrangeiros e brancos, também poderíamos necessitar de qualquer apoio que pudesse vir da Minustah.

A realidade, no entanto, já nos mostra o desfecho dessa tragédia – o povo haitiano será o último a ser atendido, e se possível. O que vimos pela cidade hoje e o que ouvimos dos haitianos é: estamos abandonados. A polícia haitiana, frágil e pequena, já está cumprindo muito bem seu papel – resguardar supermercados destruídos de uma população pobre e faminta. Como de praxe, colocando a propriedade na frente da humanidade. (…)»

Otávio Calegari Jorge in "Haiti: Estamos abandonados" (aqui) [Via: Bitaites]







"Caminhais em direção à solidão. Eu, não, eu tenho os livros."

Marguerite Duras - escritora francesa

[Imagem: A Biblioteca, de Vieira da Silva]






Saramago disse em várias ocasiões ser um crime escrever quando não se tem nada para dizer, uma frase que até aparece estampada numa música do raper luso Sam (the) Kid, que sabe-se lá porque artes mágicas foi parar ao mp3 da minha filha adolescente (e deste aos meus ouvidos foi um ai). Isto para dizer que nestes dias estranhos não é bem não ter o que dizer que é o problema. É antes uma total indefinição perante o mundo louco que nos rodeia, às tantas já não sabemos às quantas andamos. A sério, por vezes apetece é ficar quieto, não mexer um músculo que seja.

Falar de sorte ou de azar, nomeadamente nosso, é puro egocentrismo, até porque estamos já todos cansados de saber que o mundo é demasiado grande para andar ao redor de qualquer umbigo, por muito nobre que o seu dono possa ser (ou considerar-se). Não faz qualquer sentido classificar de sorte ou azar o facto de uma pessoa com problemas de saúde no outro lado do Atlântico tenha nos obrigado a adiar o projecto da próxima peça, com estreia marcada e tudo, quando o mais importante mesmo é que no final do episódio fique sobretudo o alívio de ver alguém querido escapar de uma situação mais complicada (neste caso próximo de uma das actrizes envolvidas).

Não faz sentido falar de sorte ou azar, quando Vadú se perdeu nas profundezas de um mar revolto ou um país imenso (um país parecido com o nosso) se desfaz que nem um baralho de cartas em pouco mais de sessenta segundos. Não faz sentido falar de sorte ou azar, quando diariamente temos provas acrescentadas da (falta de) noção que responsáveis públicos tem do que é a criação artística, sendo que neste último caso apetece mesmo dizer só temos o que merecemos (por vezes me ouço a dizer, certamente influenciado pelas novelas, ninguém merece!). Não faz sentido falar de sorte ou azar, quando vemos os nossos filhos, irmãos, amigos a degladiarem-se ou a destruirem património privado pelas ruas das cidades apenas porque sim, porque não tem nada melhor com que se entreter.

Tudo é relativo, afinal de contas, depende das proporções e do nível da análise que fazemos ao mundo que nos rodeia. Por exemplo, neste momento posso me lembrar do almoço maravilhoso que tive há dois dias com a minha filha Inês de quatro anos de idade, apenas nós os dois, conversando sobre a vida com a simplicidade plena de surpresa e graça únicas desta idade abençoada; podia ver como estão a ficar bonitos mais uns passeios da cidade do Mindelo, dos poucos locais em Cabo Verde onde é dada a mesma importância a quem anda a pé ou de carro; podia rejubilar com as notícias que dão conta da instalação de dois parques de energia solar nas ilhas do Sal e Santiago, no prazo louco de sete meses, anunciadas como as duas maiores centrais fotovoltaicas do continente africano; ou finalmente, posso ver-me a mim próprio no meio da rua a ler o último livro de Arménio Vieira (como é possível que não tenha sido lançado e apresentado no arquipélago?!), sem dar muitas topadas, com um Sol que nos acaricia, uma calma que nos engana e uma brisa que nos avisa que não é para nos queixarmos muito porque, ao contrário do que possamos pensar, somos uns tipos cheios de sorte.

E agora questiono: se cada um de nós tiver estas pequenas luzes (ao fundo dos túneis dos nossos desesperos ou das nossas dores); se cada um de nós tiver estes amores por quem suspirar, esperar, partilhar, abraçar, crer, bendizer ou acordar; quem sabe o mundo tenebroso que temos hoje não fica um pouco menos sombrio. Eu (ainda) acredito no Homo Sapiens, apesar de tudo.

Imagem: Roy Lichtenstein







Esta bela mulher é Letícia Persilles, actriz e cantora brasileira, que se notabilizou nos últimos tempos por ter sido protagonista da série da Globo Capitu já por várias vezes referenciada neste espaço. É mais do que protagonista. Na minha modesta opinião é mesmo a alma daquela série, o seu olhar domina o ecrã com uma facilidade aterradora; a voz e o gesto fazem o resto: deixam um rasto de arrebatamento em quem tem os sentidos um pouco mais apurados. Ela é também a vocalista da banda Manacá, com presença fundamental na banda sonora desta mesma série. Aqui fica um dos melhores exemplos com um belíssimo tema, "Desejado".








2010 é dois mil e dezgraça, escreveu um cliente aqui do Margozo e realmente este início do ano não tem sido nada fácil. Nas últimas horas dois acontecimentos horrendos, cada um à sua escala, provocaram uma onda de inquietação, um mal-estar generalizado, um medo apocalíptico de que isto seja apenas o início do fim deste mundo tal como o conhecemos. Antes havia sido, dentro e fora, a morte de Codé di Dona e os assassinatos na Praia e no Mindelo, e as horrendas cheias que só no Rio de Janeiro provocaram dezenas de mortos. Agora, o desaparecimento físico de Vadú e o horripilante terramoto no Haiti que terá provocado mais de cem mil mortos, um número inqualificável que, para se ter uma ideia, o diário I calculou serem o número de mortos que 30 bombas atómicas (!) provocariam.

Tudo isto e ainda nem entramos na segunda metade do primeiro mês do ano. O mundo precisa de ir à bruxa. Cabo Verde precisa de um banho purificador de eucalipto ou algo semelhante. Sempre podemos aplicar esta reza, que aprendi quando montava uma peça sobre superstições cabo-verdianas, que deve ser feita e repetida nos quatro cantos da casa. Com uma bolsa de sal na mão, que deve ser lançado em cruz para o chão em cada canto, lenga lenga-se assim: biba iba, venê biba; desconjunta débora com as sete cruzes do baptismo; Santa Maria do Rosário, Santa Maria do Cruzeiro; com sete cruzes às costas até à fundura do Inferno; vai a ratassana, rabi bruxa Satanás; nem embarque nem desembarque na Arca de Noé; gato, toma esse chouriço, pendura-o no pescoço e leva-o lá para o fundo do mar do indo indo, que nenhuma embarcação passa! Vocês não vão poder ke mim, nem com as pedras do meu fogão e nem com os meus familiares!

Definamos quais são os quatro cantos de Cabo Verde (Santo Antão, Brava, Sal e Maio, talvez); arranjemos um voluntário em cada canto com energia positiva na alma e um saco de sal na mão para dizer este texto no canto mais canto da sua ilha, se possível for no mesmo dia e na mesma hora, que isto com as religiões mais universalistas já lá não vai. E não pensem que estou a brincar com coisas sérias. Por estes dias ando até com medo de sair para a rua. Sabe-se lá que casta de demónios andam por aí a pregar das suas.





"Todo o poema é uma ponte entre o dia e a noite, entre o branco e o negro, entre a morte e a vida. Juntando-se todos num abraço, agora é só um o que em dois se dividia, ou mesmo em três, de que a Trindade é o exemplo; o Poema, que é também mistério, mete a soma numa caixa, sendo que fica por explicar a razão por que a caixa à soma se furtou. Os mistérios, como os poemas, estranham-se, não se explicam."

Arménio Vieira in "O Poema, A Viagem e O Sonho"

Ilustração de Inês Rako






"Os surrealistas são os senhores que sorriem." Assim define esta importante corrente artística o jovem Santiago, filho de Mito Elias, no vídeo de apresentação da exposição-ciclo de projecções urbanas de vídeo, de Mito Elias e Ana Rita Pires, promovida pela Câmara Municipal da Praia, juntamente com os dois artistas (ver vídeo de apresentação aqui).

O título completo da mostra é "De Pareidolia: Rabislongo & Nha Paredi" e consiste, se bem percebi na conversa que tive com os dois, numa mostra de arte com duas vertentes: artes plásticas "fixas" (as de Ana Rita com Nha Paredi) e artes plásticas "ambulantes" (os sempre apelativos e criativos vídeos de Mito, que vão ser projectados - oito vídeos, um por dia - durante uma semana), cada um com 30 minutos, sempre na rua e em locais diferentes da cidade da Praia (é o tal Rabislongo).

Entenderam? Se sim, vão à abertura. Se não, mais uma razão para não perder a abertura. Vai acontecer hoje, dia 14 de Janeiro, pelas 18:30 minutos, no (auto-intitulado) Palácio da (dita) Cultura. Para consultar o programa completo do que vai acontecer estes dias, é só vir a esta página aqui.

Mito e Ana, venham ao Mindelo, porque andamos a precisar de inovação e criatividade como a vossa. Os surrealistas do Porto Grande andam desaparecidos, e os que existem sorriem muito pouco (bem, talvez não haja motivos para isso, mas não são os surrealistas assim intitulados por sorrirem sem precisar da razão para o fazer?)...