«Quanto à mensagem, não sei... Não há mensagem. A melhor coisa é deixar a intuição e a imaginação agirem. É verdade que eu quero dizer com força qualquer coisa difícil de formular, qualquer coisa de escondido; mas são os espectadores que têm de o descobrir, senão tudo seria tosco e grosseiro; são vocês que têm de o descobrir, eu não posso proceder demasiado directamente. Frente a certos valores, é preciso, acima de tudo, sensibilidade.»

Pina Bausch






Uma iniciativa muito feliz do Centro Cultural Português - Pólo do Mindelo, fazendo a ligação entre a cultura, história e o passeio. No próximo Sábado, será a ver do teatro. Vamos?






A noite de ontem foi especial por dois acontecimentos que passo a relatar de forma resumida: primeiro, apresentamos a peça "Teorema do Silêncio" em Nova Sintra, ilha Brava, para um público atento, ávido de teatro, curioso e, à medida que a peça avançava, emocionado e generoso. Este não é um espectáculo qualquer. É um texto difícil, um tema actual mas sempre complexo, uma encenação que é tudo menos óbvia, onde o que parece não é e o que é nem sempre parece. A reacção de quem muito raramente tem acesso a este tipo de bem cultural foi surpreendente. No final, várias pessoas chegaram até nós, agradecendo, de lágrimas nos olhos, o facto de termos, com a nossa arte, quebrado o silêncio para um assunto tão delicado (o abuso sexual de crianças). O nosso trabalho saiu valorizado e de novo se demonstra da profunda necessidade de trabalharmos para uma universalização do acesso aos bens culturais, em todos os cantos do nosso Cabo Verde. Seja lá onde for, existem pessoas que querem, precisam e estão dispostas a personificar esta troca tão bela. Como a que aconteceu nesta apresentação inesquecível.

Um pouco mais tarde, pelas ruas de Nova Sintra, um grupo razoável de amantes da morna corporizaram uma belíssima serenata, com as mornas de Eugénio Tavares, cantadas de forma incrivelmente harmónica e afinada, principalmente pelas muitas mulheres do povo ali presentes. Foram horas inesquecíveis. Belas. Tocantes. Algumas mornas belíssimas que eu nunca tinha ouvido e que, segundo me informaram, nunca foram gravadas (para meu espanto!). A alma de Cabo Verde se revela quando a morna é cantada. E não só! Uma estrangeira que vive por cá há alguns anos, e assistia a tudo chorava ao ouvir o coro cantando em êxtase a morna "Força di Cretcheu". Perguntei-lhe porque chorava ela e disse-me: "não sei explicar o que é. Mas ouvir esta música faz-me sentir saudades de casa."

No Dia Nacional da Cultura de Cabo Verde a morna se revela, mais uma vez, o eixo que nos liga a todos, de ponta a ponta, de Sul a Norte, de Este a Oeste, que une todas as diásporas de todos os universos crioulos. Eugénio Tavares se revela, mais uma vez, o patrono ideal num dia que é um dos mais importantes de ser-se comemorado. E, mais uma vez, no cantinho deste querido arquipélago, sou tocado de novo de forma inapelável, por um povo generoso e belo, que transforma esta nossa passagem pela vida numa aventura mais do que fantástica.




Quando se descobre que alguma teoria científica explica um fenómeno com o qual somos confrontados praticamente todos os dias e nunca conseguimos explicá-lo apesar da forma arrebatadora como esse fenómeno perturba as nossas vidas, temos motivos para festejar. Mais ainda quando essa teoria, mesmo que possa ter uma designação complicada que advém do fato de ter obrigatoriamente o nome dos teóricos responsáveis pela sua criação, está explicada numa linguagem acessível a todos, sem grandes palavrões científicos ou conceitos que mal somos capazes de ler quanto mais entender.

Quantas vezes já nos cruzamos com indivíduos "que possuem pouco conhecimento sobre um assunto" mas que mesmo assim "acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos, porém esta própria incompetência os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros."? Não é espantosa a familiaridade com esta descrição?

Segundo ainda explica a teoria "estas pessoas sofrem de superioridade ilusória. Por outro lado, a competência real pode enfraquecer a auto-confiança e algumas pessoas muito capacitadas podem sofrer de inferioridade ilusória, achando que não são tão capacitados assim e subestimando as próprias habilidades, chegando a acreditar que outros indivíduos menos capazes também são tão ou mais capazes do que eles." Onde é que já vimos e ouvimos isto? Não foram já vezes demais?

A campanha de vacinação nacional que vai começar em Cabo Verde contra o sarampo e a rubéola é uma excelente notícia para a saúde pública nacional. Mas faço desde já aqui o apelo para que no dia em que se encontrar uma vacina para combater o Efeito Dunning-Kruger - o nome complicado do simples mal que assola os dias de hoje - se faça uma campanha de vacinação com a mesma extensão, de preferência começando pelo maior grupo de risco, os detentores dos diferentes poderes que de forma tão incompetente, empatam as nossas vidas. 





Viciados

1. Há atitudes, posturas e até percursos que apenas o vício consegue explicar. Escrevo isto a propósito de um comentário do diretor e grande amigo Márcio Meirelles, numa conversa recente. Ao saber que tínhamos montado a nossa versão crioula de “A tempestade”, de Shakespeare, em apenas 45 dias, com uma equipe de 24 elementos, onde, só por raras vezes, se conseguiam juntar todos na sala de ensaio, com parte do elenco em viagem para fora de Cabo Verde por terem compromissos relativos a outras apresentações, e somado a tudo isto, o fato de a estreia se dar em pleno epicentro do Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact, fez com que nos olhasse incrédulo e sorrisse, com aquela aparente mansidão de quem acolhe um vulcão no peito. “Somos loucos, não somos?”, perguntei-lhe. “Não”, respondeu ele, “o que vocês são é viciados!”

2. Esta coisa do teatro é algo que poucos conseguem explicar mesmo sabendo que muitos – quase todos nós – temos prontas para atirar em cima da mesa, nas conversas e discussões entre os nossos pares, múltiplas teorias de índole das mais variadas, seja na área da teoria e história de arte, sociologia, psicologia social, antropologia ou ciência política. Por que fazemos; por que teimamos; por que nos importamos; por que nos sacrificamos; por que nos sujeitamos; por que sentimos prazer na morte inevitável a cada criação que passa; por que somos por vezes tão masoquistas? Numa oficina que tive o prazer de realizar com o mesmo Márcio Meirelles, no mítico e fenomenal Teatro Vila Velha, em Salvador, esse foi o questionamento básico: por que fazemos teatro? Cada um dos cerca de 30 participantes deu o seu depoimento, necessariamente curto e improvisado ali, no momento. Uma das respostas que ficaram na minha memória foi esta “eu faço teatro porque não sei não fazer teatro”. Querem melhor definição de vício do que esta?

3. Mas o teatro é um vício diferente, embora seja também uma droga que pode provocar perigosos efeitos colaterais, tais como ataques de ansiedade, desequilíbrios emocionais, atritos familiares, crises financeiras, hecatombes matrimoniais, lesões físicas, momentos de delírio, períodos mais ou menos prolongados em que os cuidados com a alimentação ficam relegados para segundo plano, e por aí vamos, nesta estrada sempre sinuosa que por mais extraordinária que nos possa parecer, tendo em conta todas essas aparentes sequelas, não tem nada nem ninguém que nos faça desviar do nosso caminho. Uma vez nela, sempre nela. O teatro é assim, vicia a gente. Não podemos passar sem ele e todas as justificativas que cada um de nós possa dar para essa insanidade que invade nossas vidas, só piora a situação. Como os viciados, não há justificação. Apenas desculpas esfarrapadas. Ou, no nosso caso, ainda pior, teorias pretensamente científicas. 

4. Milanka, atriz cabo-verdiana, escreveu, há dias, num comentário no Facebook, a seguinte frase: “A falta de teatro faz a gente menos gente." É uma das melhores frases dos últimos tempos sobre este assunto e uma claridade se apresenta  perante nossos corações e, sobretudo, as nossas cabeças. É isto mesmo. Garcia Lorca já o tinha dito – e muitos outros disseram também, frases e poemas, recados e obituários, ditados e pequenos hinos – sobre o quão fundamental é o teatro nos tempos que correm, principalmente nos tempos que correm, tal como já o tinha sido no passado, nos tempos que correram então, há dezenas, centenas ou milhares de anos. Por coincidência, ou talvez não, as mais fantásticas palavras escritas sobre a arte cénica têm o denominador comum de terem sido escritas por gente de teatro, dramaturgos, atores e atrizes, diretores, artistas plásticos, cenógrafos, poetas, dançarinos e acrobatas, palhaços, ilusionistas. Sim, é um cliché, mas é isso mesmo: outra coincidência com a droga – só quem experimentou pode entender o que é isto do teatro nas nossas vidas!

5. Aqui na cidade do Mindelo, bem no meio do Atlântico, nasceu uma nova companhia de teatro. A Trupe Pará Moss – TPM, apresentou-se com três espetáculos diferentes em três dias, um deles em estreia. Neste novo grupo, que tive o prazer de acompanhar durante os dois anos de formação teatral, existe de tudo um pouco, caleidoscópio social da cidade e do amor que esta dedica ao teatro: uma psicóloga, um cortador de vidro, vários estudantes, um militar em início de carreira, uma brasileira apaixonada, um monitor de um centro de apoio a tóxico-dependentes, um operário de uma fábrica de enlatados de peixe, alguns desempregados, dois ou três licenciados. Muitos deles, depois de oito horas de duro trabalho nos respetivos empregos, vão para os ensaios com uma energia e uma disponibilidade que envergonha muitos atores ditos profissionais com os quais tenho cruzado nesta caminhada. 

6. É por isso que faz sentido falar de vício. E hoje também faz sentido recordar uma belíssima frase dita por um conceituado diretor português, Luís Miguel Cintra: “Para cada nova companhia de teatro que nasce deveriam nascer mil estrelas no céu”. O céu de Cabo Verde, esse, ficou um pouco mais brilhante nos próximos dias.

Mindelo, 12 de Outubro de 2013

Crónica também publicada no Portal da SP Escola de Teatro (aqui) Fotografia: Trupe Pará Moss, "As Mindelenses" (2013), de Nelson RIbeiro





Se tivesse sido assim?






Um Bolero de Ravel muito especial, pelo músico Rui Belo, com a mais bela paisagem do mundo





"O jovem “empreendedor” acha que por a sua empresa de aluguer de bicicletas a turistas se chamar “lx bike tour experience” ou que por propor uma marca de café com leite sob o nome “gallonize your life” irá reinventar a roda. A difusão desta ideia é essencialmente propagandística ao sugerir uma reorganização do trabalho em modelos cada vez mais isolados, autónomos e desprotegidos enquanto última tábua de salvação no naufrágio que é a crise. Uma mínima percentagem destes novos empresários irá triunfar constituindo mini-núcleos de exploração brutal e todos os outros irão terminar enquanto reforço da mão-de-obra barata ou, na melhor das hipóteses, organizando-se dentro de um aparato ideológico de assistência ao “empreendedorismo”."

Luhuna Carvalho (aqui); ilustração de Hossein Zare










Belíssimo trabalho da fotógrafa criativa e artista Anja Stiegler. 






Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 







Se houvesse algum índice para medir a nossa capacidade de sacudir a água do capote e colocar a culpa dos nossos fracassos nos outros, esse seria certamente mais um item onde Cabo Verde se poderia orgulhar de ficar nos lugares cimeiros. 

Já não há paciência. Ninguém assume as responsabilidade de nada neste país. A culpa nunca morre solteira, ao contrário do que diz o ditado. A culpa tem uma série de amantes com as quais nunca se deitou nem sabia da sua existência. Então se é necessário alguém com um cargo de maior responsabilidade assumir a sua quota parte no esterco que por qualquer motivo ficou à vista de todos (por alguma razão, se utiliza muito a expressão, "isto ainda vai dar merda!"), nada mais fácil do que atirar a culpa para cima do vizinho, do subalterno, de um qualquer anónimo que, de um dia para o outro, se vê obrigado a carregar todo o peso do universo inteiro nas suas costas. 

O último dos bodes expiatórios, que provavelmente se vai tornar uma celebridade instantânea, é uma até aqui anónima secretária da Federação Cabo-verdiana de Futebol. Segundo revela um jornal da nossa praça, "antes do jogo contra a Tunísia, a FIFA comunicou à FCF que o castigo de quatro jogos ao defesa Fernando Varela mantinha-se, pelo que não deveria jogar a última partida da fase de grupo. Mas o documento foi arquivado sem que o presidente da FCF, Mário Semedo e o seleccionador Lúcio Antunes tomassem conhecimento do assunto. " E pronto, assunto esclarecido! 

Um processo em cima da senhora e as centenas de milhares de cabo-verdianos iludidos com a possibilidade - bem real - de ver a sua selecção nacional de futebol num campeonato do mundo, ficarão logo descansados e aliviados. Foi encontrada a culpada! Claro que o facto de haver um castigo a um jogador, num jogo depois anulado, e de os regulamentos da FIFA claramente dizerem que a anulação do jogo não anula a penitência em caso algum, não vem aqui para o caso. 

Mais do que incompetência, tratou-se aqui de irresponsabilidade. Ou se quisermos ir mais longe, de estupidez. Só isso explica a utilização de um jogador nas circunstâncias em que o defesa Varela foi utilizado.No entanto, nada disso importa mais. Segundo se descobriu agora, a culpa foi da secretária da federação. Cabo Verde pode, finalmente, dormir tranquilo.





É por Ti que Vivo

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'