Um senhor que aparece em grande estilo num dos semanários do país, certamente um digno representante desta fenomenal nova geração de dirigentes políticos da(s) nossa(s) praça(s) e que, ao que parece, é Director Geral do Turismo, disse, no alto da sua imensa sabedoria e do baixo da sua notável humildade, que Cabo Verde ainda gatinha no turismo. Não tinha reparado. Ele deve saber do que fala. Mas tendo em conta o tempo passado desde que o turismo foi anunciado, com pompa e circunstância, como principal alavanca do desenvolvimento nacional, já não era mais que tempo de o gajo (o turismo, bem entendido) estar a andar pelos próprios pés? Digo eu, que até gosto deste género de frases de belo efeito.







O facto de Cabo Verde ter a maior fuga de cérebros de África é um sintoma do estado do país ou uma prova de bom senso dos seus respectivos donos (dos cérebros)?

À melhor resposta, ofereço um café











Artemísia absinthium

Uma das vantagens de ter um centro de produção artístico como este centro de documentação da Associação Mindelact, na parte superior de um mercado municipal, é este contacto visual arrebatador com as cores, texturas de dezenas de plantas e frutas. E os cheiros. Meu deus, os cheiros! Hoje, a propósito, aconteceu algo inusitado. Num intervalo, estava eu na varanda interna do mercado a tomar um fresco e sinto um cheiro poderoso. Poderoso mesmo. Soube depois o que tinha provocado tal sensação: um saco de losna tinha acabado de chegar ao mercado e sido despejado para preparar a sua venda. Quero esta planta abençoada nos meus ensaios, pensei. Dito e feito: já a tenho comigo.

Fui depois investigar. O abençoado Google nunca nos deixa ficar mal nestas situações. Que planta é essa? Primeiro, tem um nome científico deslumbrante: Artemísia absinthium. Uma planta medicinal também conhecida por bsinto, erva dos vermes, artemísia, sintro, alvina ou erva santa. O chá bem concentrado é bom para aliviar vermes. É disso mesmo que eu estava precisando, um chá para aliviar os vermes que por aqui andam a pairar, a tentar estragar-me os dias! Abençoada losna. Abençoada Artemísia, nome de mulher bem-amada!








A 16ª edição do festival internacional de teatro do mindelo - mindelact 2010, que deocrrerá entre 16 a 26 de Setembro, já está aí de vento em popa, na Internet.

O sítio oficial do mindelact é aqui
O Facebook do mindelact é aqui
O Twitter do mindelact é aqui


Em qualquer destes locais encontram muitas informações preciosas, incluindo o programa completo em formato PDF. Vem aí a grande festa do teatro!








Conversa com o artista plástico Alex da Silva, que depois de uma carreira na Holanda, resolver investir numa galeria de arte, a Zero Point Art, que é um oásis da cidade do Mindelo. Curiosamente, ou talvez não, o seu trabalho é muito mais reconhecido fora do que dentro do seu próprio país.

Aqui há tempos, houve um colega teu que veio a terreiro afirmar que Cabo Verde não tinha um pensamento voltado para a Arte. Foi logo trucidado, mas ao que parece o tempo veio dar-lhe uma certa razão. Do tempo que passaste por cá depois de tantos anos fora, qual é a tua percepção? Há um pensamento artístico sedimentado, em Cabo Verde?

Alex da Silva: Concordo plenamente com quem falou isso e elogio-lhe a coragem. Realmente, Cabo Verde não tem um pensamento voltado para a arte. Por uma razão muito simples: ainda não há no país trabalho suficiente que possa comprovar a existência desse tal pensamento. Da minha experiência pude concluir que em Cabo Verde não se aposta na cultura, e quando aparece alguém com uma aposta mais séria, as pessoas não aderem. Por outro lado, as pessoas mais cultas não tem poder económico para adquirir obras de arte. É paradoxal. Até porque sem esse poder económico não se pode adquirir obras, e dessa forma também não se pode estimular os artistas a investir e a pensar mais sobre a sua própria arte.

Mas como é que se resolve isso? Nós ficamos aqui a pensar no que é que terá surgido primeiro, se a galinha se ovo e não saímos do lugar. Na tua percepção o que é preciso começar a fazer para conseguir ultrapassar esse problema, que me parece ser sobretudo um problema de mentalidade, que são os mais difíceis de alterar...

Penso que na nossa geração esse problema não vai ser resolvido, para ser sincero. E perante a comunidade criativa considero que o mais importante é continuar a ter um espírito critico e trabalhar sempre. A única resposta que podemos dar enquanto artistas é trabalhando. É fornecendo material para que as gerações futuras possam ter elas algumas referências.

E existe, esse espírito crítico, dentro da própria comunidade artística?

Não, porque não há espírito colectivo. Há um forte individualismo, que acaba por estragar qualquer movimento artístico que possa estar a começar.

Dentro da área das artes plásticas, como é que se explica que a cidade do Mindelo não tenha ainda apostado na produção de uma grande bienal de artes plásticas, por exemplo? Porque é que isso nunca foi feito?

Em primeiro lugar porque não há artistas cabo-verdianos que o justifique, com percurso e material suficiente para mostrar. Além de que são poucos aqueles que se assumem verdadeiramente como artistas. Geralmente, têm outro trabalho paralelo e o processo criativo é considerado um hobby. Não é assumido. E falo por experiência própria, como galerista, onde fiz um levantamento dos pintores existentes e realmente, aqueles que tem trabalho podem ser contados pelos dedos de uma mão. Porque ter dez quadros não faz de ti um pintor ou um artista. Agora, em termos de espaço penso que Mindelo reúne todas as condições para concretizar uma bienal de arte. Um outro problema latente é o facto de ainda não temos uma economia cultural em Cabo Verde. Deveria haver uma intenção real a nível privado, político e governamental de estabelecer uma relação mais próxima com a cultura. A cultura, a economia, o património etc. deveriam ter uma ligação muito mais estreita. A relação entre o mundo empresarial e a cultura é um sintoma de desenvolvimento de um país. Essa relação provoca também uma dinâmica urbana e vivencial, tornando as cidades mais atractivas a vários níveis. Uma Bienal de arte no Mindelo tornaria a cidade mais atractiva e iria estimular um maior turismo cultural.

Costuma-se dizer que Cabo Verde é um lugar onde os artistas nascem com demasiada facilidade por via da comunicação social...

A comunicação social tem uma grande responsabilidade no actual estado de coisas. Não sabem diferenciar, não há especialização, acabam por gerar mal-entendidos. Vê-se um miúdo a tocar e temos a comunicação social a dizer que é dos melhores guitarristas de Cabo Verde. Não há pessoas formadas nessa área cultural. Especializadas nessa área. Um jornalista que muitas vezes está a entrevistar um jogador de futebol é o mesmo jornalista que vai entrevistar um artista. Acaba por ser natural que ele tenha as suas limitações.

Isso passa pela falta de formação em jornalismo cultural...

Exactamente. Ou seja, existem uma série de elementos que são importantes e não são considerados hoje. Não basta haver produção artística. Não basta que esta tenha qualidade. Tem que existir todo um acompanhamento. Na comunicação social tem que haver gente especializada. Tem que haver ao mesmo tempo curadores, tem que haver críticos, quer dizer, faltam todos estes elementos que poderiam contribuir para que pudesse haver em Cabo Verde um pensamento voltado para a arte.

O facto é que vistas as coisas, não temos nada disso. Nada. Há uma educação artística que se está a tentar implementar agora. Os primeiros licenciados de Educação Artística formados em Cabo Verde vão aparecer daqui a dois anos. Está uma reforma curricular em curso que contempla a existência da educação artística mas ninguém sabe ainda quais serão os professores capacitados para dar essas aulas. Se falarmos então ao nível de curadores, de jornalistas especializados ou critica artística, ainda estamos muito mais longe das necessidades que estás a referir. Por onde devemos começar? O que pensa uma pessoa como tu, que fez toda a sua formação e percurso artístico num país muito mais avançado a esse nível? Voltas ao teu pais, cheio de sonhos e de projectos e o que se passa na tua cabeça quando chegas aqui e dás de caras com esta realidade?

É um sentimento ambíguo. Tem o aspecto positivo e um outro negativo. No sentido positivo, dá para sentir que existe alguma preocupação com estas questões. Há sempre pessoas a tentar fazer alguma coisa. A tentar, pelo menos, que se acorde a sociedade para estas preocupações. Fiquei muito contente quando verifiquei que no M-EIA estava o Irineu Rocha a dar aulas, uma pessoa preparada, conheço-o bem, estudamos na mesma faculdade, e é muito bom quando vemos que Cabo Verde consegue recrutar pessoas como ele. Isso já é um ponto de partida. Só que chegamos numa fase em que isso só não é suficiente. Já tem que ser algo mais pensado, mais sustentado. O problema que enfrentamos hoje tem que ser analisado como deve de ser. Temos que chamar pessoas capazes, vivemos num mundo global, há por aí muita gente que com a sua experiencia pode dar a sua contribuição nesta estruturação.

O que pode acontecer, dado o actual estado de coisas, é a desistência das pessoas que resolveram regressar...

Exactamente. O que é ainda mais doloroso. Mas eu cultivo um certo optimismo. Até porque me considero um exemplo desse optimismo ao abrir uma galeria de arte num país como Cabo Verde. Considero que com isso estou a dar o meu contributo. Mesmo que haja muita desilusão é sempre bom tentar. É um gesto de amor.

Foi essa amor pelo Mindelo e por Cabo Verde que motivou esse teu grande investimento pessoal no que é hoje a galeria Zero Point Art?

Para mim foi um pensamento muito simples: vou tentar dar aquilo que eu não tive a oportunidade de ter. E neste momento, vivo como pintor, exponho no mundo inteiro e, no entanto, no meu país, não tive qualquer tipo de apoio. É estranho. Não tive qualquer contacto mais directo com outros artistas. Tenho falado com o Manuel Figueira, um dos nossos pioneiros, mas não foram criadas oportunidades de partilha, algum workshop em conjunto, visitas aos ateliers dos colegas, nada disso acontece ou é motivado. É a falta do tal espírito colectivo.

Bem, se houve artistas que tiveram esse espírito colectivo bem enraizado foram precisamente esses artistas da geração do Manuel Figueira, que vieram para Cabo Verde no pós-independência e formaram a cooperativa Resistência, que depois havia de gerar o Centro Nacional de Artesanato. Mas depois o que aconteceu não ajudou a cultivar esse espírito colectivo, antes pelo contrário...

Pronto, olha uma justificação. Eles tinham esse espírito, e por causa disso foram praticamente ostracizados e muito maltratados. Quando o meu interesse pela pintura apareceu, ainda cheguei a fazer um curso de pintura no Centro Nacional de Artesanato, e nessa época já não se sentia essa vontade de trabalhar por objectivos comuns. Já estávamos numa fase de transição.

Qual é a tua percepção sobre a forma como a cidade recebeu a existência da galeria Zero Point, alguns meses depois da sua inauguração?

Em termos de cidade, as expressões vão desde o “muito fixe” ao “oh que bonito”, que podem ser simpáticas e bem intencionadas mas não te levam a nenhum lugar. O objectivo do espaço não foi entendido. Outro ponto é que mesmo quando contactas artistas para expor se nota alguma dificuldade em respeitar contratos com a galeria ou mesmo a necessidade de os fazer. Há pouco profissionalismo. É preciso as pessoas entenderem que um artista é um profissional tão responsável como qualquer outro.

Mas continuamos com essa mentalidade que nos diz serem os artistas uns tipos mais ou menos extravagantes, uns parasitas que tem como único objectivo viver à custa do Estado. Como é que podemos combater esse preconceito e essa necessidade de o Estado investir muito mais nessa área do que aquilo que investe actualmente?

Como é que o Estado vai investir nessa área? É preciso filtrar em Cabo Verde o que realmente existe de melhor, em termos conceptuais, e depois fazer as coisas com outro tipo de preparação. O mais básico é começar na educação, na escola, como é lógico.

Como lutar contra esse estado de coisas?

Tento fazer a minha parte. O que acho interessante é que eu, apesar de ser um artista convidado para expor em todo o mundo e para dar workshops, não sou convidado para fazer nada na minha própria cidade. Nem para dar aulas, nem para participar em encontros de educação artística, por exemplo. Tempo e vontade eu tenho, mas ao que parece essa contribuição não é bem vista.

Mas se estás disponível porque é que as pessoas do teu país não estão a aproveitar as tuas potencialidades?

É muito simples: santos da casa não fazem milagres.

É o chamado síndrome de Cesária Évora..

(Risos) É isso mesmo. O povo cabo-verdiano, em geral, e o Governo, em particular, não sabem acarinhar o que eles tem de melhor. Não sei se é algum complexo de colonizado, mas o certo é que para alguém ser reconhecido cá dentro tem que ser premiado lá fora primeiro. Podíamos evitar isso de uma forma simples, somos todos pessoas inteligentes para perceber as condições e as dificuldades que o país tem, não estamos a exigir além da medida nem a pedir a Lua, e nem esperamos muito. Mas pelo menos que facilitem o nosso trabalho. Que conheçam o teu processo de trabalho, que se informem sobre o que tens feito para depois irem ao teu encontro e te perguntarem: “o que é que precisas para continuar?” Já era um bom começo.

Publicado no jornal A Nação



Protestos em Maputo (fonte: aqui)






Uma música actual e que ainda arrepia. A propósito de tudo....















Há dias em que apetece mandar o politicamente correcto à badamerda. E já faltou mais para isto ficar tipo estado permanente. Haja paciência!







Não é por nada, mas depois deste relato do Redy Lima no blogue Ku Frontalidadi, a primeira coisa que me veio à cabeça foi esta: andamos a precisar de um Maio de 68, com carácter de urgência. Ai andamos, andamos. Ou será que em Moçambique é que estão certos, e aqui podemos ter pouca esperança de conseguir um valente safanão popular já que esta nossa apatia generalizada nunca será quebrada?






Há gente, com muita responsabilidade e um poder compatível com o próprio ego, que devia ter vergonha antes de abrir a boca para dizer certas barbaridades. Não nos honrar nunca com a sua real presença para ver as peças que ao longo dos últimos 15 anos se tem feito em S. Vicente, pelos grupos locais e  não locais, raramente aparecer no festival Mindelact, onde a qualidade superior das propostas é reconhecida de forma praticamente unânime, para depois querer vir dar lições públicas (e em público) sobre o que o teatro mindelense precisa ou não precisa de ver (e ter), revela um descaramento de quem fala e uma falta de respeito por quem ouve (e por quem tem feito teatro durante todos estes anos por cá, já agora).

Ir passear e não gostar da paisagem pode ser até aceitável. É apenas uma questão de gosto. E uns tem-no e outros dispensam-no. Agora, recusar-se, por vaidade arrogante, a olhar por cima do muro do seu imenso castelo e depois querer vir-nos dar lições sobre o que devemos ver do outro lado, já é demais. Shame on you, mister, shame on you. 

Em Setembro cá estaremos. Mais uma vez, como tem acontecido nos últimos 16 anos. Cá o esperamos, realeza.






Que o mês de Setembro vos traga luz, alegria e boas energias...










Caio Fernando Abreu, escritor que aprecio particularmente, escreveu uma vez que desejava ««que Setembro seja melhor e supere todas as angústias, medos, inseguranças e azar de um agosto fodido» e eu senti-me logo identificado. Agosto pode ser para muita gente sinónimo de férias, de praia ou de descanso. Para mim é apenas um mês demasiado longo e demasiado quente. E agora que acabou, até parece que o mundo ficou mais leve.

Vem aí Setembro, o melhor dos meses de Verão, e com ele, o anúncio de um Outono que é a época em que a natureza se renova, se transforma e nos permite contemplar os mais belos castanhos, amarelos e laranjas que o mundo já viu; é época das chuvas, das sementeiras, do retomar dos hábitos e rotinas e isto, para quem as tem boas, não é nada negativo, antes pelo contrário. Setembro é pois a época das reentrés, das novas grelhas de programação, das estreias absolutas, dos renovados votos de que a última parte do ano seja a melhor e, claro, o mês onde o teatro invade por todos os poros a cidade do Mindelo.

Esta é ainda a época em que a terra se junta ao céu, o pó se casa com a água da chuva, onde a natureza se mostra, vaidosa e altiva, mudando o seu figurino. É o mês dos encontros e desencontros, das certezas que nunca mais chegam, de um tempo que anda um pouquinho mais depressa, de uma aragem que passa e nos refresca. Que corra lesto, este mês de Setembro, que nos traga o festival de teatro e nos tire de cima dos ombros este calor e esta depressão húmida, por vezes, pouco suportável.