Que legenda para esta imagem?
[entrada do Ministério do Ambiente de Cabo Verde, na cidade da Praia]


À melhor legenda ofereço um café





Depois de um dia como todos os outros, saiu de casa, já noite feita, sem rumo certo. Não falou com ninguém - raramente falava fosse com quem fosse e portanto foi aprendendo com o tempo a arte de se tornar invisível. Não que esta capacidade de não ser visto pelos outros pudesse ser considerada como um desígnio vital da sua existência, antes pelo contrário, aquilo tudo o deixava um bocado deprimido, afinal de contas era um ser social como todos os outros e invisível, no sentido prático e concreto da palavra, ele sabia que não era - tinha espelhos em casa, embora quase não fizesse uso deles por razões mais do que óbvias. E portanto, foi neste dia igual a tantos outros, que este homem igual a tantos outros, saiu de casa sem que ninguém lhe notasse os passos ou da ocorrência desse devida conta, nem os que estavam dentro de casa e lhe eram mais próximos, quanto mais os que cá fora se encontravam e pouca ou nenhuma ligação tinham com a sua vida. Andou, sem rumo e chegou na praia. Sentou-se num dos bancos de pedra, em frente ao mar, ouvindo as ondas e vendo ao longe as luzes dos barcos, numa noite triste e sem luar. Foi então que este homem, igual a tantos outros e depois de um dia igual a tantos outros, se levantou e caminhou em direcção às ondas, sem parar nem ninguém que o impedisse. Entrou nas águas frias e continuou. Mergulhou naquela água salgada e sorriu. Encontrara, finalmente, uma forma simples de se sentir abraçado pelo mundo. Se voltou ou não, é o que menos importa.






E eis que foi anunciado, sem muita pompa e menos circunstância, que o Primeiro-Ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, tem o seu próprio blogue. Aqui no Café Margoso apoia-se a iniciativa, mas com a pretensão habitual, deixamos alguns conselhos, porque isto de ser blogueiro em Cabo Verde tem muito que se lhe diga, principalmente para quem assina e dá a cara pelas suas próprias opiniões. Então é assim, como quem não quer a coisa:

1. Faça do blogue não um espaço do Primeiro-Ministro, mas sim do cidadão. Um blogue é um espaço pessoal, como que uma impressão digital e já se diz nalguns estudos que se tem mais hipótese de se conhecer bem um blogueiro que se leia todos os dias do que um colega de trabalho;

2. Não faça do blogue um espaço de propaganda /disputa política ou de anúncio / justificação de medidas; há outros fóruns mais apropriados para o fazer, seja na página oficial do Governo, dos vários ministérios ou do seu próprio partido;

3. Coloque-se, em primeiro lugar, no papel de cidadão e procure expor as suas ideias de forma clara, concisa, directa e, principalmente, crítica;

4. Um dos segredos para o sucesso de um blogue é a sua dinâmica, pelo que seria importante actualizá-lo, diria que pelo menos uma vez por semana, e que responda directamente aos comentários que lhe pareçam mais pertinentes; uma actualização mais desenfreada também não é aconselhável, porque senão ainda vão dizer que não tem mais nada para fazer e sujeita-se a ouvir comentários desagradáveis (que serão inevitáveis);

5. Não caia na tentação de deixar a escrita dos textos pessoais e das respostas aos comentários a cargo de colaboradores; se não for o próprio a escrever, vai-se certamente acabar por notar e será pior a emenda que o soneto;

6. Aproveite o espaço do blogue, sendo pessoal, para se dar a conhecer; nos seus gostos pela poesia, pela música, pelos livros, pelos filmes;

7. Prepara-se para duras batalhas: um blogue transforma-se, de quando em quando, num local pouco recomendável, até pela falta de hábito que ainda temos na discussão descomplexada de temáticas diversas;

8. Não se deixe levar demasiado pela emoção, mas também não faça do blogue apenas um espaço de racionalização e conceptualização de medidas ou ideias políticas; aqui, como noutros domínios, no meio é que está a virtude.

Posto isto, só me resta desejar-lhe boa sorte e que o seu blogue traga uma real mais valia num aspecto que terá sido uma das principais motivações: torná-lo mais acessível e mais humano aos olhos de todos os cabo-verdianos.

Ah, e coloque o logótipo da blogosfera cabo-verdiana no seu espaço. Afinal, já é um dos nossos!


Eis o link do blogue, aqui





O amor é, como dizem, um lugar estranho?


À melhor resposta, ofereço um café







"O amor é o milagre da civilização"
Stendhal








"Ditadura de Estado está fora de moda. Hoje imperam as ditaduras de Pensamento. Ouse pensar pela própria cabeça e te colam um rótulo na cara."

Fábio Escorpião in O Colecionador (fonte: aqui)






Mick Lima, o homem da bateria do Carnaval mindelense
(e para as clientes do sexo feminino não virem para aqui dizer que nunca coloco homens na galeria.)

Fotografia de João Branco





A revista International Living coloca Cabo Verde na 142.ª posição na tabela anual de melhores países para se viver, que classifica 194 nações a partir de um conjunto de indicadores que vão do custo de vida até ao clima, passando pela cultura e entretenimento, economia, ambiente, liberdade, saúde, infra-estruturas e segurança. Quer dizer, se virmos as coisas de baixo para cima, estamos na posição 52 mas do ranking dos países onde se vive pior. Em 194 degraus, a situação não é nada famosa. Bem pelo contrário, é muito preocupante.

Mas mais preocupado fico sabendo que cada item é classificado de 0 a 100 e que Cabo Verde conseguiu 60 pontos em custo de vida, 29 em cultura e entretenimento, 44 em economia, 36 em ambiente, 100 em liberdade, 49 em saúde, 32 em infra-estruturas, 64 em segurança, 36 em clima, obtendo um resultado final de 50. Não sei se estão a ver bem estas pontuações. Qual foi o item em que Cabo Verde obteve uma pior classificação, qual foi? Em cultura e entretenimento! Com miseráveis 29 pontos em 100 possíveis. Num país que tem a cultura como seu diamante, factor primordial de identidade, paradigma do desenvolvimento. Não pode ser! E logo saber isto em plena época de Carnaval, até parece mal, nestes dias em que anda todo o mundo em festa e onde entretenimento é algo que abunda como petróleo na Arábia. Então porque será que não estou espantado com isto?

Agora, nada de confundir as coisas. É claro que o facto do artista plástico Domingos Luiza ter vencido o concurso público para a elaboração do Monumento à Liberdade não tem rigorosamente nada a ver com o lastimável estado de coisas a que chegou a aplicação de políticas culturais no arquipélago (ver notícia, aqui). As pessoas que conhecem o trabalho do artista em causa, e eu conheço muito mal, sabem perfeitamente que se há alguém em Cabo Verde capaz de fazer um monumento "de estrutura imponente, com uma dimensão e um porte de destaque, com blocos, colunas, baixos e alto relevos, escadarias, torres, esculturas e estátuas, em bases de dimensões que possam servir para cerimónias públicas" e que seja "de fácil descodificação e compreensão" (termos de referência que constam no regulamento do concurso) essa pessoa é o artista vencedor. Ganhou, pois, um concurso feito à medida do seu talento, com todo o mérito e vamos ter, certamente, o Monumento à Liberdade que este Ministério da Cultura tanto fez por merecer.

Ilustração: David LaChapelle






Sonhos Mindelenses

Sonho 1

Um espaço enorme e afastado da cidade do Mindelo, que um dia foi pensado para ser centro industrial, e que já se encontrava equipado com estradas alcatroadas, luz e ligação para água e esgoto, é hoje um importante Centro Tecnológico, inicialmente previsto para a capital do país, mas que posteriormente se entendeu poder ser concretizado na ilha de S. Vicente como forma de aproveitar, ou melhor, reaproveitar, uma infra-estrutura que custou muito dinheiro ao Estado e que desbaratou um potencial de esperança dos habitantes da ilha, já que nunca teve utilização que fizesse justificar a avultada verba ali aplicada. Este Centro Tecnológico contempla, além de locais próprios para a investigação e elaboração de programas com vista a melhorar a aplicação prática da governação electrónica, um conjunto de estruturas direccionadas para a formação, incentivo à utilização das novas tecnologias, espaço de exposição permanente com as últimas novidades, com circuito directo e aberto para todos as escolas do básico, liceu e pólos universitários da região Norte, que fazem desse espaço um local privilegiado de contacto, primário ou não, das novas tecnologias. Parte do pessoal da NOSI foi transferido para esta ilha, uma outra parte do pessoal deste centro foi garantido com mão-de-obra local. Muitos outros estudantes ali se formam, sendo que o curso superior de programação do actual pólo da UNI-CV tem feito deste espaço local um espaço privilegiado de aplicação prática de matérias e investigação universitária, a nível de mestrados e doutoramentos.


Sonho 2

O espaço que se consignou chamar de Museu de Arte Tradicional, volta ao seu nome anterior de Centro Nacional de Artesanato e torna-se um local vivo, com a presença de artistas e artesãos produzindo, com uma mostra de artesanato nacional que tira proveito de um trabalho pioneiro de recolha e investigação feito nos primeiros anos de Independência e que tem sido desbaratado como se fosse possível ter o produto de uma valiosa colecção escondida num armário poeirento, como se alguém tivesse vergonha do seu próprio passado, colecção essa que se retira dos baús apenas em ocasiões especiais e visitas de Estado. O local, situado na principal praça da cidade, está agora, e finalmente, cheio de vida. Com uma exposição permanente, representativa da história e evolução do artesanato nacional em todas as ilhas do país e guias qualificados que a podem explicar a estudantes e turistas; com ateliers de artistas e artesãos que ali encontraram um centro de produção para fazer, mostrar como se faz e vender os seus produtos; com espaços de formação profissional em áreas como a tapeçaria, batik ou pintura; com ateliers de ocupação dos tempos livres para crianças, transformando o espaço em mais um pólo de educação artística; com exposições temporárias de menor dimensão e encontros de reflexão sobre o nosso percurso artístico. O local é hoje uma referência nacional de como se pode dignificar não apenas um espaço físico, mas toda uma herança que em muito contribuiu para a paisagem visual que hoje encontramos nas artes cabo-verdianas.


Sonho 3

No espaço em frente ao mercado de peixe, enorme e que ocupa todo um quarteirão – tendo o outro lado voltado para a Praça da Estrela – foi projectado e concebido num prazo extraordinário uma estrutura baptizada de Espaço Carnaval, e que contempla oficinas para os criadores; espaços de formação em áreas como costura, desenho artístico ou percussão; espaço museológico para as peças mais valiosas e belas de cada desfile; escritórios para os diferentes grupos de Carnaval existentes de forma a se poder projectar cada Carnaval com a antecedência que uma actividade como esta, geradora de imensa riqueza para a ilha, sem dúvida merece. Este espaço encontra-se directamente ligado à M-EIA, Escola Internacional de Artes do Mindelo, onde os artistas e criadores dos grupos tem a possibilidade de obter uma formação em exercício permanente, com aulas não apenas relacionadas com a concepção de andores e trajes, mas também de desenho, geometria, história da arte, entre outras. Desde a concretização deste espaço emblemático da cidade, e que contou com o apoio dos principais beneficiários do Carnaval mindelense, como a Câmara Municipal, o Governo e algumas das principais empresas sediadas na cidade, o Carnaval do Mindelo deu um salto qualitativo inigualável.


Sonho 4

Ainda na principal praça da cidade e depois de muita luta, conseguiu-se que o Governo, em parceria estratégica com a Câmara Municipal da ilha, adquirisse o edifício do Éden-Park, que desde que foi classificado com património nacional pela Assembleia Nacional, deixou de poder ser destruído para nele se construir um edifício de vinte e tal andares como inicialmente previsto. Hoje, ali está sediado o Palácio da Cultura Éden-Park do Mindelo, com duas pequenas salas de cinema, um auditório para espectáculos de teatro e música e espaços para ensaios e aulas de teatro. Também aqui, tal como no espaço ali ao lado do Centro Nacional de Artesanato, este local se transformou num centro activo de formação artística, formal e informal, vocacionada para as artes do espectáculo. A Praça Nova, com a atribuição a privados, por concurso, dos espaços contíguos frontais ao edifício, ganhou nova animação, e não poucas vezes a população da cidade é confrontada com exercícios de teatro de rua dos alunos dos cursos ali ministrados ou com as filas de gente querendo ver a última novidade cinematográfica, neste último caso, um filme todo ele rodado em Cabo Verde e interpretado por actores e actrizes locais.


A realidade

Acordei. O imenso espaço ali do lado direito da estrada de S. Pedro, continua inexplicavelmente vazio. Em frente ao mercado, num edifício semi-abandonado, ouve-se a batucada de um ensaio de carnaval, intenso, pois o tempo não é muito, já que não houve programação atempada. Na Praça Nova um espaço que se chama a si mesmo de museu faz o que pode para justificar essa designação, enquanto ali mesmo ao lado, a mais emblemática sala de espectáculos do país, continua apodrecendo aos olhos de todos. Abro o jornal. Mindelo está com uma taxa de desemprego de 27%. Ao longe, ouvem-se os sons dos muitos bailes de máscaras. Mindelo está em festa. Sabe pa cagá.

Crónica Publicada no Jornal A Nação

Foto de felix.h





"O parlamento devia ser a casa dos deputados, mas não é. É apenas dos grupos parlamentares. Infelizmente, somos democratas apenas na conversa."

Lídio Silva - deputado da UCID (fonte: aqui)






O rapaz da fotografia chama-se Diego Frazão Torquato, e pertence à Orquestra de Cordas da Associação Cultural AfroReggae, uma ONG que tem feito história com o seu trabalho social e cultural no Brasil. Aliás, e bem a propósito do que se tem discutido aqui no Café Margoso nos últimos tempos o principal lema do AfroReggae é precisamente "a cultura é o principal instrumento de mudança."

Diego chora tocando o seu violino, emocionado, na homenagem ocorrida durante o enterro de Evandro João da Silva, um dos líderes da associação, querido por todos, barbaramente assassinado no centro do Rio de Janeiro, no final do ano passado. Pois é, meus amigos, acredito mais do que nunca nisto, e por isso repito: a cultura é o principal instrumento de mudança.

Por enquanto que se aprecia esta tocante imagem, nada como o som do violoncelo de Yo Yo Ma, sempre tão apreciado por estas bandas, aqui.