"Entre os crioulos, a fronteira entre o elogio sincero, verdadeiro e merecido, e a bajulação é bastante ténue. Num rasgo de inveja e egoísmo inveterado, coibimo-nos de elogiar descomplexadamente o outro porque pensamos que ao elogiá-lo estamos a diminuir a nossa pessoa perante o sujeito elogiado. O elogio constitui um gesto de elevação e de coragem cívica embora corramos sempre o risco do elogiado se mergulhar no vislumbre e na típica "basofaria" crioula destilando complexos de superioridade vários." 

Suzano Costa - Cientista Político






Não exagero: praticamente todas as semanas ouço, por vias directas ou indirectas, relatos de violência sexual contra crianças ocorridas no Mindelo. Meninos ou meninas. Crianças de cinco, seis, sete, oito, nove anos e até bebés. Isto para além do que se vai sabendo pela comunicação social que também nos relata, com uma frequência assustadora, os tenebrosos casos que vão acontecendo um pouco por todas as ilhas de Cabo Verde. 

E o maior problema parece ser o medo ou a apatia dos educadores (?) destas crianças e das próprias autoridades. Ou a morosidade e mão leve da justiça. Não há crime mais hediondo do que este. Mas continuamos a assobiar para o lado como se não fosse nada de especial. Continuamos a fazer a festa permanente e a promover esta morabeza de pacotilha. 

O mais preocupante é que estas acções ocorrem quase sempre por via de adultos que são muito próximos das crianças: professores, familiares mais ou menos distantes e até progenitores. Mas neste caso particular, somos todos responsáveis. Continuamos a calar e a pactuar com situações como estas e seremos cúmplices de toda uma geração perdida. 

Há que estar alerta. Denunciar. Sem apelo nem agravo. Não pode haver perdão para quem faz coisas destas. Não pode.




"De todas as taras sexuais, não existe nenhuma 
mais estranha do que a abstinência." 

 Millôr Fernandes (1923 - 2012) 

 Este vai fazer cá muita falta.






É impressão minha ou estas subidas constantes no preço dos combustíveis fazem parte de uma estratégia genial muito bem delineada com os nossos parceiros da China e da Holanda no sentido de se fazer de Cabo Verde um país limpo, todo ele funcionando a energias renováveis, tendo em conta que mais dia menos dia vamos ter uma população inteira a andar a pé ou de bicicleta e melhorar dessa forma ainda mais os nossos já de si extraordinários índices de saúde pública?

À melhor promessa, ofereço um café




É pra rir ou pra chorar?



Esta nova subida dos preços dos combustíveis é de bradar aos céus. Porque isto já se sabe como funciona: logo de seguida vem os aumentos da luz, água, telecomunicações e bens de primeira necessidade. E como é que vamos viver com o que se ganha em Cabo Verde?

Comparando o preço gasolina com o ordenado mínimo nacional, temos os seguintes exemplos:

Itália:  201$70 / 750 Euros
Grécia: 201$50 / 876 Euros
Suécia: 200$80 / não tem (deve-se ganhar muito mal...)
Holanda: 196$90 / 1.446 Euros
Portugal: 195$00 / 485 Euros

Cabo Verde 192$80 / uma empregada doméstica, ajudante das lojas dos chineses, empregado de mesa de um restaurante ou recepcionista de algum hotel ou residencial pode ganhar entre 45 a 130 Euros / mês. Para estes últimos valores, já são considerados muito bem pagos. Não existe ordenado mínimo nacional.

Polónia: 154$40 / 359 Euros
Andorra: 145$55 / 929 Euros
Bulgária: 144$40 / 148 Euros
Roménia: 142$20 / 161 Euros

Ou seja, resumindo, Cabo Verde tem um preço de gasolina ao nível de uma Holanda, por exemplo e nos ordenados está bem abaixo de uma Roménia, um dos países mais miseráveis da Europa.  Somos mesmo um país de contrastes.


Nos próximos tempos, o Café Margoso vai andar agitado. Com ou sem cafeína. Mas sempre com humor. Crítica. Poesia. Amor. Procurando a excelência e o bom gosto. 

Sirvam-se!

Imagem: cortesia do Café dos Loucos

          Não
          O Cristo não morreu
          Não pode ter morrido
          Há dois mil anos
          Como contam.

          Ontem ainda
          Ele foi assassinado
          Em cenário
          Latino-americano
          Por actores nacionais
          E estrangeiros.

          Hoje mesmo
          Ele é assassinado
          Em versão internacional
          Para uso mundial
          Exportada em caixotes
          Bem embalados.

          Amanhã com certeza
          Ele será assassinado
          Na minha ilha
          Na minha pequena - céus!
          Como se fosse possível
          Obrigar o sol a engolir a lua

          Para a cuspir
          Na latrina como um escarro
          Impertinente
          Drenar o leite
          Nas mamas da fêmea
          Cortar a água com a faca

          De cortar o pão
          Meter na prisão
          A palavra dos poetas
          Secar o mar
          Impedir as estrelas
          De dormitar no seio do universo.

          Não
          O Cristo não morreu
          Não pode ter morrido
          Há dois mil anos
          Como contam.

          Se o assassinaram
          Há dois mil anos
          Como contam
          Como continuar a assassiná-lo
          Em toda parte e no mesmo sítio
          Dois mil anos depois de morto?

          Quem é que nunca acaba de morrer
          Que morto
          Em toda a parte
          Em todos os dias
          A cada hora
          A cada instante

          Renascer
          Em toda parte
          Todos os dias
          A cada hora
          A cada instante
          Barbado ou barbeado

          Com outra ou a mesma cor
          Segundo o país
          O gosto
          A moda
          A época
          As circunstâncias?

          Não
          O Cristo não morreu
          Não pode ter morrido
          Há dois mil anos
          Como contam.

          Crucificado
          Linchado
          Enforcado
          Guilhotinado
          Eletrocutado
          Fuzilado

          Segundo o país
          O gosto
          A moda
          A época
          As circunstâncias
          O cristo não morreu.

          Mário Fonseca – poeta

          Fotografia de Dariusz Klimczak





Não sejas estúpido de fazer coisas destas sem protecção. Excelente campanha!



Preparação de Imagem




Não é por nada, mas só agora reparei que o Café Margoso caminha a passos largos para o bonito número de vinte mil comentários. Nada mau!





Às mulheres de Cabo Verde 

1. Tenho, como é natural, muitos amigos homens em Cabo Verde e ao escrever este texto temo que algum se possa sentir ofendido na sua posição de macho crioulo, muito embora este texto não seja para eles. Acontece que depois de vinte anos de convivência nas ilhas e de um processo de crioulização humano de carácter irreversível penso que já terei alguma preparação para esta carta aberta que aqui dirijo às mulheres cabo-verdianas, que muito admiro pelo seu carácter lutador e persistente, por serem o motor da nossa sociedade e por pensar que ainda estamos muito atrasados no que diz respeito às problemáticas sociais ligadas ao género, ou não fosse a violência doméstica uma das nossas maiores mazelas e, diria, uma das vergonhas que carregamos nas costas enquanto País que, por ter as mulheres que tem, não pode compactuar com determinadas situações que alimentam uma sociedade já de si, histórica e socialmente, patriarcal. 

2. Quando durante a passada apresentação de “Bodas de Sangue”, aqui na cidade do Mindelo, a luz faltou a 13 minutos do final do espectáculo, em pleno cume emocional dramático, só havia mulheres no palco. Concebida em homenagem ao teatro grego clássico e procurando respeitar o espírito da obra original de Garcia Lorca, a cena final consistia num duelo verbal carregada de emoção entre as duas protagonistas, a Noiva e a mãe do Noivo, que havia morrido por força de um canivete empunhado pelo amante da primeira. Outras seis mulheres assistem e comentam em coro a cena, dispostas em circulo aumentando ainda mais o carácter cerimonial deste aceso diálogo. Uma oitava personagem, a Morte, assiste ao fundo ao desenrolar da tragédia. Nove mulheres, portanto. E quando se deu o fatal episódio do corte de luz, todas as actrizes continuaram a peça, até ao final. O público, deixou de ver a cena e passou, como nos tempos de Shakespeare, a ouvir o texto, tentando adivinhar na penumbra os movimentos do palco. Chegamos ao fim e o sangue frio destas mulheres salvou o espectáculo. E deu-me mais uma grande lição sobre o papel e a importância das mulheres no nosso país. 

3. E agora que passou o mês de Março, é para vocês, mulheres cabo-verdianas, que escrevo. Já comentei várias vezes, com ou sem razão, que muitos dos males de que vocês padecem no ambiente social e familiar no arquipélago são alimentados pela vossa própria postura, demasiada permissiva, suave, por vezes alimentada por um preconceito ou por um medo que as vossas histórias de vida pessoais poderão justificar. Mas se queremos combater o actual estado de coisas tem que ser vocês, mulheres, as primeiras a não aceitar que vos vejam apenas como um objecto sexual, uma máquina de afazeres domésticos ou um bom pedaço de polpa que abana freneticamente ao ritmo de um funk ou funaná. Tem que ser vocês, mulheres, as primeiras a contestar o tácito argumento masculino de que a infidelidade pode ser traduzida por uma poligamia sustentada numa herança cultural que chega a ser a mãe de todas as justificações esfarrapadas dos comportamentos masculinos que só vos denigre e diminui, enquanto pessoas e seres humanos que sois. 

4. Quem educa os filhos são vocês, mulheres, mães, irmãs, tias, madrinhas ou avós. Pensem nisso. Pensem no poder que tem em mãos. E utilizem-no melhor. Os homens que hoje temos e que são, em parte, o produto dessa educação, foram moldados por vocês, nas vossas casas. Portanto, não fiquem passivas quando um filho vosso, ainda criança ou adolescente, chega em casa dizendo fanfarrão que tem muitas namoradas, como se isso fosse uma enorme qualidade ou motivo de orgulho. Não aceitem que os pais, possivelmente alimentados por essa mentalidade machista vigente, dêem os parabéns aos seus filhos machos se essa manifestação de agrado tiver alguma coisa a ver com uma matemática insana de quantas meninas ele beijou na escola. Se vocês tiverem um casal de crianças em casa, não deitem sobre os ombros da menina as tarefas de casa, deixando o rapaz tranquilamente a ver televisão ou a jogar playstation. Porque ao fazer isso, vocês, mulheres, mães ou educadoras estão a alimentar um parasitismo doméstico que, infelizmente, continua a ser mais a regra do que a excepção. Dividam as tarefas entre os dois, coloquem o rapaz a lavar a loiça de vez em quando. Acreditem, só lhe vai fazer bem. 

5. Quando forem assediadas na rua ou no trabalho, queixem-se. Na policia, se preciso for. A impunidade de determinadas posturas não pode continuar a ser alimentada por uma passividade silenciosa da vossa parte. Porque para se chegar à violência física há todo um percurso, uma matriz que sustenta determinados comportamentos que não podem nem devem ser tolerados. Alguma de vocês já ouviu um piropo na rua elogiando a vossa inteligência ou capacidade de luta? Pensem nisso. Se um homem, numa discoteca, vos tirar para dançar pegando na mão como se vocês fossem propriedade dele, não aceitem. Se na dança forem demasiado apertadas, larguem-no sozinho na pista. Não há nenhuma lei que diga que as mulheres tem que ficar ali, sofrendo como um animal no matadouro antes de lhe cortarem a cabeça para posterior degustação. Exijam respeito. Tenham noção do peso e da importância que vocês tem na vida dos homens. Eles, mesmo que digam o contrário, não dão um passo sem a vossa ajuda e colaboração. São mais dependentes de vocês do que vocês deles. Pensem nisso, hajam e quem sabe possamos contribuir para que nas próximas gerações não haja mulheres a queixarem-se dos mesmos males de sempre.

Crónica publicada no jornal A Nação