Rua de Escola Técnica no Mindelo (Avenida Che Guevara) aquando da passagem de uma plataforma petrolífera pela baia da Lajinha.

Captado por Quarts (Panoramio)






Swagato
Músico e instrumentista
(1949 - 2012)


Músico, de origem alemã, cabo-verdiano por opção. Deixou-nos por vontade própria. Tristeza.




Uma das grandes vantagens de andar neste mundo da arte, além daquelas mais óbvias como não ter fins de semana ou feriados e chegar todos os dias tarde e a más horas depois de mais um ensaio, é que acabamos por conhecer e ficar amigos de pessoas muito interessantes. Duas dessas pessoas são, a cantora e compositora Mayra Andrade (com quem espero trabalhar um dia) e o escritor Manuel Jorge Marmelo (que escreve aqui). O segundo nutre uma admiração inequívoca pela primeira e tem-no declarado publicamente em alguns dos seus escritos sendo que uma das suas crónicas publicadas no jornal A Nação foi-lhe totalmente dedicada.

Pois bem, tenho uma boa notícia para o meu amigo: a Mayra Andrade, na sua última entrevista dada precisamente no mesmo jornal que publicou a declaração pública do escritor portuense, confessa quando questionada sobre qual livro que está a ler neste momento, que a sua leitura actual é, nem mais nem menos do que "As Sereias do Mindelo", que Marmelo escreveu inspirado pelas suas vivências com as crioulas da ilha do Monte Cara (um belíssimo livro, por sinal).

Pronto, está dado o recado, Jorge. A Mayra Andrade tem um pedaço de ti na sua cabeceira. 




Este é o texto integral de uma reportagem sobre a delegada Vilma Alves, do Estado do Piauí, no Brasil. É o terror dos homens com agá pequeno que acham normal bater nas mulheres. Desde que começou a actuar Vilma conseguiu baixar em 80% (!) a taxa de homicídios de mulheres no Estado,  e colocar o Piauí com a taxa mais baixa do país. 

O  texto é grande, mas vale bem a pena uma leitura. Uma lição. Notável.



O Piauí também é machista, só que aqui o trabalho é com eficácia. Na polícia não se deve cochilar. Não deixe a madrugada chegar, tem que ser imediato”, alerta a delegada Vilma Alves. 

Às 9h50 da manhã, a delegada recebe a denúncia. Às 10h05, ela liga para a Polícia Militar pedindo uma guarnição: “Uma senhora foi espancada e o marido quer matar. Ela está com medo de retornar e eu quero prendê-lo”, avisou. 

Às 10h20, um PM está na delegacia recebendo instruções. Às 11h05, a delegada já está diante do acusado, preso, na Central de Custódia de Teresina. 

Delegada: O senhor sempre bate nela? 
Acusado: Não. 
Delegada: Ela disse que já não aguenta mais, não quer mais viver com o senhor. O senhor está sabendo que quando sair não vai ficar com ela, não é? 

A pressa da delegada é a urgência do juiz. “Quando nos chega às mãos, a gente decide no máximo em 24 horas, talvez no mesmo horário do expediente”, afirma o juiz José Olindo Gil Barbosa. 

Uma azeitada articulação entre polícia e Justiça não deixa denúncias se acumularem. “Até em tom de brincadeira eu digo: ‘aqui no Piauí, a gente trabalha igual a pai de santo, a gente recebe, mas também despacha’”, diz o destaca o promotor Francisco de Jesus Lima. 

Na linha de frente dessa força-tarefa, uma mulher sempre perfumada, de brincos e colar de pérolas. “Como eu ensino as mulheres a andarem bonitas, a se amarem em primeiro lugar, então eu procuro andar sempre assim. Porque eu me amo”, ela garante. 

Sobre a mesa de trabalho, um salto plataforma modelo Lady Gaga. E outra mesa repleta de santos. “Os meus santos estão aí para me proteger”, diz. O resto é com a delegada: “Eu aprendi que remédio de doido é doido e meio. Mas dentro da educação, sem bater”, avisa. 

Com educação, mas falando grosso: “Aqui é olho no olho. Eu pergunto: ‘você comprou a sua mulher no mercado velho ou no shopping?’”. 

Em audiências informais, ela põe vítima e acusado lado a lado e dá lições de boas maneiras. “Eu não sei como você foi educado. Mas você precisa de umas pinceladas de como tratar uma mulher. Não se trata mulher na ponta do pé”. 

Não hesita em enquadrar um machão: “Como foi que começou? Olhe nos meus olhos! Como foi que começou essa droga?”. 

E deixa claro que ordem judicial é para ser cumprida: “Vamos resolver a situação. A situação é essa: ela não quer mais você. Está com um mês que separou. Como você foi lá? Preste bem atenção: você foi preso agora. Não tem mais direito à fiança. Porque se você voltar, você vai ser preso e vai diretamente para a penitenciária”. 

Não importa se a moça de olho roxo mora em bairro chique: “Nunca vi isso na minha família, na família dele. Os dois têm curso superior. Nossa família também tem curso superior. Classe média alta”, relata uma vítima. 

A delegada assegura: ninguém escapa do indiciamento: “Aqui é de tudo, político e tudo. Bateu, se faz o procedimento”, garante. 

Os movimentos feministas e o Ministério Público se uniram em campanha. E a própria delegada, professora de formação, vai aonde for preciso para passar o seu recado. 

“A mulher não é piano, mas gosta de ser tocada. Um beijinho no pescoço, um carinho. O certo é você chegar: ‘está aqui, meu amor, minha vida, meu perfume, minha rosa’. É assim! Quem foi que deu um cheiro na mulher hoje?”, questiona a um grupo. 

A Lei Maria da Penha é explicada ponto a ponto. “Se você estiver achando que você é dono de sua mulher, xinga a sua mulher, espanca todo dia, ela pode chegar na delegacia e dizer: ‘doutora, eu não quero mais, eu quero que meu marido saia’. E ele sai em 48 horas. Eu adoro fazer isso”, avisa. 

Os maridos ouvem atentamente o alerta final: “Se você forçar é estupro. E se ela chegar na delegacia e disser que você estuprou, eu lhe prendo, tranquilo, meu bem”. O resultado desse esforço coletivo é a queda da violência, mas se engana quem acha que os números do Piauí agradam a delegada. 

“Nenhum número é aceitável para mim. Nenhuma morte. Viver em paz é o que é importante. Como se admite uma mulher ser morta pelo seu marido? Porque a mulher não é mais coisa, não é objeto, não é propriedade. Mulher é cidadã e deve ser respeitada”, destaca.








"África não existe - existem áfricas e desconheço a maioria. As minhas áfricas, aquelas de que posso falar, têm em comum serem territórios propícios à surpresa e aos encontros. Lugares que desprezam as fronteiras entre a realidade e o maravilhoso. Finalmente: espaços em construção. Assim se explicam os livros que escrevo. Vêm de lá.

José Eduardo Agualusa - escritor angolano

"Parece um nome. Mas é mais do que isso. Trata-se de um conceito carregado de fantasmas e produtor de equívocos, quando pronunciado no singular. O que há são Áfricas. Plurais e diversas, em negação da imagem mistificada, do estereótipo e da visão folclórica."

Mia Couto - escritor moçambicano




Ilustração dos artistas italianos Maurizio Cattelan e Pier Paolo Ferrari





Sou adepto ferrenho da blogosfera. Sendo certo que todos os dias nascem e morrem blogues à velocidade da luz, também é certo que num meio pequeno como Cabo Verde onde o receio de dizer o que se pensa ainda é mais regra do que excepção, todos os meios de expressão e de opinião, todos os campos que incentivem ao debate e a participação cívica dos cabo-verdianos, é mais do que bem-vinda. 

Sendo certo que as redes sociais vieram tirar um pouco do protagonismo que os blogues tiveram nos primeiros tempos, a verdade é que estes resistem e embora seja hoje menos espaços de debate do que já foram no passado, não deixam de ter a sua importância como espaço plural, democrático e criativo. 

É preciso que, cada vez mais, demos larga ao que nos vai na alma, sejam amores, desamores, paixões, ódios, indignações, desaforos, piadas, reflexões, pensamentos e pequenas pistas do nosso quotidiano. Não tem mal nenhum. Ajuda certamente quem escreve e, quem sabe, pode um dia ajudar quem nos lê e nos visita. 





      Adoro esse teu ar quando me tocas.
      Começas por ficar transfigurada
      para, depois de unir as nossas bocas,
      te tornares uma fera não domada.

      Mordes-me o peito, os ombros, o pescoço.
      As tuas coxas nas minhas mãos são abraço
      tão forte e perigoso que não posso
      responder a seguir pelo que faço.

      Enlouqueço. Também sou uma fera
      há dias sem comer, à tua espera
      pra poder devorar-te e saciar-me.

      A luta assim é própria de quem ama.
      Se eu tiver de morrer, seja na cama
      a vir-me nos teus braços e a passar-me.

      Joaquim Pessoa




Por vezes precisamos de gritar, de ir buscar forças lá onde elas parecem não mais existir. Criar é tão doloroso. Uma dor que vai e vem, sem avisar. A cada ensaio, a cada palavra, a cada impulso. A natureza humana, que a arte cénica melhor que outra forma de expressão artística sabe ser fiel, em tudo o que tem de mais podre e belo, impede-nos de ficar pela superfície, e de tanto mergulhar nela por vezes chega-nos aquele momento terrível em que o ar nos falta. 

Passamos vinte e quatro horas por dia com a nossa obra inacabada, é com ela que nos deitamos, é com ela que sonhamos, é com ela que acordamos para um novo dia. Um dia novo que acrescentará mais uma peça ao castelo de todas as nossas angústias e (quem sabe) alegrias. Como um castelo de cartas, tememos que ele possa cair num sopro e que tenhamos que recomeçar tudo de novo. Algo inevitável, começar tudo de novo. Quem abraça o teatro, devia-o saber ou então ir fazer alguma outra coisa.

Por vezes temos essa vertigem de tanto andar na corda bamba. Não há como ser diferente. Não sei como ser diferente. Olho para quem me dá tanto a cada ensaio e só posso dar tudo de mim também. Não tenho alternativa, não tenho outra saída a não ser ir até ao fim que nunca há-de chegar. Por vezes precisamos de gritar, mas o consolo é que se há algo que aprendemos na vida é que quando gritamos assim o amor dá-nos a irredutível certeza que há-de estar alguém mesmo do nosso lado para nos ouvir.



[música: Coldplay, The Scientist]






A propósito de alguns artigos mais inflamados publicados recentemente na nossa comunicação social cada vez tenho menos dúvidas que o fomento e alimentação do bairrismo em Cabo Verde é o caminho mais curto para o renascimento de mortos-vivos que mais não fazem do que atiçar uma parte contra o todo com o simples intuito de alguém se lembrar que afinal eles ainda estão por aí. 

Um erro crasso. Vale apenas pelo debate que provoca.

"Da compreensão da dinâmica das ilhas na forja do caboverdiano, avançada pelo novo modelo, chega-se a conclusão que, para o bem de Cabo Verde, é preciso aumentar os canais de comunicação, desenvolver plataformas comuns de acção e explorar sinergias possíveis entre elas. O maior crime que se pode cometer contra cada uma delas e contra Cabo Verde é governar ou administrar as ilhas como se de mundos à parte se tratassem."

Humberto Cardoso (texto completo, aqui), sugerido por Abraão Vicente







Tendo em conta que colocar roupa lavada no varal em dias de vento na cidade do Mindelo é o desporto mais radical que eu conheço, qual a probabilidade deste desporto poder vir a ser um dia aceite como modalidade olímpica?

À melhor promessa, ofereço um café